A mulher que forjou um imperador – resenha de “Josefina: desejo, ambição, Napoleão” (2014).

WILLIAMS, Kate. Josefina: desejo, ambição, Napoleão. Tradução de Luís Santos. São Paulo: LeYa, 2014.

O antigo ditado diz que por trás de todo grande homem, sempre há uma grande mulher. Uma frase tola, na minha opinião. Muitas vezes, ou quase sempre, descobrimos que a astúcia e a genialidade delas se mostraram superiores aos de seus parceiros. Nesse caso, se me fosse permitido reformular a frase original, diria que ao lado de todo grande homem, há uma mulher maior do que ele. John F. Kennedy seria nada sem alguém como Jacqueline; Juan Perón dificilmente teria se mantido no poder sem o brilho da estrela de Eva Duarte; D. Pedro I do Brasil jamais teria proclamado a independência do país sem o apoio de Dona Leopoldina; tampouco Napoleão chegaria ao topo sem a ajuda de Josefina, uma das mulheres mais interessantes de seu tempo. Contudo, perto daquele que é considerado como o maior general da história, muitos se esquecem da figura de mulher que foi seu esteio durante anos e uma das responsáveis pela popularidade que o corso gozava entre os franceses. Ainda que muito se tenha falado sobre Joana d’Arc, Catarina de Médici e Maria Antonieta, é preciso dar o devido destaque a essa crioula, natural da ilha da Martinica, que se tornou imperatriz da França. Um esboço detalhado do perfil de Josefina de Beauharnais foi traçado por Kate Williams, na sua biografia “Josefina: desejo, ambição, Napoleão” (2014).

Kate Williams

Kate Williams é uma aclamada pesquisadora britânica, autora de livros de sucesso. Possui mestrado pela Universidade de Londres e doutorado em Filosofia pela Universidade de Oxford, onde também fez sua graduação, anos antes. Suas pesquisas sobre temas ligados à história das famílias reais europeias lhe renderam participações em programas da BBC e do Channel 4, onde ela também atuou como consultora televisiva. Entre as suas obras de não-ficção, podemos destacar “Young Elizabeth: the making of our queen” (2012), uma biografia sobre os anos de juventude de Elizabeth II e sua preparação para o grande papel que estaria por desempenhar um dia. Nessa mesma linha narrativa, podemos incluir o livro “Becoming Queen” (2008), que explora a vida da jovem rainha Vitória, antepassada da atual monarca. Entretanto, foi com “Josefina”, publicado originalmente em 2013, que Kate alcançou reconhecimento mundial, tendo sua obra sido traduzida para vários idiomas, incluindo o português. A história da mulher responsável pela ascensão de Napoleão Bonaparte aos poucos foi então se tornando de conhecimento público, por meio de uma linguagem simples, mas não simplória, desprovida de certos termos e neologismos, que tornam a leitura de um livro tão complicada.

A obra foi publicada no Brasil em 2014 pela editora LeYa, com tradução de Luís Santos. É daqueles livros em que você fica horas seguidas lendo, quase como a um romance, sem perceber que o tempo passou. A edição brasileira possui 495 páginas, distribuídas ao longo de 21 capítulos, que narram a aventura dessa mulher extraordinária. É curioso o fato de que, ao pensarmos numa figura feminina durante os anos pré e pós revolução francesa, a imagem de Maria Antonieta salte imediatamente aos nossos olhos. Contudo, Josefina de Beauharnais foi tanto, ou, na opinião de alguns, até mesmo mais interessante que a última rainha absolutista da França. Segundo as palavras de Williams,

[Josefina] não era uma beleza estonteante, seus dentes eram negros e era seis anos mais velha do que o marido, mas um mero balanço de sua saia era o bastante para enfeitiçar como escravo o homem que aterrorizou a Europa. Tornou-se a consorte perfeita, hábil em agradar as multidões e decifrar durante todo o tempo os humores de Napoleão. Josefina era a delicadeza para a rigidez do poder do marido: destacou-se nas funções do mecenato, diplomacia e etiqueta, nas quais ele não prosperava. Como heroína do Terror e antiga aristocracia, Josefina legitimou Napoleão aos olhos do povo como defensor da República, ao mesmo tempo em que sua bondade e seus semblante suave levaram todos a esquecer a brutalidade e a grosseria do marido (2014, p. 11).

Diferentemente da filha da imperatriz Maria Teresa da Áustria, Josefina teve que fazer seu próprio caminho para chegar ao poder, fingindo humildade onde havia ambição, desejo de superioridade sob um falso sorriso. Ela era o contrapeso perfeito para a postura rude do imperador.

Detalhe do retrato da imperatriz Josefina, executado por François Gérard.

Suas origens nada ilustres, numa família de fazendeiros proprietários de escravos na ilha da Martinica, em pouco deixavam entrever o grandioso futuro que a aguardava. Quando criança, Marie-Josèphe-Rose de Tascher de La Pagerie desfrutou de uma vida tranquila, em meio de plantações de cana, sorvendo compulsivamente o caldo doce que delas era extraído, o que acabaria por arruinar os seus dentes. Quem observa nos retratos a figura de mulher imponente, dificilmente imaginaria que por trás daquele sorriso sedutor se esconde uma dentição completamente estragada, que ela disfarçava muito bem com o uso de leques e lenços. Em 1779, aos 16 anos, ela se casou com Alexandre de Beauharnais, um nobre falido com quem teria um casal de filhos, batizados de Eugênio e Hortência. A falta de um educação adequada, as maneiras camponesas, logo transformaram Marie Josèphe em motivo de vergonha para Alexandre. Diante da aversão do marido, a jovem teve que se reinventar, se refinar, aprender a arte da conversação. Logo, passou a frequentar importantes círculos da sociedade parisiense. Até que veio a Revolução e com ela a morte do marido. Presa assim como ele, Josefina temia um destino semelhante ao de Alexandre, mas a queda do chamado Terror poupou sua vida antes que esta fosse ceifada pela guilhotina.

O parágrafo acima resume um pouco dos primeiros capítulos da obra, que demonstram como Josefina se transformou de camponesa crioula em uma das heroínas do Terror, figura ilustre em saraus e com importantes conexões entre a antiga nobreza e o novo mundo da burguesia. Era, desse modo, o tipo de mulher ideal para um jovem general que buscava, acima de tudo, poder e ascensão social. A descrição que Kate Williams faz da vida de Josefina durante a fase do Diretório é, a meu vez, a parte mais empolgante do livro, quando as pessoas estavam inebriadas pela ideia de liberdade e a viúva de Beauharnais era quem melhor encarnava esse espírito. O casamento com Napoleão, por sua vez, representou uma nova fase da vida daquela mulher. A princípio, é possível que nem mesmo a própria Josefina imaginasse até onde o desejo do marido pelo poder os levaria. Apesar de tudo, ela não mediu esforços para ajudar a erguer a estrela do corso, incluindo-o entre nobres e burgueses, angariando assim apoio para sua causa militar. A autora demonstra muito bem quais foram as estratégias da futura imperatriz dos franceses para chegar ao poder e nele se manter através do casamento. Sua ambição só era equiparável à do próprio marido. Juntos, eles forjaram um novo império, erguido sob o sangue das cabeças de Luís XVI e Maria Antonieta.

Edição brasileira de “Josefina”, publicado em 2014 pela editora LeYa.

Aproveitando-se de sua posição ao lado do Primeiro-Cônsul de depois Imperador, Josefina ocupou o lugar que Antonieta havia deixado vacante como embaixatriz da moda, lançando tendências até hoje revistas por estilistas. Segundo Kate William, a esposa de Napoleão chegou a ter uma caixa de diamantes muito maior que a da última rainha. Além disso, Josefina também foi uma das “mais poderosas e enérgicas colecionadora de arte de todos os tempos. Foi uma segunda Catarina, a Grande, servindo-se da arte para firmar seu domínio e constituir poder” (p. 11). O tom refinado por ela desenvolvido, o bom gosto, a conversação, sua sensualidade, eram coisas que Napoleão admirava bastante em sua esposa. “Amante, cortesã, heroína, revolucionária, colecionadora, mecenas e imperatriz, era, nas palavras de um amigo, uma atriz capaz de desempenhar todos os papeis”, acrescenta a autora (p.11). Aperar de ter traído o cônjuge mais de um vez, e por ele ter sido traída, para Kate, Josefina foi a maior paixão do imperador, que, num gesto de desafio, corou-a diante dos olhos de todo o país, numa cena que foi imortalizada pelos pinceis de Jacques-Louis David. A incapacidade de gerar um herdeiro para o trono, por sua vez, foi o fator responsável pelo rompimento do casal.

Juntos, Josefina e Napoleão constituíam-se numa dupla imbatível. Como o afastamento da esposa, e o casamento com a arquiduquesa Maria Luísa da Áustria, sobrinha-neta de Maria Antonieta, a estrela de Napoleão começou seu gradual processo de decadência. Ficou claro, como aponta Williams, que, ao divorciar-se, o imperador havia perdido seu amuleto da sorte, aquela a quem ele devia sua popularidade entre cidadãos e camponeses, e apoio das classes ricas. Josefina morreu em 29 de maio de 1814, aos 50 ano, pouco antes da derrocada de seu marido. Anos depois, de seu exílio em Santa Helena, o imperador deposto confessaria seu grande amor pela primeira esposa, chamando pelo seu nome instantes antes de morrer, em 1821. A passagem de Josefina pela história da França deixou para as futuras gerações um amplo legado cultural, que, por sua vez, não pode ser ignorado. Através dos filhos Eugênio e Hortência, seu sangue se misturou ao de muitas casas reinantes, incluindo o Brasil, com o casamento de D. Pedro I com sua neta, Amélia de Beauharnais. A biografia escrita por Kate William é, desse modo, um passo valioso para o resgate da história dessa personalidade, convidando-nos a olhar para o império napoleônico com outros olhos, destacando assim a imagem da mulher responsável pela criação daquele que ficou mundialmente conhecido como Napoleão I.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

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