Rainhas Trágicas: mulheres que moldaram a história do mundo

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Com os ideais artísticos e humanísticos propagados pelo Renascimento, aliado às revoluções que abalaram o contexto europeu a partir do século XVI, novos hábitos e comportamentos se difundiram, não só entre as camadas economicamente mais elevadas da população, como também entre as mais baixas. Nesse processo, o próprio regime monárquico precisou se reestruturar, para atender às novas demandas sociais. Sendo assim, outra postura por parte dos soberanos precisou ser adotada, uma vez que a modernidade implicou numa reavaliação de papeis no seio da própria realeza. Mais conscientes do seu status, os nobres aprofundaram ainda mais o abismo que os separava do povo, o que foi especialmente danoso para a monarquia de direito divino. Essa afirmação pode ser constatada com maior clareza no reinado de Luís XIV da França e no de seu sucessor, Luís XV. O resultado disso, porém, recaiu nas mãos de Luís XVI, numa época em que o rei pouco podia fazer para remediar a crise iminente. A função que as esposas dos monarcas desempenharam nesse processo, porém, é algo que não pode ser ignorado pela historiografia, uma vez que muitas delas foram consideradas responsáveis pelos eventos que abalaram a estrutura do regime.

Ana Bolena, por artista desconhecido.

Com efeito, muitas foras as soberanas que perceberam os efeitos que a política intercontinental estava provocando entre a população, impelindo-as a adotarem uma nova posição frente àqueles acontecimentos. Se seu dever era zelar pela reputação dos reis e prover a coroa de herdeiros saudáveis, logo precisaram acrescentar mais obrigações às anteriores, para acompanhar o ritmo dos avanços. Algumas delas foram mais radicais do que as outras, transgredindo padrões e quebrando gradualmente com o imaginário da soberana passiva, modelo de retidão e virtude. Contudo, ao fazê-lo, estas mulheres se tornaram alvos fáceis para aqueles que não estavam preparados para aceitar esse tipo de ação, ainda mais vindo da esposa do monarca reinante. Por ocuparem uma posição social mais elevada que a de outras mulheres, estavam, portanto, sempre em evidência e assim mais vulneráveis à opinião pública. Rainhas como Ana Bolena, Margarida de Valois, Maria Antonieta e Carlota Joaquina foram execradas pela população, por não corresponderem ao ideal de submissão defendido pela Igreja. O poder que a propaganda negativa teve sobre estas rainhas persiste até os dias de hoje.

Dentre elas, talvez o melhor exemplo de transgressão que podemos identificar seja Ana Bolena. Diferentemente das outras, o vínculo sanguíneo da segunda esposa do rei Henrique VIII com a realeza não era tão acentuado. Através da mãe, ela descendia da nobre casa dos Howard. Mas suas origens paternas não a tornavam uma candidata politicamente vantajosa para a função de rainha consorte. Uma vez coroada, ela não se adequou aos padrões de retidão feminina esperados de uma mulher na sua posição. Sua educação, por outro lado, não a preparou para o exercício da realeza e assim ela tentou incorporar à monarquia elementos das camadas mais comuns da sociedade. O resultado disso foi nenhum pouco satisfatório para Ana. Por seu comportamento mais liberal, se comparado ao de outras nobres, ela deu lugar para que acusações de adultério fossem levantadas contra si. Contudo, sua passagem pela monarquia serviu para quebrar gradualmente o paradigma de que as rainhas deveriam ser modelos de submissão inspirados na virgem Maria.

No caso das rainhas reinantes, a situação não era muito diferente. As primeiras autocratas do sexo feminino, como Isabel I de Castela, Maria I e Elizabeth I da Inglaterra e Mary I Stuart da Escócia, eram duplamente vigiadas pelo povo e pelo governo, pois estavam ocupando um cargo concebido por e para homens. A partir daí elas se confrontaram com o difícil dilema: como aliar as obrigações de Estado com as da casa? Como ser rainha e mulher ao mesmo tempo? Das quatro, a única que encontrou um ponto de equilíbrio parece ter sido Isabel de Castela. Elizabeth I, ao não contrair casamento, entregou-se de corpo e alma ao reino, sacrificando seu corpo pessoal ao político. Quanto a Maria I da Inglaterra e Mary Stuart, faltavam a elas um pouco do pragmatismo político necessário para evitar que certas atitudes prejudiciais aos seus respectivos reinados fossem tomadas, especialmente na escolha de um rei consorte. No século XVI, a população ainda não estava completamente preparada para o governo feminino, pois uma mulher atuando na esfera pública, especialmente na administração do país, era algo que até mesmo os principais pensadores do período condenavam.

Maria I de Inglaterra e Mary Stuart da Escócia.

Atualmente, o melhor exemplo de rainha reinante de que dispomos é Elizabeth II, a mulher que em 9 de setembro de 2015 se tornou a monarca que por mais tempo ocupou o trono do Reino Unido, superando sua tataravó, Vitória. Como sua ancestral, Elizabeth personificou a força feminina dentro de uma sociedade que ainda é misógina, especialmente a inglesa de meados do século XX. Nela, os dois corpos do soberano (o pessoal e o político) se fundiram num só. Afinal, não é qualquer um que consegue manter as obrigações de Estado e administrar uma família tão numerosa. Depois de ter aguentado várias crises que abalaram a estabilidade e o prestígio da monarquia (como a morte da princesa Diana, entre outras), Elizabeth II permanece como uma monarca muito querida aos olhos do público e não dá sinais de que pretende abdicar trono, quebrando assim mais um tabu dentro da sociedade ocidental: de que idade avançada não é parâmetro para se medir competência.

No que se refere à rainhas regentes, elas chegaram ao poder graças a uma reviravolta do destino, que tirou um rei adulto do caminho e pôs no seu lugar um rei menino. Para defender o direito de sua prole ao trono, algumas delas tiveram que mudar radicalmente sua postura, como é o caso de Marie de Guise, mãe de Mary Stuart, e Catarina de Médicis. Esta última já havia sido rebaixada pela nobreza francesa por pertencer a uma família de banqueiros italianos e foi humilhada durante anos por não conseguir dar um herdeiro para o trono, enquanto seu marido se entregava aos braços da amante. Uma vez no poder, Catarina fez o que estava ao seu alcance para impedir que facções rivais derrubassem os Valois do trono, lançando mão dos meios mais sórdidos para proteger a coroa dos filhos. Apesar de poder ser considerada uma das políticas mais brilhantes no século XVI, a lenda negra da megera assassina de protestantes sobrepôs seus méritos. O mesmo pode ser aplicado ao caso de Maria I da Inglaterra, ainda hoje designada com “A Sanguinária”, título que ela certamente não merece.

A educação que estas soberanas receberam quando crianças era outro fator que as distinguia de outras mulheres do reino. Se no período medieval a maioria delas recebia uma instrução necessária apenas para serem boas esposas, na Era Moderna e Contemporânea elas passaram a receber aulas de História, Filosofia, Literatura, Arte, Línguas, além do tradicional Canto, Dança e Costura. Imbuídas desse saber, algumas delas se julgavam capazes de exercer influência no governo, a despeito das forças antagônicas que lhes barravam a interferência em certos assuntos que, a princípio, não lhes dizia respeito. Carlota Joaquina, por exemplo, era um prodígio precoce, mas não contava com a confiança de seu marido e era temida pelos ministros do reino, que não paravam de confabular contra ela. Os desentendimentos no campo conjugal aliado às tentativas de usurpar o trono, em detrimento do marido, valeram a D. Carlota uma série de alcunhas maldosas. Graças a isso, até hoje ela é lembrada apenas como uma esposa adúltera, a “rainha devassa” que queria tomar o poder para si.

Dona Carlota Joaquina, por João Baptista Ribeiro.

O comportamento liberal de D. Carlota Joaquina contrastava com o de sua nora, Leopoldina de Habsburgo. Em cartas à família, a princesa condenava a sogra por suas atitudes, tão diferentes daquilo que era esperado de uma rainha consorte. Depois dos escândalos provocados por Maria Antonieta, quase todas as arquiduquesas austríacas foram educadas de forma a evitar o exemplo dado pela esposa de Luís XVI. D. Carlota foi então uma das últimas mulheres à la Marie Antoinette que viveram no início do século XIX. Diferentemente da mãe de seu marido, Leopoldina gozava da confiança do príncipe D. Pedro, a ponto de ter sido nomeada regente do governo brasileiro em dois momentos distintos, em agosto de 1822 e em novembro de 1826. Era uma mulher desprovida de ambição pessoal, cujos principais interesses estavam voltados para o cumprimento de suas funções de esposa e mãe. Buscando auxiliar o marido em suas tarefas, D. Leopoldina acabou prestando um grande serviço para o Brasil. Morreu triste, mas reverenciada pelo povo brasileiro. É uma pena que os livros de história não a tratem da forma como ela merece.

Tanto Leopoldina quanto sua tia-avó, Maria Antonieta, descendiam de uma tradição de mulheres no poder, tais como a imperatriz Maria Tereza da Áustria (a Grande), Mary I Stuart da Escócia e Isabel I de Castela. Por outro lado, em suas veias também corria o sangue de Joana I, a filha da rainha Isabel, considerada louca e incapaz de governar. Era, portanto, uma via de mão dupla. Entre as descendentes de Joana, podemos destacar D. Maria, primeira rainha reinante de Portugal e também qualificada como louca. Entretanto, é preciso compreendermos que o que se definia por loucura no século XVI era diferente da maneira como no final do século XVIII e início do XIX se concebia essa condição, assim como é diferente também no século XXI. Numa recente postagem feita no blog “Rainhas Trágicas”, sobre o aniversário de morte da primeira rainha reinante de Portugal, uma internauta comentou o seguinte: “só esqueceram de dizer que ela era louca”, o que demonstra o poder que o estereótipo tem sobre a imagem de determinada personalidade, a despeito de suas outras facetas.

Loucas ou não, histéricas, extravagantes, maquiavélicas, traidoras, amantes, as rainhas trágicas se tornaram personalidades marcantes da cultura popular. No período pós-Segunda Guerra, com a inclusão cada vez maior da operária no mercado de trabalho, suas lutas pela igualdade de direitos, a difusão do movimento feminista em escala global e a ascensão do objeto de estudo “mulher” entre as ciências sociais, figuras femininas passivas perderam seu encanto aos olhos da nova geração de leitoras. Elas queriam saber das histórias de personagens imperfeitas, com virtudes e vícios e que, no entanto, se destacaram entre suas contemporâneas. Assim, observamos a procura massiva de biografias e romances sobre Ana Bolena, Mary Stuart, Maria Antonieta, entre outras. Soberanas que transgrediram os padrões sociais vigentes e lutaram por aquilo que acreditavam. Hoje, suas imagens passam por um continuo processo de desconstrução, cujo objetivo é evidenciar o ser humano que existe por trás da representação que foi criada ao longo dos anos e torna-lo mais próximo de nós do que alguma vez supomos acreditar que fossem.

Rainha Elizabeth II tendo ao fundo o retrato de sua antecessora, a rainha Vitória.

Nem santas e nem demônios, as rainhas trágicas se constituem em diferentes perfis femininos que se complementam, formando um só rosto. Perigosas e virtuosas, elas traduzem a força e determinação que a mulher moderna deseja ao olhar para o passado, na busca de exemplos de vida que lhe sirvam de inspiração. A literatura e o cinema se apropriaram de suas histórias, transformando-as em personagens da ficção e elementos da cultura de massa. Dessa forma, essas soberanas foram se tornando mais acessíveis ao grande público, que passou a procurar em biografias e páginas da internet mais informações sobre cada uma delas, participando de fóruns de discussão e assim difundindo o conhecimento de forma dinâmica e interativa. Hoje elas permanecem mais vivas do que nunca no imaginário popular, imortalizadas em tantas obras quanto possíveis. O império feminino conhece atualmente uma fase de grande expansão, através de movimentos e correntes ideológicas que colocam a princesa e a plebeia como protagonistas de uma mesma história, celebrando assim o poder da mulher no regime monárquico.

Referência:

TAPIOCA Neto, Renato Drummond. Rainhas Trágicas: quinze mulheres que moldaram o destino da Europa. Amadora, Portugal: Vogais, 2016.

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