O enigma do bracelete de Maria Antonieta

Num certo dia de 1780, um vendedor ambulante de 14 anos chamado Jean-Baptiste Mellerio, expôs suas mercadorias às portas de Versalhes. Dentre os artigos a serem vendidos, podia-se encontrar algumas peças de bijuteria, confeccionadas por sua família italiana, que possuía um atelier na Rue des Lombards, Paris. Em meio às bijuterias, havia um bracelete ornamentado com sete camafeus, cada um deles representando a efígie de um imperador romano, circundada por rubis. Não mais que de repente, a carruagem da rainha da França para em frente à banca do pequeno Jean. Então, uma dama de honra desce e escolhe o referido bracelete para a sua senhora. Deslumbrado com o acontecido, o jovem volta todo contente para casa, para fazer a contagem dos lucros do dia. Nada além do esperado. Desde 1613 que, por decreto da rainha Maria de Médici, esposa do rei Henrique IV, esses artesãos da Rue des Lombards tinham autorização real para realizarem seu comércio tanto na França, quanto na corte. Esse decreto, por sua vez, foi mantido ao longo dos anos devido a um motivo bem especifico: alguns Mellerio eram “agentes secretos” a serviço da coroa.

Bracelete com sete camafeus de imperadores romanos, cravejados de rubis, que supostamente pertenceu a Maria Antonieta.

Bracelete com sete camafeus de imperadores romanos, cravejados de rubis, que supostamente pertenceu a Maria Antonieta.

Seria essa mais uma estória fantasiosa envolvendo Maria Antonieta? Talvez sim, talvez não. A Revolução destruiu as provas, exceto o famoso decreto real, conservado em Craveggia, vila de origem da família Mellerio, situada num pequeno vale no Piemonte que dá passagem à Milão. Contudo, desde o final do século XIX a estória da venda do bracelete de Jean-Baptiste a uma das damas da rainha ainda continua a circular. Em março de 1935, a joia ressurgiu numa exposição na Rue de La Paix. Fixado junto ao bracelete, uma legenda dizia que o item fora dado por Antonieta à condessa de Blaid em 1786. A baronesa de Castelbajac, descendente da condessa, emprestara a joia para a exposição.

Emilie Mellerio usando o bracelete.

Emilie Mellerio usando o bracelete.

Quarenta anos depois, o bracelete foi depositado num cofre da joalheria Mellerio, uma das mais antigas do mundo. Por quem, ninguém sabe. A confidencialidade de certos depósitos torna quase impossível reconhecer o(a) agente por trás disso. O fotógrafo da mansão conseguiu imortaliza-la através das lentes de sua câmera, antes que o imóvel fosse readquirido pelo seu antigo proprietário. Então, a Mellerio perdeu o paradeiro da peça. Até o ano passado, após o aniversário de 400 anos da joalheria, chegou-se à conclusão de uma investigação, iniciada em 2004. A gerente de comunicação da Mellerio conta que usou a ajuda da imprensa para reencontrar o artefato. Ela diz: “que eu saiba, nós somos os únicos joalheiros que serviram a Maria Antonieta e que ainda continuam ativos. No início de 2014, um homem me chamou. Ele me disse que viu a foto do bracelete num artigo da Mellerio para a ‘História’ e que possuía a joia. Sua avó paterna a adquiriu num leilão na Drouot no final da década de 1970. Ele queria vender, então nós a compramos”.

Enquanto isso, há dez anos, ajudados pelo historiador, jornalista e especialista em joias, Vincent Meylan, procurou-se identificar o(a) responsável pelo desaparecimento do bracelete. Por ser jornalista da “Point de vue”, Meylan possui muitos contatos com outras redações, que por sua vez ajudaram na busca. Mas ninguém sabia do paradeiro da joia. Conforme a gerente de comunicação, “a relação entre os Bourbon e os Mellerio sempre foi muito forte. O sobrinho de Jean-Baptiste, François Mellerio, requisitado pela Guarda Nacional durante da fase do Terror, provavelmente assistiu a execução de Maria Antonieta. Naquele dia, ele foi convocado à Conciergerie. Esse bracelete é um símbolo dessa ligação,embora nenhuma fonte registre isso”. Com efeito, algumas evidências circunstanciais indicam que esse caso não se trata de pura falácia. A rainha amava rubis e, certamente, camafeus. Alguns pontos de Paris, inclusive, vendiam joias antigas, encontradas nas cidades de Pompéia e Herculano.

O bracelete que supostamente pertenceu à Maria Antonieta.

O bracelete que supostamente pertenceu à Maria Antonieta.

Recentemente, o bracelete foi reconhecido como autêntico por um especialista de camafeus romanos. O metal encontrado na joia pertence ao século XVIII; os rubis ainda estão em análise. Emilie Melleria, membro da família de joalheiros, afirma que “o estilo da joia corresponde. Como Maria Antonieta oferecia presentes aos seus assistentes, uma pesquisa genealógica traçou um parentesco entre a condessa de Bladis e a baronesa de Castelbajac. Mas o nosso maior desejo seria encontrar alguma carta nos seus arquivos que faria menção à joia. Então finalmente teríamos certeza de que o bracelete pertenceu à rainha”. Até lá, o enigma ainda continua…

 Fonte: Paris Match

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