Viagem no tempo: curta-metragem convida-nos a passear pelas ruas da Paris setecentista (assista!)

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Paris é hoje, como no passado, um dos maiores centros culturais e da vida na Europa. Contudo, a atual capital da moda nem sempre foi tão elegante quando os seus cartões postais nos induzem a acreditar. Na segunda metade do século XVII, nos primeiros anos do reinado pessoal de Luís XIV, o rei Sol havia constatado que a cidade estava em condições de saneamento muito precárias e, portanto, indigna de abrigar um rei da França. Antes de transferir a capital do país para Versalhes na década de 1680, Luís dera início a um processo de reformas no perímetro urbano, que logo foi desacelerado por causa da política expansionista do monarca e do seu ambicioso projeto de construção do mais magnífico palácio da Europa. Durante 100 anos, com a transferência da corte para Versalhes, Paris deixou de ser o centro da política francesa, mas sua vida social continuou intensa. Uma animação em 3D, criada a partir de um mapa do ano de 1739, mostra como a cidade pareceria aos olhos do visitante, que caminha pelo distrito do Grand Châtelet, observando suas casas e monumentos, enquanto os sons vindos da rua passam uma sensação de realismo bastante convincente. É como se, de fato, tivéssemos voltado no tempo e parado no meio da Paris setecentista. Confira:

Com 8 minutos e 30 segundos de duração, o curta-metragem foi desenvolvido para o Projeto Bretez, com sons de fundo da autoria do musicólogo Mylène Pardoen. A animação, criada a partir do famoso mapa de Turgot-Bretez, abrange uma área entre a Pont au Change, que dá para a atual Place du Châtelet, até Pont Notre Dame. Em cada parte desse percurso, podemos ouvir uma trilha sonora diferente, que recria o barulho da cidade ou mesmo a respiração ofegante do pedestre, que, no caso, somos nós mesmos. A cidade aparece sob o ponto de vista do observador, que caminha pelas ruas fazendo o reconhecimento do perímetro delimitado pela animação. Nas palavras de Pardoen: “escolhi esse bairro, pois concentra 80% dos ambientes sonoros de fundo na Paris daquela época, seja através do comércio – lojistas, familiares, artesãos, barqueiros, lavadeiras, nas margens do Sena, etc., ou na diversidade de possibilidades acústicas, como o eco ouvido debaixo de uma ponte ou em uma passagem coberta”.

O curta-metragem prima pela atenção à sonoridade dos ambientes, dando assim uma sensação de realidade, com a enxurrada de ecos e ruídos que eram nativas para Paris, durante esse espaço de tempo em particular:

A tour inclui sons, como o cacarejar das aves no mercado, o zumbido das moscas atraídas para barracas das peixarias, o som do tear na fábrica de lã, que costumava ficar em uma extremidade da Pont au Change, o dos raspadores nas fábricas de curtumes na Rue de la pelleterie, a diagramação na loja de impressão na Rue de Gesvres … todas revestidas com os gritos incessantes das gaivotas que vieram aos montes para se alimentar de resíduos da cidade. No total, o projeto incorpora 70 tabelas sônicas.

Graças a uma meticulosa investigação em documentos que remontam à época representada pela animação, como  Le Tableau de Paris, de 1781, foi possível recriar os sons da cidade com a melhor precisão possível. O trabalho foi complementado com a ajuda de obras de outros historiadores, estudiosos e até mesmo especialistas em arquitetura  de casas sobre pontes. Mylène Pardoen revelou que alguns dos sons foram autenticamente recriado, utilizando-se dispositivos antigos originais, como os ruídos de máquinas.

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A animação, criada a partir do famoso mapa de Turgot-Bretez, abrange uma área entre a Pont au Change, que dá para a atual Place du Châtelet, até Pont Notre Dame.

A pesquisa foi apresentada em 2015 como parte da Innovatives SHS, uma exposição se ciências sociais na Cité des Sciences, em Paris. E a melhor parte é que os investigadores estão pensando em desenvolver ainda mais a sua apresentação audiovisual, para explicar a inclusão de objetos ainda mais históricos. Segundo Pardoen: “é um projeto de pesquisa que vai continuar a evoluir. O próximo passo será incluir as máquinas e dispositivos que estão faltando agora a partir da imagem, e permitir que a “audiência” possa passear livremente pelas ruas do bairro”.

Fontes: Realm of History e CNRS – Acesso em 18 de outubro de 2016.

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