Antes de morrer, Henrique VIII teria se arrependido de ordenar a execução de Ana Bolena!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Nas primeiras horas da madrugada do dia 28 de janeiro de 1547, falecia aos 55 anos o rei Henrique VIII da Inglaterra, no Palácio de Whitehall, em Londres. Há anos, o monarca sofria com sérios problemas no trato digestivo, agravados pela obesidade, e por sua perna ulcerada, que lhe causava fortes dores e às vezes o impossibilitava de andar. À beira da morte, o soberano sequer conseguia se comunicar. Segundo Antonia Fraser: “Nos seus últimos dias, só membros do Conselho Privado e os Cavalheiros da Casa Real tinham tido permissão para vê-lo. […] No entanto, quando o arcebispo pediu ao rei que lhe desse algum sinal, com os olhos ou com a mão, de que confiava em Deus, o rei conseguiu apertar a mão de Cranmer” (2010, p. 521). Mas o que Henrique teria dito em sua última confissão? Poderia ele ter se arrependido das muitas mortes que ordenara ao longo de quase 38 anos de reinado, incluindo duas de suas seis esposas: Ana Bolena e Catarina Howard? De acordo com a historiadora Sandra Vasoli, uma evidência-chave na análise sobre os últimos pensamentos do monarca moribundo foi negligenciada durante séculos. A fonte, por sua vez, lança possíveis lampejos sobre os sentimentos do rei com relação à mãe da futura rainha Elizabeth I, executada quase 11 anos antes.

Ana Bolena, por artista desconhecido.

Com efeito, nem a rainha Catarina Parr (última das seis consortes de Henrique) ou as filhas do monarca se encontravam presentes na ocasião da morte do pai. Elas partiram para o Palácio e Greenwich na véspera do Natal de 1546 e nunca mais voltariam a ver o soberano com vida. Com o falecimento do marido, Catarina acabaria usufruindo do título de rainha-viúva, das joias, rendas e propriedades que lhe haviam sido garantidas pelo casamento. Porém, enquanto o monarca agonizava em seu leito de enfermo, poderia ele ter manifestado remorso pela forma como o processo de acusação e julgamento contra Ana Bolena foi feito, levando-a à morte por decapitação em 19 de maio de 1536? Antes disso, o rei havia movido uma ação jurídico-religiosa para anular seu primeiro casamento com Catarina de Aragão, tomando a filha de Sir Thomas Bolena como segunda esposa. Esse litígio acabou levando ao rompimento da Igreja da Inglaterra com o papado e à promulgação do Ato de Supremacia, que reconhecia Henrique dentro de seu reino como líder supremo tanto do poder temporal, quanto do poder secular. Infelizmente, as intrigas envolvendo Casa e Corte acabaram enredando a nova rainha consorte numa teia de acusações, que foram levadas com seriedade por seu marido.

Atualmente, pesquisadores como Eric Ives e Alison Weir demonstram que a maioria das acusações de adultério movidas contra Ana Bolena não encontravam fundamento, mesmo na época em que elas foram forjadas. Suas damas de companhia haviam sido submetidas a um intenso escrutínio pelo secretário do rei, Thomas Cromwell, na tentativa de levantar alguma prova que pudesse provocar a queda da facção Bolena na corte e do clã dos Howard. Cinco homens acabaram sendo condenados juntamente com a rainha, incluindo seu irmão, George Rochford. Nos anos seguintes, a existência de Ana começou a ser varrida dos anais da história inglesa, até que uma geração depois seu nome reapareceu como genitora da soberana reinante. Sandra Vasoli, que é autora do livro “Anne Boleyn’s Letter from the Tower: A New Assessment” (2015), recentemente fez uma descoberta num livro em francês guardado nos arquivos da Biblioteca Britânica, contendo um possível indício sobre os arrependimentos do rei a respeito da mãe de sua filha. “Você pode ler a inscrição, embora seja difícil, porque está tudo em francês antigo”, disse a especialista em entrevista ao Express.co.uk.

O volume descoberto por Vasoli, por sua vez, foi retirado dos arquivos pertencentes ao bispo White Kennett, um famoso especialista e tradutor, que viveu entre o final do século XVII e o início do século XVIII. Ele teria transcrito uma citação da obra “Cosmographie Universalle”, do franciscano e viajante francês, frei André Thevet, cujo trabalho coincide com o mesmo período da morte de Henrique VIII. “Pode até existir mais em seu livro a respeito disso”, argumentou Vasoli, “mas quem está lendo esse volume gigantesco em francês antigo? Ninguém”. Para a pesquisadora, “muitas dessas informações passaram despercebidas”. De acordo com as inscrições encontradas no livro:

[…] O rei reconheceu com grande pesar na sua morte as injúrias que ele cometeu para com Lady Ana Bolena e sua filha. Muitos cavalheiros ingleses me confirmaram que ele se arrependeu sob seu leito de morte das injustiças cometidas contra a rainha Ana Bolena. De ela ter sido falsamente acusada e pela punição imposta a ela, que morreu como boa cristã e deveria ser sepultada de acordo com a Igreja de Roma. É em conjunção com essa situação que ele [Henrique] tentou corrigir tais injustiças e, de todo coração, assina seu nome nesse testemunho.

Rei Henrique VIII, segundo retrato pintado por Hans Holbein, o Jovem (séc. XVI).

Contudo, é preciso levar em consideração que o frei Thevet não estava presente na câmara do rei no momento de sua morte, apenas membros do seu Conselho Privado e Cavalheiros da Casa Real. O que Thevet registrou teria vindo de uma testemunha ocular, que ouviu as últimas palavras de Henrique. Isso, por sua vez, lança uma sombra de dúvida acerca da veracidade de tais informações. Afinal de contas, o monarca ordenara a execução de outra de suas esposas, além de pessoas muito próximos a si, como o erudito Sir Thomas More, sua prima, Margaret Pole, o cardeal Wolsey, que fora seu chanceler por décadas, e de Thomas Cromwell. A lista fica maior se acrescentarmos a morte do bispo Fisher e a condenação do duque de Norfolk, que estava prestes a ser executado, não fosse a morte do próprio rei impedir a assinatura do cumprimento da sentença.

Outro ponto controverso é a afirmação de que Henrique desejava que Ana Bolena fosse “sepultada de acordo com a Igreja de Roma”. Há mais de uma década que o soberano havia rompido suas relações com o papado, tornando-se chefe supremo da Igreja da Inglaterra. O mais lógico seria que Ana fosse sepultada de acordo com os ritos da religião reformada e não de acordo com os preceitos católicos. Por outro lado, segundo Sandra Vasoli, o relato providenciado por Thevet combina com aquilo que já sabemos a respeito dos dias finais de Henrique VIII. Para ela, o depoimento pode ser verídico, uma vez que “nas horas finais de sua existência, nos últimos momentos de sua vida, havia apenas um grupo seleto de pessoas que estavam ao seu redor. Sabemos que Sir Anthony Denny foi instado a dizer a Henrique que seu tempo estava terminando e que sua morte era iminente”. Nesse momento, quando Thomas Cranmer, arcebispo de Canterbury, chegou, o monarca já não era capaz de pronunciar mais qualquer palavra. Assim, a confissão de arrependimento teria sido feita antes disso. Mas para quem? Não obstante, quem passou essa informação para o frei Thevet? Perguntas como essas, contudo, permanecem sem esclarecimento, o que coloca em dúvida a credibilidade do achado. Além disso, nenhuma outra fonte confirma o suposto arrependimento do rei com relação à morte de Ana Bolena.

Retrato de Elizabeth I, atribuído a Nicholas Hilliard.

Imediatamente após o falecimento do monarca, a família Seymour tratou de tomar as rédeas dos assuntos de Estado, com Sir Edward Seymour agindo como regente em nome do sobrinho. De acordo com o último Ato de Sucessão aprovado pelo Parlamento durante o reinado de Henrique VIII, em 1543, a coroa passaria para seu único herdeiro varão, o príncipe Edward VI. Na ausência de filhos do novo soberano, o trono seria assumido pela filha mais velha de Henrique, Lady Mary, nascida de seu primeiro casamento com Catarina de Aragão. Caso Mary morresse sem descendência, a coroa passaria então para sua meia-irmã, Lady Elizabeth, filha de Ana Bolena. As duas princesas foram readmitidas pelo monarca como suas sucessoras legítimas e, após a morte precoce do irmão em 1553, ambas chegaram a governar (Mary de 1553 a 1558 e Elizabeth de 1558 a 1603). Essa talvez seja uma das maiores ironias na história do rei Henrique VIII. Após disputas políticas e religiosas que custaram as vidas de mais de 72 mil pessoas para que os ingleses fossem governados por um sucessor masculino, foram as duas filhas do monarca que provaram aos seus contemporâneos o quão preparadas eram para o exercício do poder!

Fonte:

Express.co.ukAcesso em 30 de março de 2022.

Bibliografia Consultada:

FRASER, Antonia. As seis mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva. 2ª ed. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2010.

IVES, Eric W. The life and death of Anne Boleyn: ‘the most happy’. – United Kingdom: Blackwell Publishing, 2010.

WEIR, Alison. The lady in the tower: the fall of Anne Boleyn. – New York: Ballantine Books, 2010.

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