“Eu te amo loucamente”: eram Maria Antonieta e o conde Fersen amantes?

Por: Renato Drummond Tapioca Neto.

“Eu te amo loucamente e não há um momento sequer em que eu não vos adore”, escreveu Maria Antonieta numa carta datada de janeiro de 1792. As linhas são dirigidas não ao seu marido, Luís XVI, mas ao conde sueco Hans Axel de Fersen, por quem a rainha teria mantido uma paixão. A natureza do relacionamento entre eles têm sido objeto de especulação para muitos historiadores. Na opinião de Evelyne Lever, autora de Marie Antoinette: the last queen of France, era um sentimento platônico que os unia. Já Antonia Fraser, autora de Marie Antoinette: the jouney, admite a possibilidade de algo mais, embora acrescente que não existam provas suficientes para dar suporte a essa afirmação. Contudo, no seu mais recente livro, “I love you madly”: the secret letters of Marie Antoinette and count Fersen, a historiadora britânica Evelyn Farr defende a hipótese de que não só Antonieta e Fersen mantinham um relacionamento carnal, como também que as duas últimas crianças da soberana, Luís Carlos, nascido em 1785, e Maria Sofia, nascida em 1786, pertenciam ao conde sueco.

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Baseada num conjunto de cartas que reuniu em vários arquivos da Europa, Evelyn Farr acredita ter finalmente resolvido o mistério da paixão entre Maria Antonieta e Axel Fersen. “Historiadores franceses têm ficado tipicamente em cima do muro quanto a este assunto”, disse Farr ao site Daly Beast.  Já tendo publicado anteriormente um livro no qual explorava esse assunto, Farr causou um verdadeiro rebuliço entre os círculos monarquistas com as suas afirmações de que o delfim Luís Carlos, aclamado como Luís XVII após a morte do pai, em 1793, não era filho do rei, o que significa dizer que a rainha era uma adúltera. Ao longo de sua vida, Antonieta teve vários amigos íntimos, como Valentin, conde d’Esterházy. “Porém”, esclarece a historiadora, “se você comparar as cartas que ela escreveu para Valentin e as cartas que ela escreveu para Fersen, você verá o tom de diferença. Com Valentin era sempre ‘meu querido conde’, não ‘eu te amo loucamente’. Para Evelyn, “você escreveria ‘eu te amo loucamente’ para um amigo platônico”?

O romance entre Maria Antonieta e o conde Fersen têm sido motivo de especulação entre muitos historiadores. Em cena, Kirsten Dunst e Jamie Dornan no filme de Sofia Copola, "Marie Antoinette" (2006).

O romance entre Maria Antonieta e o conde Fersen têm sido motivo de especulação entre muitos historiadores. Em cena, Kirsten Dunst e Jamie Dornan no filme de Sofia Copola, “Marie Antoinette” (2006).

Todavia, é preciso que tenhamos em vista a época em que Maria Antonieta viveu, marcada pela ascensão do romantismo. Muitas das cartas da rainha aos seus amigos mais próximos eram recheadas de uma escrita bastante sentimental, como podemos observar na correspondência trocada com a princesa de Lamballe e a duquesa de Polignac. Muitos acusaram Antonieta de manter um relacionamento lésbico com as amigas, devido ao tratamento bastante afetuoso que ela lhes dispensava. Além disso, e mais importante ainda, precisamos lembrar também a posição social que a esposa de Luís XVI ocupava. Como rainha da França, o perigo de Maria Antonieta se expor a um caso extraconjugal era muito grande, uma vez que a punição para uma soberana adúltera era a morte. Numa corte como a de Versalhes, onde todos sabiam quem dormia com quem, seria quase impossível para a monarca esconder um segredo como esse. Apesar de as evidências apontarem que ela adorava Fersen mais do que a todos os outros, inclusive seu próprio marido, não acredito que o caso entre eles tenha ido tão longe.

Na história da França, outras rainhas também mantiveram seus favoritos. Ana de Áustria, por exemplo, foi acusada de contrair um casamento morganático com o cardeal e primeiro-ministro Jules Mazarin, após a morte de Luís XIII. Não obstante, quando o herdeiro do trono nasceu, o futuro Luís XIV, em 1637, havia quem afirmasse que ele não era filho do rei. Sendo assim, boatos de adultério por parte das rainhas consortes francesas não são novidade. Mas até que ponto é realidade e até que ponto é especulação? Para a historiadora francesa Fanny Cosandey, professora na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (Paris), embora Antonieta e Axel possam ter compartilhado uma história de amor, isso só aconteceu no papel, não na cama: “pessoalmente, eu não acredito que era possível para a rainha Maria Antonieta manter uma relação física atual com Fersen. Talvez tenha sido um amor platônico, talvez tenha sido um forte relacionamento… mas eu não acho que esses documentos nos dirão muito mais”. Evelyn Farr, por sua vez, é de opinião contrária.

"I love you madly", novo livro de Evelyn Farr que trata do suposto relacionamento extreconjugal de Maria Antonieta, com base nas cartas que ela trocou com  o conde Fersen.

“I love you madly”, novo livro de Evelyn Farr que trata do suposto relacionamento extraconjugal de Maria Antonieta, com base nas cartas que ela trocou com o conde Fersen.

As cartas de amor contidas no novo livro de Farr foram decifradas por um time de pesquisadores franceses do Center for the Conservation of Collections (CRCC), usando tecnologia moderna, como raios-X e diferentes scanners infravermelhos, para revelar as palavras redigidas entre a rainha e o conde sueco, riscadas por Fersen para esconder o seu conteúdo, ou escritas em tinta invisível. “Eu vivo e existo somente em você – vos adorar é a minha única consolação”, escreveu Fersen numa das 20 cartas presentes na obra. Em outra, ele diz que “eu te amo e eu sempre vou te amar loucamente por toda a minha vida. Sem você, não existe felicidade pra mim”. Nos dias de hoje, palavras como essa seriam o bastante para indicar uma ligação sexual entre duas pessoas. Mas seria assim no final do século XVIII, essencialmente romântico? Na opinião de Cosandey, “nada é impossível, mas nós precisamos de outras provas além dessas cartas. Devemos colocar tudo em contexto e analisar de onde o texto veio, o que ele disse, o que ele fez, por que era anônimo, e assim por diante…”.

Sem dúvida, a alegação mais chocante da obra de Evelyn Farr concerne à paternidade dos dois últimos filhos de Maria Antonieta, nascidos em 1785 e 1786, quando a paixão dos dois supostamente teria florescido. Acredito que se fossem realmente de Fersen, tal segredo não seria mantido encoberto por muito tempo em Versalhes. Se levarmos em consideração que a mera presença do conde ao lado da rainha foi o bastante para que fossem declarados amantes, imagine então se dessa união nascessem duas crianças? Isso não só condenaria a rainha aos olhos públicos como também colocaria dúvidas quanto à filiação dos dois filhos mais velhos dela, Maria Teresa e Luís José, nascidos em 1779 e 1781, respectivamente. Em um mundo onde não existiam testes de DNA, qualquer sombra de dúvidas sobre a conduta de uma rainha consorte poderia ser perigosa para o futuro da dinastia. Na Inglaterra do século XVI, por exemplo, duas das seis esposas do rei Henrique VIII, Ana Bolena e Catarina Howard, foram executadas sob acusações de adultério. Seria então Maria Antonieta tão imprudente a ponto de correr esse risco? Além disso, no século XVIII já existiam muitos meios contraceptivos. Se a soberana e seu suposto amante tivessem um envolvimento sexual, certamente tomariam os cuidados necessários para evitar uma gravidez indesejável.

Carta de Maria Antonieta ao conde Fersen. Graças à tecnologia moderna, foi possível ler o que estava escrito sob os borrões feitos pelo conde Fersen.

Carta de Maria Antonieta ao conde Fersen. Graças à tecnologia moderna, foi possível ler o que estava escrito sob os borrões feitos pelo conde Fersen.

Por outro lado, o fato de Luís Carlos e Maria Sofia terem sido declarados como filhos de Luís XVI indica que o rei e a rainha mantinham relações sexuais pela época do nascimento das crianças. Caso aceitemos a hipótese de Farr, então é possível dizer que Maria Antonieta estava se relacionando com dois homens ao mesmo tempo. Embora não seja impossível, tal conduta não se encaixa no que sabemos acerca do caráter da monarca, explicitado tanto pelas suas correspondências quanto pelos depoimentos e memórias daqueles que lhe eram mais chegados, como a princesa de Lamballe, Madame Campan ou a duquesa de Tourzel. Embora Evelyn Farr afirme que “não podemos entender Maria Antonieta sem entender que ele [o conde Fersen] foi a pessoa mais importante da sua vida”, sou da opinião de que essa é apenas uma das muitas facetas da vida da soberana, que revela o quão sentimental e humana ela foi, em detirmento do mito da rainha mártir, criado pelos monarquistas no século XIX.

Bibliografia consultada:

FARR, Evelyn. María Antonieta y su amante, el conde Fersen. Traducción de Alejandro Tiscornia. – Argentina: Vergara, 1998.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: a última rainha da França. Tradução de S. Duarte.  1ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

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3 comentários sobre ““Eu te amo loucamente”: eram Maria Antonieta e o conde Fersen amantes?

  1. Fascinante Renato! Adoro todos os textos postados aqui, tem me ajudado muito a desenvolver meu livro de ficção histórica. E como diz no texto, eu acredito que a Rainha Maria Antonieta teve um romance com Fersen, mesmo sendo algo não consumado. Tomando as circunstâncias de que o casamento dela com Luís XVI não era muito bom, acredito que ela possa ter encontrado conforto em Fersen.

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