Uma Habsburgo nos trópicos: a chegada da princesa real Carolina Leopoldina ao Brasil

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 15 de agosto de 1817, a fragata D. João VI deixava o porto de Livorno, na Itália, trazendo consigo uma ilustre passageira, cujo destino se ligara ao da família real portuguesa, instalada desde 1808 no Brasil. Ela estava muito ansiosa para conhecer seu marido, o príncipe D. Pedro, com quem se casara por procuração em 13 de maio daquele ano. Junto com ela, partia uma bagagem composta de 42 caixas da altura de um homem, contendo seu enxoval, sua biblioteca particular, coleções e presentes para a sua nova família. Entretanto, encantava especialmente à jovem passageira a perspectiva de conhecer um país de natureza exuberante, com uma fauna e flora das quais ela só ouvira falar, além dos índios nativos que habitavam suas matas de florestas densas. Sem dúvida, o Brasil se afigurava para aquela moça de 20 anos como um verdadeiro parque temático, repleto de aventuras e mistérios ávidos por serem descobertos. A personagem da qual estou me referindo, caro leitor e leitora, é nenhuma outra que não a arquiduquesa Carolina Leopoldina da Áustria. Na ocasião de sua partida, ela só podia imaginar o que o futuro lhe reservava, mal sabendo do importante papel que viria a desempenhar naquelas terras idílicas com as quais sonhara.

Leopoldina aos 18 anos, por artista desconhecido (1815).

Leopoldina aos 18 anos, por artista desconhecido (1815).

O governo português, por sua vez, não economizara esforços para fazer com que a travessia fosse o mais confortável possível para a nova princesa real. Escrevendo à condessa Lazansky, D. Leopoldina disse que “meu apartamento no navio D. João VI compõe-se de uma sala, toda enfeitada de branco e decorada de prata, de uma galeria, adornada de veludo branco e azul com gravações douradas e prateadas, muitas poltronas e um sofá da mesma cor” (apud OBERACKER, 1973, p. 101). A passageira ainda descreve com precisão a mobília dos quartos, cuja madeira era muito bem trabalhada, enfeitada com altos e baixos relevos; constava também um piano e acima dele um retrato do príncipe D. Pedro em moldura dourada; a cama possuía 6 pés de comprimento por 41/2 de largura e sobre ela se acomodavam três colchões; haviam ainda jogos para distração e itens de costura. Tudo para tornar a longa viagem um pouco menos penosa. O resto da comitiva (composta por servidores, cientistas, artistas, diplomatas e burocratas), que seguia em outros navios, porém, não teve a mesma sorte. Eles acharam as acomodações muito sujas e com demasiado número de pessoas e animais, sobretudo cães. Para alimentar tanta gente, iam a bordo vacas, porcos e carneiros, 4 mil galinhas e centenas de patos.

Com efeito, a princesa real procurava enxergar as críticas feitas por seu séquito com mais indulgência. Fora muito bem recebida por todos e estava disposta a retribuir o acolhimento que lhe dispensara os portugueses da forma mais calorosa possível. A viagem, assim, prosseguia de forma tranquila, até que nos dias 18 e 19 foram surpreendidos por uma forte tempestade. O secretário do embaixador von Eltz, Wilhelm von Grandjean, escreveu sobre esse episódio que “o navio subia e caía permanentemente de frente para traz. Era só com esforço que a gente conseguia manter-se em pé: rostos corados empalideciam, dor de cabeça e tonteiras eram a sorte de todo mundo, e com saudade esperava-se o restabelecimento da antiga ordem” (apud OBERACKER, 1973, p. 103). De Gilbraltar, Leopoldina enviou sua primeira carta à família desde que se lançara ao mar, relatando que ficara muito enjoada e fora acometida por fortes dores de cabeça e cólicas. “Pensei que ia morrer”, contou ela em carta à sua irmã. Maria Luísa. Porém, nada disso abalara a felicidade da arquiduquesa, frente à perspectiva de em breve encontrar seu marido.

Retrato de D. Leopoldina na Ilha da Madeira, por artista desconhecido.

Retrato de D. Leopoldina na Ilha da Madeira, por artista desconhecido.

Apesar de querer procurar se mostrar sempre alegre e bem-disposta para com os portugueses, D. Leopoldina não demorou a tomar conhecimento da desconfiança que eles nutriam em relação aos estrangeiros, especialmente com as criadas alemãs da princesa. Em carta à sua antiga preceptora, a condessa Lanzansky, ela disse que “meus bravos portugueses são gente muito boa e sensata, não podem suportar, todavia, as minhas companheiras alemãs e me rodeiam todo dia, como se fossem espiões” (apud OBERACKER, 1973, p. 103). A viagem se tornava cada vez mais enfadonha e o clima entre alemães e portugueses bastante tenso. A monotonia só era quebrada por algumas tempestades desagradáveis, como a que ocorreu a caminho da Ilha da Madeira e provocou a quebra do mastro de frente do navio. Em 11 de setembro a comitiva chegou à capital, Funchal, sendo faustosamente recebidos pelas autoridades eclesiásticas e civis. Entre estrondosas salvas da fortalezas e brados de alegria da população, a princesa foi conduzida até a catedral, onde se celebrou um Te-Deum, e em seguida se recolheu ao palácio do governador, onde haveria um beija-mão para a nobreza da ilha.

Em dia 12 de setembro, D. Leopoldina enviou uma carta ao seu pai, o imperador Francisco, felicitando-o pelo dia do onomástico deste, acrescentando que escrevia aquela missiva “de uma das mais férteis terras e lindas regiões que já vi em minha vida”. Ela relata que logo após o beija-mão do dia anterior, passeou pela cidade e interior da ilha e deixou para a posteridade um retrato pitoresco da natureza local:

Parece um verdadeiro paraíso para o caminhante, e tem-se vontade de ajoelhar e admirar o Todo-Poderoso em sua onipotência; imagine, querido papai, magnólias, jambos, todas as passifloras, iúcas e goiabeiras crescem selvagens nos rochedos; além disso, milhares de plantas, que nunca vi em estufas e por cujas sementes procurei, para o seu querido terraço […]; a vinicultura é bem intensa e o vinho daqui é excelente, as uvas têm um sabor próprio (apud KANN et. al., 2006, p. 312).

No dia seguinte, 13, a comitiva partiu de Funchal e se lançou novamente ao mar. Dessa estadia de 2 dias na Ilha, restou um retrato de Leopoldina, vestida como uma verdadeira exploradora, em meio à natureza que ela tanto enalteceu na carta ao pai.

Logo, a monotonia voltou a tomar conta da viagem, dissipada em alguns momentos pelas comemorações de aniversários de membros da família real, como o do príncipe D. Pedro, em 12 de outubro, além de uma alegoria conhecida como a festa de Netuno, bastante apreciada pelos passageiros. No final de 84 dias de viagem, em 5 de novembro, a frota pôde finalmente apreciar a costa fluminense. Sendo uma mulher bastante sensível e de espírito romântico, Leopoldina não deixou de relatar à família qual foi a sua primeira impressão do novo lar, em uma carta escrita ao pai diretamente do palácio de São Cristóvão, no dia 8:

Com a ajuda divina, cheguei muito feliz e saudável no Rio de Janeiro, após uma travessia de 84 dias, da qual me despedi no penúltimo dia com uma tempestade bastante violenta; a entrada do porto é estreita e acho que nem pena nem pincel podem descrever a primeira impressão que o paradisíaco Brasil causa a qualquer estrangeiro; basta dizer-lhe que é a Suíça com o mais lindo e suave céu; na entrada da baía há três belos fortes, além de vários grupos de ilhas; ao longe vislumbram-se altíssimas montanhas cobertas por palmeiras e muitas outras espécies de árvores. Toda a frota portuguesa e as fortalezas fizeram um canhoneio tão estrondoso que quase ensurdeci (apud KANN et. al., 2006, p. 313).

O príncipe D. Pedro aos 18 anos, por Debret (1816).

O príncipe D. Pedro aos 18 anos, por Debret (1816).

Marsílio Cassotti, autor da mais recente biografia publicada sobre D. Leopoldina, diz que essa descrição foi embelezada pela rica imaginação da jovem, que nunca chegara a conhecer a Suíça. Quase uma hora depois da chegada, a família real foi conduzida de galeota até o navio D. João VI para dar as boas-vindas à princesa. O cronista Mello Moraes descreveu a cena do encontro da seguinte forma: “o rei apresentou à arquiduquesa o esposo, seu filho, que lhe entregou o presente de noivado, sendo uma caixa de ouro cheia de ricos brilhantes lapidados. Ao entregar o presente, o rei disse à arquiduquesa, sua nora: ‘são frutos da terra. Vossa Alteza vem para o pais das pedras preciosas” (apud OBERACKER, 1973, p. 110). Muito emocionada com a recepção que lhe ofereceram, Leopoldina classificou a sua família como “anjos de bondade, especialmente meu querido Pedro, que além de tudo é muito culto”. Mas qual teria sido a impressão que a princesa causara no jovem esposo? Muitos gostam de insistir na falácia de que D. Pedro teria se decepcionado com a aparência de Leopoldina. Contudo, apesar de não ser uma grande beldade, a princesa com certeza também não poderia ser considerada como feia para os padrões estéticos da época.

Conforme nos conta Carlos H. Oberacker Jr., principal biógrafo da imperatriz, “era ela, na época da chegada, uma moça agradável e, antes de mais nada, uma pessoa como D. Pedro ainda não tinha encontrado (1973, p. 111). Uma testemunha ocular do primeiro encontro do casal, a condessa Von Künburg, que acompanhou Leopoldina desde Viena, disse que “ele [D. Pedro] estava sentado em frente da nossa princesa, os olhos baixos, levantando-os furtivamente sobre ela de tempo em tempo, e ela fazia o mesmo; neste dia ela estava verdadeiramente bem”. Já o arquiduque Luís, tio de Leopoldina, através dos testemunhos dos demais membros da comitiva, relatou à Maria Luísa que “lá todo mundo a considera bonita”. Sendo assim, não há porque supor que a princesa fora um desagrado para o marido. “Com os seus vinte anos, seu cabelo de um loiro claro, sua cútis delicada, cor de rosa e fresca, seus olhos azuis e lindos, seu comportamento desembaraçado e natural, […] não podia deixar de fazer forte impressão, já pelo contraste com todas as outras damas, mesmo num jovem já tão experimentado em matéria de amor como D. Pedro” (OBERACKER, 1973, p. 111). Além disso, ela descendia de uma das casas reais mais proeminentes da Europa e seu casamento fora uma grande vitória da diplomacia portuguesa.

Desembarque da Princesa Real D. Leopoldina, segundo estudo de Jean-Baptiste Debret.

Desembarque da Princesa Real D. Leopoldina, segundo estudo de Jean-Baptiste Debret.

A primeira entrevista entre o casal fora descrita como “cordial e agradável”, uma vez que “suas maneiras e seu porte, as poucas palavras que ela pronunciava, permitiram ao rei julgar imediatamente o seu mérito”, diz-nos Celliez. No dia seguinte, a princesa finalmente desembarcou. Essa cena foi fielmente registrada pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret, onde podemos ver princesa, de vestido de seda branca, sendo conduzida pelo seu jovem esposo para uma carruagem onde já a esperavam o rei e a rainha. A cidade do Rio de Janeiro se preparava para tal evento desde que a notícia do casamento fora divulgada. Assim que a família real entrou no coche, deu-se início à celebração de recepção organizada para Leopoldina. Entre o soar dos sinos, as músicas dos militares e os gritos de uma multidão eufórica, o coche real passava embaixo de arcos alegóricos, contendo as letras P e C entrelaçadas¹. Todo esse espetáculo causou uma ótima impressão na jovem e D. João VI fez questão de revelar à nora que todos aqueles aplausos eram destinados a ela. Logo em seguida, o cortejo rumou para o Paço da Cidade, onde houve um grande banquete, e de lá partiram para São Cristóvão. Ali, o casal de príncipes finalmente pôs termo à espera de tantos meses e consumaram a união. Esse seria um dos dias mais felizes da vida de D. Leopoldina e também marcava o início da derradeira desventura de sua vida, que culminaria com a independência do Brasil, 5 anos depois.

Referências Bibliográficas:

CASSOTTI, Marsilio. A biografia íntima de Leopoldina: a imperatriz que conseguiu a independência do Brasil. Tradução de Sandra Martha Dolinsky. – São Paulo: Planeta, 2015.

KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. D. Leopoldina: cartas de uma imperatriz. – São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. – Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

Notas:

¹Nesse caso, o C faz referência a Carolina, um dos nomes de D. Leopoldina.

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