Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Recentemente, uma das personagens mais célebres da História de Minas Gerais voltou ao centro das atenções. Ana Jacinta de São José, eternizada pelo apelido de Dona Beja, reapareceu nas telas através da interpretação de Grazi Massafera na nova adaptação produzida pela HBO. Como já havia acontecido com a novela da Rede Manchete nos anos 1980, a obra reacendeu o interesse do público por uma mulher cuja trajetória continua cercada por lendas, exageros e lacunas documentais. Poucas figuras históricas brasileiras foram tão apropriadas pela literatura, pela tradição oral e pela televisão quanto Dona Beja. Ao longo dos séculos XIX e XX, ela foi transformada em cortesã, feiticeira, vítima, heroína romântica e femme fatale. Entretanto, como observa a historiadora Rosa Maria Spinoso de Montandon (2004), a personagem construída pela memória coletiva acabou obscurecendo a mulher real. Entre os documentos preservados e as histórias transmitidas de geração em geração existe um vasto território de incertezas. É justamente nesse espaço entre a História e o mito que se encontra a verdadeira Dona Beja.

Ana Jacinta de São José teria nascido em 2 de janeiro de 1800, na região de Formiga, em Minas Gerais, quando o Brasil ainda era uma colônia portuguesa. Era filha de certa Maria Bernardina dos Santos, não existindo registros seguros sobre a identidade de seu pai. Embora essa circunstância tenha sido posteriormente explorada por romancistas em busca de elementos dramáticos, a condição de filha natural não era incomum numa sociedade em que muitas uniões aconteciam sem casamento religioso formal. Afinal, casar na Igreja era muito caro e a maioria da população livre preferia viver amasiada. Por volta de 1805, a família mudou-se para a Vila de São Domingos do Araxá, então uma pequena comunidade localizada no Alto Paranaíba. Como ocorria com a maioria das meninas da época, Ana provavelmente não recebeu educação formal durante a infância. Seu apelido, “Beja”, teria surgido ainda na juventude, associado à flor do beijo, cuja beleza era frequentemente comparada à sua. Com o passar dos anos, sua aparência tornou-se motivo de comentários em toda a região, contribuindo para a construção de uma reputação que ultrapassaria as fronteiras de Minas Gerais e sobreviveria por mais de dois séculos.
O episódio mais marcante de sua juventude, segundo a lenda criada em torno da personagem, ocorreu em 1815, quando o ouvidor Joaquim Inácio Silveira da Mota passou por Araxá durante uma viagem administrativa. Segundo a tradição mais difundida, o magistrado teria se encantado pela jovem e determinado seu rapto, levando-a para Paracatu. Embora os detalhes permaneçam envoltos em controvérsia, a maior parte dos pesquisadores aceita que Ana Jacinta permaneceu por algum tempo sob a proteção e influência do poderoso funcionário régio. Foi nesse período que sua vida sofreu uma transformação profunda. Em Paracatu, teve acesso a um ambiente social mais refinado do que aquele existente em Araxá. Muitos autores acreditam que tenha aprendido a ler e escrever nesse período, além de adquirir conhecimentos de administração doméstica, etiqueta e conversação. Quando Silveira da Mota foi chamado para a Corte, no Rio de Janeiro, a relação chegou ao fim. Ana Jacinta regressou então para Araxá trazendo recursos financeiros, experiência social e uma independência incomum para uma mulher de sua época. Porém, a documentação sobre esse episódio é quase inexistente e é possível que o rapto tenha sido uma ficção, alimentada por romancistas e novelistas.

O retorno à vila mineira não foi simples. Em vez de ser recebida como vítima de um abuso de poder, Ana Jacinta encontrou uma sociedade que a observava com desconfiança. Em uma cultura profundamente patriarcal, a honra feminina era constantemente vigiada, e sua convivência com o ouvidor passou a alimentar comentários e preconceitos. Ainda assim, ela recusou o papel de mulher marginalizada. Comprou a famosa Chácara do Jatobá, adquiriu imóveis urbanos e começou a construir uma posição social própria. Segundo Glaura Teixeira Nogueira Lima (2004), sua residência transformou-se num importante espaço de sociabilidade regional, recebendo viajantes, autoridades, fazendeiros, comerciantes e políticos. Essa projeção despertou a hostilidade de parte das mulheres da elite local, que viam em Dona Beja uma ameaça aos padrões tradicionais de comportamento feminino. Longe de se intimidar, ela consolidou sua presença na vida econômica e social de Araxá, tornando-se uma das figuras mais influentes da região.
A imagem de Dona Beja como cortesã é um dos aspectos mais controversos de sua biografia. Romances, novelas e narrativas populares frequentemente a apresentam como uma prostituta de luxo que recebia clientes ricos em sua propriedade. Entretanto, a documentação conhecida não permite sustentar essa afirmação de maneira definitiva. Montandon (2004) ressalta que os registros preservados no Arquivo Público de Araxá não comprovam o exercício da prostituição como atividade profissional. Por outro lado, a tradição oral recolhida por pesquisadores como Pedro Divino Rosa (2000) preserva a memória de seus relacionamentos com homens influentes da região. É possível, portanto, que Dona Beja tenha mantido relações afetivas e sexuais com diferentes parceiros, beneficiando-se das conexões sociais e econômicas que essas relações proporcionavam. Reduzi-la apenas à condição de cortesã talvez seja uma simplificação excessiva de uma personagem muito mais complexa.

Além da fama construída em torno de sua vida amorosa, Dona Beja destacou-se como mulher de negócios. Os inventários e documentos preservados demonstram que possuía propriedades rurais, imóveis urbanos, escravizados, animais e diversos bens de valor. Entretanto, os registros não especificam claramente quais produtos comercializava. Conforme observa Pedro Divino Rosa (2000), Ana Jacinta participou ativamente da economia regional e administrava seus negócios com notável competência. Historiadores acreditam que atuasse principalmente no comércio de gêneros de primeira necessidade, destinados à população local e aos tropeiros que circulavam pelas rotas do interior mineiro. Alimentos, tecidos, ferramentas, utensílios domésticos e mercadorias ligadas ao abastecimento das fazendas figuram entre as hipóteses mais plausíveis. Essa faceta empresarial raramente aparece nas obras de ficção, mas talvez seja uma das características mais modernas de sua trajetória.
Sua influência alcançou também o campo político. Durante a Revolução Liberal de 1842, movimento que contestou a centralização promovida pelo governo conservador de D. Pedro II, Minas Gerais tornou-se palco de importantes confrontos. A revolta foi liderada por membros do Partido Liberal que se opunham às medidas adotadas pelo gabinete imperial e defendiam maior autonomia provincial. Embora não existam documentos que comprovem sua participação direta na rebelião, a tradição local associa Dona Beja aos círculos liberais da região. Algumas narrativas sustentam que sua propriedade serviu como ponto de encontro para lideranças políticas e simpatizantes do movimento. Como destaca Pedro Divino Rosa (2000), seu prestígio social e sua extensa rede de contatos faziam dela uma personagem influente na vida pública do Alto Paranaíba. Mesmo que parte dessas histórias permaneça no campo da tradição oral, elas revelam a percepção contemporânea de que Dona Beja exercia influência para além dos limites de sua vida privada.

A vida afetiva de Ana Jacinta também foi cercada por inúmeras lendas. Diversos autores apresentaram Manuel Fernando Sampaio como seu grande amor de juventude, o noivo perdido após o rapto e até mesmo vítima de um assassinato encomendado por ela. Entretanto, os documentos conhecidos não confirmam essas histórias. O que se sabe com segurança é que Dona Beja teve filhos de diferentes relacionamentos. A mais conhecida foi Tereza Thomásia de Jesus, tradicionalmente atribuída ao padre Francisco José da Silva. Isso também não era tão incomum. Muitos padres e cônegos do período tinham filhos naturais com outras mulheres, a exemplo de José Martiniano de Alencar, senador e pai do famoso romancista. Outro filho documentado foi Luiz Rodrigues de Oliveira, reconhecido por Francisco Antônio Rodrigues. Em 1838 nasceu Joana de Deus e São José, filha de João Carneiro de Mendonça. As memórias transmitidas por Joana e seus descendentes tornaram-se fontes importantes para os estudiosos da personagem. Esses relacionamentos contribuíram para consolidar a imagem de uma mulher que vivia sua sexualidade com liberdade incomum para os padrões do Brasil oitocentista.
Ao mesmo tempo, Dona Beja exerceu papel relevante como benfeitora local. Diversos relatos indicam que auxiliava moradores em dificuldades financeiras e participava de iniciativas comunitárias. Em 1853, decidiu deixar Araxá e mudou-se para Bagagem, atual Estrela do Sul, atraída pela descoberta de importantes jazidas diamantíferas. Ali investiu parte de sua fortuna em atividades ligadas ao garimpo e ao comércio. Também contribuiu para obras públicas, incluindo a construção de uma ponte sobre o Rio Bagagem, que facilitou a circulação dos moradores e das procissões religiosas. Essa fase de sua vida demonstra mais uma vez sua capacidade de adaptação e empreendedorismo. Longe de viver exclusivamente dos recursos acumulados na juventude, continuou buscando novas oportunidades econômicas até os últimos anos de vida.

Dona Beja faleceu em Estrela do Sul em 20 de dezembro de 1873, aos 73 anos, provavelmente vítima de uma nefrite. Parte da fortuna construída ao longo da vida havia sido consumida pelos riscos do garimpo e pelas transformações econômicas da região. Seu testamento revela preocupação com a própria memória, chegando a especificar detalhes do funeral e do caixão em que deveria ser sepultada. Com sua morte, teve início um processo de transformação que a retirou definitivamente do campo da História para inseri-la no universo da Ficção. Escritores como Agripa Vasconcelos e Thomas Leonardos ampliaram os aspectos românticos e escandalosos de sua trajetória, criando uma personagem ainda mais sedutora para o imaginário popular. Posteriormente, a televisão consolidou essa imagem através de novelas e adaptações dramáticas. Como conclui Montandon (2004), quanto mais se pesquisa Dona Beja, mais evidente se torna a distância entre a mulher real e a personagem construída pela memória coletiva. Talvez seja justamente nessa mistura de realidade, silêncio documental e imaginação popular que resida o fascínio duradouro de Ana Jacinta de São José. A mulher morreu em 1873; o mito permanece vivo até hoje.
Referências Bibliográficas:
LEONARDOS, Thomas Othon. Dona Beja: a feiticeira do Araxá. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957.
LIMA, Glaura Teixeira Nogueira. Dona Beja: mito e história. Araxá: Fundação Cultural Calmon Barreto, 2004.
MONTANDON, Rosa Maria Spinoso de. Ana Jacinta de São José: documentos e interpretações históricas. Uberlândia: EDUFU, 2004.
MONTANDON, Rosa Maria Spinoso de. Dona Beja: desfazendo as teias do mito. Uberlândia: EDUFU, 2004.
NOGUEIRA LIMA, Glaura Teixeira. Dona Beja e a construção da memória histórica regional. Araxá: Fundação Cultural Calmon Barreto, 2004.
ROSA, Pedro Divino. Dona Beja. Araxá: Editora do Autor, 2000.
VASCONCELOS, Agripa. A Vida em Flor de Dona Beja. Belo Horizonte: Itatiaia, 1965.













