Os amores de Pedro e Eponina: o possível caso do Imperador com a filha do Senador!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

D. Pedro II era muito mais discreto em matéria de amor do que o seu pai, D. Pedro I. Porém, assim como o primeiro imperador do Brasil, seu filho também teve romances extraconjugais com mais de uma mulher. Um dos possíveis casos amorosos do monarca foi com a jovem Eponina Otaviano, 25 anos mais nova.

D. Pedro II era conhecido por ser um imperador austero. Entre 1867 e 1871, ele já estava casado há 26 anos com D. Teresa Cristina das Duas Sicílias, com quem teve quatro filhos, entre os quais a princesa imperial D. Isabel e a princesa D. Leopoldina. Até então, cogitava-se que o imperador teve um caso com a preceptora de suas filhas, Luísa Margarida de Barros Portugal, a famosa Condessa de Barral.

Fotografia digitalmente colorida de D. Pedro II.

Mas, por volta daquela época, os corredores do Paço de São Cristóvão já cochichavam outro nome: Eponina Otaviano, a filha do famoso jornalista e senador liberal Francisco Otaviano, o “pena de ouro”, uma das maiores influências políticas do Império. Segundo Pedro Calmon, Eponina tinha apenas 17 anos quando começou a frequentar o Paço.

O Conde de Gobineau, ministro da França no Brasil, deixou em seu diário interessantes anotações a respeito dos encontros do imperador com Eponina e das reações do soberano diante da presença da jovem. O ministro tinha fácil acesso ao monarca e anotava tudo no seu diário, inclusive o que se comentava a respeito dos dois na época. Trata-se da fonte mais direta que temos sobre o possível caso.

Em 15 de abril de 1869, na Quinta-feira Santa, por exemplo, Gobineu escreveu:

“Jantei no Paço de São Cristóvão. O Imperador parecia preocupado, mas sua fisionomia se iluminou quando Mlle. Eponina Otaviano entrou no salão. É filha do Senador Otaviano. Tem dezessete anos, figura esbelta, olhos muito negros e uma vivacidade de espírito rara. S. M. conversou com ela por quase uma hora, ignorando os outros convidados. A Imperatriz bordava em silêncio.”

Na época, D. Pedro II tinha 42 anos, sendo 25 anos mais velho que Eponina. Era casado, pai de duas filhas e já era avô. A Condessa de Barral, sua companheira mais famosa, já estava em Paris. No dia 22 de junho de 1869, Gobineau escreveu:

“O Senador Otaviano trouxe novamente sua filha ao Paço. Nota-se que o Imperador a distingue. Ofereceu-lhe ele mesmo flores do jardim. A jovem corou. A Condessa de Barral, que está em Paris, certamente não aprovaria esta nova preferência. Dizem na cidade que o Senador Otaviano aproveita a inclinação do Soberano para obter favores.”

Possível retrato de Eponina Otaviano, digitalmente colorido.

Gobineau nunca fala a respeito de beijo ou romance físico. Usa palavras como “inclinação”, “preferência”, “distingue” para maquiar o afeto que o monarca dirigia à jovem Eponina. Esse comportamento destoa sobremaneira do D. Pedro II reservado que conhecemos através dos livros didáticos. Ele raramente dançava, raramente se demorava com damas da corte. Mas com Eponina foi diferente. Em 9 de janeiro 1870, Gobineau disse:

“Baile em São Cristóvão. Mlle. Eponina dançou duas vezes com S. M. O Imperador, que raramente dança, parecia rejuvenescido. A Imperatriz retirou-se cedo, alegando enxaqueca. A jovem Otaviano tem agora dezenove anos. Sua beleza amadureceu. É impossível não notar a assiduidade com que o Imperador a procura. Fala-se baixo nos corredores do Paço.”

Diante dos apontamentos de Gobineau, podemos concluir que foi um caso extraconjugal? Provavelmente, sim. Tanto, que se fofocava abertamente a respeito dos dois. É o que defendem autores como Pedro Calmon e José Murilo de Carvalho. Por outro lado, a historiadora Lilia Schwarcz adverte: não existe carta entre ambos. A família imperial queimou grande parte dos papéis privados do monarca em 1889.

Sem confissão, sem carta, o termo técnico para o relacionamento entre o monarca e Eponina seria “suposta relação”. Gobineau documenta a preferência dele por ela. Se foi platônico ou físico, não dá para saber com certeza. Quando os boatos em torno de Eponina começaram a circular, o protocolo da corte para essas ocasiões foi acionado. De acordo com o diário de 3 de março de 1871 de Gobineau:

“Soube hoje que Mlle. Eponina Otaviano casará na próxima semana com o Sr. Cunha Gomes, secretário da legação em Viena. Partirão para a Europa logo após. O casamento foi decidido subitamente. O Senador Otaviano parece aliviado. O Imperador esteve melancólico todo o dia. A Imperatriz, ao contrário, mostrou-se mais afável que de costume. Fim de um capítulo.”

Pedro II e Eponina Otaviano no gabinete do Imperador. Cena gerada por I.A.

Casar “às pressas” com um diplomata e ser mandada para a Europa era uma forma de abafar escândalos. Eponina tinha 21 anos. D. Pedro II, 45. O passado pode ter sido enterrado com decoro. Mas não com mágoa. Segundo Gobineau, em 18 de julho de 1878, quando estava de volta a Paris:

“Encontrei ontem o Imperador do Brasil na Exposição. Estava com Mme. Cunha Gomes, née Eponina Otaviano. Ela tem agora três filhos. S. M. foi padrinho do mais novo. Conversaram longamente, com familiaridade de velhos amigos. Nenhum constrangimento. O passado parece enterrado com decoro”.

Os registros de Gobineu são importantes, pois revelam um D. Pedro II mais humano, distante daquela imagem de homem irretocável, e, portanto, passível de falhas. Não era só o “rei-filósofo”. O diário do diplomata francês mostra também o papel de D. Teresa Cristina: calada, bordando, com “enxaquecas” nos bailes. A Princesa Isabel se recordaria tempos depois que a mãe sofria calada para manter a Coroa estável.

Gobineau documenta assim a “preferência” do imperador. A palavra “caso” é interpretação de historiadores baseada no contexto, na melancolia de D. Pedro II e no casamento repentino de Eponina. Ela morreu em 1934, aos 84 anos. D. Pedro II em 1891, no exílio. Nunca mais se viram depois de 1878.

Bibliografia consultada:

BARMAN, Roderick J. Imperador cidadão. São Paulo: Editora UNESP, 2012.

CALMON, Pedro. História de D. Pedro II. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, 5vols.

CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

DEL PRIORE, Mary. Condessa de Barral: a paixão do imperador. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

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