Uma Imperatriz austera: Dona Teresa Cristina e a moda no Rio de Janeiro do Segundo Reinado!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Nos cerimoniais do regime monárquico, a moda exercia uma função muito mais do que meramente decorativa: ela ajudava a compor a imagem dos soberanos de forma a que representassem seus poderes enquanto monarcas reinantes. Os trajes usados em eventos oficiais da Coroa eram cuidadosamente pensados para traduzir uma mensagem política condizente com o status quo. Elizabeth I da Inglaterra no século XVI, Luís XIV da França no século XVII e Maria Antonieta no XVIII são algumas das personalidades que mais utilizaram a moda como instrumento de representação, lançando tendências que até hoje são reinventadas no mundo inteiro. No Brasil do século XIX, com uma monarquia recém-instalada nos trópicos, a tradição precisou ser reinventada para se adaptar não apenas ao clima do país, como também à sua situação financeira, que não era comparável às nações europeias. Enquanto na França e no Império Austro-Húngaro soberanas consortes como Eugénia de Montijo e Sissi estavam na vanguarda da moda, ditando tendências para outras partes do continente, na América do Sul a Imperatriz Teresa Cristina de Bourbon adotou com código de vestimenta diferente, mais austero e condizente com a realidade político-econômica do Segundo Reinado.

Frontispício da primeira edição de “O Jornal das Senhoras”, com o subtítulo: “Modas, Litteratura, Bellas-Artes, Theatros e Crítica”. Lançado em 1852, foi o primeiro periódico editado por mulheres no Segundo Reinado e trazia para suas assinantes suplementos ilustrados com as últimas tendências da moda de Paris e mapas de costura.

Retrato da imperatriz Teresa Cristina, atribuído a
Johann Moritz Rugendas (1846). Os cabelos divididos em bandós e roupas e tecidos na cor azul faziam parte da composição visual da soberana no início de sua vida no Brasil. Uma faixa azul com a Ordem do Cruzeiro atravessa seu busto.

Durante a segunda metade do século XIX, a França se estabeleceu como principal polo difusor das tendências da moda para o restante do mundo. Através dos manuais de etiqueta, o estilo da elite francesa era transmitido para muitos países. Periódicos como o Jornal das Senhoras (1852-1854) traziam para suas assinantes mapas de costura e ilustrações dos trajes que as parisienses usavam. A Rua do Ouvidor no Rio de Janeiro pululava com moças desesperadas pelas novidades que vinham do estrangeiro. Afinal, se vestir à la Française era sinônimo de elegância. Laços, rendas, babados, seda, cetim, crinolina; nada era deixado de lado quando a intenção era estar trajada de acordo com o que ditava a capital da moda. Romancistas como José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo plasmaram muito bem essa feira de vaidades nas suas obras. Enquanto isso, vivendo pacatamente com sua família na Quinta da Boa Vista, uma princesa napolitana parecia não dar tanta importância ao que as súditas de seu marido gostavam de consumir. Diferentemente de outras soberanas, Teresa Cristina de Bourbon não era o tipo de pessoa da qual poderíamos dizer que estava na vanguarda da moda.

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que o reino das Duas Sicílias, do qual Dona Teresa provinha, era um lugar cosmopolita e sujeito a influências vindas de vários países considerados adiantados em matéria de decoro. Sendo assim, a irmã do rei Fernando II não estava imune às tendências do período. Podemos observar isso nos seus retratos de juventude como princesa napolitana, nos quais ela dava preferência ao azul para ressaltar as rendas brancas do decote e das mangas de seu vestido. Para muitos, o azul é uma cor que simboliza lealdade, confiança e tranquilidade, três das características que podemos identificar no caráter da soberana e que ficam evidentes nas descrições que seus contemporâneos fizeram dela, bem como nas cartas devotadas que ela escrevia ao marido: “Meu querido e sempre amado, Pedro”. No retrato oficial que fora enviado ao Rio de Janeiro em 1843 durante as negociações de casamento com o jovem Imperador, Teresa aparece usando um vestido de veludo azul índigo com mangas em forma de asa que deixavam seu colo exposto, enfeitado por um colar de pérolas e um por fio de diamantes com um pingente contendo o retrato em miniatura do noivo. Tinha a princesa 21 anos quando a tela foi pintada e o efeito produzido por ela foi de crucial importância para que D. Pedro II concordasse com o casamento.

Retrato da princesa napolitana Teresa Cristina de Bourbon, pintado em 1843 pelo artista brasileiro José Correia de Lima.

Retrato oficial de Dona Teresa Cristina como Imperatriz do Brasil, atribuído a
François-René Moreaux. Na tela, a soberana usa o penteado conhecido como “cachos de cevada”.

Embora exista certa polêmica envolvendo a fidelidade da tela atribuída ao artista brasileiro José Correia de Lima, chama atenção o vestuário da modelo. Além do vestido de veludo com mangas rendadas, D. Teresa usa uma tiara com pedras preciosas incrustradas numa base de ouro, enquanto seus cabelos escuros estão repartidos em cachos que caem em forma de cascata, emoldurando seu rosto. Conhecido como “cachos de cevada”, esse penteado era muito popular no século XIX, especialmente nas décadas de 1830 e 1840 e seria o preferido da Imperatriz do Brasil durante seus primeiros anos no país, conforme podemos observar em outros retratos pintados durante esse período. Ele permitia com que as mulheres da elite brincassem com a textura de seus cabelos de maneiras bastante inovadoras. Apliques também podiam ser utilizados, para dar maior volume ao penteado. Além dos “cachos de cevada”, era comum usar a cabeleira dividida em bandós, ou com longas e grossas tranças que eram presas no topo da cabeça, formando uma espécie de diadema natural, que podia ser enfeitado com flores ou joias. Esse último penteado foi batizado pelos periódicos de moda parisienses de “imperatriz”, em homenagem a Elisabeth “Sissi” da Áustria, que o imortalizou na tela pintada por Winterhalter.

Embora não tenha sobrado qualquer vestígio do vestido de casamento usado por Dona Teresa tanto na cerimônia realizada por procuração em Nápoles quanto na que teve lugar na capela imperial no dia 4 de setembro de 1843, sabemos pelo testemunho de um escriturário norte-americano que estava presente no evento que “a princesa estava vestida de modo notavelmente simples, com um vestido de renda branca sobre cetim branco e uma única tiara de diamantes brasileiros para prender seu cabelo negro”. Possivelmente, se trata do mesmo vestido que ela aparece utilizando no retrato póstumo do casamento celebrado por procuração, pintado em 1846 por Alessandro Ciccarelli. Mais significativa é a descrição que o escriturário faz da aparência da noiva: “No todo, a aparência da princesa era bastante atraente. Ela é comum, modesta, de aparência inteligente e extraordinariamente saudável – embora não seja o que se possa chamar de uma bela mulher” (apud BARMAN, 2012, p. 152). Casamentos dinásticos não eram baseados em reciprocidade de afeto ou na aparência dos cônjuges, e sim na política. Ou seja, qualquer frustração que D. Pedro II possa ter sentido com relação ao aspecto físico de sua esposa, isso se tornava irrelevante quando o assunto era a perpetuidade da linhagem real.

Casamento por procuração da Imperatriz d. Teresa Cristina, por Alexandre Cicarelli, 1846.

Traje de gala que pertenceu à Imperatriz Teresa Cristina de Bourbon. A peça (composta por saia bordada com fios dourados e corpete com rendas) se encontra preservada no Museu Imperial de Petrópolis. Acima, à direita, o retrato da soberana usando o traje, pintado por Victor Meirelles (1864).

Com efeito, geralmente se atribui à rainha Vitória a introdução do branco como cor privilegiada pelas noivas no vestido de casamento, para simbolizar sua castidade. Embora a rainha da Inglaterra tenha exercido uma notória influência sobre esse aspecto graças à ampla difusão dos detalhes do seu matrimônio com o príncipe Albert em 10 de fevereiro de 1840, mulheres da realeza já utilizavam o branco em cerimônias nupciais desde pelo menos o século XVI. No Brasil, Dona Leopoldina usou um vestido de seda branco quando desembarcou na Ilha do Governador em 5 de novembro de 1817 e Dona Amélia de Leuchtenberg também usava um traje da mesma cor quando se casou com D. Pedro I em 1829. Não obstante, em um clima tropical como o do Brasil, cores pálidas eram preferíveis ao púrpura e ao dourado característicos da realeza. Com o tempo, o branco viria a ser sinônimo de elegância, uma vez que as técnicas de alvejamento do tecido eram muito mais caras do que nos dias de hoje. Outras tonalidades claras como marfim, azul bebê, amarelo banana e rosa chá eram bastante apreciáveis pelas mulheres das elites nos trópicos, que também faziam uso de tecidos mais leves como o tule e a musselina, para complementar o design de seus vestidos e ressaltar a delicadeza do rendado.

Um exemplo do que acaba de ser dito é o traje de gala da Imperatriz Teresa Cristina, que ela costuma utilizar em ocasiões solenes e nos seus retratos oficiais. A peça é composta por saia e corpete, com os quais a soberana pode ser vista em muitas telas pintadas nas décadas de 1840 a 1860, como na obra de Victor Meirelles (1864). Ao longo das décadas, é possível que ela tenha passado por algumas alterações, mas os detalhes mais relevantes permanecem os mesmos: a saia do vestido é bordada com fios dourados em padrões que lembram ramos de café, uma vez que a planta havia despontado como principal produto na pauta de exportação e se transformado em um símbolo nacional. Por baixo dela, era adicionada uma crinolina, para lhe dar volume; pregueada à saia, uma cauda de veludo verde na tonalidade da cor da bandeira, com ramos de café igualmente bordados com fios dourados e prateados. Já o corpete, por sua vez, apresenta um conjunto de rendas na região do busto e das mangas. Elas ressaltavam o tom marfim do traje (amarelecido com o tempo) e deixavam em evidência o colo da soberana, que podia ser enfeitado com as joias imperiais. Para finalizar, uma faixa era colocada de forma transversal entre o ombro e a cintura. O vestido era um reflexo do próprio traje que D. Pedro II costumava utilizar nas Falas do Trono.

Pingente de prata com uma grande pedra de âmbar incrustrada, que teria pertencido à imperatriz Dona Teresa Cristina.

Outra cor que aparece com frequência em alguns retratos pintados da Imperatriz é o carmim e o púrpura, especialmente em telas de grupo, como na de autoria de Ferdinand Krumholz (esquerda) e na de François-René Moreaux (direita). Ambas as tonalidades ressaltavam a delicadeza das rendas brancas aplicadas aos trajes. Flores e laços tratavam de dar um toque final ao conjunto.

Não obstante, Dona Teresa Cristina possuía uma estatura diminuta e um detalhe que não escapou aos olhos da rainha Vitória quando o casal imperial a conheceu na sua primeira viagem ao Reino Unido, em 1871: “A Imperatriz (uma princesa de Nápoles) é muito amável e agradável, tão simples e despretensiosa. Ela é baixa e banca” (apud BARMAN, 2012, p. 340). Dessa forma, as roupas de Dona Teresa eram costuradas para a disfarçar o máximo possível esse detalhe no seu jeito de andar. A avaliação que a rainha Vitória faz de seu caráter também é muito significativa quanto à escolha de seu vestuário: “simples e despretensioso”, algo que a soberana inglesa admirava bastante em outra pessoa. As fotografias, por sua vez, oferecem um exemplo perfeito disso. Numa imagem do início da década de 1860, possivelmente tirada por Inslay Pacheco, é possível observar um cesto de costura enquanto a Imperatriz, sentada, se dedica a um trabalho de crochê. Uma peça bordada por uma soberana ou princesa, por sua vez, era investida de um caráter simbólico, graças ao nome da pessoa por trás da confecção. Distribuídos como lembranças para amigos da família imperial, tecidos bordados e/ou costurados pela Imperatriz Teresa Cristina e pelas princesas Isabel e Leopoldina podiam também ser vendidos em quermesses e bazares religiosos voltados para a caridade.

No decorrer do século XIX, os valores burgueses foram se infiltrando cada vez mais no seio da aristocracia. No dia a dia, membros da realeza davam preferência a roupas mais sóbrias, enquanto os trajes de gala eram reservados especialmente para ocasiões solenes. O uso exagerado das joias também foi decaindo no gosto dos nobres. Como Imperatriz do Brasil, Dona Teresa Cristina certamente herdou as joias oficiais da Coroa, como uma tiara de brilhantes com padrões que lembram flores e ramos de café. Colares e pulseiras de pérolas e pedrarias também eram utilizadas por ela em seus retratos oficiais. Mas, geralmente, era dava preferência a adornos mais simples, como broches e camafeus, envoltos no seu pescoço por uma simples fita de cetim. De sua coleção de joias remanescentes, podemos identificar um pingente de prata com uma grande pedra de âmbar incrustrada. No verso da joia, é possível ler a inscrição “D. P. II à Imperatriz 1854”. A peça teria sido um presente do Imperador do Brasil para sua esposa. Seu design simples combinava com o gosto e modos austeros de Dona Teresa. O pingente podia ser utilizado tanto em uma fita atada ao seu pescoço, quanto em uma corrente (o item foi a leilão pela casa Levy Leiloeiro no Rio de Janeiro, em abril de 2015).

Fotografia de Dona Teresa Cristina, no início da década de 1860, possivelmente tirada por Inslay Pacheco. Na imagem, é possível observar um cesto de costura enquanto a imperatriz, sentada, se dedica a um trabalho com agulhas. Fazia parte da educação feminina transmitida às mulheres da nobreza e da aristocracia o ensino de corte e costura (as chamadas “prendas do sexo feminino”). A prática se manteve até mesmo quando os primeiros Institutos para educação das moças foram fundados no Brasil, durante o século XIX.

À medida em que a imperatriz adentrava na casa dos 50, ela foi dando preferência a vestidos em tafetá, seda ou cetim preto (imagem digitalmente colorida por Renato Drummond Neto).

Outra cor que aparece com frequência em alguns retratos pintados da Imperatriz é o carmim e o púrpura, especialmente em telas de grupo, como na de autoria de Ferdinand Krumholz (1849), em que ela aparece cercada por seus três filhos: Leopoldina, Pedro Afonso e Isabel; ou no retrato da família imperial pintado em 1857 por François-René Moreaux. Ambas as tonalidades ressaltavam a delicadeza das rendas brancas aplicadas aos trajes. Flores e laços tratavam de dar um toque final ao conjunto. Porém, à medida em que a imperatriz adentrava na casa dos 50, ela foi dando preferência a vestidos em tafetá, seda ou cetim preto. A chamada Era Vitoriana valorizou essa cor como sinônimo de austeridade em detrimento da extravagância das antigas monarquias. A própria figura da rainha Vitória, eternamente enlutada pela morte de seu marido (falecido em 1861), servia de modelo para outras monarcas do período, inclusive para a Imperatriz do Brasil. O vestuário simples (mas não simplório) de Dona Teresa diferenciava-a ainda de outras damas da elite carioca, que consumiam vorazmente as últimas modas vindas de Paris. As novidades enfeitavam os mostruários das lojas de tecidos da Rua do Ouvidor, com peças de roupas mais adaptadas ao clima frio da Europa do que ao calor dos trópicos.

Conforme exposto até aqui, a sobriedade foi uma das maiores características no código de vestimenta da soberana. Dona Teresa preferia a discrição em vez da ostentação. Seus trajes possuíam corte menos arrojado, o que fez com que muitos a tomassem como uma mulher simplória, em contraste com outras princesa consortes da Europa. Em termos comparativos, a corte brasileira não era como a de Viena ou a de Paris (se é que podemos chamar o Paço de São Cristóvão como palco de uma corte). A pompa e a circunstância do cerimonial combinavam muito mais na França e na Áustria, que já tinham uma tradição monárquica que remontava ao período medieval, do que no Brasil, marcado pelo regime escravista, por uma população semianalfabeta e por baixo índice de desenvolvimento humano. Nesse sentido, a austeridade dos imperadores era até bem-vista, uma vez que não acentuava em demasia o abismo que existia entre a elite carioca e os extratos mais baixos da sociedade. Se pensarmos por esse lado, o comedimento com que Dona Teresa procurava se vestir também traduzia uma importante mensagem política: uma soberana austera, em um império que não tinha condições para arcar com a pompa de uma corte no modelo europeu.

Referências Bibliográficas:

AVELLA, Aniello Angelo. Teresa Cristina de Bourbon: uma imperatriz napolitana nos trópicos 1843-1889. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2014.

BARMAN, Roderick J. Imperador cidadão. São Paulo: Editora UNESP, 2012.

BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar.

CALMON, Pedro. História de D. Pedro II. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, 5vols.

CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

DEL PRIORE, Mary. Condessa de Barral: a paixão do imperador. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

TJÄDER, Rogerio da Silva. Sua Majestade Imperial D. Thereza Christina Maria de Bourbon e Bragança. Editora Capivara, 2015.

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