Por: Renato Drummond Tapioca Neto
De amante imperial humilhada em praça pública a uma das mulheres mais ricas e respeitadas de São Paulo: a vida de Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, foi marcada por escândalo, violência, exílio e reinvenção. Esfaqueada pelo primeiro marido, chamada de “bruxa” pela imperatriz Leopoldina e descartada por D. Pedro I como “colchão velho”, ela sobreviveu a 13 gestações, enfrentou o próprio imperador D. Pedro II para salvar o segundo marido da prisão e morreu filantropa, deixando um legado que sustenta até hoje a Faculdade de Direito da USP. Esta é a história que a República tentou apagar — e que começa muito antes dos lençóis imperiais.
Domitila de Castro Canto e Melo nasceu em São Paulo em 27 de dezembro de 1797, filha do coronel João de Castro Canto e Melo e de Escolástica Bonifácia de Oliveira Toledo Ribas. Aos 15 anos, em 1813, foi dada em casamento ao alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, homem ciumento e violento que chegou a esfaqueá-la na coxa em 1818, numa tentativa de assassinato. Dessa união nasceram três crianças, das quais apenas Francisca e Felício sobreviveram à infância. Acusada de adultério pelo marido, Domitila quase teve a guarda dos filhos tomada pelo sogro. Presa nessa relação abusiva, conheceu D. Pedro em agosto de 1822, na estrada que ligava São Paulo ao Rio, às vésperas da Independência. Para ela, o príncipe foi a única saída apresentada para se livrar daquele casamento e conseguir as crianças de volta.

Domitila foi apresentada pela primeira vez à imperatriz D. Leopoldina em 1823, ano em que D. Pedro I a trouxe de São Paulo para o Rio de Janeiro. Durante uma refeição com o marido, Leopoldina comentou com ele que Domitila havia lhe dito ser portadora da “moléstia de Lázaro”, termo associado na época à lepra, enfermidade muito temida. D. Pedro simplesmente deu de ombros e respondeu: “não tenho tratos com ela”. A imperatriz, naquele momento, havia lançado a isca e descoberto a verdade sobre a vinda da paulista para a corte. Em 12 de outubro de 1825, dia do aniversário de D. Pedro, ele elevou Domitila de Castro à categoria de Viscondessa de Santos e, pouco depois, a Marquesa.
À medida que sua estrela ascendia, D. Leopoldina se resignava diante da humilhação que o marido lhe infligia, principalmente depois que promoveu a amante ao cargo de dama da imperatriz. Todavia, isso não anula o fato de que ele continuava a manter suas obrigações conjugais, pois em outra carta à sua Titila, ele dizia: “ontem mesmo fiz amor de matrimônio, para que hoje, se você estiver melhor e com disposição, fazer o nosso amor por devoção” (D. PEDRO, apud REZZUTTI, 2011, p. 105). Leopoldina de Habsburgo viajou da Europa para cá, iludida com a promessa de um príncipe encantado, mas encontrou um homem, embora bem-intencionado, cheio de falhas educacionais, de gênio explosivo, mas que, a seu modo, soube amá-la e respeitá-la.
Infelizmente, o conceito de moralidade no Brasil dos anos 1810-1820 ainda possuía fortes resquícios do período colonial, no qual a população, em sua grande maioria, vivia amasiada. Foi nesse ambiente que o príncipe D. Pedro cresceu e, dentro do que era permitido pelo patriarcalismo, ele poderia ter quantas amantes desejasse. Com o tempo, Leopoldina descobriu o verdadeiro perfil do marido e passou a se queixar em cartas de não ser amada e que era muito mais feliz quando solteira, em vez de casada. Às faltas de conduta do príncipe, ela respondia com uma imensa compostura e dignidade, próprio da boa educação que recebeu na Áustria. Ela nunca se rebaixou ao ponto de confrontar qualquer uma das amantes do seu marido, nem mesmo a maior delas, a marquesa de Santos. Nunca houve um embate direto entre as duas.
Domitila sabia muito bem qual era o lugar de Leopoldina na hierarquia social e nunca poderia ser comparada à primeira imperatriz do Brasil. Leopoldina, por sua vez, pagava as demonstrações públicas de infidelidade do marido com indiferença, pois estava mais preocupada em manter a dignidade da casa real e preservar os filhos de algum escândalo. Mesmo tendo se apaixonado por Pedro, Leopoldina não era qualquer tola, a ponto de acreditar que seu marido lhe era inteiramente fiel. Sua própria irmã, Maria Luísa, manteve um caso extraconjugal com o general Neipperg, com quem se casou depois da morte de Napoleão Bonaparte. Em outras palavras, o adultério, conforme o encaramos hoje, era visto de uma forma bem diferente em finais do século XVIII e início do século XIX.

O que talvez tenha ferido mais no âmago da imperatriz foi ver seu marido dispensando grande atenção a Domitila e sua família, deixando para segundo plano os assuntos de Estado, ainda mais para uma mulher que colocava o dever para com a pátria em primeiro lugar. É verdade que já chegaram a oferecer à imperatriz a coroa imperial e a regência do império, algo que ela recusou, pois ia contra sua consciência de lealdade para com Pedro. Uma esposa no século XIX era considerada um apêndice da casa e do marido, devendo-lhe obediência. Em 10 de setembro de 1824, quando o caso de D. Pedro e Domitila já era conhecido, a imperatriz escreveu para a irmã, Maria Luísa, que não podia confiar no seu esposo “porque, para meu grande sofrimento, não me inspira mais respeito”.
No dia 30 do mesmo mês, ela também disse que tinha “visto acontecerem tantas coisas nunca esperadas pelo pensamento humano”. Essas reticências nas cartas de Leopoldina eram justificadas pelo fato de que ela, sempre que podia, servia-se de um portador de confiança para transmitir maiores detalhes de sua vida, uma vez que temia que sua correspondência fosse interceptada por terceiros. Podemos perceber em carta a sua irmã Luísa como se encontrava o estado de espírito da imperatriz no fim de seus anos, quando diz que “nós, pobres princesas, somos tais quais dados, que se jogam e cuja sorte ou azar depende do resultado”. Havia mergulhado em profunda melancolia, afogada em dívidas contraídas para ajudar as famílias que lhe recorriam, e dedicada ao cuidado dos filhos, confiante na infeliz certeza de que nunca mais retornaria à Europa. E assim o foi.
Em cartas, Leopoldina chega a se referir a Domitila como “bruxa” e a compara a mulheres como Pompadour e Maintenon “e ainda pior, visto que não têm educação alguma” (8/10/1826). Ao dizer isso, Leopoldina comparava Domitila às mais famosas amantes dos reis da França: madame de Maintenon, esposa morganática do rei Luís XIV, e madame de Pompadour, amante do rei Luís XV. As duas também eram conhecidas por sua extrema erudição (madame de Maintenon chegou a fundar um Colégio para Moças no início do século XVII) e por seu envolvimento na política francesa. Na opinião de D. Leopoldina, Domitila, que era semianalfabeta, estava abaixo de Pompadour e Maintenon, uma vez que não tinha “educação alguma”. Porém, é preciso lembrar que quem impôs a presença da marquesa no paço e a elevou ao posto de primeira dama de Leopoldina foi o próprio Pedro I. Foi o imperador quem ergueu a estrela de Domitila ao auge.
Quando ela lhe deixou de ser útil, quis descartá-la, principalmente depois que seu relacionamento ficou desgastado após a morte de Leopoldina, que veio a óbito em 11 de dezembro de 1826 após contrair uma febre pós-parto, que não foi bem tratada pelos médicos. A marquesa viveu até os 69 anos. Porém, a memória popular se recorda dela apenas pelo tempo de 7 anos em que foi amante do primeiro imperador do Brasil, D. Pedro I. Dessa união extraconjugal, nasceu Isabel Maria, nobilitada pelo pai com o título de duquesa de Goiás, e Maria Isabel. Esta última não foi legitimada por D. Pedro, como a primeira. Domitila engravidou justamente quando as negociações para o segundo casamento do imperador estavam em andamento. Dessa forma, o relacionamento acabou se tornando um inconveniente para o monarca conseguir uma segunda imperatriz consorte na Europa.

Quando a jovem Amélia de Leuchtenberg aceitou a proposta do imperador, a mãe dela colocou como condição que D. Pedro mandasse a marquesa embora da corte de uma vez por todas. Então, em 1829, Domitila retornou mais uma vez para São Paulo, só que grávida e com os bolsos cheios de dinheiro. Seu ex-amante comprou todas as propriedades que havia lhe dado e, em carta a amigos, lhe deu a alcunha pejorativa de “colchão velho”. Mas esse não foi o fim da história da afamada marquesa de Santos. Em 1833, ela conheceu o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, futuro governador da Província de São Paulo pelo Partido Liberal e um dos homens mais ricos da região. O primeiro marido de Domitila, Felício Pinto Coelho de Mendonça, havia falecido naquele mesmo ano.
Ela e Tobias de Aguiar viveram primeiramente amasiados, só se casando quase 10 anos depois, em Sorocaba, em 1842. Nesse mesmo ano, Rafael liderou a Revolução Liberal contra o governo Conservador do Império. Derrotado, o brigadeiro foi capturado pelo então barão de Caxias enquanto tentava fugir para o Sul. Foi enviado para a Prisão na Fortaleza de Laje, no Rio de Janeiro. Sem demonstrar medo, Domitila foi até a corte novamente e enviou uma carta ao filho de seu ex-amante. O garoto tinha apenas 4 anos quando ela foi expulsa do Rio de Janeiro, em 1829, mas agora era o imperador do Brasil. No texto, em tom de súplica, Domitila pedia permissão a D. Pedro II para que ela se juntasse ao marido na prisão, para cuidar da saúde dele. O jovem soberano concordou com o pedido e deixou que Domitila vivesse ao lado de Tobias na Fortaleza de Laje. Em 1844, o brigadeiro foi anistiado e ele e sua esposa retornaram para São Paulo. Dessa união, nasceram seis filhos.
Entre os anos de 1813 e 1842, Domitila passou por nada menos que 13 gestações. De seu primeiro marido, Felício Pinto Coelho, ela teve três crianças, das quais apenas duas, Francisca e Felício, sobreviveram à infância. Por meio de sua relação extraconjugal com D. Pedro I, que durou de 1822 a 1829, Domitila teve três filhas e um filho. Destes, apenas a duquesa de Goiás, Isabel Maria, e a condessa de Iguaçu, Maria Isabel, sobreviveram e deixaram descendência. A duquesa foi apartada muito cedo do convívio materno e matriculada em um colégio de freiras em Paris. Sob os auspícios de Augusta de Beauharnais, mãe da imperatriz D. Amélia, ela conseguiu fazer um ótimo casamento com Ernesto Fischler, 2.º Conde de Treuberg. Assim, o sangue da marquesa de Santos e de D. Pedro I corre até hoje nas veias de seus descendentes na Baviera.
Havia uma grande preocupação por parte de D. Amélia e de sua mãe em não permitir que a jovem descobrisse que ela era filha da amante do imperador do Brasil. Apesar disso, Domitila nunca se esqueceu da duquesa e deixou para ela alguns de seus bens em testamento. Ela só veio a descobrir a respeito de suas origens quando seu cunhado, o conde de Iguaçu, lhe enviou uma correspondência na Baviera, informando a respeito de sua mãe e com cartas trocadas entre D. Pedro e a Marquesa, mencionando o nascimento da duquesa em 1824. A descoberta abalou profundamente o relacionamento de Isabel Maria com D. Amélia de Leuchtenberg, que estava apenas cumprindo a vontade do pai da duquesa, o finado imperador.

A princípio, a marquesa não gostou da ideia de se casar novamente. Era muito jovem quando foi dada em matrimônio a Felício, um homem extremamente violento e ciumento, que chegou a esfaqueá-la na coxa, numa tentativa de assassinato. Em seguida, veio o caso com D. Pedro I que, embora tenha sido financeiramente benéfico para a marquesa, arruinou sua reputação. Ela foi expulsa da corte e retornou para São Paulo humilhada, porém com os bolsos cheios de dinheiro. Assim, a marquesa de Santos se tornou uma mulher economicamente emancipada, dona de seu próprio destino e sem precisar mais se submeter a qualquer autoridade masculina. Sendo assim, ela preferiu viver amasiada com Rafael. Entre 1834 e 1842, ela teve seis filhos com ele, dos quais quatro sobreviveram à infância e deixaram descendência.
A resolução do casamento só veio em 1842, quando Rafael encabeçou uma Revolução Liberal contra o governo Conservador do Império. A cerimônia aconteceu em Sorocaba e foi celebrada pelo seu amigo, o padre Diogo Antônio Feijó, ex-regente de D. Pedro II e seu parceiro na Revolução. Como o movimento foi sufocado pelas tropas do governo imperial, Rafael foi preso na Fortaleza de Laje, no Rio de Janeiro. Domitila voltou à corte pela primeira vez em 1842, para pedir ao filho de seu ex-amante, D. Pedro II, que lhe permitisse compartilhar da sentença de seu marido. Dois anos depois, os dois retornaram para São Paulo, após o perdão imperial. Os dois permaneceram juntos até a morte dele, em 1857. Nos seus anos como viúva, a marquesa de Santos se tornou uma das principais filantropas da cidade de São Paulo.
Seu Solar, que hoje é um Museu, era pontde encontro para as principais figuras da Província, nos saraus que a marquesa oferecia. Ela concedia bolsas para estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que hoje faz parte da USP, sendo uma das principais patronas da Instituição. Prestava auxílio a sujeitos em situação de rua, doou parte das terras para o Cemitério da Consolação e contribuiu com a quantia de 2 contos de réis para a edificação da Capela. A marquesa era uma hábil administradora de sua fortuna e, depois de tantos tumultos em sua vida, se tornou mais cautelosa com o dinheiro, conforme disse numa carta escrita ao seu genro: “Eu, sendo mulher, lembro-me do futuro”. Numa fotografia, Domitila, ja idosa, aparece acompanhada de seus dois netinhos. Essa imagem contrasta sobremaneira com a figura que a maioria dos brasileiros fazem dela: a de uma mulher despudorada, corrupta e destruidora de lares.
O registro foi feito por volta do ano de 1863, no Solar da Marquesa, localizado no centro de São Paulo-SP, possivelmente pelo fotógrafo Militão Augusto de Azevedo. As duas crianças eram filhas de Anna de Aguiar Barros com João Tobias de Aguiar e Castro, filho da marquesa de Santos com seu segundo marido, o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar. São elas a pequena Domitila Barros de Aguiar, nascida em 1860 e falecida em 1949, e o pequeno João Tobias de Aguiar e Castro Filho, nascido em 1862 e falecido em 1939. A vida da marquesa de Santos não se resume aos sete anos em que ela foi amante de D. Pedro I. Ela viveu até quase os 70 anos, falecendo de enterocolite, no dia 3 de novembro de 1867, no seu Solar. Na ocasião, havia se tornado uma senhora bastante respeitada na sociedade paulista.

Seu corpo foi sepultado em um imponente túmulo no Cemitério da Consolação, que hoje se tornou um local de culto e peregrinação, para mulheres que buscam inspiração na capacidade que a marquesa teve de se reerguer e reinventar a sua história. Por outro lado, a visão da Domitila como o monstro sedutor, vilã e destruidora de lares foi alimentada durante décadas, especialmente depois da Proclamação da República, como uma forma de destruir a reputação do primeiro imperador do Brasil. Sua vida é repleta de elementos trágicos: foi dada em casamento muito jovem a um homem ciumento e violento, que chegou a esfaqueá-la e quase teve a guarda dos primeiros filhos tomada pelo sogro. Presa nessa relação abusiva, D. Pedro foi a única saída apresentada para se livrar daquele casamento e conseguir as crianças de volta. No final, se tornou uma mulher economicamente emancipada. Hoje, seu solar de taipa no centro da cidade é um museu e recebe centenas de visitantes todos os anos.
Referências Bibliográficas:
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