Os rituais fúnebres da monarquia Britânica: a última jornada da rainha Elizabeth II!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No dia 4 de fevereiro de 1901, a Grã-Bretanha sepultava no Mausoléu em Frogmore o corpo da rainha Vitória, depois de um longo cortejo fúnebre que durou por aproximadamente 10 dias a partir do seu falecimento, em 22 de janeiro daquele ano. A monarca tinha 81 anos na ocasião de sua morte, dos quais reinara por 63. Até então, nenhum outro soberano ou soberana do Reino Unido havia permanecido por tanto tempo no trono. Seu corpo foi embalsamado e colocado em um caixão de carvalho, de acordo com todos os desejos expressados pela rainha em vida. Ela queria ser sepultada ao lado do molde da mão de seu finado marido, o príncipe Albert, usando o mesmo véu de noiva que ela vestira em seu casamento, em 10 de fevereiro de 1840 e segurando mechas de cabelos de seus filhos que haviam falecido antes dela, assim como lembranças de seus criados pessoais mais queridos. Em seguida, o caixão fora lacrado e partiu de Osborne House, na Ilha de Wight, onde a rainha veio a óbito, até Londres. O ataúde estava coberto com o estandarte real e os símbolos que representavam o status da falecida: a Coroa Imperial de Estado, o orbe e o cetro usados na sua coroação, em 1838. 121 anos depois, os rituais se repetem, agora com o corpo de outra soberana reinante: Elizabeth II, trineta de Vitória!

A rainha Elizabeth II faleceu pacificamente na tarde de quinta-feira, dia 08 de setembro de 2022, de acordo com o anúncio oficial do Palácio de Buckingham.

Atrás cortejo fúnebre de 1901 pela capital inglesa, seguiam a cavalo o kaiser Guilherme II da Alemanha e o novo rei, Edward VII. Até então, nunca se vira um funeral tão magnífico na história britânica. Ele simbolizava o fim de um dos períodos mais controversos do mundo, a Era Vitoriana, marcada tanto por avanços no setor científico e tecnológico, como pela exploração da classe proletária nas fábricas e pela colonização de povos da Ásia e da África. A rainha Vitória havia sido a primeira soberana de sua linhagem a receber o título de Imperatriz. Para os britânicos, seu reinado coincidiu com um dos períodos de maior grandeza nacional, enquanto para os territórios explorados era um símbolo de opressão, mortes e a destruição de culturas milenares. Os rituais da fúnebres da monarquia consistiram, portanto, em camuflar os problemas sociais através das inúmeras cerimônias que se seguiram ao falecimento da monarca. Nos dias após a passagem da rainha Elizabeth II, em 08 de fevereiro de 2022, observamos através da televisão e da internet os mesmos procedimentos sendo seguidos à risca. Antes de morrer, ela já era saudada como a soberana mais longeva do Reino Unido e a segunda monarca com o reinado mais longo depois de Cristo, ficando atrás apenas de Luís XIV da França.

Enquanto a Inglaterra enfrenta uma grave recessão econômica e a instabilidade do Partido Conservador no poder, tanto o Parlamento quanto o novo rei Charles III devem se agarrar aos ritos fúnebres de Elizabeth como uma cortina de fumaça para desviar a atenção dos olhos mundiais para a despedida da mulher que havia ultrapassado sua ancestral do século XIX no trono britânico. Com a morte da rainha, a Segunda Era Elisabetana, tão saudada por Winston Churchill em 1952, também terminou. Foram 70 anos marcados pela modernização da Casa Real, pela abolição de determinados protocolos e a adoção de novos costumes. Porém, em tais circunstância, a força da tradição de sustenta. Ela atende a uma agenda política tanto do Parlamento quanto da Coroa. Poucos no Reino Unido problematizam o fato de Elizabeth ter representado em vida um sistema que segrega as pessoas em categorias como realeza, nobreza e plebe. Na contramão disso, os planos referentes à última jornada da monarca, conhecidos como London Bridge, são seguidos à risca, enquanto seu sucessor se agarra à figura da mãe como uma espécie de âncora para suportar os protestos pelo fim da monarquia, que já eclodiram em países onde a falecida soberana também reinava, como na Austrália.

Os novos príncipe e princesa de Gales, William e Kate, ao lado do duque e a duquesa de Sussex, príncipe Harry e Meghan, apreciam os tributos em memória da falecida rainha, colocados em frente ao castelo de Windsor, no qual Elizabeth II fixou morada nos últimos dois anos.

Agora que Elizabeth II se foi, cada etapa de sua última jornada foi meticulosamente arranjada para enaltecer os 70 anos em que ela permaneceu no cargo, ao mesmo tempo em que o novo rei Charles III é apresentado aos quatro países que compõe o Reino Unido: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Como a monarca faleceu no castelo de Balmoral, na Escócia, o longo cortejo começou nas terras altas, que por anos foram seu lugar de veraneio preferido. A notícia do falecimento da rainha foi dada no entardecer do dia 08 de setembro de 2022, pouco depois que os membros sêniores da família real chegaram a Balmoral, onde viram o corpo dela. Em seguida, seu cadáver passou por um processo de embalsamamento, que consiste na retirada do sangue contido nas veias, enquanto o bálsamo é inserido através de tubos injetados em pequenas incisões feitas no corpo. Uma vez concluído esse processo mórbido, os restos mortais da rainha foram amortalhados e colocados em um caixão de carvalho, coberto com o estandarte real. Seus filhos e netos viajaram em direção a diferentes residências reais, nas quais centenas de milhares de buquês de flores foram depositados em frente aos seus portões, com cartões, balões e homenagens espalhadas ao redor de cada edifício.

O destaque dessa etapa das cerimônia ficou para a reunião dos novos príncipe e princesa de Gales, William e Kate, ao lado do duque e a duquesa de Sussex, príncipe Harry e Meghan, que saudaram uma multidão aglomerada em frente ao castelo de Windsor, no qual Elizabeth II fixou morada nos últimos dois anos. Às 10 da manhã do dia seguinte (horário de Greenwich), o ataúde da soberana deixou o castelo de Balmoral de carro, acompanhado por outros veículos, que percorreram cidades e vilas escocesas em direção ao castelo de Edimburgo e depois ao Palácio de Holyroodhouse, as residências oficiais da Coroa Britânica na Escócia. Anne, Princesa Real, acompanhou o corpo da mãe nessa parte do trajeto. Quando chegou a Holyroodhouse (antigo Palácio Medieval que já serviu de lar para a famosa Mary Stuart, de quem Elizabeth II descende), o ataúde foi posto sobre uma plataforma na Sala do Trono, onde permaneceu pelo resto da noite. Os príncipes Andrew, Edward, Sophie, condessa de Wessex e Sir Timothy Laurence já esperavam pelos oficiais carregando o caixão da rainha, acompanhados pela única filha dela. Anne recebeu da rainha Elizabeth II o título de Princesa Real no ano de 1987, em reconhecimento aos seus serviços prestados em nome da Coroa.

A princesa Anne faz uma profunda reverência ao caixão da mãe, enquanto outros membros da família real a aguardavam em frente ao palácio de Holyroodhouse, na Escócia.

Em um dos gestos mais bonitos e simbólicos que marcaram a chegada dos oficiais com o caixão da soberana em Holyroodhouse, Anne prestou uma profunda reverência ao corpo da mãe, imitando assim um gesto que a própria rainha Elizabeth II fizera em 1952, quando sepultou seu pai, o rei George VI. O sarcófago permaneceu na Sala do Trono até as 12h do dia seguinte, quando então foi movido até a Catedral de St. Giles para uma cerimônia transmitida ao vivo. Antes disso, o rei Charles III havia chegado à Catedral, na companhia de Camilla, a nova rainha consorte, onde ele fez seu juramento como rei da Escócia, prometendo preservar os dogmas da Igreja Escocesa, que é de matriz presbiteriana. Na sequência, o caixão da soberana foi transportado de carro do Palácio de Holyroodhouse para St. Giles, onde teve lugar o primeiro serviço fúnebre aberto ao público. Sobre o ataúde, repousavam o estandarte real e a Coroa dos antigos reis e rainhas dos Escoceses, a mesma usada na coroação da pequena Mary Stuart, em 9 de setembro de 1543. Trata-se da Coroa mais antiga da Grã-Bretanha, que não foi destruída com a Revolução no século XVII. Hoje, a peça é um símbolo dos soberanos do Reino Unido enquanto monarcas dos Escoceses.

Como parte do cerimonial, após o serviço fúnebre conduzido pelo deão da Igreja da Escócia, os quatro filhos da rainha guardaram vigília ao redor do caixão da mãe por um tempo, na medida em que os convidados para as exéquias prestavam suas homenagens. Pouco depois do rei e de seus irmãos deixarem seus postos, os Arqueiros Reais permaneceram em guarda ao redor do estrado, permitindo assim que o povo da Escócia também prestasse suas condolências. Organizados em filas, apenas uma quantidade limitada de pessoas teve permissão de entrar por vez, enquanto outros grupos aguardavam do lado de fora. O ataúde deve permanecer na Catedral de St. Giles até as 17h do dia 13, quando então será transportado por um trajeto de 1km até o aeroporto de Edimburgo, onde uma avião da Força Aérea Real o aguarda para um voo marcado para as 18h com destino a Londres. A viagem deve durar cerca de uma hora e será mais uma vez acompanhada pela princesa Anne, que deve chegar com o corpo da mãe na capital inglesa por volta das 19h. Em seguida, o cortejo segue em direção ao Palácio de Buckingham, onde a rainha Elizabeth II viveu durante a maior parte de sua vida. O rei Charles III e Camilla, a rainha consorte, aguardarão no local, ao lado de outros membros da família real.

Os filhos da rainha Elizabeth II guardam vigília ao redor do caixão da mãe, na Catedral de St. Giles, em Edimburgo, na Escócia.

O caixão, por sua vez, será recebido pela nova Guarda do Rei, antes de ser levado para a Bow Room do Palácio, uma sala circular com chão acarpetado, repleta de janelas e colunas de mármore, onde a rainha costumava receber visitas oficiais e conceder títulos e honrarias. Ali, ele será velado por um rodízio de capelães até o amanhecer do dia 14. Enquanto isso, o rei Charles e a rainha Camilla viajarão até Belfast, capital da Irlanda do Norte, onde devem se encontrar com o Secretário de Estado, Chris Heaton-Harris, entre outros deputados e líderes do partido. Depois disso, o rei e a rainha se reunirão com as autoridades religiosas locais para um culto realizado na Catedral de Santa Ana, antes de retornarem para Londres. No dia seguinte, o caixão de Elizabeth II partirá do Palácio de Buckingham às 14h22 até Westminster Hall, onde deve permanecer pelos próximos quatro dias. As multidões que já se encontram aglomeradas ao redor do edifício desde o dia 08 poderão ver o cortejo em viagem pelo centro de Londres, passando pelo Queen’s Garden, o The Mall, a Horse Guards e o Horse Guards Arch, contornando também a Whitehall, Parliament Street, a Parliament Square e o New Palace Yard. Tiros de armas serão disparados no Hyde Park e o dobre do Big Bem irá soar.

Durante toda a procissão, os membros da família real acompanharão o novo soberano. Nessa etapa do processo, A Coroa Imperial de Estado, a mesma que Elizabeth II usou logo após sua cerimônia de coroação em 2 de junho de 1953 e nas cerimônias anuais de Abertura do Parlamento, permanecerá sobre o caixão, que dessa vez será transportado não em um carro, e sim dentro de uma carruagem da Tropa de Artilharia Real do novo monarca. Charles III e seus familiares farão o trajeto logo atrás da carruagem, da mesma forma como Edward VII e seus filhos e sobrinhos fizeram em 1901, durante o funeral de Vitória. O cortejo com o ataúde deve chegar a Westminster Hall por volta das 15h, sendo depois colocado sobre uma plataforma elevada e vigiado durante 24 horas por soldados das unidades que servem à Casa Real. Só depois disso, o povo poderá prestar suas homenagens à falecida soberana, a partir das 17h. As pessoas deverão aguardar em filas do lado de fora, enquanto grupos limitados entram de cada vez, caminhando ao redor do estrado num movimento contínuo e com pouca probabilidade de se sentar. As exéquias em Westminster Hall permanecerão até às 6h30 da manhã de segunda-feira, 19 de setembro, dia marcado para o funeral. Caso você queira assinar o livro de condolências online, acesso o site da família real, clicando aqui!

Caixão da rainha Elizabeth II sobre a plataforma na Catedral de St. Giles, na Escócia. O estandarte real encobre o ataúde, enquanto a coroa dos antigos reis e rainhas dos Escoceses representa o status da monarca como descendente deles.

Construído no século XI, Westminster Hall é a parte mais antiga do prédio do Parlamento Britânico, reformado em estilo gótico no século XIX sob a supervisão do príncipe Albert, marido da rainha Vitória. O edifício é o coração do governo e é ali que a rainha repousará até o dia do funeral. Espera-se que centenas de milhares de pessoas compareçam entre os dias 14 e 19, vindas de várias partes do Reino Unido e além, para prestarem suas condolências. No dia 16, Charles e Camilla viajarão até o País de Gales, no qual ele fora investido príncipe aos 21 anos, numa belíssima cerimônia presidida pela rainha em 1969. Essa visita marca o fim de sua jornada pelas quatro nações do Reino Unido, para ser aclamado rei. A partir das 20h do dia 18, no domingo, será decretado um minuto de silêncio em respeito à memória da falecida soberana. O povo poderá aderir ao gesto dentro de suas casas, nas ruas acompanhados pelos vizinhos ou então em vigílias. No dia seguinte, marcado para o funeral propriamente dito, será decretado feriado comercial. As escolas permanecerão fechadas, assim como outras Instituições. Os préstimos ao caixão da rainha em Westminister Hall terminam às 6h30 da manhã. Por volta das 10h44, o cortejo seguirá para a Abadia de Westminster, sepulcro dos antigos reis e rainhas da Inglaterra, assim como local de casamentos e coroações.

Foi na Abadia de Westminster, em 20 de novembro de 1947, que a então princesa Elizabeth do Reino Unido se casou com Philip, duque de Edimburgo e onde foi coroada, numa magnífica cerimônia televisionada para milhões de pessoas. O local, portanto, está intrinsecamente ligado à história de seu reinado e, como em outras ocasiões, receberá uma massiva cobertura da imprensa. Espera-se que muitos líderes mundiais, representantes de outras monarquias europeias e membros das Instituições de Caridade das quais a rainha era patrona estejam presentes. O início da cerimônia está marcado para as 11h. Logo depois, o comboio deve seguir da Abadia, passando pelo Wellington Arch, em direção ao castelo de Windsor, o prédio medieval cujo nome fora escolhido para batizar a dinastia fundada pelo rei George V em 1917 e da qual sua neta foi chefe por mais de 70 anos. O corpo da rainha será finalmente transportado pela Long Walk até a Capela de São Jorge, onde ela será sepultada na mesma cripta de seu pai. Enquanto vivo, o rei George VI se referia à sua esposa, suas filhas e a si próprio como “nós quatro”, reforçando seu sentimento de unidade. A família original ganhou mais um membro em 1947, com o príncipe Philip. Agora, ela terminou. Com a mesma resiliência demonstrada em várias décadas desde que ascendeu ao trono, a rainha aguardou pacientemente pelo momento em que finalmente pôde se reunir aos seus pais, irmã e marido.

Nos próximos dias, todos os rituais fúnebres da antiga rainha serão seguidos à risca, para representar uma ideia de grandeza do seu reinado de 70 anos, enquanto o Reino Unido atravessa um período de difícil recessão econômica.

Referências Bibliográficas:

ALEXANDRE, Philippe; DE L’AULNOIT, Béatriz. Victoria: a última rainha (1819 – 1901). Tradução de Fátima Gaspar e Carlos Gaspar. 2ª ed. Lisboa, Portugal: Bertrand, 2002.

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

Site:

BBC UK – Acesso em 13 de setembro de 2022.

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