As bodas de sangue de Margarida de Valois – resenha do filme “A rainha Margot” (1994)

Em 18 de agosto de 1572, milhares de protestantes huguenotes, vindos de todas as partes da França, enchiam as ruas de Paris. A capital do reino ficou tão apinhada de gente, que muitos tiveram que dormir nas ruas, pois as estalagens e hospedarias já estavam lotadas. Todos queriam estar presentes no casamento de Henrique de Bourbon, rei de Navarra, com Margarida de Valois, irmã do rei Carlos IX. Os noivos, por sua vez, sequer se conheciam. Aquele matrimônio entre o rei protestante e a princesa católica pretendia simbolizar a paz que o país precisava após uma série de conflitos religiosos envolvendo as duas facções. Porém, longe de trazer a conciliação desejada, as bodas de Henri e Margot foram marcadas por uma grande chacina, ocorrida no dia de São Bartolomeu. Seis dias depois do casamento, milhares de huguenotes foram assassinados por ordens da coroa, no que ficou conhecido como uma das páginas mais sangrentas da história da França. Séculos mais tarde, as circunstâncias da tragédia ainda despertavam debates calorosos entre os historiadores. Porém, uma personagem central nesse evento permanecia praticamente esquecida, até que em 1845, um romancista consagrado pela crítica, Alexandre Dumas, transformou seu drama numa obra-prima da novela histórica.

Cena do casamento de Henrique de Navarra (Daniel Auteuil) com Margarida de Valois (Isabelle Adjani).

Cena do casamento de Henrique de Navarra (Daniel Auteuil) com Margarida de Valois (Isabelle Adjani).

De mera espectadora dos eventos, a noiva do São Bartolomeu, Margarida de Valois, foi devolvida ao seu lugar de protagonista, graças à pena de Alexandre Dumas. Migrou do reino da história para o da ficção, onde encontrou súditos fieis, que não cansam de lhe render sincera homenagem. O sucesso da rainha Margot, porém, não ficou restrito apenas ao mundo da literatura. Em 1909, o romance de Dumas foi adaptado pela primeira vez para o cinema por Camille de Morhlon, seguido por uma versão de 1954, dirigida por Jean Dréville. Mas foi com a adaptação de Patrice Chéreau, de 1994, que a história de Margot atingiu em cheio o gosto popular, fazendo do filme franco-italiano-alemão num dos dramas históricos mais queridos dos últimos vinte anos. Com um elenco talentoso, figurino impecável, locações bem escolhidas e uma belíssima trilha sonora composta por Goran Bregović, “La reine Margot” consegue manter o espectador atendo do início ao fim. O roteiro, escrito por Danièlle Thompson e Chéreau, mistura partes do romance de Dumas com a peça “O massacre em Paris”, escrita pelo dramaturgo inglês Christopher Marlowe. A produção ficou por conta de Claude Berri, com distribuição da Miramax Films.

Em 1572, a França era um país cada vez mais assolado pelas disputas religiosas entre católicos e protestantes. O rei Carlos IX, monarca católico, que reinava desde os 10 anos com a ajuda de sua mãe, Catarina de Médici, pretendia apaziguar os ânimos do povo, casando sua irmã mais nova com seu primo, Henrique de Bourbon, rei de Navarra. O matrimônio, porém, era malquisto pelas duas facções do reino. Essa tensão fica transparente na segunda cena do filme, a do casamento. A repugnância de Margot por seu cônjuge está estampada no rosto de Isabelle Adjani, que interpreta a princesa Valois. Quando questionada pelo arcebispo se aceitava Henri como seu marido, ela desperta do seu estado de indiferença, respira fundo, mas a resposta não vem, o que causa consternação em sua mãe e irmãos, que assistiam à cerimônia logo atrás dos noivos. Isabelle já possuía uma carreira consagrada no cinema antes mesmo do lançamento de “Margot”. Ela é conhecida pela intensidade dramática com a qual da vida aos seus papeis, a exemplo de “A história de Adelle” (1975) e “Camille Claudel” (1988), filmes pelos quais concorreu ao óscar de melhor atriz. Em “A rainha Margot”, Isabelle não faz por menos, tendo sido vencedora do prémio césar por sua atuação nessa produção.

Virna Lisi como Catarina de Médici e Pascal Greggory como o duque Anjou.

Virna Lisi como Catarina de Médici e Pascal Greggory como o duque Anjou.

Margarida de Valois viveu uma vida extraordinária para o seu tempo. Forçada àquele casamento, que culminou em tragédia, ela não tardou em arrumar consolo nos braços de outros homens, como bem demonstram suas Memórias, escritas em 1594. O romance de Dumas alimentou ainda mais sua reputação como femme fatale do século XVI. No filme de Chéreau, porém, Margarida aparece incialmente como uma libertina sexual, cujo desejo se estendia inclusive aos seus irmãos. Essa informação, fruto da licença poética do diretor, certamente chocou o público de 1994. “Margot” causou muito alvoroço na época do seu lançamento, especialmente por conta das cenas de nudismo, sexo e violência. Acrescente-se a essa equação um pouco de romance e conspirações, tendo como pano de fundo as guerras de religião na França quinhentista, e então temos uma obra-prima do drama-histórico sensacionalista. Seus personagens ainda despertam a curiosidade do grande público: Margot, a princesa ninfomaníaca; Carlos, o rei fraco e manipulável; Catarina de Médici, a mãe maquiavélica; La Môle, o herói romântico. Muitos são os rótulos que podemos atribuir aos papeis desempenhados nesse filme, o que os tornam irresistíveis ao olhar contemporâneo.

Talvez o ponto mais alto de “A rainha Margot” sejam as cenas da fatídica noite de São Bartolomeu. Muito bem produzidas, elas passam ao espectador uma noção do que foi aquela chacina, que, segundo dizem, dizimou cerca de 20 a 30 mil huguenotes, embora o número de mortos oferecidos pelo filme não passe dos 6 mil. A historiografia sobre o massacre costuma responsabilizar a rainha Catarina de Médici pelo mesmo, graças às muitas fontes (bastante parciais, diga-se de passagem), que a colocam como mandante do crime. Porém, como o próprio filme ressalta, haviam outras pessoas mais interessadas nesse atentando, a exemplo do duque de Guise, interpretado por Miguel Bosé, e do duque de Anjou, interpretado por Pascal Greggory. Ambas as personagens eram líderes da facção católica, contrária à influência que o almirante de Coligny (Jean-Claude Brialy) exercia sobre o rei Carlos IX (Jean-Huges Anglade). Mas, se por um lado “A rainha Margot” escusa Catarina de Médici como responsável pelo massacre, por outro reforça o estereótipo dela como rainha megera, capaz de tentar envenenar o próprio marido da filha para se ver livre da ameaça que ele e seus aliados representavam ao reinado de seus filhos.

Margot e sua inseparável amiga, Henrique de Nevers (Dominique Blanc).

Margot e sua inseparável amiga, Henriette de Nevers (Dominique Blanc).

Apesar de Isabelle Adjani ser a protagonista do filme, o grande destaque dele, sem sombra de dúvidas, ficou para Virna Lisi, vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, por seu papel como Catarina de Médici. Lisi vestiu como poucas a roupa da rainha megera, que, apesar de sua crueldade, possuía um lado superprotetor quando se tratava de seus filhos. É o núcleo de Catarina, e sua preocupação em evitar o destino profetizado pelo perfumista René (Ulrich Wildgruber), que move a trama do filme para o seu desfecho. Deve-se destacar também a atuação de Daniel Auteuil, uma das grandes estrelas do elenco, no papel de Henrique de Navarra, futuro rei Henrique IV da França. Outra atriz de peso é Dominique Blanc, que interpreta a inseparável amiga de Margot, Henriette de Nevers, uma das mulheres mais fascinantes do século XVI. No filme, ela desempenha a função de uma espécie de alcoviteira, ajudando sua ama na busca de parceiros sexuais. Uma historieta, provavelmente apócrifa, afirmava que ela e Margarida teriam clandestinamente retirado duas cabeças expostas de condenados, enterrando-as depois em solo consagrado. Chéreau explorou essa fábula no filme, com as duas mulheres resgatando as cabeças de La Môle e Annibal.

A história registra o suposto relacionamento adúltero entre Margarida de Valois e o conde de La Môle. Os dois teriam arquitetado um plano, na iminência da morte de Carlos IX, para derrubar o duque de Anjou e coroar o irmão mais novo, Alençon, em seu lugar. A conspiração foi descoberta antes que pudesse ser concretizada e La Môle foi decapitado. Apesar disso, Margarida faz uma referência muito breve a ele em suas Memórias, o que indica que seu envolvimento com o conde talvez não fosse tão intenso quanto Alexandre Dumas e Patrice Chéreau nos fazem crer. O filme recria a cena contada pela própria Margarida, no único relato de um membro da família real sobre o massacre de São Bartolomeu, quando um homem ensanguentado entrou bruscamente em seu quarto, pedindo proteção contra os soldados que queriam mata-lo. Em “A Rainha Margot” esse personagem é nenhum outro senão o próprio La Môle, que a partir daquele dia ficou completamente apaixonado pela sua salvadora. Quem interpreta o papel do amante é o ator Vincent Pérez. As cenas protagonizadas por ele e Isabelle emprestam ao filme aquele toque de romance, indispensável a um drama histórico que visa agradar o grande público, não apenas àqueles que conhecem a história por trás do enredo.

Margot salva La Môle (Vincent Pérez) de ser assassinado.

Margot salva La Môle (Vincent Pérez) de ser assassinado.

O sentimento de Margot por La Môle trouxe consequências graves para ela. Numa das cenas mais chocantes do filme, a personagem quase foi vítima de um estupro coletivo diante dos olhos de toda a corte. A consumação do ato só foi impedida devido ao espanto causado pelo repentino mal-estar de Carlos IX. O roteiro sustenta a hipótese (não comprovada) de que o rei teria sido envenenado. Nesse caso, devido à leitura de uma obra adulterada por ordens da rainha Catarina, destinada a Henrique de Bourbon. La Môle foi então responsabilizado pelo incidente e Margarida nada pôde fazer para lhe salvar a vida. O filme termina com Margot finalmente partindo para Navarra, tendo a cabeça embalsamada do amante no colo, ao som de uma belíssima versão de Elo Hi, cantada por Ofra Haza. 22 anos depois de seu lançamento, “A rainha Margot” continua encantando as pessoas. Em 2014, uma edição remasterizada do filme chegou ao mercado, contendo mais 13 minutos de cenas inéditas. Embora possua um caráter sensacionalista, típico de produções que se dirigem ao grande público, o conjunto da obra agrada bastante. Como Alexandre Dumas havia feito em 1845, Patrice Chéreau trouxe do passado a figura de uma mulher apaixonante e apaixonada, que reina soberana no imaginário popular como outrora reinara no palco da história.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestrando em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

Confira abaixo o trailer da versão remasterizada de “A rainha Margot” (1994):

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