Site da Biblioteca Nacional inaugura exposição online sobre D. Isabel, “A princesa que não chegou a reinar”!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Uma das personalidades mais controversas da história do Brasil, a princesa D. Isabel ainda levanta calorosos debates entre os pesquisadores sobre movimento abolicionista no Brasil. Por ter seu nome relacionado à lei que extinguiu o cativeiro de pessoas negras no país em 13 de maio de 1888, alguns a consideram como a “redentora”, enquanto outros questionam esse protagonismo. Sobre este último aspecto, é inegável que a libertação foi uma luta travada há séculos pelos escravizados, que se organizavam em quilombos, participavam de insurreições e se filiavam a movimentos visando o fim da instituição escravocrata. Nesse contexto, a imagem da princesa loira, branca e de olhos azuis, que com um gracioso gesto de mão assinou a lei com sua pena dourada é contestada frente aos estudos decoloniais, que colocam os negros escravizados e libertos como os verdadeiros artífices dessa história. A figura de D. Isabel parece assim trafegar entre dois polos: enquanto uns a veem como a “redentora”, para outros ela foi apenas outra entre tantos que participaram do movimento abolicionista e há até mesmo aqueles que enxergam na sua participação uma medida oportunista, com o objetivo de angariar apoio popular para um possível terceiro reinado.

A Princesa Isabel, em foto de Marc Ferrez, de 1885.

Qualquer que seja a interpretação adotada pelo leitor, ela certamente encobre outra: a D. Isabel mulher, figura de carne e osso, passível de cometer erros e acertos. É sobre essa personalidade que o site da Biblioteca Nacional acaba de dedicar uma exposição online, com diversos documentos e fotografias relativas à filha e herdeira do imperador D. Pedro II. Com curadoria de Armando Alexandre dos Santos, a exposição “Isabel: a princesa que não chegou a reinar”, aborda a trajetória da mulher que por três vezes foi regente do Brasil, numa época em que o governo feminino era amplamente contestado por periódicos conservadores, enquanto mulheres jornalistas, trabalhadoras, burguesas e camponesas se organizavam em agremiações que buscavam sua emancipação através de uma educação igualitária e pelo direito ao sufrágio universal. A despeito dos questionamentos acerca da importância da princesa para o abolicionismo no Brasil, é inegável que D. Isabel exerceu poder dentro de uma sociedade marcada pelo patriarcalismo, que via nas mulheres seres subalternos aos homens, donas de casa e/ou mães zelosas. Ao contrário disso, a princesa foi uma pessoa educada desde cedo para governar uma nação em processo de construção.

Nascida no Paço de São Cristóvão em 29 de julho de 1846, Isabel a princípio deveria representar um importante papel no jogo de alianças dinásticas entre as Casas reinantes do período. O mesmo jogo que unira seus pais, D. Pedro II e D. Teresa Cristina de Nápoles, em matrimônio três anos antes. O status quo sofreu um revés quando os dois filhos do imperador, Afonso e Pedro, faleceram em tenra idade, fazendo daquela garotinha a herdeira de um império de proporções quase continentais. A partir de então, seus pais trataram de lhe dar uma educação acima da que outras mulheres da aristocracia recebiam em seu tempo, visando prepará-la para seu futuro como imperatriz reinante do Brasil. Tendo como preceptora a condessa de Barral, o sistema de ensino reservado para ela e sua irmã, a princesa D. Leopoldina, era intenso e incluía o estudo de disciplinas avançadas, como leis e constituição. O cronograma abrangia cerca de 9 horas diárias, incluindo os sábados e com alguma folga aos domingos. Quando ela completou 18 anos, em 1864, se casou com seu primo, o príncipe francês Gastão de Orleans, Conde d ́Eu, numa cerimônia realizada na Capela Imperial do Rio de Janeiro, no dia 18 de outubro. O casal acabaria tendo três filhos: D. Pedro de Alcântara, D. Luís e D. Antônio.

A Princesa Isabel, o Conde d´Eu e os três filhos do casal.

A presença do conde, membro de uma família real destronada e que vivia exilada na Inglaterra, era uma constante fonte de preocupação para os deputados e senadores do Império, que acreditavam que Isabel poderia ser facilmente manipulada. Sendo uma esposa devotada e profundamente católica, isso foi usado como argumento para desqualificá-la como herdeira em potencial. A imprensa, que na época gozava de uma liberdade sem precedentes na história do país, usava desse argumento para estereotipar a figura de D. Isabel, pintando-a como uma mulher carola e inadequada para o exercício do poder. Os documentos expostos no site da Biblioteca Nacional, porém, apontam para uma interpretação bem divergente. A princesa não desejava fazer da assinatura da Lei Áurea um trampolim para o terceiro reinado. Quando soube que um grupo de abolicionistas quis erguer uma estátua em sua homenagem no Morro do Corcovado, por exemplo, ela manifestou sua recusa em um documento datado de 2 de agosto de 1888:

Manda Sua Alteza a Princesa Imperial Regente em Nome de Sua Magestade o Imperador agradecer a oferta da Commição Organizadora constituída da Sociedade Brazileira de Beneficência de Paris, da Cia. Estrada de Ferro do Cosme Velho ao Corcovado e do Jornal O Paiz, para erguer huma estátua em sua honra pela extinção da escravidão no Brasil, e faz mudar a dita homenagem e o projecto, pelo officio de 22 de julho do corrente anno, por huma estátua do Sagrado Coração de Nosso Senhor Jezus Christo, verdadeiro redentor dos homens, que se fará erguer no alto do morro do Corcovado.

Uma vez proclamada a República, D. Isabel e sua família foram forçados pelo novo regime a viver no exílio. Residindo no Castelo d’Eu, na França, a princesa iniciou uma nova fase de sua vida. Sem quaisquer arrependimentos, ela havia se tornado, nas palavras do brasilianista Roderick Barman, “a mulher dona de si”. Essa, por sua vez, se constitui em outra das seções dedicadas à vida da princesa pela exposição da Biblioteca Nacional.

Com efeito, após a morte de D. Pedro II em 1891, houve quem saudasse D. Isabel no exílio como imperatriz do Brasil. Os próximos 30 anos de sua vida foram inteiramente dedicados a atividades filantropas, como ela costumava fazer enquanto vivia no país. Jamais foi defensora de uma restauração monárquica através do uso da violência, conforme deixou claro em um bilhete dirigido ao Conselheiro João Alfredo: “Meu pai, com seu prestígio, teria provavelmente recusado a guerra civil como um meio de retornar à pátria… lamento tudo quanto possa armar irmãos contra irmãos… É assim que tudo se perde e que nós nos perdemos. O senhor conhece meus sentimentos de católica e brasileira”. Quando as primeiras bombas da guerra estouraram na Europa em 1914, seus filhos mais novos se alistaram como voluntários. Um deles, D. Antônio, acabou morrendo em decorrência de um acidente de avião no Sul da Inglaterra. As muitas perdas pelas quais experimentou na vida abalaram bastante a saúde da princesa que não chegou a reinar. Ela faleceu em 14 de novembro de 1921, aos 75 anos, sem conseguir realizar o sonho há muito tempo acalentado de retornar ao Brasil.

A Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888.

A exposição “Isabel: a princesa que não chegou a reinar”, apresenta uma grande variedade de retratos da família imperial, documentos, matérias de jornais, cartas e litogravuras, que contam a história da herdeira do trono brasileiro, acompanhados de textos explicativos. Tais fontes se constituem num valioso arcabouço para aqueles que queiram se aprofundar mais na história da filha de D. Pedro II e D. Teresa Cristina, que já foi tema de uma série de livros, biografias e agora está sendo adaptada para a televisão. É uma Isabel de carne e osso que emerge a partir da leitura desse material, despida do manto de “redentora” ou dos estereótipos de “carola” e “oportunista” (e até mesmo de “racista”), com que alguns gostam de abordá-la. No meio dessas variadas interpretações, o que surge diante dos olhos é a imagem de uma mulher multifacetada, figura bastante complexa e com uma trajetória vasta demais para ser enquadrada em rótulos que nada ajudam no estudo de sua personalidade. Na segunda metade do século XIX, enquanto a Europa assistia ao reinado de Vitória no Reino Unido, Maria II em Portugal e Isabel II na Espanha, o Brasil também teve uma mulher à frente dos assuntos de Estado, que foi preparada desde a infância para assumir a difícil função de governar.

Para acessar o site da exposição, clique aqui!

Um comentário sobre “Site da Biblioteca Nacional inaugura exposição online sobre D. Isabel, “A princesa que não chegou a reinar”!

  1. Lamentamos que D. Isabel I não tenha assumido seu lugar de direito, isto é, o trono. Ao menos se pode resgatar seu protagonismo através de iniciativas como essa, para contar às pessoas todos os aspectos do passado de nosso país, incluindo movimentos sociais e a participação das mulheres na política.

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