Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte III

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Parte III – Uma simples dama da corte contra a grande princesa de Castela.

Ana Bolena, por John Hoskins.

Não se sabe ao certo quando Henrique VIII começou a questionar a validade do casamento com sua consorte, e ambicionou contrair matrimônio com a jovem filha de Thomas Bolena. A princípio, sua intensão era torná-la sua amante, tal como fizera com a irmã da mesma, Maria. Todavia, Ana era mais determinada, e não queria comprometer sua virtude sem a certeza de que poderia sair desse relacionamento com a reputação ilesa. Por outro lado, não tinha como barrar as investidas do rei, encantado por aquela mulher de aparência tão díspar e de energia tão cativante que lhe traria o conforto que não mais encontrava nos braços da esposa de 40 anos. Provavelmente, pelo idos do carnaval de 1526, o rei já se tinha deixado enamora pela dama em questão; em abril do ano seguinte, estava claro que queria uma anulação do seu casamento com Catarina de Aragão, pois foi quando se deu início às primeiras reuniões para avaliar a validade do matrimônio entre o oitavo Henrique e a caçula dos reis católicos, que, em dezoito anos de casamento, não lhe dera filhos homens saudáveis, exceto uma garota de compleição debilitada.

A determinação do rei em conquistar mademoiselle boullan está bem documentada pelas apaixonadas cartas que este lhe escreveu, onde demonstra uma jovialidade e interesse pouco comuns para um rei de 35 anos. Ao todo, existem 17 dessas correspondências, arquivadas por meios misteriosos na Biblioteca do Vaticano¹. Nenhuma delas, porém, está datada, mas algumas referências internas ajudam a coloca-las numa espécie de ordem. Em tais missivas, podemos perceber o sangue e o amor do autor, quando ele diz:

“Revolvendo no meu pensamento o conteúdo das vossas últimas cartas, eu me acho nos tormentos mais dolorosos, não sabendo se elas me são desfavoráveis, como compreendo em muitos pontos, ou favoráveis, como me parecem em alguns outros; eu vos suplico agora, com o mais intenso ardor, que me façais conhecer inteiramente as vossas intenções, pelo que respeita ao amor entre nós dois”. (HENRIQUE VIII, apud HACKETT, 1950, pag. 183).

Henrique VIII, pintado por volta de 1526-1527, por lucas Horenbout.

A partir deste trecho percebemos como Ana ainda tentava recusar as investidas do rei. Porém, a insistência do mesmo a deixava sem saída. Em determinado momento, ela deve ter percebido que garantir a atenção do monarca poderia lhe garantir muitos benefícios, além de ser o caminho mais certeiro para conseguir vingar-se do Cardeal Wolsey, que, em sua concepção, destruíra seus sonhos de se casar com Henry Percy.

Muitas das cartas de Henrique para Ana eram escritas em francês, haja vista que todos dois dominavam esse idioma, enquanto que a maioria dos palacianos não. Isso, por sua vez, ajudava a manter o conteúdo de tais correspondências em segredo. Em outras delas, o escritor já demonstra mais felicidade e segurança quanto à afeição que a amada lhe tinha, quando agradece por um presente que esta o havia lhe enviado (um pingente com uma donzela navegando dentro de um barco num mar revoltoso), dizendo também que:

“… As vossas demonstrações afetuosas são tais, os delicados pensamentos da vossa carta são expressos tão cordialmente que me obrigam para sempre a honrar-vos, amar-vos e servir-vos sinceramente, suplicando-vos que persistais com firmeza e constância no vosso sentimento; e asseguro-vos que, de minha parte, não só vos corresponderei, mas, se possível, vos superarei e plena lealdade de coração…” (HENRIQUE VIII, apud HACKETT, 1950, pag. 184).

Curiosamente não sobraram quaisquer respostas de Ana a essas cartas do rei, talvez porque ele mesmo as destruiu a fim de preservar o segredo de seu relacionamento com ela. Entretanto, logo todas as cortes da Europa saberiam que Henrique VIII de Inglaterra desejava anular seu casamento com uma esposa estéril (lembremos que o divórcio não era permitido pelas leis bíblicas) e se casar com uma mulher mais jovem. Wolsey tencionava arrumar-lhe como noiva a princesa Renata da França, mas seu senhor já tinha a candidata que considerava ideal, em vista.

Uma das cartas de amor que Henrique VIII escreveu a Ana Bolena.

No entanto, as circunstâncias não eram tão favoráveis como Henrique imaginava. “Por mais de trinta anos os franceses e uma sucessão de inimigos (mais recentemente os Habsburgos) vinham lutando pelo domínio da Itália. Em maio de 1527 essa situação atingiu um clímax quando as tropas do Imperador Carlos V saquearam a cidade de Roma. Por muitos meses o Papa Clemente VII ficou como prisioneiro em sua própria cidade e depois em um paupérrimo refúgio”². Enquanto isso, Wolsey tentava junto aos cardeais franceses estabelecer uma espécie de papado provisório até que o vigário de Cristo fosse solto e readmitido em seu posto. Porém, as medidas do chanceler malograram, para desagrado do rei e de sua Lady. Em verdade, uma série de outras questões contribuiu para o que ficou conhecido como “o grande caso do rei” não apresentasse uma solução rápida e fácil. Em grande parte, isso se deveu às pretensões de uma mulher determinada a continuar no lugar que na sua convicção Deus lhe destinara, dispondo para tanto de todo seu poder e influência na tentativa de assegurar a herança de sua preciosa filha, e a impedir que a prostituta Bolena, a quem se referira anos mais tarde como o escândalo da cristandade, se tornasse rainha da Inglaterra.

Notas:

¹ Em nota de rodapé de seu livro As seis mulher de Henrique VIII, Antonia Fraser diz-nos que “são várias as teorias sobre a maneira pela qual as cartas do rei chegaram a Roma: talvez um espião papal as tenha roubado em 1529, já que não parece que o legado papal, cardeal Campeggio, tentasse contrabandeá-las, como certa vez foi sugerido” (FRASER, 2010, pag. 176).

² (IVES, 2010, pag. 96). Traduzido da obra em inglês pelo administrador

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