O segredo da rainha: código usado por Mary Stuart em suas cartas é decifrado depois de 430 anos!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Entre os anos de 1568 até a sua morte, em 8 de fevereiro de 1587, Mary Stuart permaneceu sob cativeiro inglês. Qualquer movimento da rainha deposta da Escócia (como suas atividades cotidianas, cavalgadas e reuniões com suas damas de companhia), era prontamente relatado para sua prima, a rainha Elizabeth I. Até mesmo suas cartas para familiares na França, amigos e diplomatas eram interceptadas pelo mestre de espionagem da soberana inglesa, Francis Walsingham, e depois encaminhadas para seus respectivos destinatários. Sabendo disso, Mary começou a usar uma escrita codificada, para dificultar o trabalho dos espiões de Elizabeth. Parte dessa correspondência já havia sido decifrada e usada contra sua própria autora no julgamento instaurado contra ela, em 1586. Acusada de alta traição, a rainha escocesa foi sentenciada à morte pelo Parlamento e depois pela própria parente. Agora, um novo conjunto de 57 cartas, escritas entre 1578 e 1584, endereçadas em sua maioria para o embaixador francês, acaba de ser decifrado por uma equipe de especialistas, usando uma combinação de técnicas manuais e computadorizadas. Os documentos permaneceram esquecidos na Biblioteca Nacional da França por mais de quatro séculos e agora vêm a público, lançando novas perspectivas para a escrita biográfica de Mary Stuart.

Cartas secretas perdidas, escritas por Mary, rainha da Escócia, foram decifradas depois de 430 anos.

Um exemplo de mensagem codificada encontrada anteriormente entre Mary e Chateauneuf, o embaixador francês em Londres (Arquivos Nacionais Britânicos).

Mary Stuart é uma das soberanas mais famosas de todos os tempos. Sua história já foi contada por meio de biografias, romances, peças teatrais, documentários, filmes e séries. Vista por muitos como uma mulher impulsiva, que preferia seguir o coração em vez da razão e que foi injustiçada por sua prima inglesa, ela acabou se transformando no perfeito arquétipo da heroína romântica. Não à toa, muitas pessoas se identificaram com sua trajetória e acabaram se transformando em defensores fervorosos da monarca. O que poucos consideram, porém, é a difícil situação em que ela se encontrava após ter de abdicar do trono da Escócia em favor de seu filho de um ano. Considera responsável pelo assassinato de seu segundo marido, Henry Stewart, Lorde Darnley, as suspeitas contra Mary pareceram aumentar quando, quase quatro meses depois da morte do consorte, ela desposou em terceiras núpcias o suposto assassino dele: James Hepburn, IV conde de Bothwell. Destronada por uma confederação de lordes escoceses rebeldes, Mary foi feita prisioneira no castelo de Lochleven, uma fortaleza insular, e forçada a desistir de seu direito à Coroa da Escócia. No ano seguinte, ela conseguiu fugir para a Inglaterra, onde esperava contar com o apoio de Elizabeth I para reinstalá-la no trono.

A conjuntura política, porém, não favorecia tal empreitada. Naquele período, a Europa era varrida por guerras de religião, que arrasaram a França e os Países Baixos. Enquanto isso, a própria vida da rainha da Inglaterra corria perigo nas mãos de nobres que consideravam Mary uma rainha mais adequada (e facilmente manipulável) para o trono. Logo, a manutenção da soberana deposta da Escócia se tornou uma dor de cabeça para sua prima. Na qualidade de herdeira presuntiva, Mary se constituía em uma ameaça para a autoridade de Elizabeth. Enviá-la para a Escócia estava fora de cogitação, uma vez que o caos havia tomado conta daquele reino. Tanto o meio-irmão de Mary, o conde de Moray, quanto seu sogro, regentes do pequeno rei James VI, haviam sido assassinados. Na França, um massacre de protestantes no ano de 1572 resultou em uma das maiores carnificinas da história, a chamada “noite de São Bartolomeu”. A Espanha também não era uma opção viável, tendo em vista que Felipe II era inimigo de Elizabeth e possuía claras ambições dinásticas sobre a Inglaterra. A única solução plausível foi manter Mary Stuart confortavelmente instalada em mansões campestres, constantemente migrando de uma para a outra. Em 19 anos de cativeiro, ela e Elizabeth nunca se viram pessoalmente, apesar de residirem no mesmo país.

Um exemplo de uma mensagem codificada, recentemente encontrada, entre Mary e Castelnau. (BNF)

Mary Stuart foi forçada a abdicar do trono da Escócia, após ser derrotada por lordes rebeldes em 1567 (Fine Art Images/ Heritage Images/ Getty Images).

Nas cartas que Mary Stuart trocou com o embaixador francês na Inglaterra, Michel de Castelnau de Mauvissière, a rainha reclamava das difíceis possibilidades de comunicação para além dos muros de sua prisão, sobre como sua correspondência era entregue e através de quem. Uma de suas queixas constantes era a saúde precária e as condições de seu cativeiro, que ela considerava insalubres. Outro ponto importante eram as negociações com seu primo e cunhado, o rei Henrique III da França, para a sua libertação, as quais ela não acreditava que estavam sendo conduzidas com êxito. Não obstante, Mary demonstrava ter conhecimento de que o mestre de espionagem de Elizabeth interceptava seu correio e discorria acerca de sua antipatia por Robert Dudley, conde de Leicester e favorito da rainha inglesa (que certa vez fora cogitado como pretendente à mão de Mary). Já em outras missivas, ela expressava sua preocupação com o rapto de seu filho em 1582, o rei James VI, assim como demonstrava seu sentimento de abandono pela França, tanto por parte da família real, os Valois, quanto por parte dos parentes de sua mãe, os Guise. Boa parte da juventude de Mary foi passada naquele reino, onde ela chegou a ser delfina e depois rainha consorte, entre 1558 e 1560. No ano seguinte, ela retornou para a Escócia, governando até 1567.

Com efeito, as cartas foram descobertas acidentalmente na Biblioteca Nacional da França (BNF), pelo criptógrafo e cientista da computação, George Lasry, em parceria com o professor de música e pianista Nobert Biermann e o físico especialista em patentes, Satoshi Tomokiyo. A equipe estava pesquisando nos arquivos secretos da instituição, na seção italiana, quando se deparou com um conjunto de cartas criptografadas. A autoria dos documentos, porém, só foi revelada quando o sistema de códigos foi quebrado. O achado foi divulgado em 8 de fevereiro de 2023, quando a execução de Mary Stuart completou 436 anos, na revista Criptologya (clique aqui!). Segundo a equipe:

Devido à enorme quantidade de material decifrado, cerca de 50.000 palavras no total e o suficiente para preencher um livro, fornecemos apenas resumos preliminares das cartas, bem como a reprodução completa de algumas delas, na esperança de fornecer incentivo suficiente aos historiadores com a experiência relevante para se envolverem em análises aprofundadas de seu conteúdo, para extrair insights que enriqueceriam nossa perspectiva sobre o cativeiro de Mary.

Mary foi decapitada aos 44 anos de idade, no castelo de Fotheringay, em Northamptonshire. Inicialmente, seu corpo havia sido sepultado na Catedral de Peterborough, até ser movido para um imponente túmulo na Abadia de Westminster, durante o reinado de seu filho (que após a morte da rainha Elizabeth ascendeu ao trono da Inglaterra como James I). Os documentos, por sua vez, lançam novas informações sobre os anos finais de Mary Stuart, quando ela vivia sob a custódia de George Talbot, conde de Shrewsbury. A maioria das cartas era endereçada ao embaixador francês, que era um árduo defensor da rainha católica dentro de um reino protestante.

Os pesquisadores decifraram o significado dos símbolos usados nas cartas de Mary Stuart. Crédito: Lasry, Biermann, Tomokiyo

Algumas cifras correspondem a nomes comuns, como os meses do ano em francês. (Lasry, Biermann e Tomokiyo).

Mary Stuart usou um código altamente sofisticado para esconder o conteúdo de suas cartas. Conhecida como cifra homofônica, cada letra do alfabeto é substituída nesse esquema por um símbolo próprio. Por outro lado, em cartas codificadas mais simples, o segredo é descoberto com maior facilidade, pois certas letras, como a vogal “e”, aparecem com mais frequência do que outras. Porém, na cifra homofônica vários símbolos eram utilizados de forma intercambiável para letras que aparecem com maior constância. Para complicar ainda mais, Mary também fazia o uso de signos para substituir palavras inteiras, dificultando assim a quebra do código. Apenas o destinatário, em posse do conhecimento do segredo, seria capaz de ler a mensagem. “Trabalhar na descriptografia era como trabalhar em uma cebola que você precisava descascar”, diz Lasry. “A cifra era bastante complexa e trabalhávamos em fases”. O segredo das cartas foi solucionado um pouco de cada vez: primeiro, houve a percepção de que elas não estavam em italiano, embora estivessem arquivadas na seção de documentos da Itália. Em seguida, veio a constatação de frases francesas como “ma liberté“, sugerindo que a escritora desejava sua liberdade. Finalmente, apareceu um nome revelador: Francis Walsingham, o mestre de espionagem da rainha Elizabeth I.

Inicialmente, os pesquisadores só podiam ler 30% do texto, usando o algoritmo de computador. Em seguida, eles analisaram manualmente os símbolos e testaram seus significados usando análise contextual. “Isso é como resolver um quebra-cabeça de palavras cruzadas muito grande”, disse Lasry. “A maior parte do esforço foi gasto na transcrição das letras cifradas (150.000 símbolos no total) e interpretá-las – 50.000 palavras”. A maioria dessas 57 missivas nunca foram encontradas, mas sete delas já haviam sido transcritas pela rede de espionagem de Walsingham e hoje se encontram nos Arquivos Nacionais do Reino Unido. Isso ajudou bastante na identificação. A historiadora Susan Doran, da Universidade de Oxford, que está atualmente trabalhando em um projeto sobre Mary Stuart (mas que não esteve envolvida com a equipe de Lasry), diz que grande parte do conteúdo dos documentos envolve questões mais diplomáticas do que sobre qualquer tentativa de Mary para recuperar o trono da Escócia, ou para arquitetar um complô contra sua prima: “Ela está negociando com os espanhóis, com os franceses – evidente nessas cartas – com a Escócia e com Elizabeth. E isso realmente aprofunda nosso senso dela como um ser político, não apenas como uma rainha cativa”, diz Doran. “Há muito mais em Mary do que a conspiração”.

Entre 1578 e 1584, Mary Stuart manteve uma correspondência secreta com o embaixador da França, que acaba de ser decifrada.

John Guy, especialista e biógrafo de Mary Stuart, chama a descoberta de “fabulosa” e a classifica como “uma sensação literária e histórica” única. Para ele: “Esta é a nova descoberta mais importante sobre Mary, rainha da Escócia, em 100 anos”, exclama Guy. “Eu sempre me perguntei se os originais de Castelnau poderiam aparecer um dia, enterrados na Bibliotheque Nationale de France (BNF) ou talvez em outro lugar, não identificados por causa da cifragem. E agora eles apareceram”. As cartas mostram que, mesmo em cativeiro, Mary era “uma analista perspicaz e atenta aos assuntos internacionais”. Ela estava sintonizada com as notícias políticas não só da Escócia, como da Inglaterra e da França, disse Guy. Em 16 de abril de 1583, por exemplo, Mary escreveu uma carta na qual agradeceu a Castelnau por seu apoio contínuo. Uma tradução diz:

Não posso agradecer-lhe o suficiente pelo cuidado, vigilância e afeição inteiramente boa com que vejo que você abraça tudo o que me diz respeito e peço-lhe que continue a fazê-lo mais fortemente do que nunca, especialmente pela minha dita libertação à qual vejo a rainha da Inglaterra bastante inclinada. Se isso trouxer algum sucesso, tenha certeza de que reconhecerei o máximo que puder seus bons serviços com ela e a obrigação que tenho para com você desde sempre.

A correspondência de sete anos havia sido erroneamente catalogada e posta numa seção reservada da Biblioteca para arquivos italianos. Segundo o principal autor da pesquisa, o Dr. Lasry, as cartas podem mudar sobremaneira a escrita biográfica da rainha da Escócia, que vem sendo reconstruída nos últimos anos:

Ao decifrar as cartas, fiquei muito, muito intrigado e parecia surreal. Nós quebramos códigos secretos de reis e rainhas anteriormente, e eles são muito interessantes, mas com Mary, rainha da Escócia, foi notável, pois tivemos tantas cartas inéditas decifradas e porque ela é bastante famosa. Juntas, as cartas constituem um volumoso corpo de novo material primário sobre Mary Stuart – cerca de 50.000 palavras no total, lançando uma nova luz sobre alguns de seus anos de cativeiro na Inglaterra. […] Mary, rainha da Escócia, deixou um extenso corpus de cartas guardadas em vários arquivos. Havia evidências anteriores, no entanto, de que outras cartas de Mary Stuart estavam faltando nessas coleções, como as referenciadas em outras fontes, mas não encontradas em outros lugares. As letras que deciframos… são provavelmente parte dessa correspondência secreta perdida.

Embora a correspondência secreta de Mary Stuart com o embaixador francês fosse bem conhecida por Francis Walsingham, assim como pelos historiadores, as novas descobertas apontam que ela teve início no ano de 1578, indo até meados de 1584, quando o cerco em trono de Mary começou a se fechar. Naquele ano, a Coroa Inglesa removeu George Talbolt como seu tutor, por considerá-lo permissivo demais para com sua “hóspede”, e designou então novos guardiões para ela. Naquela época, o Papa havia declarado que qualquer católico que assassinasse a rainha Elizabeth I estaria cometendo um ato de fé e seria absolvido pelo seu pecado. Caso a soberana fosse morta, Mary seria a próxima da linha de sucessão. Em seguida, seu nome foi utilizado numa série de conspirações e atentados contra a vida de sua prima, acabando por comprometê-la irremediavelmente. Como consequência, Mary Stuart pagou com a própria vida!

Fontes:

I Heart Radio. Codebreakers find and decode lost letters of Mary, Queen of Scots. 2023 – Acesso em 10 de fevereiro de 2023.

Science Alert. Codebreakers Have Deciphered The Lost Letters of Mary, Queen of Scots. 2023 – Acesso em 10 de fevereito de 2023.

Scientific America. Scientists Decipher 57 Letters That Mary, Queen of Scots Wrote before Her Beheading. 2023 – Acesso em 10 de fevereiro de 2023.

The Scotsman. Mary Queen of Scots secret lost letters decoded more than 430 years later. 2023 – Acesso em 10 de fevereiro de 2023.

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