Entre reis e rebeldes: a Revolução Francesa e os seus inesquecíveis personagens!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A Revolução Francesa é um dos momentos mais simbólicos da história ocidental. Com ela, finaliza-se a Idade Moderna, marcada pelas monarquias absolutistas, e adentramos na Idade Contemporânea. Contudo, tão popular quanto a Revolução em si, são as figuras que, graças a ela, se tornaram inesquecíveis: o rei vacilante, a rainha gastadeira, o general, o incorruptível, o pintor e o imperador. O que não faltam são estereótipos para definir os principais nomes envolvidos nesse processo de transformação social, que mudou a forma de se fazer política no mundo contemporâneo. Mas, por trás dos epítetos, existem pessoas com histórias marcadas por lutas, conquistas, perdas, e principalmente, por morte. Nesse caso, é preciso desconstruir tais estereótipos, para identificar os indivíduos de carne e osso e trazer à luz seus sentimentos, angústias e incertezas. A Revolução Francesa apresenta um rico painel de personalidades que até hoje fazem ferver o imaginário popular. Voltemos agora para uma breve análise do perfil de algumas delas.

O primeiro dos personagens analisado deveria ser próprio rei, Luís XVI, tido por muitos como um monarca vacilante. Entretanto, para início de conversa, talvez seja mais interessante começar pela figura de Maria Antonieta, já que ela era considerada pelos revolucionários como a responsável pelas péssimas resoluções tomadas pelo seu esposo. Em via de regra, o casamento entre os soberanos foi mal visto desde o início, pois representava uma união política entre duas potências cujas hostilidades remontavam há séculos: França e o Sacro Império. Por muitos anos, Antonieta negligenciou suas obrigações como rainha em prol de uma vida de divertimentos. O marido, por sua vez, financiava as extravagâncias da consorte para mantê-la longe de assuntos políticos, visto que desde cedo seus tutores o influenciaram a acreditar que ela, por ser austríaca, se constituía numa péssima influência para o governo. Só mais tarde, quando a Revolução ameaçou solapar a monarquia e o rei se entregou a um estado de euforia, foi que a rainha tomou maior consciência de suas responsabilidades. Mas nem o tempo ou os humores da população estavam a favor da mesma.

Luís XVI e Maria Antonieta como rei e rainha da França!

Com efeito, Maria Antonieta era taxada pelos franceses com uma série de apelidos, entre eles o de Madame Déficit, Messalina, Madame Veto, entre outros (depois que Luís XVI morreu, chamavam-na de Viúva Capeto). A imprensa do período fazia circular inúmeros panfletos em que ela liderava uma grande orgia de cortesãos no palácio de Versalhes, com Luís XVI interpretando o papel de idiota. Os súditos, inicialmente, tinham algum respeito pelo monarca, mas acreditavam que ele era mal aconselhado pelos seus ministros e pela esposa. Mesmo após a queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, e a posterior transferência da família real para Paris, a população não poupava gritos de “Viva ao Rei”, para seu soberano. Contudo, o carinho que Luís inspirava junto ao povo estava destinado a acabar: após a desastrosa fuga para Varennes, em 21 de junho de 1791, os franceses se sentiram traídos por seus soberanos e a ideia republicana cresceu. Essa situação piorou após a descoberta de documentos comprometedores, nos quais o monarca negociava com as potências estrangeiras a invasão da França e a restituição dos Bourbon ao trono.

Mais uma vez, Maria Antonieta foi acusada de influenciar o rei a tomar tais medidas, o que era verdade até certo ponto. Porém, os revolucionários não possuíam provas de sua culpa. Estas só apareceriam muitos anos depois nos arquivos austríacos, espanhóis e suecos. É possível dizer também que Luís XVI e sua esposa não estavam preparados, ou não queriam aceitar, os rumos que a política francesa estava tomando. Stefan Zweig (1981), autor de uma biografia psicanalítica da última rainha da França, afirma que foi devido à grave situação pela qual passavam, que o casal de monarcas tiveram que adotar uma postura estoica, para enfrentar os perigos a que estavam expostos, vindos de uma população cada vez menos paciente. Um traço curioso do caráter do Rei é que em muitas ocasiões ele afirmara que não gostava da arte de governar. Preferia muito mais se dedicar aos livros, à caça e às atividades de ferreiro do que às sessões com os ministros. Apaixonado pela França e pelo povo, em uma ocasião ele chegou inclusive a colocar o barrete frígio na cabeça, para a exaltação dos parisienses.

Lafayette, Robespierre e Danton

O general Lafayette, Robespierre e Danton.

Outro personagem que gozava de grande estima por parte da população era o Marquês de Lafayette, general que lutou na guerra de independência americana e que foi nomeado chefe da Guarda Nacional após a eclosão da Revolução. Ressentido do pouco reconhecimento dado pelo Rei e a Rainha aos seus esforços nos Estados Unidos, Lafayette não tardou em passar para o lado dos revolucionários, embora, como o tempo irá provar, jamais tenha deixado de manter convicções monarquistas. O tratamento cortês que este distribuía aos soberanos acabou por inflamar suspeitas entre a população, agravadas pela sua falta de controle nos levantes populares e com as tropas. O Marquês bem poderia ser considerado um dos grandes heróis do período, mas suas atitudes acabaram por traí-lo, pois fora capturado pelo exército austríaco enquanto tentava fugir do país. Quando houve a restauração dos Bourbons em 1815, ele manteve uma boa posição ao lado do novo rei (Luís XVIII, irmão de Luís XVI) e viveu o fim de seus dias de forma tranquila e glorificado pelos seus feitos militares na América.

Entretanto, seria quase impossível escrever sobre a Revolução Francesa sem deixar de mencionar os nomes de Robespierre, Marat e Danton, as três mentes eloquentes do período. Na opinião de Eric Hobsbawm:

Quando o leigo instruído pensa na Revolução Francesa, são os acontecimentos de 1789, mas especialmente a República Jacobina no ano II, que vêm à sua mente. O empertigado Robespierre, o gigantesco e dissoluto Danton, a gélida elegância revolucionária de Saint-Just, o gordo Marat, o Comitê da Salvação Pública, o tribunal revolucionário e a guilhotina são as imagens que vemos mais claramente. Os próprios nomes dos revolucionários moderados que surgem entre Mirabeau e Lafayette (1789) e os líderes jacobinos (1793) desaparecem da memória de todos, exceto dos historiadores (2013, p. 119).

Conhecido como o “incorruptível”, Robespierre esteve no centro do conflito até sua morte na guilhotina, em 1794. Liderara a fase mais radical da Revolução, conhecida como o “Terror”, quando foram decapitados tanto Luís XVI quanto Maria Antonieta. Porém, é possível identificar entre as medidas políticas de Robespierre não apenas atitudes consideradas extremas (a exemplo da execução do casal de soberanos e de seus colegas revolucionários), como também a abolição da escravidão nas colônias francesas, o fim dos privilégios feudais, a imposição de limites para os preços dos alimentos, direito ao ensino gratuito e obrigatório, a criação do museu do Louvre, entre outras coisas. Mas sua campanha sanguinária receberia fortes opositores, entre eles Danton, também condenado à guilhotina sob acusação de conspiração, o que provocou o rompimento do partido dos sans-culottes com os jacobinos. Assim como Robespierre, Danton era um advogado que aderira à Revolução desde sua eclosão. Fora membro da “Sociedade dos Amigos da Constituição” (órgão que deu origem ao partido jacobino), além de integrar a Comissão Pública e depois foi nomeado chefe do Comitê de Salvação Pública. Sua morte na guilhotina, entretanto, fora um dos fatores mais importantes para que a popularidade de Robespierre declinasse.

Marat e David

A morte de Mara, pintada por Jacques-Louis David e o autorretrato do artista ao lado.

Todavia, mais interessante que a figura de Robespierre ou Danton, talvez seja a de Jean-Paul Marat, “o amigo do povo”, o primeiro grande mártir dos revolucionários, assassinado com uma punhalada no coração enquanto tomava banho. Famoso por seu radicalismo jornalístico, Marat era médico, filósofo, teórico político e cientista. Gozava de grande estima entre a população, especialmente pelos seus discursos calorosos, onde acusava o despotismo e a tirania da monarquia. Fora também o principal elo entre os franceses e o partido jacobino. Acredita-se que Robespierre se ressentia da popularidade do companheiro, que só aumentou após a morte do mesmo. Nesse caso, para reacender os ânimos da população, o “incorruptível” lembrou-se que a viúva do antigo rei ainda estava viva. E que melhor espetáculo para o povo da França do que observar a execução de uma mulher a quem culpavam por todos os males do país? Não obstante, mesmo após a decapitação de Maria Antonieta em 16 de outubro de 1793, o controle da situação ameaçava fugir das mãos e Robespierre e logo se aproximaria o dia em que o próprio subiria ao patíbulo, sendo a última vítima do terror que ele mesmo provocara.

Sem o apoio da população, ele e seus aliados foram guilhotinados devido à tomada do poder pelo Pântano, facção da alta burguesia financeira, no episódio conhecido como Termidor. Por outro lado, embora tenha se emancipando dos entraves feudais, a sociedade burguesa ainda seria perturbada ora por levantes populares, ora por tentativas de restabelecimento da monarquia. Para completar o quadro, em 1798 era formada a Segunda Coligação europeia antifrancesa. É nesse clima que surge um dos personagens mais icônicos da Revolução: Napoleão Bonaparte, que chegou ao poder com a ajuda dos girondinos através do golpe conhecido como 18 Brumário. Ainda de acordo com Hobsbawm:

Durante a Revolução, e especialmente sob a ditadura jacobina que ele apoiou firmemente, [Napoleão] foi reconhecido por um emissário local em um front de suma importância – por casualidade, um patrício de Córsega, fato que dificilmente pode ter abalado suas intenções – como um soldado de dons esplêndidos e muito promissor. O ano II fez dele um general. Sobreviveu à queda de Robespierre, e um do para o cultivo de ligações úteis em Paris ajudou-o em sua escalada após este momento difícil. Agarrou a sua chance na campanha italiana de 1796, que fez dele o inquestionado primeiro aliado da República, que agia virtualmente independente das autoridades civis. O poder foi metade atirado sobre seus ombros e metade agarrado por ele quando as invasões estrangeiras de 1799 revelaram a fraqueza do Diretório e a sua indispensabilidade. Tornou-se primeiro cônsul, depois cônsul vitalício e Imperador (2013, p. 129).

Autointitulado de “filho da Revolução”, Napoleão, juntamente com Maria Antonieta, foi reconhecido como o personagem mais ilustre de toda a extensão da história francesa. Gênio militar por natureza, suas táticas de guerra eram amplamente temidas pelos seus adversários. Depois de ter sido nomeado primeiro Cônsul, em 1804, aos 35 anos de idade ele se proclamou imperador e “herdeiro de Carlos Magno”. Em 1807 estava no auge de seu poder, mas após uma campanha mal sucedida na Rússia, que acabou por minar parte considerável de suas tropas, ele capitulou na batalha de Waterloo, em 1815. É particularmente interessante o comentário que o escritor François René de Chateaubriand faz de Napoleão, ao defini-lo como “o mais poderoso sopro de vida humana que já tinha passado pela face da Terra”.

Jacques-Louis David - The Coronation of Napoleon (1805-1807).jpg

A coroação de Napoleão, por Jacques-Louis David.

Destarte, para além de personagens como reis e rainhas, generais e revolucionários, o que seria da Revolução Francesa sem os olhares atentos de Jacques-Louis David para retratar cada acontecimento importante da mesma, desde a cena da morte de Marat à autocoroação de Napoleão? O pincel de David acompanhou cada fase do conflito, primeiro trabalhando para a nobreza, depois para os revolucionários, passando pelo Império e encerrando sua carreira com a monarquia constitucional, a serviço de Luís XVIII. Devemos a ele também o último esboço de Maria Antonieta sendo transportada à guilhotina, mas a figura do pintor ainda continua pouco digna de atenção pela maioria dos pesquisadores. Dessa forma torna-se necessário desenterrar a sua importante participação nessa fase tão marcante para a história ocidental, assim como a da dramaturga e revolucionária Olympe Gounges, autora da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, na qual professava a equidade legal e política entre os ambos os sexos. Decapitada durante o processo revolucionário, Olympe é uma das vozes femininas mais interessantes da Revolução e sua militância merece ser reconhecida no mesmo rol de popularidade dos personagens que foram até aqui descritos.

Referências Bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções: 1789-1848 – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

MELLO, Leonel Itaussu Almeida; COSTA, Luís César Amad. Revolução Francesa. In: História moderna e contemporânea. 5ª edição. São Paulo, 2001.

PRICE, Munro. A queda da monarquia francesa. – Rio de Janeiro: Record, 2007.

ZWEIG, Stefan. Maria Antonieta. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

6 comentários sobre “Entre reis e rebeldes: a Revolução Francesa e os seus inesquecíveis personagens!

  1. A análise feita é de grande relevância para a desmistificação desse período tão marcante, fomentando uma reflexão crítica nos leitores acerca dos personagens integrantes desse contexto, o que torna a História não apenas um palco de feitos heroicos, mas mostra a face real dos acontecimentos, com suas personalidades excêntricas, suas tensões político-sociais e com a própria subversão do conceito de revolução, o qual, muitas vezes, contribuiu para a perpetuação de uma mesma lógica exploratória, só que encabeçada por grupos distintos. Parabéns pelo excelente trabalho e espero ver outras dessas elucidações, como em relação aos personagens da Revolução Russa…

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  2. A análise feita é de grande relevância para a desmistificação desse processo, fomentando uma reflexão crítica nos leitores acerca dos personagens inseridos nesse contexto tão marcante na História mundial, o que auxilia a entender a historicidade como um aspecto que não traz à luz apenas feitos heroicos, mas sim que nos mostra a face real de determinados acontecimentos, com suas personalidades excêntricas, seus jogos ideológicos, suas tensões político-sociais, além da própria subversão do conceito de revolução, o qual contribuiu para a perpetuação de uma mesma lógica tirânica e exploratória, só que encabeçada por grupos distintos. Parabéns pelo excelente trabalho e espero ver outros cada vez mais enfáticos, principalmente, em relação aos personagens da Revolução Russa…

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