A despreocupada infância de Mary Stuart na França

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 18 de Agosto de 1548, Mary Stuart, rainha praticamente desde o seu nascimento, pisava em terra depois de aproximadamente um mês de viagem marítima contornando o norte da Escócia, em meio a tempestades e temores de uma investida inglesa. Entretanto, apesar de ter apenas seis anos incompletos, a pequena monarca já demonstrava sua força em tenra idade, pois nas palavras do comandante francês Brézé, ela sentira “menos enjôo no mar do que qualquer outro de seu grupo, tanto assim que zombou dos que adoeceram” (apud DUNN, 2004, pag. 118). Para uma criança enérgica e entusiasmada como Mary, aquela travessa era apenas mais uma aventura. Mal sabia ela que no momento em que fora coroada, tornara-se a menina/mulher mais cobiçada de toda a Europa. Os franceses, por sua vez, tinham plena consciência do status da garota, não só por ser soberana de uma nação independente, como também noiva de um delfim. Não obstante, seus direitos à coroa inglesa eram inquestionáveis, uma vez que era neta de Margaret Tudor, filha mais velha do rei Henrique VII da Inglaterra.

Desse modo, seria errado supor que no momento em que o tratado de casamento entre Mary Stuart e o delfim Francisco fora assinado em 7 de Julho de 1548, já estaria Henrique II de olho nos direitos da pequena criança? É claro que não! E o tempo mostraria o quanto que aquele rei Valois era munido por uma grandiosa ambição. Por hora, ele havia decretado que La reinette deveria ser saudada por todos os cantos onde sua comitiva passasse tal qual uma própria filha da França¹. De acordo com Stefan Zweig,

“Não só em todas as esquinas se colocam arcos com emblemas clássicos, deusas, ninfas e sereias, não só o humor da comitiva é estimulado por alguns barris de precioso vinho, não só fogos de artifício são queimados e salvas de artilharia são dadas em sua honra – também um exército liliputiano de cento e cinquenta crianças, todas menores de oito anos, vestidas de branco, marcham, exultantes, na frente da pequena rainha, constituindo uma espécie de regimento de honra, com assobios e tambores, com pequenas lanças e alabardas” (ZWEIG, 1942, pag. 23).

Henrique II, rei da França, por François Clouet.

Henrique II, rei da França, por François Clouet.

Sendo assim, ficara claro que Henrique II, apesar do déficit nos cofres públicos, desejava dar uma amostra do esplendor que aquela corte ainda podia representar perante os países vizinhos. Não fora economizado nenhuma celebração em homenagem àquela pequena rainha, que vinha juntar ao reino da França a coroa da Escócia.

A beleza de Mary, naqueles anos, já fora descrita por muitos observadores: em 1 de novembro daquele ano, o mesmo comandante Bréze, por exemplo, havia dito a Marie de Guise que o rei “vai achá-la muito simpática e gostar tanto dela quanto todos os que a virem e a acharem bonita e com uma viva inteligência” (apud DUNN, 2004, pag. 118). Como na época da chegada da pequena delfina Henrique II estava fora, em viagem cerimonial pelo reino, ela não fora saudada pelo mesmo, exceto pelos membros na família real. Contudo, quando teve a oportunidade de contemplar o aspecto físico da menina, ele a qualificaria numa carta como la plus parfayt enfant que jê vys jamés². O estado de êxtase do soberano fora tamanho, que a própria avó de Mary Stuart, Antoinette (duquesa de Guise), acreditava que se ela e o Delfin já fossem maiores de idade, o rei já os teria casado imediatamente, visto que a achava a “mais bonita e graciosa princesa” que um dia já vira.

Porém, à parte os elogios à beleza de Mary Stuart, sua educação ainda deixava muito a desejar, pelo menos na concepção dos franceses. Embora as relações amistosas entre Escócia e França já tivessem uma história de longa data, este último sempre considerou aquele país como bárbaro, tanto de clima, como também de terreno e inclusive no caráter de seu povo. Apesar de os modos e costumes de Mary oferecerem um grande contraste para com os de seu reino, parece que ela chegara falando nada mais além do escocês. Então, uma das primeiras medidas de Henrique II foi afastá-la de sua comitiva, composta de pessoas consideradas brutas, para assim dar início ao processo de “afrancesamento” da jovem. Logo, ela estaria aplicada na língua de sua pátria de adoção e inteirada das maneiras da corte, tendo como preceptores os mesmos dos filhos do rei, assim como os seus próprios parentes da família Guise: a já mencionada avó Antoinette, e seus tios, o Duque de Guise e o Cardeal de Lorena.

Mary Stuart 01

Mary Stuart aos 12 anos, por François Clouet (1555).

Em meados do século XVI, a corte de França era a mais magnífica de toda a Europa. Desde os tempos de Francisco I, o renascimento adentrara com todo o seu esplendor naquele território, com suas obras de arte e arquitetura rebuscada (algo até então praticamente desconhecido na Escócia). “Da maneira mais natural e mais franca do que em qualquer outra parte do espírito francês, casa-se o temperamento com a agilidade, a ‘chevalerie’ gaulesa une-se admiravelmente com a cultura clássica da Renascença” (ZWEIG, 1942, pag. 24). A corte de Henrique II, entretanto, fervilhava com as suas próprias facções e intrigas, de modo que uma donzela deveria estar atenta a qualquer deslize que pudesse vir a manchar sua própria reputação. A figura mais importante desse universo era a do próprio rei, em cuja glorificação todos os súditos deveriam estar devotados. Havia uma imensa quantidade de pajens e criados, distribuídos entre as mais variadas tarefas, especialmente nas temporadas em que a família real e a nobreza migravam de residências. Entre elas, talvez o palácio de Fontainebleau fosse o preferido de Mary Stuart, devido à sua riqueza visual e diversidade cultural.

Todavia, as maiores influências no caráter da delfina não se encontrariam dentro do público masculino. Exceto pelos seus tios, todos os homens com que Mary estava intimamente ligada eram dominados por outra força: o pai sequer conhecera, devido à morte do mesmo quando ainda era uma criança recém-nascida; o delfim Francisco, seu futuro marido, com quem mantinha excelentes relações, era de compleição frágil e suscetível a enfermidades; já o rei, este era quase que um fantoche na mão de Diana de Poitiers, a reconhecida amante real. Juntamente com a rainha Catarina de Médicis, Diana seria um dos grandes exemplos de determinação feminina que aquela jovem guardaria para sempre na memória. Como pouco conviveu com Marie de Guise, Mary quase nada sabia do imenso esforço que esta fazia para manter o reino da Escócia conservado para a filha. A única vez em que mãe e a garota se reencontraram, após a partida da pequena rainha, foi em Setembro de 1550, quando Marie viajou para a França e lá permaneceu por mais de um ano, extraindo de Henrique II o apoio militar francês à sua regência.

Catherine de Medici and Diane de Poitiers

As duas mulheres que mais influenciaram no caráter de Mary Stuart: a rainha Catarina de Médicis (esquerda) e a amante do rei, Diana de Poitiers (direita).

Na época da partida da viúva de Jaime V, Mary já contava com quase 10 anos e havia se tornado tão encantadora em quase tudo o que fazia, a ponto de arrancar elogios das mais diversas fontes. Diana de Poitiers, por exemplo, seria uma das maiores admiradoras da jovem, conquistando a confiança e o carinho da mesma. Em carta a Marie de Guise, Diana se comprometia a dar todo o seu cuidado materno à filha desta, ao dizer: “Quanto ao que se refere à rainha, sua filha, eu me esforçarei para ser-lhe mais útil do que à minha própria filha, pois ela o merece mais” (apud DUNN, 2004, pag. 123). Tal demonstração de recíproca afeição, contudo, deve em muito ter despertado os ciúmes de Catarina de Médicis, que apenas com resignação é que conseguia suportar a presença da amante de seu marido. Só após a morte de Henrique II, em 1559, é que esta mulher despacharia de uma vez por todas a sombra da maîtresse da corte. Através do controle de seus filhos, nos anos vindouros Catarina se mostraria uma estadista máxima, rivalizando em poder e influência inclusive com a própria Elizabeth I, uma das maiores monarcas de que a História tem registro.

Charles, Cardeal de Lorena e tio de Mary Stuart (desenho de François Clouet).

Charles, Cardeal de Lorena e tio de Mary Stuart (desenho de François Clouet).

Ao contrário da prima, que recebera uma educação mais que preparatória para o trono que um dia viria a ocupar, a instrução que Mary Stuart recebera qualificava-a mais para o papel de uma rainha consorte do que de uma rainha reinante. Segundo Stefan Zweig, em seus anos felizes na França ela jamais teria percebido a imensa força de espírito que possuía quando confrontada por uma situação perigosa. Apenas depois de seu regresso para a Escócia, em 1561, é que Mary poderia sentir na flor da pele todos os dissabores e tensões pelos quais Marie de Guise enfrentou a fim de lhe manter a coroa. Tal impetuosidade, porém, seria mais um reflexo da influência que Catarina de Médicis e Diana de Poitiers exerceu sobre sua maneira de proceder. Desta última, a Delfina obteria o charme e especial talento para conquistar todos os que estivessem à sua volta, com seus modos coquetes e demais atributos, entre eles o dom para a música e a paixão por cavalos e caçadas.

Não obstante, Mary aprendera um pouco de italiano, além de ser fluente no latim, fato que pode ser comprovado pelos seus cadernos de exercícios que ainda se encontram preservados, nos quais copiava e traduzia temas geralmente ligados à cultura clássica, para assim amplificar seus horizontes filosóficos. Seu tio, o cardeal de Lorena, ficara tão impressionado com o progresso da sobrinha, que em 1553 escrevera a seguinte carta para a mãe da mesma:

Ela cresceu tanto e cresce diariamente em altura, bondade, beleza e virtude, que se tornou a mais perfeita e realizada pessoa em todas as coisas honestas e virtuosas possíveis de imaginar (…). Posso garantir-lhe que o Rei está muito encantado com sua consorte, que passa um grande tempo conversando com ela, e durante uma hora juntos sua filha o diverte com uma conversa sábia e inteligente, como se fosse uma mulher de 25 anos (apud DUNN, 2004, pag. 130).

Cercada de tanta adulação por parte dos adultos, seria natural, então, que aquela criança de 11 anos acreditasse que era a princesa mais afortunada da terra. Com efeito, Henrique II havia lhe dado status preeminente, de modo que em ocasiões oficiais, ela teria precedência sobre as próprias filhas dele. Levaram-na a acreditar que era um prodígio precoce e de irresistível beleza. Desse modo, Mary Stuart criara para si uma consciência e orgulho de sua realeza que, por sua vez, carregaria pelo resto de sua vida. Infelizmente, tal ideia de si mesma provar-se-ia catastrófica nos terríveis anos de desafio que ainda estavam por vir.

Referências Bibliográficas:

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. – Rio de Janeiro: Record: 2004.

STEPANEK, Sally. Os Grandes Líderes: Maria Stuart. Tradução de José Carlos Barbosa dos Santos. – São Paulo: Nova Cultural, 1988.

ZWEIG, Stefan. Maria Stuart. Tradução de Odillon Gillotti. – Rio de Janeiro: Guanabara, 1942. pp. 376.


¹ Era assim que eram chamados os filhos de um rei da França.

² Tradução: A mais perfeita infanta que jamais vi.

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5 comentários sobre “A despreocupada infância de Mary Stuart na França

    • Para a época era considerada uma bela mulher. Era muito alto, cabelo acobreado, testa inteligente, pele bem alva, perfeita de formas; sua aparência exercia fascínio em quase todos!

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