Sofia Frederica Augusta: a princesa germânica que se tornou a mulher mais poderosa da Rússia – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 17 de maio de 1727, falecia na cidade de São Petersburgo a czarina Catarina I, autocrata de todas as Rússias. A viúva do imperador Pedro I, o Grande, havia subido ao trono dois anos antes, após a morte do marido. Suas origens eram nada ilustres: uma camponesa da região da Livônia, que se tornou amante do czar em 1703, casando-se com ele cinco anos depois. Juntos teriam cerca de 11 filhos, dos quais apenas duas garotas chegaram à maioridade, Ana e Isabel. Em janeiro de 1725, quando Pedro morreu, deixou a esposa como sucessora, fazendo dela a primeira mulher a governar aquele vasto território, considerado bárbaro pelas outras nações europeias. Ainda que Voltaire, que não a conheceu, tenha dito que ela fosse tão extraordinária quanto o marido, o reinando da primeira Catarina foi curto, de modo que não podemos avaliar com precisão a eficiência de sua gestão. O fato é que sua época foi marcada por uma série de golpes de Estado que colocaram no trono vários governantes, entre os quais as czarinas Ana Ivanovna e Isabel I. O mais famoso desses golpes, porém, ocorreu no ano de 1762 e foi protagonizado por uma mulher nascida dois anos depois da morte da esposa de Pedro I. Seu nome era Sofia Frederica Augusta, princesa de Anhalt-Zerbst, mas a história se lembraria dela como Catarina, a Grande.

Catarina I da Rùssia, por Jean-Marc Nattier, em 1717.

Catarina I da Rùssia, por Jean-Marc Nattier, em 1717.

Aquela que ficaria conhecida como uma das mulheres mais poderosas da Europa veio ao mundo no dia 21 de abril de 1729. Seus pais eram Cristiano Augusto von Anhalt-Zerbst e Joana Elizabeth de Holstei-Gottorp. O casamento deles foi marcado por muitos desentendimentos, intensificados pela diferença de idade que exista entre ambos: em 1527, ele tinha 37 anos, enquanto ela 15. Na opinião de Robert K. Massie, biógrafo de Catarina II, aquele “foi um mal casamento”, pois “a união de uma adolescente com um homem de meia-idade geralmente é fruto de uma confusão de motivos e expectativas” (2012, p. 19). Os Holstei-Gottorp eram de linhagem ilustre, mas o ramo ao qual Joana pertencia tinha pouco dinheiro. Quando seu matrimônio com o príncipe de Anhalt-Zerbst foi arranjado, a família dele ficou exultante, pois não só o futuro da dinastia parecia estar assegurado, como também a família da noiva desfrutava de uma posição superior na escala social. Nesse caso, a opinião dela pouco importava. Seu temperamento e caráter também contrastavam em muito com os do marido: “Cristiano Augusto era simples, honesto, austero, recluso e parcimonioso. Joana Elizabeth era complicada, vivaz, amante do prazer e extravagante” (MASSIE, 2012, p. 20). Ela era acostumada com o luxo, mas o lugar para onde foi enviada tinha nada de sumptuoso.

O principado de Anhalt-Zerbst era quase insignificante, se comparado com os outros trezentos estados alemães. Havia conquistado sua independência no século XIII, mas ao longo dos tempos sua dinastia se ramificou em várias direções, de modo que os recursos necessários para manter uma casa reinante tão populosa se tornaram bastante escassos. Segundo Carolly Erickson, “durante várias gerações, os príncipes de Anhalt haviam evitado ser destituídos servindo no exército do rei prussiano, e o pai de Sofia, o príncipe Cristiano Augusto, seguiu essa tradição” (2014, p. 11). Graças à influência da família de Joana, Cristiano seria posteriormente nomeado governador de Stettin, uma cidade fortificada, localizada na fronteira com Pomerania, onde suas tropas estavam alojadas. Foi para lá que levou sua jovem esposa, para viverem num “castelo” de pedras cinzentas, sustentando-se com um magro salário que ele recebia do Exército. Mesmo com uma renda mínima, Joana fez o melhor que pode para se adaptar àquele ambiente austero, na companhia de “um marido puritano dedicado à vida militar, habituado a uma economia severa, equipado para comandar, mas não para conversar” (MASSIE, 2012, p. 20). O grande desejo de Cristiano Augusto, porém, era que sua mulher cumprisse com a tarefa para a qual fora especialmente designada, verdadeiro motivo por trás do casamento: gerar um sucessor varão.

Cristiano Augusto von Anhalt-Zerbst, por Antoin Pesne (c. 1746).

Cristiano Augusto von Anhalt-Zerbst, por Antoin Pesne (c. 1746).

A existência que Joana levava em Stettin em nada lembrava o fausto da corte de Brunswick, onde ela cresceu. Sua vida como esposa de um militar era bastante tediosa e bem diferente daquela que havia deixado para trás. Aos 16 anos ela engravidou. Todos esperavam que fosse um menino, que herdaria os bens de seu pai, mas em vez disso nasceu uma menina, batizada de Sofia Frederica Augusta. O parto quase havia levado sua mãe à morte. Isso, aliado à decepção provocada pelo sexo do bebê, deixaram Joana bastante desconfiada para com a filha. Desde o início, ela “não conseguiu sentir nem expressar qualquer sentimento maternal. Não amamentou nem acariciou a filha. Não perdia tempo olhando-a no berço, nem a pegava no colo. Em vez disso, entregou abruptamente a menina aos cuidados de criados e amas de leite” (MASSIE, 2012, p. 21). O mais irônico dessa situação, contudo, é que dentro de alguns anos aquela mesma garotinha desprezada pela mãe seria um instrumento para as suas ambições. Se fosse um menino, seu destino seria suceder o pai como príncipe de Anhalt-Zerbst, mas, sendo uma garota, a pequena Sofia seria sacrificada da mesma forma que a própria Joana, em razão de um casamento por conveniência. O que os pais da criança não podiam imaginar era o tipo de matrimônio que o futuro havia reservado para ela.

Um ano e meio após o nascimento de Sofia, Joana finalmente deu à luz um herdeiro para o marido, chamado Guilherme Cristiano. A mãe era toda beijos e abraços com o menino, enquanto sua filha era forçada a observar essa diferença de tratamento e a constatar que não havia sido desejada, conforme admitiu anos mais tarde nas suas Memoirs:

Disseram-me que não fui recebida com muita alegria. Meu pai achava que eu era um anjo; minha mãe não prestava muita atenção em mim. Um ano e meio depois ela deu à luz um menino a quem idolatrou. Eu era meramente tolerada e frequentemente repreendida com uma violência e raiva que eu não merecia. Eu sentia isso sem que o motivo estivesse perfeitamente claro em minha mente (apud MASSIE, 2012, p. 22).

O filho tão desejo, porém, morreu em 1742, aos 12 anos, vítima de escarlatina. Guilherme era enfermiço desde pequeno e sofria de uma deformidade no quadril que o obrigava a usar muletas. Nenhum tratamento conhecido foi capaz de aliviar o sofrimento do rapaz. “Na morte dele, minha mãe ficou inconsolável e foi necessária a presença de toda a família para ajudá-la a suportar a dor” (apud MASSIE, 2012, p. 22). A carência de afeto materno, porém, deixou uma marca na futura imperatriz, que procurava nos outros, seja entre amigos ou amantes, o carinho que ela não recebeu quando criança.

Joana Elizabeth de Holstei-Gottorp, atribuído a  Antoine Pesne.

Joana Elizabeth de Holstei-Gottorp, atribuído a Antoine Pesne.

Apesar do relacionamento tenso com a mãe, Sofia era uma criança precoce e vivaz. Era uma menina astuta e espirituosa, características que carregaria consigo até o fim de seus dias. Por essa época, De acordo com Carolly Erickson, ela “possuía um excesso de energia que a tornava impudente e, com frequência, obstinada. Falava sem cessar, era cheia de perguntas e notava e recordava coisas que passavam despercebidas às crianças menos inteligentes” (2014, p. 10). Sofia aprendeu a ler ainda em tenra idade e com cerca de quatro anos já sabia alguma coisa de francês. Por essa época, uma personagem marcaria a primeira infância da garota, sua preceptora, Babette Cardel, uma huguenote refugiada a quem Catarina se referiria mais tarde como “um modelo de virtude e sabedoria”. (ERICKSON, 2014, p. 12). Naquele período, a corte de Versalhes era o modelo para as suas vizinhas. A língua, a arte e a literatura francesa difundia-se com maior facilidade entre os países europeus e eram transmitidos à jovem pupila pela sua preceptora. Foi através de Babette que a princesa adquiriu um primeiro amor pelo conhecimento. Anos depois, quando já era czarina da Rússia, Catarina se recordaria dela em sua correspondência com Diderot e Voltaire como uma professora “paciente, amável, alegre e cativante”, dotada dos “mais elevados predicados do espírito” (apud MICHAEL DE KENT, 2011, p. 19).

Sem dúvidas, Babette Cardel foi uma substituta materna muito bem-vinda nas afeições da jovem Sofia, lhe dando a atenção e o carinho que Joana dispensava apenas a Guilherme. A falta de afinidade com mãe consequentemente fez com que a menina se identificasse mais com o pai, compartilhando com ele alguns traços do caráter, como a firmeza e a austeridade, embora com um toque do charme e da intuitividade de Joana. Segundo nos conta a Princesa Michael de Kent,

Dotada de inteligência muito viva, Sofia era bem-humorada, engenhosa, expansiva, de boa compleição física e ousadia de espírito, revelando, ao mesmo tempo, inato amor ao saber e avidez pelo conhecimento. Apesar de sua constituição um tanto avantajada, tinha um porte ereto, o que fazia com que parecesse mais alta. Era por excelência graciosa, naturalmente afável. Usava cabeleira castanho-escuro, algo que realçava bastante os seus olhos azuis e o característico sorriso, que uma perfeita arcada dentária complementava com grande vantagem. Numa formulação sabiamente concisa (expressa quando jovem), Sofia assim resumia o seu perfil: “Mesmo não sendo bela, eu era de natureza aprazível” (2011, p. 19).

Sofia possuía uma curiosidade bastante incomum para uma criança da sua idade. Suas aulas preferidas eram as de História e Religião, ministradas por Her Wagner, um pastor do Exército que era bastante severo nas suas práticas de ensino e castigava a princesa quando ela errava alguma questão. Enquanto o professor citava capítulos e versículos para responder às muitas perguntas de sua aluna, Sofia saia em defesa dos filósofos da antiguidade, como Platão, Sócrates e Aristóteles. Questionava tudo, desde a criação do mundo até temas mais triviais: “Se Deus é bom, como pode impor o Julgamento Final à espécie humana?”, ou “O que é circuncisão?” (apud McGUIRE, 1988, p. 20). Babette, por sua vez, repreendia a pequena, dizendo que não era apropriado para uma garota expressar uma opinião diversa da de uma pessoa mais velha como Her Wagner.

Retrato de Sofia já como grã-duquesa Catarina Alexeievna, por Louis Caravaque (1745).

Retrato de Sofia já como grã-duquesa Catarina Alexeievna, por Louis Caravaque (1745).

Certamente, essa foi a única lição que Sofia não conseguiu/aceitou aprender. Aos 8 anos de idade, ela fez sua primeira viagem a Berlin. Joana pretendia apresenta-la à sociedade, com a intenção de arrumar um bom casamento para a filha. Ali ela se encontrou com o rei da Prússia, que ficou encantado com a sagacidade e espontaneidade daquela criança. Entre os seus espectadores estava o príncipe Frederico, que mais tarde se reencontraria com ela numa situação bem diferente. Foi numa dessas viagens que ela conheceu também Carlos Pedro Ulrich, o jovem órfão duque de Holstein, último neto vivo do czar Pedro I, o Grande, e herdeiro do trono da Suécia. Das Memórias de Catarina II temos uma interessante reminiscência desse primeiro encontro: “Eu sabia que algum dia ele seria rei da Suécia e, embora eu ainda fosse uma criança, o título de rainha soava docemente aos meus ouvidos”. A princesa havia então vislumbrado um futuro brilhante para si, ao lado daquele rapaz enfermiço e de compleição delicada. “Desde então, as pessoas me faziam gracejos a respeito dele e gradualmente me acostumei a pensar que estava destinada a ser sua esposa” (apud MASSIE, 2012, p. 28). Como os próximos eventos mostrariam, o pensamento de Sofia quanto ao seu destino ia muito além da mera intuição.

Leia a segunda parte, clicando aqui!

Referências Bibliográficas:

ERICKSON, Carolly. Catalina la grande. Tradução de Nora Watson. 2ª ed. Buenos Aires: El Ateneo, 2014.

MASSIE, Robert K. Catarina, a Grande: retrato de uma mulher. Tradução de Ângela Lobo de Andrade. – Rio de Janeiro: Rocco, 2012.

MICHAEL DE KENT, Princesa. Catarina a Grande. In: Coroadas em terras distantes: triunfo, tragédia, paixão e poder na vida de oito princesas europeias. Tradução de Maria João Batalha Reis. – São Paulo: Ambientes & Costumes, 2011, p. 17-59.

McGUIRE, Leslie. Catarina a Grande. Tradução de Edy Gonçalves de Oliveira. – São Paulo: Nova Cultural, 1988.

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3 comentários sobre “Sofia Frederica Augusta: a princesa germânica que se tornou a mulher mais poderosa da Rússia – Parte I

  1. Que saudades que eu estava desse blog! Excelente texto, como sempre! Adorei saber mais sobre a infância dessa grande mulher. Esse comportamento dela procurar afeto em outras pessoas, como dito no texto é um claro reflexo da falta do amor materno… é de cortar o coração. Espero que se sucedam mais textos sobre a Catarina ♥

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