Um Natal para ser esquecido: “Spencer” e a reinvenção narrativa em dramas baseados na História!

Em 1 de julho de 2021, a princesa Diana estaria completando 60 anos de vida. Embora ela não esteja entre nós há mais de duas décadas, a mídia e as pessoas ainda não se cansaram de sua história. O questionamento que fica é o seguinte: por que ainda somos tão atraídos por sua figura? Muitas respostas podem ser dadas a essa pergunta. Afinal, poucas pessoas tiveram sua vida íntima e seus problemas pessoais e clínicos tão devassados pela imprensa quanto ela. Um levantamento recente sugere que apenas Marilyn Monroe e Britney Spears se comparam a Diana em termos de assédio por parte de fotógrafos e jornalistas. Mas, no caso da princesa de Gales, casada dentro de uma Instituição milenar cujos membros são mimeticamente controlados pelas cordas do sistema, somos levados a admirar a coragem com que ela rompeu paradigmas, quebrou protocolos e se relacionou com as pessoas não de cima de seu pedestal, e sim no nível de cada uma delas. Conforme ela certa vez declarou, suas ações não eram guiadas por um livro de condutas e sim por seu instinto. Ao fazê-lo, ela conseguiu criar um forte vínculo identitário com o público, algo até então pouco observado em outros integrantes da família real. Isso talvez explique a grande quantidade de filmes e documentários lançados anualmente sobre ela.

Em 5 novembro deste ano, por exemplo, estreou nos Estados Unidos o filme “Spencer”, dirigido pelo chileno Pablo Lorraín (Jackie, 2016), com roteiro de Steven Knight. O enredo tem como pano de fundo o Natal de 1991, o último que a princesa passou ao lado da família real antes de se separar do príncipe Charles em dezembro do ano seguinte. A obra traz como protagonista a atriz Kristen Stewart, mais conhecida por interpretar a personagem Bella Swan na Saga “Crepúsculo” (baseada nos romances de Stephenie Meyer). A escolha de Kristen para dar vida a uma personalidade tão complexa, anunciada no início do ano passado, torceu muitos narizes. Várias pessoas a consideram uma intérprete de expressões limitadas e com poucos papéis desafiadores na sua carreira. Qual não deve ter sido a surpresa dos céticos quando mais de 70% da crítica especializada avaliou positivamente sua atuação… Xan Brooks, do The Guardian, disse: “[Stewart] tem uma atuação desajeitada e educada como Diana, e isso é inteiramente como deveria ser quando consideramos que Diana deu uma atuação desajeitada e educada, enfeitando sua alteza inata e elegante com altivez galanteadoras estudadas”.

“[Stewart] tem uma atuação desajeitada e educada como Diana, e isso é inteiramente como deveria ser quando consideramos que Diana deu uma atuação desajeitada e educada, enfeitando sua alteza inata e elegante com altivez galanteadoras estudadas”.

Logo no início da trama, o telespectador é avisado de que a narrativa se trata de uma fábula baseada numa tragédia real. A epígrafe foi um tiro certeiro por parte de Lorraín, pois ele já deixa claro que as cenas seguintes não se tratam de uma adaptação fidedigna da história e sim de uma versão verossímil, algo que poderia ter acontecido, mas que nunca saberíamos. A personagem mergulha num imenso abismo psicológico em busca de si mesma. Quando foi que ela havia perdido a essência da verdadeira Diana Spencer, a garota intrépida que corria pelos jardins da Park House e extravasava seus sentimentos reprimidos na dança, para se tornar uma boneca sem liberdade de abrir as cortinas do próprio quarto ou para escolher uma roupa e quando a vestir? Perdida no meio da estrada a caminho do Palácio de Sandringham, ela se vê novamente imersa naquele mundo de enfadonhas tradições natalinas criadas durante o período vitoriano e que ainda se mantinham em vigor no final do século XX. Por trás disso, um verdadeiro batalhão de cozinheiros e criados preparavam tudo para que o encontro da família real saísse de acordo com o protocolo. Aquilo que fugia da norma, portanto, deveria ser disciplinado ou então eliminado, como os faisões de caça no terreno do Palácio.

Com efeito, é nessa posição que se encontra a nossa protagonista: entre ser a princesa perfeita ou a verdadeira Diana. A princípio, algumas cenas parecem carecer de verossimilhança para aqueles que conhecem a história de Lady Di. Dificilmente a imaginaríamos perdida a caminho de um Palácio que ela conhecia desde os tempos de infância e parando na cafeteria de um posto de gasolina local para pedir informação; ou ouvindo diretamente do príncipe Charles (interpretado por Jack Farthing) que deveriam existir duas versões de si: a Diana pública, de quem os fotógrafos tiravam fotos, e a Diana pessoal, com seus problemas contidos dentro das paredes frias de Sandringham. Mas quando analisamos a confusão de sentimentos vivenciados pela personagem, compreendemos que “Spencer” se trata de uma jornada no sentido inverso, ou seja, do resgate de uma Diana que em algum momento teve que ser posta de lado para se adequar ao que esperavam de uma mulher na sua posição. Pois então deixem que o espantalho com que ela brincava quando criança fique com as roupas perfeitas de princesa de Gales. A personagem prefere coisas simples, compartilhadas por pessoas que não fazem parte daquele mundo, como drive thru, televisão, cinema, música pop e roupas despojadas.

A princípio, algumas cenas parecem carecer de verossimilhança para aqueles que conhecem a história de Lady Di. Dificilmente a imaginaríamos perdida a caminho de um Palácio que ela conhecia desde os tempos de infância e parando na cafeteria de um posto de gasolina local para pedir informação.

Sobre a atuação de Kristen, em nada lembra os papeis interpretados anteriormente por ela nos filmes destinados ao público juvenil. Percebe-se como a atriz se esforçou para reproduzir a dicção da fala de Diana, a tristeza característica de seu olhar e os distúrbios pelos quais seu corpo passou, como a bulimia. Nota-se também como a atriz emagreceu para dar mais expressão esse último detalhe; uma luta que a princesa travou consigo durante anos e que envolvia automutilação e crises de ansiedade. Todos esses aspectos foram relatados por ela no seu depoimento para a biografia escrita e publicada por Andrew Morton em 1992. Dessa forma, o filme nos convida a mergulhar na mente da personagem, que aparentemente vivia um casamento de contos de fadas, com dois filhos lindos, mas que por baixo do simulacro sofria com as traições do marido, com as delações dos membros de sua própria criadagem e com os olhares inquisitivos da rainha (Stella Gonet) e dos outros membros da família. Sob essa perspectiva, não deixa de ser interessante a analogia que o enredo faz entre Diana e os faisões de caça. Uma vez libertos, estariam expostos à mira dos rifles. Para quem gosta de teorias da conspiração envolvendo a morte da princesa em 1997, essa pode ser considerada uma mensagem subliminar e tanto!

O enredo também tenta fazer uma paridade entre Ana Bolena e a princesa. A pesquisa para o roteiro inclusive resgata o grau de parentesco entre os Bolena e os Spencer, que descendiam diretamente de Maria Bolena. Uma biografia da segunda esposa de Henrique VIII é deixada nos aposentos da protagonista em Sandringham e, à medida em que ela lia as páginas do livro, começava a fazer um cotejo entre si e a a biografada, chegando a ter alucinações com a própria rainha decapitada (interpretada por Amy Manson). A intenção de Lorraín e Knight certamente foi estabelecer uma paralelo entre o triângulo amoroso envolvendo Diana, Charles e Camilla com Ana, Henrique VIII e Jane Seymour. Dessa forma, eles reuniram em um só filme duas personalidades bastante celebrizadas no século XXI. Como se trata de um produto de ficção, poderíamos aceitar o paralelo com facilidade, se levarmos em consideração que uma obra adaptada geralmente se aproveita de elementos do material original para criar algo inovador. Mas, pessoalmente, penso que a comparação tenha sido um tanto forçada. Em seu tempo de vida, Ana Bolena nunca foi querida pelos ingleses, que tomavam abertamente o partido de Catarina de Aragão. Situação muito diferente daquela experimentada por Diana.

O filme nos convida a mergulhar na mente da personagem, que aparentemente vivia um casamento de contos de fadas, com dois filhos lindos, mas que por baixo do simulacro sofria com as traições do marido, com as delações dos membros de sua própria criadagem e com os olhares inquisitivos da rainha (Stella Gonet) e dos outros membros da família.

Assim sendo, acredito que a falecida princesa de Gales estava mais próxima da primeira esposa de Henrique VIII, enquanto Camilla está para a segunda. A biografia de Ana Bolena teria sido sorrateiramente introduzida nos aposentos da protagonista pela personagem do ator Timothy Spall, o Major Alistar Gregory, contratado especialmente para vigiar os passos da princesa. Esperava-se que, através das páginas do livro, ela soubesse o que aconteceria com mulheres que lutassem contra o sistema, uma vez que Ana foi morta sob acusações de traição, adultério e incesto. No filme, Diana não aceita o fato de Charles manter publicamente um caso com Camilla enquanto ela era forçada a esconder o seu. Se a trama se passasse no período da Inglaterra henriquina, imaginaríamos facilmente a princesa perdendo a cabeça da mesma forma que duas das esposas de Henrique VIII: Ana Bolena e Catarina Howard. Aqui temos mais uma mensagem subliminar envolvendo a morte da princesa, ocorrida quase seis anos depois dos eventos narrados pelo filme. Porém, é importante termos cuidado ao fazer essas analogias, principalmente por causa dos riscos de se incorrer em anacronismos e acabar caindo em interpretações precipitadas sobre uma história transcorrida há mais de 20 anos.

Com efeito, os próprios cenários evocam o contraste de relações entre os casais da família real através dos tempos. De um lado da sala de jantar temos o retrato de Henrique VIII pintando por Hans Holbein, dividido entre outro de Jane Seymour e Ana Bolena. Nas outras paredes podemos ver a rainha Charlotte de Mecklenburg-Strelitz e o rei George III, que gozaram de uma perfeita harmonia conjugal, e em outro lado vemos a rainha Mary de Teck e o rei George V, cuja união forjou a dinastia de Windsor a partir dos destroços da Primeira Guerra Mundial. Não deixa de ser curioso também o fato da personagem de Kristen dormir no quarto que teria pertencido à rainha Vitória, que manteve luto fechado pela morte do marido por 40 anos. Esses detalhes, que podem passar despercebidos pelo espectador leigo, foram uma ótima estratégia por parte da equipe de cenário. Toda a atmosfera do Palácio faz referência à insustentabilidade do matrimônio de Diana e Charles. Longe de parecerem como o rei George V e a rainha Mary, Diana via seu casamento mais como o de Ana Bolena e Henrique VIII. Mas poderia Charles ser comparado a um rei tirano ou isso é fruto da imaginação da protagonista? A dúvida é lançada na cabeça do telespectador a partir das palavras da personagem Maggie (Sally Hawkins), estilista de Diana que não acredita na crueldade do príncipe.

O figurino usado por Kristen evoca o estilo da princesa no início dos anos 1990, sem fazer necessariamente uma réplica. A responsável pelas roupas da protagonista foi Jacqueline Durran, duas vezes vencedora do Óscar por “Anna Karenina” (2012) e “Adoráveis Mulheres” (2020).

Por falar em estilista, o figurino escolhido para Kristen está impecável. Outro golpe de mestre por parte da produção foi não reproduzir as roupas famosas da princesa de Gales. Assim, eles conseguiram evitar comparações entre os trajes da personagem com aqueles usados por Diana, exceto no caso do vestido de noiva (muito mal copiado, diga-se de passagem). O figurino usado por Kristen evoca o estilo da princesa no início dos anos 1990, sem fazer necessariamente uma réplica. A responsável pelas roupas da protagonista foi Jacqueline Durran, duas vezes vencedora do Óscar por “Anna Karenina” (2012) e “Adoráveis Mulheres” (2020). O destaque certamente fica para o belíssimo vestido Chanel que Diana/Kristen usa na noite do dia 25 de dezembro e que aparece no pôster do filme. A peça é costurada com pérolas artificiais e contas em padrões florais, que fazem referência ao quadro A Primavera, de Botticelli. O contraste do traje perfeito com a princesa que luta para se livrar da imagem de perfeição oferece a tônica e a chave para a interpretação do filme. Ao seu modo, Pablo Lorraín, Steven Knight e Kristen Stewart conseguiram criar uma Diana totalmente diferente daquela com a qual estávamos acostumados a ver em seriados como The Crown.

Afinal, quem de nós poderia imaginar a Diana de Emma Corrin ou a versão de Naomi Watts correndo por um campo de tiro, usando o casaco velho de seu pai que costumava vestir um espantalho nas cercanias da Park House? Acredito que nem mesmo a própria princesa teria feito algo assim. Ou teria? Se dermos crédito às histórias de que ela se jogou da escada quando estava grávida, então correr como alvo no meio de uma caçada pode parecer coisa pequena. No entanto, esse é o momento clímax da narrativa, quando a personagem, já liberta das cordas de boneco que procuravam regular seus passos, reencontra a verdadeira Diana, a menina impulsiva que agia mais com o coração do que com a razão. “Não há futuro para mim aqui. Não com eles”, diz a personagem, antes de aparecer para resgatar seus dois filhos, William e Harry (vividos por Jack Nielen e Freddie Spry, respectivamente), evitando assim que eles fossem tragados por aquela desgastada tradição natalina, cheirando a mofo do período vitoriano. O final do filme é realmente como muitos de nós gostaríamos que terminasse a história de Diana: em paz consigo mesma, reconciliada com os fantasmas de seu passado e repleta de esperanças para o futuro.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

Confira abaixo o trailer de “Spencer”. O filme tem data de estreia prevista para fevereiro de 2022 no Brasil, com distribuição da Diamond Films:

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