Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Introdução: Ana Bolena, uma perspectiva histórica.

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Ana Bolena, por artista desconhecido (retrato do castelo de Hever, em Kent).

A Europa do século XVI foi marcada por diversos cataclismos, que, a seu modo, desencadearam numa ruptura de preceitos e valores na mente das pessoas. Com o advento do movimento renascentista, as concepções estéticas da cultura greco-romana são resgatadas e reformuladas frente às necessidades de então. Através de Lutero, o poder e a influência da Igreja Católica, e seu monopólio sobre a consciência e o domínio econômico de seus adeptos, começaram a ruir diante de um mundo que não mais aceitava explicações sobrenaturais para os fenômenos que ocorriam. Em Calvino, e sua teoria da predestinação, observa-se o surgimento de uma classe burguesa mais unificada e ansiosa por participar das decisões políticas do Estado. Contudo, dos interstícios de uma Inglaterra menos interessante, se comparada com as grandiosas potências da época (França e Espanha), um caso de amor, entre um rei e uma plebeia chamará a atenção de todos os olhos do continente. Em mais um prelúdio das calamitosas circunstâncias em que a antiga ordem feudal se encontrava.

O movimento anglicano, como posteriormente fora identificado, teve como força motriz as negações de um papa vacilante (Clemente VII) em atender ao desejo do “grande” Henrique VIII de se separar de sua esposa infértil, para se unir em matrimônio com o novo amor de sua vida, uma notória camareira do séquito de Catarina de Aragão. Mas quem era Ana Bolena? Eis uma questão que nem os principais estudiosos do período conseguiram chegar a obter conclusão comum. Através dos anos que se seguiram à sua morte (1536), a figura dessa multifacetada senhora tem sido duramente criticada, e até mesmo difamada, por alguns historiadores mais tradicionais que jogam para o campo da irrelevância sua fundamental contribuição na formação da nova instituição religiosa que despontava naquela pequena Ilha. Em grande maioria referindo-se a ela como “a amante do rei” e não como a rainha que foi (mesmo que por um curto período), alguns a chamaram de bruxa, outros de meretriz, e também há quem diga que foi uma das maiores consortes que a Inglaterra já conheceu.

Entretanto, uma singularidade em particular, costura todas essas interpretações acerca de Ana Bolena: como uma jovem plebéia da corte dos Tudor manipulou o próprio destino, numa época à qual ser mulher significava sujeitar-se a todo tipo de submissão, e acabou por conquistar e impor suas vontades perante o mais poderoso dos homens, o rei? Diversos livros a abordam como alguém à frente do seu tempo, o que pode ser facilmente comprovado se levarmos em consideração o fato de ter sido uma árdua leitora dos defensores do protestantismo, como, por exemplo, William Tyndale, responsável pela primeira tradução da Bíblia para o inglês. Isso, por sua vez, é somente uma dentre as muitas provas que atestam sua excepcional fibra e coragem, na medida em que outros, por atitude semelhante, foram punidos pelas autoridades do país, cujo rei havia sido condecorado com o título de “defensor da fé”, pelo papa Leão X.

Todavia, longe de ser uma pessoa que pensava aquém de sua época, Ana Bolena estava inserida dentro de uma pequena parcela da população inglesa que não mais suportava o despotismo e os penosos dízimos cobrados pela Igreja Católica. Com o tempo, esse outrora diminuto contingente de indivíduos iria crescer, ao passo em que aquela obstinada dama ganhava as boas graças do monarca, para se tornar a voz de uma ideologia em ascensão. Ana, com toda certeza, foi filha e vítima do movimento protestante em Inglaterra, e sua imagem se perpetuaria num maravilhoso eco de coragem e labor para as mulheres da posteridade. Com base nessa premissa, o presente estudo objetiva retraçar os passos desse ícone do imaginário popular, avaliando suas contribuições para os acontecimentos que fizeram ferver o palco político da renascença, enquanto tenta por em xeque muitas das visões preconceituosas que macularam a reputação de tão extraordinária persona ao longo de cinco séculos de História.

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