Objetos que contam histórias: uma viagem através dos fragmentos e tradições do passado!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Objetos possuem uma história muito interessante para ser contada. Guardados ao longo de décadas ou séculos, eles abrem uma interessante janela para o aspecto inventivo das tradições e do cotidiano dos povos. Expostos em museus ou em coleções particulares, estes itens carregam consigo um enorme valor simbólico, lançando luz sobre um tempo que já se foi, ou então testemunhando como as práticas e os costumes foram sendo modificados ao longo dos anos. Em 1858, os irmãos Goncourt escreveram que “uma época da qual não se tenha uma amostra de vestido e um cardápio de jantar é uma época morta para nós, uma época irrecuperável”. Como o passado é impossível de ser resgatado, o que chega para nós hoje são os fragmentos daquilo que já se foi, mas que permitem uma interpretação verossímil de como a vida poderia ter sido em uma determinada comunidade. Materiais tangíveis nos quais a memória se cristaliza, permitindo constantemente com que a lembrança seja renovada e revivenciada no presente. Nessa matéria, selecionamos alguns objetos (uns bem conhecidos, outros nem tanto), que nos convidam a fazer uma viagem através dos vestígios do passado.

SAPATOS QUE MACHUCAM

Antiga tradição chinesa, as mulheres eram submetidas desde muito cedo a um processo torturante, para utilizarem calçados de 8 a 10 cm. A prática violenta, porém, era considerada um charme feminino na China até pouco tempo atrás. O costume teria surgido por volta do século X entre as mulheres da elite e então alcançado os extratos sociais mais baixos. Para atingir o formato de um botão de lótus, os dedos do pé eram enrolados em tecido e depois espremidos na direção da sola até se quebrarem, impedido assim o crescimento do membro e conservando-o nesse formato. Os pés de lótus eram vistos como símbolos de status e beleza na cultura chinesa e sua prática permaneceu ativa até o século XX, embora algumas famílias ainda a mantenha.

POSSÍVEL ANEL DE CALÍGULA

Anel de safira com aro interno de ouro, de aproximadamente 2000 anos, que teria pertencido ao Imperador romano Calígula. A mulher cujo perfil se encontra entalhado na pedra se trata possivelmente de sua quarta esposa, a Imperatriz Caesonia, a mais adorada das consortes do monarca (segundo a crença). Ela e sua filha com Calígula foram assassinadas algumas horas após o Imperador sofrer o mesmo fim, em 24 de janeiro de 41 d.C. A joia com o rosto gravado da Imperatriz, porém, sobreviveu e acabou parando na coleção de pedras preciosas de George Spencer, 4º duque de Marlborough, na segunda metade do século XVIII. Por outro lado, o paradeiro de peças como essa é um pouco confuso com o passar dos séculos. As famílias patrícias as mantinham, ou então eram herdadas pelos sucessores do Imperador. A Igreja ficou com muitos desses bens também. Por isso não se pode afirmar com certeza que o anel pertenceu à Calígula e que a mulher entalhada na joia se trate da quarta esposa dele, embora evidências comparativas e testes laboratoriais possam ajudar na identificação. No período moderno, com o financiamento de escavações em Roma, muitas joias antigas foram encontradas, como camafeus contendo efígies de imperadores e suas consortes.

CARPINTEIRO ESPERTO…

Há aproximadamente 800 anos, um esperto carpinteiro entalhou essa figura masculina na madeira do teto da Igreja de Todos os Santos, em Hereford, na Inglaterra. A região mal iluminada pouco ressaltava o entalhe, talvez esculpido em tom de zombaria para com os homens da Igreja que financiavam a obra. Por outro lado, conforme ressalta a Historiadora da Arte, Aline Pascholati:

Havia muitas imagens assim nas Igrejas Medievais Românicas e acredita-se que a maior parte delas fosse uma espécie de contraexemplo, ou seja, algo que não deveria ser feito, nesse caso, relacionado ao pecado da luxúria.

Depois do processo de Reforma Religiosa na Inglaterra, o prédio foi confiscado pela Coroa e postumamente transformado em um Museu. Como seu teto era muito alto, a Curadoria resolveu construir um novo andar para dar espaço a uma cafeteira. Novas luzes foram então instaladas nas áreas mal iluminadas das vigas do telhado. Assim, descobriram essa curiosa “piada” feita por um carpinteiro anônimo no século XIV. A imagem viralizou este ano depois que um fotógrafo visitou a Igreja e a compartilhou nas redes sociais.

Fonte: Snopes

O DOSSEL PERDIDO

Cama com dossel elisabetano, datada de 1570, feita exclusivamente para a noite de núpcias de Sir John Radclyffe com Lady Anne Asshawe. “Uma cama comprada para uma princesa” teria dito Sir John para sua jovem esposa. Por quase 3 séculos, o paradeiro do móvel esteve perdido, sendo reinstalado há pouco tempo no seu lugar original, em Ordsall Hall, lar da família Radclyffe. Ao todo, o casal teve seis filhos e compartilhou esse mesmo leito até 1590, ano da morte de Sir. John. A família era bem relacionada na corte, tanto que uma das filhas de Lady Anne e seu marido, Margaret Radclyffe, se tornou dama de companhia de Elizabeth I. A cama com dossel ricamente entalhado se perdeu em 1650, quando Ordsall Hall deixou de ser propriedade da família. Quase 300 anos depois, em 1930, ela surpreendentemente reapareceu em Londres, onde foi leiloada pela Bonham’s. A cama, por sua vez, estava entre os pertences de Whalley Range, um homem que vivia de forma muito reclusa em Manchester, sendo vendida juntamente com outros de seus bens para cobrir impostos. Entre as imagens entalhadas na madeira, podemos diagnosticar histórias de casamentos da família Radclyffe, juntamente com seu brasão de armas. A presença dos brasões reais de Henrique VIII, Edward VI e Maria I indica o quão bem eles eram relacionados com a Coroa.

LUÍS XIX EM ALTO RELEVO

Retrato de Luís XIV, o Rei Sol, feito em 1706 por Antoine Benoist. Para compor sua tela, o artista usou materiais diversos como cera, tinta, uma peruca original e tecidos com renda e veludo carmesim. A composição final é um retrato hiper-realista em alto relevo do Rei Sol, no qual é possível diagnosticar até mesmo os fios aparados de sua barba, cílios, rugas e marcas de expressão. Tinha Luís XIV 68 anos quando da finalização da obra de Benoist. Sofria terrivelmente com a gota, de modo a precisar do auxílio de uma cadeira de rodas para se locomover no palácio e pelos jardins. À medida em que envelhecia, começara também a evitar as aparições públicas e o teatro da corte, abolindo cerimônias como o “coucher” desde 1705. Atualmente, a tela de Antoine Benoist se encontra em exposição no Palácio de Versalhes e foi uma das últimas representações autênticas de Luís XIV, feita em seu tempo de vida.

NAVIO VASA

Remanescentes do navio Vasa, naufragado em Estocolmo durante a sua primeira viagem, em 1628. Após permanecer 333 anos submerso, o Vasa finalmente completou sua jornada. A carcaça deste impressionante navio de guerra foi resgatada do fundo do mar e hoje se encontra exposta em um museu na capital sueca. Atualmente, é um dos navios mais bem preservados do século XVII, com 98% de sua estrutura original quase intacta.

A MÁQUINA

Útero com feto humano ainda ligado ao cordão umbilical, confeccionado em tecido e couro pela eminente parteira Angélique Marguerite Le Boursier du Coudray. Oriunda de uma família de médicos, na década de 1740 Angélique ganhou notoriedade na área da medicina, em uma época onde o exercício dessa profissão era praticamente proibido para as mulheres. Líder do movimento das parteiras na França, ela publicou em 1759 o livro “Abrégé de l’art des accouchements” (Resumo da Arte do Parto), uma obra pioneira escrita por uma mulher na área da saúde. Seu trabalho chamou tanto a atenção de seus contemporâneos, que o próprio rei Luís XV a convidou para ensinar a obstetrícia às mulheres camponesas, na expectativa de reduzir os riscos de mortandade infantil durante o parto. Durante 23 anos, de 1760 a 1783, ela viajou por toda a área rural francesa, visitando diversas cidades e vilas, compartilhando seus conhecimentos para um amplo público feminino (incluindo alguns médicos cirurgiões também). Para tanto, ela criou alguns manequins obstetrícIos, conhecidos pelo nome de “A Máquina”, que podiam ser confeccionados em tecido, couro, estofamento e alguns até continham ossos humanos, para simular a região pélvica e o interior do útero. Seu trabalho ajudou a difundir o conhecimento médico pelo interior do país e fez de Angélique uma das personalidades mais ilustradas de seu tempo. Assim, ela abriu as portas para que outras mulheres do final no século XVIII e ao longo do século XIX seguissem seus passos e fossem além.

DIAMANTE HOPE X CORAÇÃO DO OCEANO

Uma das joias mais famosas das últimas décadas é o “Le Coeur de la Mer” (O Coração do Oceano), colar oferecido à personagem Rose DeWitt Bukater (Kate Winslet) pelo seu noivo, Cal Hockley (Billy Zane), no filme “Titanic” (1997). Na ficção, a pedra teria sido relapidada a partir do Diamante Hope, ou French Blue, que pertencia originalmente à Coroa Francesa. Na História, ela apareceu pela primeira vez em 1668, quando foi ofertada ao rei Luís XIV por um mercador francês chamado Jean-Baptiste Tavernier. O diamante teria sido roubado de um templo hindu na Índia, onde decorava um dos olhos da deusa Sita. A pedra preciosa, que originalmente tinha 112 quilates, foi lapidada em forma triangular pelo joalheiro da corte francesa, Sieur Pitau, que a cravejou com diamantes brancos menores, de acordo com o gosto do Rei Sol. A ilusão da cor azul se deve à presença de boro em sua estrutura cristalina.

A magnífica peça passou sucessivamente aos descendentes de Luís XIV até ser oferecida a Maria Antonieta por Luís XVI como presente de casamento. Com a Revolução Francesa, as joias da rainha da França foram entregues à Convenção Nacional e, por quase duas décadas, o paradeiro do Diamante Azul da Coroa permaneceu desconhecido. Ele só reapareceu em 1812 nas mãos do mercador londrino Daniel Eliason e foi depois vendido para Henry Philip Hope, que rebatizou a pedra com seu sobrenome. Em seguida, a joia foi exibida na Exposição Universal de Londres de 1851 e na Exposição Universal de Paris, em 1855. Ela permaneceu entre as posses da família Hope até o ano de 1901, quando foi novamente vendida para quitação de dívidas. Depois disso, passou por uma série de donos e donas até ser comprada por Harry Winston, em 1949. Mas, diferentemente do final de “Titanic”, a joia original não acabou parando no fundo do Atlântico Norte e sim no Instituto Smithsonian, por doação do próprio Winston. Ali, o verdadeiro “Coração do Oceano” pode ser admirado até os dias de hoje.

BRINCOS REVOLUCIONÁRIOS (LITERALMENTE)

Par de brincos em formato de guilhotina, datado de 1794. O design apresenta o gorro revolucionário sustentando a armação, que foi sugerida pelo médico Joseph-Ignace Guillotin como um método de execução mais eficaz do que o machado. Caindo de forma pendente, as cabeças coroadas de Luís XVI e Maria Antonieta, executados durante a chamada Fase do Terror Revolucionário, em 1793. Durante os anos da Primeira Revolução Francesa, no final do século XVIII, os franceses carregavam consigo souvenires do regime deposto, como símbolo da vitória da República sobre a Monarquia. Pedaços de tijolos da fortaleza da Bastilha eram coletados e vendidos na praça onde antes se erguia a antiga fortaleza medieval, considerada um símbolo do despotismo da Coroa. Frutos de saques aos túmulos reais na Basílica de Saint-Denis também eram mantidos, desde objetos encontrados junto aos corpos dos reis e rainhas do passado e até mesmo relíquias macabras dos próprios cadáveres, como um dedo, um osso de costela, ou fios de cabelo.

Fonte: Musée Carnavalet, Paris.

FATIA DO BOLO DE CASAMENTO DA RAINHA VITÓRIA

No dia 10 de fevereiro de 1840, a rainha Vitória causou verdadeiro frisson ao atravessar de carruagem as ruas de Londres em direção à Capela Real, no Palácio de St. James, para se casar com o príncipe Albert. Os súditos se aglutinavam nas calçadas, no topo de árvores e em postes para ver a pequenina figura passar, vestida num traje inteiramente branco, decorado com rendas flores de murta e de laranjeira. “Casamento real, casamento real”, gritavam os bêbados pelos logradouros e bairros da cidade, enquanto jornalistas rabiscavam rapidamente em seus blocos para não deixar nenhuma informação escapar. Com efeito, aquele seria uma dos dias mais felizes da vida da soberana, revivido por ela em muitas ocasiões através de fotos póstumas e em retratos encomendados. Depois do lanche dado na festa de casamento, pequenas caixas contendo fatias do bolo foram distribuídas àqueles que estavam envolvidos na preparação do grande dia. Esta aqui sobreviveu por 180 anos e com a fatia do bolo de casamento da rainha Vitória ainda dentro.

Fonte: Royal Collection Trust

O CORAÇÃO DO IMPERADOR

O coração de D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, conservado em um recipiente de vidro na Igreja de Nossa Senhora da Lapa, no Porto (Portugal). Antes de morrer, o primeiro imperador do Brasil deixou em testamento a intenção de que seu coração ficasse na cidade com a qual ele tinha intensa relação, pois lá viveu pelos 13 meses (de julho de 1832 a agosto de 1833) que duraram disputa de poder entre ele e seu irmão, Dom Miguel. O rei-imperador faleceu no dia 24 de setembro de 1834, aos 35 anos. Quando de sua morte, ela já havia abdicado de suas coroas em favor dos filhos e assumido o título de duque de Bragança, antes de retornar definitivamente para sua pátria de nascimento e reclamar o trono português em nome de Dona Maria II. Foram batalhas sangrentas as que se seguiram entre Pedro e Miguel, porém o duque de Bragança sairia vitorioso da querela, reencontrando em 1833 suas filhas e consorte. O que ele não sabia, contudo, é que sua longa carreira de intensas atividades físicas e militares acabariam por cobrar o seu preço. Tendo duas costelas fraturadas, e com o coração e o fígado hipertrofiados, D. Pedro faleceu naquela tarde de setembro de 1834, no palácio de Queluz (o mesmo em que nascera), nos braços de sua esposa, Dona Amélia de Leuchtenberg. Ela entregou o coração do marido, conforme seu último desejo, e até hoje o órgão se encontra preservado nesse relicário, cujo conservante é trocado 1 vez a cada 10 anos.

O AMOR-PERFEITO DA IMPERATRIZ ALEXANDRA

Presente de 10 anos de casamento que o czar Nicolau II da Rússia deu para sua esposa, a czarina Alexandra Feodorovna, em 1904. O design da joia, confeccionada pelo artesão H. Wingström, da oficina de Fabergé, se assemelha a uma flor conhecida como amor-perfeito, em cujas cinco pétalas se escondem os retratos dos filhos do casal: Olga, Tatiana, Maria, Anastásia e Alexei. A peça é composta por ouro esmaltado, incrustados com pequenos diamantes coloridos e cristais. No auge de sua popularidade, na virada do século XIX para o XX, a oficina de Fabergé em São Petersburgo empregava até cinco mil joalheiros, ourives e aprendizes. Suas lojas tinham filiais não só na Rússia, como também em Londres e Paris, onde faziam um enorme sucesso de vendas em ouro e prata, principalmente em serviços de mesa. Suas joias ainda incluíam figuras criativas como flores, animais zoológicos em miniatura, camponeses e cantoras. A composição final de cada uma dessas peças era uma verdadeira obra-prima da arte e do decoro. Atualmente, a peça em destaque se encontra preservada no Museu do Kremlin.

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