Vitória do Reino Unido, Imperatriz da Índia: uma vida em 10 objetos!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A rainha Vitória eternizou sua figura como uma das mais proeminentes chefes de Estado do século XIX. Mesmo nos dias de hoje, é quase impossível pensar nesse período sem se voltar diretamente à soberana que, de muitas formas, corporificou as políticas econômicas e imperialistas do Reino Unido. Embora fosse uma monarca como poderes limitados, Vitória atuava como uma espécie de figura de proa para a nação britânica, que passou a associar seu reinado (de 1837 a 1901) a uma das fases de maior prosperidade de sua história. Não obstante, o estilo de vida da rainha, apelidada na velhice de avó da Europa, ultrapassou barreiras regionais e se enraizou em várias culturas, seja pela absorção dos costumes ingleses por países que tomavam a Inglaterra como modelo de civilização, seja através do uso da força coercitiva durante a fase do neocolonialismo. A imagem controversa da rainha, cristalizada no imaginário coletivo como uma senhora eternamente enlutada pelo marido, atravessou as barreiras de seu tempo e chegou até nós como uma força avassaladora, alimentando estudos biográficos, romances, filmes e séries. Apesar de algumas dessas produções romantizarem em demasia a chamada Era Vitoriana e sua principal representante, seu poder de expressividade é quase inegável.

Para historiadores como Eric Hobsbawn, a Era Vitoriana sobreviveu à morte da rainha em 1901, terminando com as bombas da Primeira Guerra Mundial treze anos depois. Para outros, o modelo de monarquia por ela instituído durou por mais algum tempo, chegando à Segunda Era Elisabetana, quando outra mulher assumiu o trono britânico em 1952. Embora muitas das tradições instituídas pela rainha Vitória ainda se mantenham ativas no reinando de sua trineta, como os casamentos reais, comemorações de jubileus, batizados e funerais, é inegável que em 70 anos Elizabeth II também conseguiu imprimir sua própria marca, não apenas por superar sua antecessora como a monarca mais longeva na história do Reino Unido, como também por conseguir se manter no trono em meio a crises familiares, políticas e financeiras, que fizeram muitos governos caírem ao longo da segunda metade do século XX. Em vez disso, a atual monarca desfruta atualmente de uma popularidade quase sem precedentes. Por outro lado, a memória da rainha Vitória e seu modelo de regime exerce uma espécie de guia para sua descendente, que tenta adaptar a tradição ao movimento de aceleração dos tempos modernos. Nessa matéria, reunimos 10 objetos que contam um pouco da história da icônica soberana oitocentista.

BONECAS

Nascida em 24 de maio de 1819, a princesa Alexandrina Vitória de Hanôver era filha do príncipe Edward, duque de Kent, com a princesa Victoire de Saxe-Coburgo-Saafeld. Sua vinda ao mundo estava intrinsecamente relacionada a uma crise de sucessão no trono britânico. Com menos de 1 ano de idade, ela perdeu seu pai e passou a viver de forma reclusa com a mãe e seus dois meios-irmãos no Palácio de Kensington. Afastada da corte e dos escândalos dos reinados de seus tios, George IV e William IV, ela tinha pouquíssimos amigos. Sua companhia constante era a baronesa Lehzen, designada especialmente para supervisionar cada passo de sua pupila. Assim que as perspectivas de Vitória suceder seu tio William se tornaram incontestáveis, um rígido sistema de segurança foi planejado pela duquesa-viúva de Kent e seu controlador das finanças, Sir John Conroy, para afastar a jovem de qualquer incidente que pusesse em perigo seu futuro. Infelizmente, o chamado “Sistema Kensington”, longe de preparar a princesa para seu papel como monarca constitucional, lhe deu uma percepção muito vaga da realidade dos ingleses e da situação da Coroa. Dessa fase, sobreviveram algumas bonecas que ela confeccionou com Lehzen como forma de se distrair do enfado que era a vida no Palácio (Acervo da Royal Collection Trust).

ANEL DA COROAÇÃO

Em 20 de junho de 1837, o rei William IV faleceu no castelo de Windsor, passando assim o trono para sua sobrinha de 18 anos. Despreparada para seu dever como soberana constitucional, Vitória contou bastante a ajuda de seu Primeiro-Ministro, Lorde Melbourne. No dia 28 de junho de 1838, ela foi solenemente coroada na Abadia de Westminster. Para a ocasião, ela usou um anel composto por uma safira octogonal, incrustado com quatro rubis oblongos e outro quadrado, dispostos em formato de cruz. Brilhantes também decoram a haste e a borda da joia. Desde o século XIII, tornou-se tradição incluir um rubi como pedra principal no anel de coroação do monarca reinante da Inglaterra. A composição da joia é parte indispensável da investidura do soberano, sendo precedida pela unção com o óleo sagrado e seguida pelo ato da coroação em si. Dizem que, durante a cerimônia na Abadia, o anel foi colocado no dedo errado da rainha pelo atrapalhado arcebispo, fazendo com que a joia ficasse bastante apertada, impedindo assim a circulação sanguínea. Apesar disso, a jovem monarca aguentou o máximo que pôde, enquanto as outras regalias reais (o centro e o orbe) eram depositadas em suas mãos e a coroa colocada sobre a sua cabeça. Ao final do processo de sagração, quando ela entrou numa cabine para trocar o manto cerimonial, ela conseguiu retirar o anel com ajuda de água e sabão e o colocar no dedo certo.

VESTIDO DE NOIVA BRANCO

Apesar de a rainha Vitória não ter sido a primeira noiva da realeza a se casar de branco, os detalhes do seu casamento em 10 de fevereiro de 1840 foram tão difundidos por meio de propagandas e campanhas publicitárias, que o branco acabou virando tendência nos vestidos das noivas, supostamente representando sua virtude e pureza (muito embora Vitória o tivesse escolhido para destacar a delicadeza do rendado). As classes mais ricas, por sua vez, buscaram se inspirar no casamento real para planejar suas próprias núpcias, solidificando assim um modelo que ditava desde os trajes dos noivos, até o estilo dos convites formais, a entrada processional, as flores e a música. Assim, empresas especializadas na área foram surgindo para alimentar essa nova tendência, vendendo acessórios de decoração. Como as mulheres da classe média tentavam criar uma impressão de posição social incorporando o estilo de vida das classes ricas, então o vestido branco acabou ganhando a adesão até mesmo dos extratos mais baixos da sociedade e sua tradição vigora até os dias de hoje, embora com algumas modificações. Na imagem acima, podemos ver o vestido de noiva usado por Vitória no seu casamento, acompanhado de uma tela pintada por Franz Xaver Winterhalter, que a soberana encomendou para dar de presente ao príncipe Albert.

A PEQUENA COROA DA RAINHA

A pequena coroa/tiara da rainha Vitória se trata de uma joia que o príncipe Albert desenhou em 1842 para presentear sua esposa. O consorte da monarca tinha um talento especial para a arte da joalheira, tendo ele próprio projetado muitos dos adornos que Vitória usaria em seu tempo de casada. O design da peça apresenta arcos góticos em ouro branco, com diamantes e safiras incrustadas em sua base. Vitória costumava usá-la na parte de trás de sua cabeça, prendendo a polpa trançada de seu penteado, conforme podemos observar em um de seus retratos mais famosos, pintado por Franz Xaver Winterhalter. Albert criou a peça para combinar com o broche de safira e diamantes que ele havia dado à rainha como presente de casamento, em 1840. Após a morte do príncipe consorte, Vitória usaria a pequena coroa/tiara em poucas ocasiões, quase sempre como uma lembrança da pessoa por trás do processo criativo da joia.

CADERNO DOS TRAJES

Assim como Maria Antonieta, a rainha Vitória também possuía um caderno contendo amostras das estampas dos tecidos dos seus vestidos. Assim, ela poderia selecionar o traje que gostaria de usar no dia apenas consultando as páginas do seu álbum e em seguida solicitar a peça escolhida diretamente à sua dama do Guarda-Roupas. A imagem acima mostra uma miscelânea de cores em tons de rosa, amarelo, marfim e padrões florais, o que indica que a soberana provavelmente costumava consultar o caderno com maior frequência entre os anos de 1837 a 1861, quando então o preto passou a vigorar no seu código de indumentária, em sinal de luto pela morte do príncipe Albert. Atualmente, o caderno nos trajes da rainha Vitória se encontra preservado na Royal Collection Trust e serve como fonte indispensável para se entender a moda no processo de fabricação da imagem de Vitória como figura de proa do Reino Unido.

MOLDES DE MÃOS E PÉS

Moldes do pequeno pé da bebê Vicky, princesa real e futura imperatriz da Alemanha, e do bracinho da princesa Louise, futura duquesa de Argyll. Assim que suas crianças alcançavam os 4 ou 5 meses de vida, a soberana tirava moldes de seus membros, que depois eram esculpidos em mármore por artistas como Mary Thornycroft. “Existe tanto amor nessas mãos e pés de mármore”, escreveu a rainha, que acreditava que os bebês só se tornavam belos quando passavam dos primeiros 2 meses de nascidos. Antes dessa fase, ela dizia que eles se pareciam mais com rãs, o que gerou a falácia de que Vitória não gostava de crianças. Na verdade, o que a rainha desgostava era do período da gestação e dos muitos incômodos que essa fase lhe causava, conforme ela expressou em várias cartas para sua filha mais velha. Ao todo, ela e Albert teriam 9 filhos, o que acabou por comprometer a saúde física da soberana. Além dos braços e pés, ela também tirava moldes das orelhas dos pequenos príncipes e princesas, para preservar a memória de sua infância. A maior parte destes itens pode ser vista em Osborne, dispostos sobre delicadas almofadas de veludo vermelho (acervo da Royal Collection Trust).

CABINE DE TREM DA RAINHA

Cabine mobilhada do trem pessoal da rainha Vitória. A era vitoriana foi um período de rápido avanço tecnológico e de industrialização. Nesse processo, a locomotiva à vapor se tornou um dos maiores símbolos da Primeira Revolução Industrial. Décadas depois, a eletricidade começaria a se tornar mais comum; a fotografia se tornaria de fácil acesso popular; e os sistemas ferroviários se espalharam pela Grã-Bretanha, encurtando assim as distância e facilitando o sistema de transportes e correios. De acordo com a PBS, Vitória foi a primeira monarca a viajar em um trem, no ano de 1842. O passeio de Slough, perto do Castelo de Windsor, em direção a Paddington, no oeste de Londres, levou cerca de 30 minutos para ser concluído. Segundo a revista People, a rainha de 23 anos achou o passeio delicioso e disse que o “movimento era muito leve e muito mais tranquilo do que uma carruagem – também sem poeira ou grande calor”. Em 1869, a soberana encomendou dois vagões ferroviários, que foram construídos na Wolverton Work, pela London & North Western Railway e projetados por Richard Bore. Todo decorado com tecidos azuis, este sofisticado salão era supostamente o veículo ferroviário favorito de Vitória.

MEMENTO

Prática muito comum desde antes da chamada Era Vitoriana, o hábito de se preservar uma mecha de cabelo de um ente querido dentro de uma joia ou medalhão se tornou muito popular entre as elites do século XIX. Era considerada uma forma carinhosa de se preservar um “pedacinho” de alguém especial. Popularmente conhecidos como mementos, a rainha Vitória possuía muitos desses itens como o exposto acima, contendo fios de seu próprio cabelo, entre outros de sua mãe, marido e filhos. Joias também podiam ser fabricadas a partir de fios de cabelos trançados e usadas em sinal de afeto por alguém que já tivesse partido. Vitória costumava usar broches, camafeus e pingentes especialmente confeccionados para preservar os cabelos de seus familiares mortos, mantendo acesa as recordações daqueles faleceram. Um de seus últimos pedidos antes de morrer foi que alguns desses mementos fossem colocados dentro de seu próprio caixão, em honra daqueles cuja lembrança ela desejava carregar consigo para sempre.

O COLAR DO JUBILEU

Em 1887, para marcar o Jubileu de Ouro da rainha Vitória (50 anos de reinado), um comitê foi formado para levantar fundos com o propósito de erguer uma estátua comemorativa do príncipe Albert (marido da monarca, falecido em 1861). O dinheiro remanescente, por sua vez, foi utilizado na confecção de um impressionante colar com 26 pérolas naturais e cerca de 300 diamantes, que Vitória usou nas fotos oficiais do Jubileu. Seis de seus elos podem ser removidos e usados separadamente como broches. 10 anos antes, a soberana havia sido agraciada com o título de Imperatriz da Índia, durante o mandato do Primeiro-Ministro, Lorde Disraeli. A concessão do título à Vitória representou a fase de apogeu do imperialismo britânico, assim como a adesão da monarca às políticas neocoloniais de seus ministros, razão pela qual sua figura é criticada até os dias de hoje. Reinando sobre quase 1/6 do mundo, a imagem da soberana, suas joias e roupas, deveriam ser confeccionadas de forma a representar o poderio do Reino Unido. Após a morte da rainha, em 1901, a joia se tornou propriedade da Coroa e foi usada pelas outras soberanas, sendo atualmente uma das peças da coleção real preferidas da rainha Elizabeth II.

UMA IMAGEM PARA A POSTERIDADE

A estátua acima foi esculpida pela princesa Louise, quarta entre as cinco filhas da rainha Vitória. A princesa resolveu capturar uma imagem de sua mãe que representasse a ideia de grandeza que os britânicos faziam de si mesmos. Possivelmente baseada no retrato pintado por George Hayter, a estátua apresenta Vitória no momento mais importante na vida de um soberano: a sua coroação como soberana do Reino Unido. Finalizada em 1893 e erguida nas proximidades do Palácio de Kensington, onde a rainha viveu durante toda a sua infância, a obra era a corporificação do apogeu das políticas imperialistas da Grã-Bretanha, quando a nação já havia colonizado boa parte do continente africano e asiático. Quando Vitória faleceu, em 22 de janeiro de 1901, aos 81 anos, a Inglaterra era então a maior potência do mundo e seu rosto era o símbolo de uma Idade de conquistas e avanço tecnológico. 13 anos depois, a Primeira Guerra Mundial pôs um fim à chamada Era Vitoriana, inaugurando uma nova fase na Europa, inclusive para a monarquia britânica, cujo império aos poucos foi se desfazendo em meio ao caos econômico resultante do conflito. Atualmente, estátuas como essa têm sido alvo de protestos em várias partes do mundo, especialmente no Canadá, onde as políticas neocoloniais do século XIX ceifaram as vidas de milhares de pessoas.

Referencias Bibliográficas:

ALEXANDRE, Philippe; DE L’AULNOIT, Béatriz. Victoria: a última rainha (1819 – 1901). Tradução de Fátima Gaspar e Carlos Gaspar. 2ª ed. Lisboa, Portugal: Bertrand, 2002.

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

GILL, Gillian. We two: Victoria and Albert: rulers, partners, rivals. New York: Ballantine Books, 2009.

HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos: o breve século XX. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

LONGFORD, Elizabeth. Queen Victoria: born to succed. New Yor:  Haper & Row, 1964.

MUHLSTEIN, Anka. Vitória: retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

PACKARD, Jerrold M. Victoria’s daughters. New York: St. Martin Press, 1998.

STRACHEY, Lytton. Rainha Vitória. Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Record, 2001.

2 comentários sobre “Vitória do Reino Unido, Imperatriz da Índia: uma vida em 10 objetos!

  1. A cada novo e-mail com um relato, sei que momentos de conhecimento e de alegria virão pela frente. Sou-lhe gratíssima pela generosidade em compartilhar suas pesquisas conosco.

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