“Homens Justos”: historiador Ivan Jablonka problematiza a construção das masculinidades!

JABLONKA, Ivan. Homens justos: do patriarcado às novas masculinidades. Tradução de Júlia da Rosa Simões. São Paulo: Todavia, 2021.

A partir dos anos 1990, as masculinidades passaram a ser cada vez mais problematizadas pelas pesquisas feministas, pelos estudos de gênero e sexualidades. Autores como e Sócrates Nolasco (1993), Susan Bordo (1999) e Daniel Welzer-Lang (2001), para citar apenas alguns, observaram como o masculino se configurou a partir de sua relação de alteridade para com o feminino, criando assim hierarquias que subjugavam tanto mulheres quanto outros homens. Contudo, o que por algum tempo se convencionou chamar de “masculinidades hegemônicas” estariam hoje entrando em crise. Partindo do pensamento de que as noções tradicionais de masculinidades – que colocavam no topo da pirâmide social os homens brancos, heterossexuais e enriquecidos pelo acúmulo de capital – não mais se sustentariam na contemporaneidade – marcada pela proeminência dos movimentos sociais e pela desconstrução de antigos valores –, o historiador Ivan Jablonka tenta traçar um percurso possível para a criação de novas categorias de masculinidade, que sejam compatíveis com os direitos de grupos que antes eram marginalizados pela norma. Essa, por sua vez, é uma das preocupações do seu mais recente trabalho, Homens Justos (2021), publicado no Brasil pela Editora Todavia.

Ivan Jablonka

Lançado orginalmente no mercado editorial francês em 2019, Des Hommes justes: Du patriarcat aux nouvelles masculinités é uma obra cuja dinâmica tenta dar conta da longa duração, partindo do período paleolítico até os anos mais recentes da era comum. Seu autor, com efeito, é professor de História Contemporânea na Université Paris XIII e coeditor do periódico La Vie des idées. Tendo publicado cerca de 15 livros (incluindo Laëtitia: Ou la fin des hommes) Jablonka teve Des Hommes justes traduzido para o português ano passado por Júlia da Rosa Simões. A obra se divide em quatro partes, distribuídas em 427 páginas, incluindo as notas finais e índice onomástico (o que ajuda no mapeamento da metodologia do escritor). Sente-se falta, porém, de uma sessão que desse conta especificamente das referências bibliográficas citadas ao longo do texto e nas notas, algo que pode ser um empecilho para o leitor que quisesse observar a indexação do material no qual o escritor baseia sua pesquisa, antes de iniciar a leitura propriamente dita do livro. Apesar disso, seu texto possui uma linguagem bastante acessível, tanto ao grande público quanto ao especializado, o que torna a experiência com a obra bastante elucidativa e ao mesmo tempo fluida.

Na primeira parte de Homens justos, Jablonka introduz o leitor nas crises pelas quais as masculinidades estariam entrando, principalmente a partir da virada do século XX para o XXI, com as vitórias do movimento feminista, que garantiram mais acesso das mulheres a cargos de maior responsabilidade, assim como pela redefinição dos papéis dentro da instituição familiar. Esses fatores teriam provocado, na visão do autor, um enfraquecimento na antiga hierarquia dos sexos: “No último quartel do século XX, o desaparecimento dos bastiões industriais e a terceirização do emprego abalaram a condição dos homens”, que estariam enfrentando com frequência a concorrência das mulheres, “mais bem adaptadas à economia do saber” (2021, p. 19). Em seguida, ele afirma:

Minha reflexão se baseia em duas preocupações interdependentes: como os homens se comportam, como eles deveriam se comportar. Para falar em termos filosóficos, é bom estabelecermos um diagnóstico do real, seguindo a tradição hegeliana, antes de extrairmos uma moral da ação, dentro da perspectiva kantiana. Conceitualizar o que é, querer o que deveria ser. Com que fim? O progresso coletivo (JABLONKA, 2021, p. 20).

Mas a qual coletivo o autor estaria se referindo? Embora sua obra traga exemplos de como o patriarcado se estruturou em sociedades tão diferentes quanto o Antigo Egito e a Mesopotâmia, o Magrebe, passando por algumas civilizações orientais, tais como a chinesa e a hindu, sua análise se pauta principalmente na França do Primeiro e do Segundo Império e na Inglaterra Pós-Revolução Industrial. Daí a constatação de que, embora ele tente dar conta da longa duração, ao revisitar as raízes do patriarcado com o surgimento do Estado, sua pesquisa privilegia o século XIX, além de carregar algumas marcas de eurocentrismo.

Exemplo do que acaba de ser dito acima é o fato de que o autor não investiga como o paternalismo, entendido enquanto manifestação do patriarcado, se adaptou às especificidades culturais, políticas, econômicas e regionais da América durante o período da colonização, como no caso do Brasil escravista e de outros países vizinhos, dependentes do trabalho de indivíduos negros e de povos nativos. Outro ponto que gera algum incômodo na análise da obra é que, embora seu autor entenda as masculinidade hegemônicas e de (auto)controle como performatividade e trabalhe com a noção de fluidez do gênero, baseado em Judith Butler, a pesquisa foca principalmente na relação binária ente homens e mulheres, conforme podemos apreender a partir da leitura da seguinte passagem na introdução: “a dinâmica dos gêneros exige a adoção de um modelo em que o masculino seja redefinido em sua relação aos direitos das mulheres. Porque conquistaram a liberdade e a igualdade, as mulheres encarnam a norma de uma sociedade democrática” (2021, p. 17). Nesse caso, os homens precisaram se adaptar a essa situação, cedendo espaço para o protagonismo feminino, ao mesmo tempo em que deveriam advogar pela conquista dos direitos das mulheres. Assim, estariam se tornando “homens justos”.

Com efeito, a relação de alteridade entre as antigas masculinidades para com as sexualidades que foram marginalizadas pela norma, como os homossexuais, os negros e negras, sujeitos associados ao não-trabalho, são objeto de preocupação do autor apenas a partir da terceira parte do livro, quando ele apresenta as transformações que atualmente acentuariam as falhas do masculino, cada vez mais questionado pela ascensão dos feminismos, dos estudos de gênero e de sexualidade, que buscam romper com os binarismos. Dessa forma, o autor defende: “O gênero se tornou uma ferramenta indispensável nas ciências humanas, e alguns chegaram a pensar que ele estaria na base de tudo: a divisão sexual seria uma construção social, as categorias “mulher” e “homem” seriam artificiais e mesmo fictícias” (2021, p. 28). Nesse trecho, ele retoma as considerações de Butler sobre a fluidez da categoria de gênero, quando a autora afirma que “se o gênero são os significados culturais assumidos pelo corpo sexuado, não se pode dizer que ele decorra de um sexo desta ou daquela maneira”. Dessa forma, “não decorre daí que a construção de ‘homens’ se aplique exclusivamente a corpos masculinos, ou que o termo ‘mulheres’ esteja ligado apenas a corpos femininos”, nem que as duas categorias sejam suficientes para definir outras sexualidades (2020, p. 26).

A estruturação do patriarcado, tema da primeira parte do livro, implicou na divisão sexual do trabalho, sobretudo no século XIX. No plano do ideal, caberiam aos homens o espaço público, enquanto às mulheres o espaço da casa. Porém, convém nesse momento acrescentar a categoria de classe, uma vez que as esposas oriundas do extratos mais baixos da sociedade contribuíam para a economia doméstica, trabalhando como lavadeiras, feirantes, floristas, costureiras, amas-de-leite, entre outras profissões que, de certa forma, ajudaram a compor uma visão do feminino associado ao cuidado para com o próximo. Nesse sentido, Jablonka argumenta que a dominação masculina ainda se faz presente, mesmo quando passa a falsa ideia de que as mulheres eram rainhas dentro de seu próprio lar, quando teoricamente eram os homens que lhes garantiam essa posição. Nesse momento, ele dialoga com a obra de Pierre Bourdieu, A Dominação Masculina (2018). Bourdieu diz: “A primazia universalmente concedida aos homens se afirma na objetividade de estruturas sociais e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho e de produção e reprodução biológica e social, que confere aos homens a melhor parte” (2018, p. 54).

As masculinidades de dominação teriam como objetivo, segundo o autor, distinguir os chamados “homens de verdade” daqueles classificados como covardes, medrosos, afeminados e poltrões, criando assim hierarquias de subordinação tanto para as mulheres (divididas assim entre casáveis e não casáveis), como também perante outros sujeitos que não se encaixam no modelo binário masculino/feminino. Tela de José Ferraz de Almeida Júnior.

Nessa lógica, caberia às mulheres assumirem seu papel servindo como seja como reprodutoras, amantes, ou donas de casa e mães zelosas. Citando Gerda Lerner em A criação do Patriarcado (2019), Jablonka concorda com ela a respeito de que o sistema patriarcal não seria tão eficaz sem a cooperação das próprias mulheres, que são levadas a isso pelo doutrinamento inculcado em tenra idade por uma educação limitada e pelo controle dos seus corpos. Assim, as chamadas “masculinidades hegemônicas” legitimariam sua dominação imposta às mulheres e a outros grupos de homens. Ao mesmo tempo, legitimam também o poder do patriarcado. Daí a importância de movimentos como o feminismo, que desde o período da Revolução Francesa vêm contribuído para desconstruir essa visão, defendendo a emancipação das mulheres. Na segunda parte da obra, o autor afirma que o caráter multifacetado do movimento contribui ao mesmo tempo para a problematização tanto das masculinidades hegemônicas, quando das “masculinidades de controle” (o homem que sabe refrear suas paixões) e das “masculinidades tóxicas” (que também afetam muitos grupos masculinos), impondo modelos de conduta que condenam a absorção, por parte dos meninos, de comportamentos entendidos como femininos.

Assim sendo, as masculinidades de dominação teriam como objetivo, segundo o autor, distinguir os chamados “homens de verdade” daqueles classificados como covardes, medrosos, afeminados e poltrões, criando assim hierarquias de subordinação tanto para as mulheres (divididas assim entre casáveis e não casáveis), como também perante outros sujeitos que não se encaixam no modelo binário masculino/feminino. Nesse sentido, poderiam existir homens feministas? Embora algumas alas do feminismo contestem essa hipótese, enquanto outras aceitam o termo “pró-feminista” para classificar homens engajados na causa, Ivan Jablonka afirma que é possível explicar o feminismo dos homens “através do amor, da empatia, do interesse, da utilidade ou da estratégia, o que não impede sua busca por justiça” (2021, p. 162). Educar os meninos para que eles abracem a causa é um dos fundamentos defendidos pelo autor para a criação de uma sociedade mais justa, em que as noções hierarquizadas de feminino e masculino sejam diluídas, permitindo às crianças na sua fase de formação escolher aquilo que lhes agradem e as tornem felizes. A norma heterossexual é assim posta contra a parede frente a esse novo modelo de educação.

Com efeito, essa não seria uma tarefa fácil, nem algo que aconteceria a curto prazo. O próprio autor defende próximo ao final do livro a implantação de políticas públicas que conscientizem a sociedade da importância dessa reforma educacional, frente a um mundo que se pluraliza e busca romper com antigos valores arcaicos. “Para levar a cabo o desmantelamento do patriarcado”, argumenta Jablonka:

[…] É imperativo, portanto, que os direitos das mulheres continuem a ser estendido a todas as esferas, mas também é preciso transformar o masculino. Embora este seja um empreendimento titânico, ele ao menos não é impossível: a democracia é um triunfo, o Estado pode ser um aliado, nem todas as masculinidades são opressivas e alguns homens se engajam no feminismo junto às mulheres (JABLONKA, 2021, p. 204).

Os três bastiões da masculinidade – as “masculinidades criminosas” (responsável, por exemplo, pelas altas taxas de feminicídio), a “masculinidade de privilégio” (que carrega consigo marcadores étnicos e de classe) e a “masculinidade tóxica” –, seriam os responsáveis pelo não estabelecimento da justiça entre os gêneros, ameaçando assim os grupos socais. Esse, por sua vez, é o tema da terceira parte da obra. Nesta ceara, Jablonka aponta como a virilidade se expressa aqui na sua forma mais agressiva. Segundo Alain Corbin, ela pode ser entendida como a “necessidade de agir incessantemente, de demonstrar energia, coragem, resistência, de saber responder aos desafios, de revelar força em todos os propósitos, expressar direção e, bem entendido, provar sua potência sexual…” (2013, p. 28).

Como saída para esse painel de desigualdades, Jablonka sugere na quarta parte do livro caminhos para descontruir as noções arcaicas de dominação do patriarcado, sem, contudo, abolir as masculinidades, que deveriam se adaptar aos novos tempos, respeitando as diferenças e lutando por sua causa. Assim sendo, o autor apresenta categorias, como a “masculinidades de respeitos” ou de “igualdade”, que advogam pela causa da liberdade de amar, pela afirmação do desejo e pela dignidade dos sujeitos:

As masculinidades de não dominação se baseiam na vontade de dividir a palavra, a autoridade, o saber, as armas, a riqueza, a espiritualidade. Elas consistem em reconhecer a igualdade dos sexos, mas também em lutar contra o patriarcado, a misoginia, as discriminações, as violências, e a recusar que a masculinidade seja a expressão de um poder [grifo do autor] (JABLONK, 2021, p. 296).

Edição brasileira de “Homens Justos”.

Dessa forma, novas as masculinidade de não dominação seriam o esteio para a criação de perfis aos quais o autor denomina de “homens justos”. Não obstante, novas figuras de homens surgiram, como o homem de casa, o enfermeiro, da mesma maneira que o soldado homossexual, o filho gay e o herói transgênero.  Perturbar as noções binárias de gênero é preciso para conceber a sua fluidez e o direito dos seres humanos de assumir sua sexualidade, reivindicando sua liberdade sem medo de retaliação. O caminho para isso é árduo e, conforme ressalta Jablonka na introdução do livro, pode parecer utópico. Embora Homens Justos possua alguns problemas levantados anteriormente nesta resenha, como uma tendência a ver a noção de patriarcado e paternalismo de forma quase unívoca, levando pouco em consideração as diferenças culturais com que esta categoria foi estudada em diferentes regiões, e por tentar abarcar um período longo demais sem conseguir se aprofundar nos regionalismos, a obra pode servir como uma ótima introdução para os estudos sobre as modernas masculinidades, assim como para conscientizar o leitor sobre seu papel enquanto agente transformador da sociedade, ainda marcada por enraizadas desigualdades de gênero.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

Doutorando em História – UFBA

Referências Bibliográficas:

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. 6ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2018.

BORDO, Susan. The Male Body: a look at men in public and in private. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1999.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 19ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

CORBIN, Alain. História da virilidade: 2. O Triunfo da virilidade: o século XIX. Petrópolis: Vozes, 2013.

LERNER, Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. Tradução de Luiza Sellera. São Paulo: Cultrix, 2019.

NOLASCO, Sócatres Alvares. O mito da masculinidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

WELZER-LANG, Daniel. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Estudos Feministas, Santa Catarina, vol. 9, n° 2, p.460-82, jul./dez 2001.

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