Elizabeth II se torna a monarca com o segundo reinado mais longo da História!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 1 de setembro de 1715, falecia no Palácio de Versalhes, na França, o rei Luís XIV, aos 76 anos. Tendo ascendido ao trono quando ainda era uma criança, em 1643, o soberano ainda mantém o recorde do reinado mais logo já registrado na história, tendo permanecido no poder por mais de 72 anos. Sua governo, por sua vez, coincidiu com o ápice da monarquia absolutista na França, que terminaria algumas décadas depois de sua morte com um processo revolucionário que se alastrou por quase todos os países de continente europeu e além. Muitas foram as Casas Reais que tiveram que de se adaptar aos ventos da reforma constitucional, para assim manterem a coroa (e a cabeça) de seus respectivos monarcas. Após o período marcado pelas grandes guerras na primeira metade do século XX, seria difícil imaginar outro Chefe de Estado alcançando uma marca tão significativa quanto à do chamado Rei Sol. Basta lembrarmos que nesse período grandes impérios conheceram seu desfecho, como o Alemão, o Austro-Húngaro e o Russo (que culminou com o assassinato da família imperial). Sendo assim, quando uma jovem de 25 anos assumiu o trono britânico em 1952 logo após a morte de seu pai, poucos talvez acreditassem que 70 anos depois ela ainda permaneceria em sua posição.

Retrato oficial do Jubileu de Platina da rainha Elizabeth II, tirado em 25 de maio por Ronald Mackechnie.

Elizabeth II estava no Quênia quando recebeu a trágica notícia da morte de seu pai, o rei George VI, em 6 de fevereiro de 1952. É possível que ela ainda mantivesse a esperança de aproveitar por mais alguns anos sua vida como duquesa de Edimburgo, vendo sua pequena família crescer ao lado do marido, Philip Mountbatten, até que o momento em que ela estaria mais preparada para exercer suas funções constitucionais chegasse. A notícia veio de forma brusca. A partir de então, ela deixou de ser apenas Elizabeth Mountbatten para se tornar Elizabeth Regina, a segunda de seu nome a reinar sobre a Inglaterra. Em entrevista à rádio BBC, o então Primeiro-Ministro, Winston Churchill, saudou o início desta segunda Era Elisabetana:

Famosos foram os reinados de nossas rainhas. Alguns dos maiores períodos de nossa história se desenrolaram sob seu cetro. Agora que temos a segunda rainha Elizabeth, também ascendendo ao trono em seu vigésimo sexto ano, nossos pensamentos são transportados quase quatrocentos anos para a magnífica figura que presidiu e, de muitas maneiras, incorporou e inspirou a grandeza e o gênio de a Era Elisabetana. A rainha Elizabeth II, como sua antecessora, não passou a infância com qualquer expectativa certa da Coroa. […] Eu, cuja juventude passou nas glórias augustas, incontestadas e tranquilas da Era Vitoriana, posso sentir uma emoção ao invocar mais uma vez a oração e o hino: “Deus salve a rainha!”

Relendo as palavras do Primeiro-Ministro, proferidas há mais de sete décadas, sua conjunção soa quase apologética. Winston Churchill não apenas saudou o início do reinado de Elizabeth II ao final de seu discurso sobre a morte do pai dela, como também comparou a jovem rainha a duas das maiores soberanas da história inglesa: Elizabeth I, que governou de 1558 a 1603, e Vitória, que reinou de 1837 a 1901. Analisando essas frases de Winston no contexto atual, é curioso notar como os ingleses, que possuem um histórico de misoginia relacionado às mulheres na política, associem os maiores períodos de sua história a três soberanas que imprimiram de forma indelével sua marca na construção da nacionalidade britânica.

Contudo, diferentemente de Elizabeth I, a atual soberana não governa, e sim reina. Ela representa o Reino Unido e a Comunidade de Nações Britânicas na qualidade de Chefe de Estado, enquanto as funções administrativas cabem ao Primeiro-Ministro e ao Parlamento. Por outro lado, isso não diminui a influência que ela acumulou ao longo de sete décadas. Prova disso é a quantidade de pessoas que compareceram às celebrações do Jubileu de Platina da rainha, entre 02 e 05 de junho de 2022. Já com 96 anos e precisando de uma bengala para se locomover, Elizabeth II compareceu à maioria dos eventos programados para a data, como o tradicional desfile do Trooping The Colour, a inauguração de uma árvore cerimonial no parque no Castelo de Windsor, entre outras aparições no balcão do Palácio de Buckingham. Semanas antes, ela também esteve presente na inauguração da linha de metrô que leva seu nome na estação de Paddington, em 17 de maio. Agora, provando a força de sua estabilidade, ela acaba de se tornar a monarca com o segundo reinado mais longo da história, ultrapassando Rama IX da Tailândia, falecido em 13 de outubro de 2016, aos 88 anos. Para os britânicos e demais admiradores da rainha, esse fato se configura em um acontecimento muito importante.

A rainha Elizabeth II assistindo ao desfile do Trooping The Colour, do balcão do Palácio de Buckingham.

Com efeito, a durabilidade do reinado de Elizabeth II nos remete a uma frase que ela própria proferiu no seu primeiro discurso oficial como herdeira do trono, na passagem do seu aniversário de 21 anos, em 1947. Na ocasião, a família real se encontrava na África do Sul e a então princesa disse para todos e todas as ouvintes de rádio que “prometo diante de vocês que minha vida, seja ela longa ou curta, será inteiramente devotada ao seu serviço, e ao de nossa grande família imperial, da qual todos nós pertencemos”. Em 2022, a monarca reiterou seu compromisso, dando-nos a entender de que pretende permanecer no seu posto, a despeito dos boatos que surgem de tempos em tempos de uma possível abdicação. Apesar disso, seu estado de saúde causa alguma preocupação. Desde a morte do príncipe Philip em 09 de abril de 2021, Elizabeth vêm delegando com maior frequência aos membros de sua família seus deveres constitucionais. Pela terceira vez em 70 anos, ela não compareceu à abertura anual dos trabalhos no Parlamento (as outras duas ocasiões foram quando ela estava grávida dos príncipes Andrew e Edward), sendo representada pelo herdeiro trono, Charles, príncipe de Gales. Tampouco ela foi vista no Serviço de Ação de Graças na Catedral de St. Paul.

Tais ausências, por sua vez, podem gerar receios em alguns especialistas da monarquia britânica, que desconfiam da durabilidade do regime após a morte da soberana. Afinal, antes dela, nenhum outro monarca inglês havia comemorado um Jubileu de Platina. Em 9 de setembro de 2015, Elizabeth II superou sua trisavó, Vitória, como a monarca mais longeva do Reino Unido. Em 2019, ela ultrapassou Eleanor de Aquitânia (duquesa da Aquitânia e condessa de Poitiers por direito próprio), que até então detinha o recorde de regência feminina mais longa da história. Desde então, a monarca britânica pode dizer que se manteve no trono por mais tempo que qualquer outra mulher. Contudo, talvez ainda seja cedo para medir o legado que a segunda Era Elisabetana nos deixa. Afinal, ser lembrada apenas como o reinado mais longevo não define por si só as qualidades de Elizabeth II como Chefe de Estado. Nenhum outro soberano de seu país viajou mais do que ela, representando o Reino Unido em diversas partes do mundo, conhecendo líderes mundiais e firmando importantes tratados diplomáticos em nome do Governo. Sua figura carismática estampa selos e cédulas de países como o Canadá e a Austrália, e sua presença atrai milhões de espectadores onde quer que ela apareça.

Milhares de britânicos compareceram nas ruas para comemorar o Dia do Jubileu.

Adentrando o septuagésimo ano de seu reinado, Elizabeth ressurge como a grande avó da Nação, adorada em diversas partes do mundo por sua resiliência, retidão de caráter e compromisso para com a tarefa que lhe foi dada quando ela tinha apenas 26 anos incompletos e necessitava da experiência de políticos mais velhos para guiá-la em seu papel. Hoje em dia, parece que as funções se inverteram: ela é quem serve de conselheira para ministros mais jovens e outros membros da família real. Porém, não podemos ignorar que, por trás da rainha, existe toda uma equipe envolvida na construção de sua imagem pública: secretários, damas de companhia, modistas, cabeleireiros, membros da câmara privada, a equipe do Palácio… uma infinidade de sujeitos, cuja principal função é manter a Firma (termo que o falecido príncipe Philip utilizava para se referir à Casa Real), funcionando à todo vapor. Sentindo-se tocada pelas demonstrações de lealdade, a rainha dirigiu à Comunidade Britânica a seguinte carta:

Obrigado a todos que estiveram envolvidos na convocação de comunidades, famílias, vizinhos e amigos para marcar meu Jubileu de Platina, no Reino Unido e em toda a Commonwealth. Eu sei que muitas lembranças felizes serão criadas nessas ocasiões festivas. Continuo inspirada pela boa vontade que me foi demonstrada e espero que os próximos dias sejam uma oportunidade para refletir sobre tudo o que foi alcançado nos últimos setenta anos, enquanto olhamos para o futuro com confiança e entusiasmo.

ELIZABETH R

Desde o ano passado que os preparativos para a comemoração do Jubileu estavam sendo pensados, ressaltando inclusive o compromisso da família real (especialmente do falecido consorte da soberana) para com a preservação do meio-ambiente. Apesar de a rainha Elizabeth não faça mais viagens internacionais desde o ano de 2016, membros de sua família a representaram em lugares tão distantes quanto o Caribe e o Canadá.

Embora a rainha possa estar entrando numa fase que podemos denominar de “anoitecer do seu reinado”, ela ainda se mantem firme, tanto por sua família, quanto pela coroa que ela herdou logo após a morte de seu pai e, principalmente, pelos seus súditos, que ainda mantém um carinho muito grande por ela (algo que se estende a outros países, como o Brasil, onde ela é apelidada de “Betinha”). Uma pesquisa recente feita entre os britânicos comprovou que a rainha possui mais de 80% de aprovação entre os entrevistados. Talvez esse seja um caso raro em que a figura da monarca tenha superado a estima pelo regime que ela representa. Ao final das comemorações pelo Jubileu, ela endereçou outra missiva ao povo:

Quando se trata de como marcar 70 anos como sua rainha, não há guia a seguir. Realmente é uma estreia. Mas me senti humilde e profundamente tocada por tantas pessoas terem saído às ruas para celebrar meu Jubileu de Platina. Embora eu possa não ter comparecido a todos os eventos pessoalmente, meu coração está com todos vocês; e continuo empenhada em servi-los da melhor forma possível, apoiada por minha família. Fui inspirada pela bondade, alegria e afinidade que ficaram tão evidentes nos últimos dias, e espero que esse sentimento renovado de união seja sentido por muitos anos. Agradeço-vos muito sinceramente aos vossos votos de felicidades e ao papel que todos desempenharam nestas felizes celebrações.

ELIZABETH R

O futuro da Casa Real, entretanto, permanece bastante incerto. Movimentos de cunho nacionalista vêm acontecendo com frequência na Austrália e no Canadá, com a depredação de monumentos e estátuas dedicadas à rainha Vitória e à própria Elizabeth II. Aliás, esses não foram os primeiros momentos difíceis que ela atravessou em seu longo reinado. Nas décadas de 1960 e 1970, por exemplo, a monarquia enfrentou o auge de suas crises, em um contexto marcado por inflação, desemprego e pela ascensão ao poder de grupos políticos contrários à ideia de uma monarquia. O ano de 1992 – classificado pela monarca como seu annus horribilis – representou um marco divisor no seu reinado, com a dissolução dos casamentos de três de seus filhos, o incêndio do Castelo de Windsor e a exposição desenfreada da intimidade da família real na imprensa. O ponto de impacto veio com a morte da princesa Diana em 1997, quando cerca de 1 entre cada 4 ingleses queriam o fim do regime monárquico. Elizabeth II não só sobreviveu a esses dilemas (incluindo a morte de sua irmã e de sua mãe em 2002), como saiu de todos eles mais confiante e segura no seu papel. Até que a plenitude do tempo da soberana neste mundo chegue, podemos dizer que hoje ela navega sobre águas muito mais tranquilas.

“Eu prometo diante de vocês que minha vida, seja ela longa ou curta, será inteiramente devotada ao seu serviço, e ao de nossa grande família imperial, da qual todos nós pertencemos” (princesa Elizabeth, 1947).

Bibliografia Consultada:

DIMBLEBY, Jonathan. O príncipe de Gales. Tradução de Vera Dias de Andrade Renoldi. São Paulo: Editora Best Seller, 1994.

HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

MORTON, Andrew: Diana – sua verdadeira história em suas próprias palavras. Tradução de A. B. Pinheiros de Lemos e Lourdes Sette. 2ª ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

Sites:

International Churchill Society – Acesso em 12 de junho de 2022.

The Royal Family – Acesso em 12 de junho de 2022.

4 comentários sobre “Elizabeth II se torna a monarca com o segundo reinado mais longo da História!

  1. Excelente trabalho de pesquisa! O seu trabalho, aliás, é excepcional! Nunca tinha comentado antes…. Mas parabéns pelo excelente trabalho no “rainhas trágicas”

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