“Falsos e corruptos”: a rainha Vitória e seu ressentimento pelos Romanov e pelos povos da Rússia!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

“Não creio, minha querida filha, que possas dizer-me, a mim que estou no trono há mais 20 anos que o Imperador da Rússia, e que sou a decana das soberanas, e uma soberana reinante (coisa que a czarina não é), aquilo que devo fazer!”, respondeu veementemente a rainha Vitória em uma carta a sua filha Alice sobre a possibilidade de comparecer ao casamente de seu filho, Alfred, com a grã-duquesa Maria Alenxandrovna. Ela considerava os Romanov “falsos” e seu país um lugar de pessoas “sujas e barbudas”. Na opinião de alguns biógrafos, o ressentimento da soberana para com os russos remonta ao período da guerra da Criméia, quando ingleses e franceses lutaram contra as tropas do czar entre 1853 e 1856. Mas, é possível localizar essa antipatia para com aquele país de proporções continentais muito antes desses eventos, quando Vitória era uma jovem soberana solteira no final da década de 1830. Para a monarca, era inconcebível a ideia de ver um membro de sua prole seu unir em casamento com uma família supostamente inebriada pelas excêntricas “ideias asiáticas”. Mas, para seu desapontamento, não só seu filho como duas de suas netas acabaria contraindo matrimônio com príncipes e princesas da casa imperial. Uma delas, sua adorada Alicky, se tornaria a última czarina da Rússia!

Retrato de Ana Feodorovna (a tia “Julie”), pintando em 1796 por Elisabeth Louise Vigée-LeBrun.

Segundo a historiadora Coryne Hall, autora do recente livro Queen Victoria and the Romanovs, a desconfiança da rainha para com a família imperial russa pode ter começado depois que ela soube da história de sua tia Juliana “Julie” de Saxe-Coburgo-Saalfeld. Casada com o grão-duque Constantino Pavlovich, ela levava uma existência infeliz ao lado do marido. Depois de se converter à religião Ortodoxa e adotar o nome de Ana Feodorovna, ela foi muito bem recebida na corte do czar Paulo I, que adorava seus modos e conversa agradável. A popularidade da esposa fez com que o grão-duque ficasse bastante enciumado e a tratasse mal. Ele a proibia de participar de eventos sociais, exceto em sua companhia. Em 1799, quando Julie teve que fazer uma viagem para tratar da saúde, ela quis regressar, pois sua vida em São Petersburgo ao lado do marido insuportável. Como não obteve apoio da família em Coburgo, não lhe restou opção a não ser voltar a tempo de estar presente nos casamentos de suas cunhadas, Alexandra e Helena. Com o assassinato do czar Paulo I em 1801, Julie alegou novamente que sua saúde se encontrava em estado grave. O novo czar, Alexandre I, consentiu que ela retornasse junto com a mãe, a duquesa Augusta, para fazer um tratamento com águas termais. Dessa vez, a grã-duquesa nunca mais regressou.

Nos próximos 19 anos, Ana Feodorovna travou uma árdua batalha judicial para conseguir um divórcio do marido. Nesse meio tempo, ela manteve um caso amoroso com Rodolphe Abraham de Schiferli, do qual resultou no nascimento de uma filha bastarda. A despeito de todas as tentativas de Alexandre I em conseguir a reaproximação da grã-duquesa com seu irmão, Constantino, Ana/Julie conseguiu um divórcio em 1820. Essa história se tornou matéria de fofoca em muitas cortes da Europa. Só podemos imaginar o quanto dela a pequena Alexandrina Vitória de Hanôver, princesa de Kent, absorveu. Ela não só era afilhada do czar Alexandre como foi batizada em sua homenagem. Na opinião de Coryne Hall, a relação da futura rainha com os Romanov era multifacetada. Ela nutria franca simpatia por alguns membros da família imperial, enquanto para outros reservava o oposto. Em 1839, por exemplo, quando Vitória tinha 20 anos e era uma jovem soberana solteira, o czar Nicolau I enviou para a Inglaterra seu filho e herdeiro, o futuro imperador Alexandre II. Ali, ele conheceu a rainha. Sendo ainda uma mulher solteira por ocasião desta visita, Vitória teria ficado realmente encantada pelo czarevich, a quem descreveu como “um prezado jovem encantador”.

No baile oficial que ela lhe ofereceu, os dois dançaram por horas, rodopiando até a madrugada. “Estou realmente apaixonada pelo grão-duque. Nunca me diverti tanto”, declarou a soberana. Antes de se despedirem, ele lhe apertou a mão e em seguida lhe deu um beijo no rosto “de uma maneira muito calorosa e afetuosa”, conforme escreveu ao Primeiro-Ministro Lorde Melbourne. Membros do partido Tory, como Sir Robert Peel e o duque de Wellington ficaram muito desconcertados com essa troca de intimidade. Os rumores sobre a pequena noite de diversão da rainha com o czarevich também circularam por Londres, causando verdadeiro escândalo. Afinal, o casamento da soberana do Reino Unido com o futuro imperador da Rússia era algo extremamente indesejado por todos. Essas preocupações só se dissiparam quando Vitória se casou com seu primo Albert em 10 de fevereiro do ano seguinte. Em 1840, Alexandre também contraiu matrimônio com Maria de Hesse e Reno, que adotou o nome ortodoxo de Maria Feodorovna. 15 anos depois, a rainha e seu antigo pretendente, que subiu ao trono russo em 1855, se viram em campos opostos na Guerra da Criméia. A soberana montou a cavalo vestida em seu uniforme de amazona e fez a revista às tropas inglesas que lutariam na Rússia.

Retrato do jovem Alexandre II da Rússia, por quem Vitória se encantara no início de seu reinado (atribuído a George Dawe, 1827).

Embora fosse uma mulher que detestasse a guerra, Vitória se mostrava bastante belicosa quando sua nação se envolvia em algum conflito armado. A rainha e o príncipe Albert chegaram a acender uma grande fogueira na Escócia em comemoração, quando souberam da derrota dos russos após a queda de Sebastopol. O que eles desconheciam, porém, era que os franceses estavam negociando um tratado de paz com Alexandre II em 1856, pondo assim um fim ao conflito. Vitória considerou aquela atitude uma grande traição por parte de Napoleão III e seu antagonismo para com o czar, que certa vez tanto a encantara, aumentou. Quando o príncipe Alfred, duque de Edimburgo, viajou até São Petersburgo em 1874 para se casar com a grã-duquesa Maria, Vitória se recusou terminantemente a comparecer na cerimônia. Viúva já há 13 anos, ela havia se tornado uma mulher mais obstinada e, nas palavras de alguns, bastante “teimosa”. Embora sua filha Alice, que era sobrinha da czarina Maria Feodorovna pelo seu casamento com o grão-duque Luís IV de Hesse, tivesse sugerido que a mãe viajasse só até a fronteira para conhecer a nova nora, a rainha considerou aquilo um afronta, especialmente porque a ideia partiu da esposa do czar, uma mulher que, nas palavras de Vitória, conquistara sua posição através do matrimônio e não por herança, como ela própria.

Contudo, o pior estava por vir. Como filha de um imperador, Alexandre II exigiu que Maria recebesse na corte inglesa o tratamento de Alteza Imperial, o que a colocava acima de Alexandra da Dinamarca, princesa de Gales. Para Vitória, era inconcebível que a futura rainha da Inglaterra fosse obrigada a se curvar para a esposa de seu segundo filho. Foi então que ela e o Primeiro-Ministro, Lorde Disraeli, começaram a trabalhar no projeto de lei que formalizaria o status da soberana como Imperatriz da Índia. Em 1 de janeiro de 1876, Vitória foi oficialmente proclamada com seu novo título em Delhi Durbar. Dessa forma, todos os príncipes e princesas do Reino Unido também receberiam o status de Alteza Imperial, a mais alta forma de tratamento entre os membros da realeza. Depois dessa conquista, a rainha-imperatriz continuou a enfrentar os russos e sua política imperialista na Guerra Russo-Turca, ameaçando inclusive renunciar ao seu posto em mais de uma ocasião, caso o governo britânico não exigisse uma retratação do czar pelas suas ações. Dessa vez, suas ameaças caíram em ouvidos moucos e não impediram que se organizasse o Congresso de Berlim, que tinha por objetivo resolver a situação nos balcãs após o término do conflito em 1878. O litígio era de especial interesse para soberana, uma vez que afetava diretamente os interesses da Grã-Bretanha e sua rota para a Índia.

Uma guerra de palavras foi então travada entre a monarca e o czarevich Alexandre, casado com a irmã da princesa de Gales e, portanto, cunhado do futuro rei da Inglaterra. Ele a chamava de “uma velha mimada, sentimental e egoísta”, enquanto Vitória se referia ao herdeiro do trono como um “soberano que ela não podia considerar um cavalheiro”. Não obstante, a década de 1880 trouxe grandes preocupações para a rainha. Primeiramente, seu querido Lorde Disraeli foi destituído do cargo de Primeiro-Ministro e substituído por Lorde Gladstone, a quem ela detestava. Pouco depois, em 1881, o czar Alexandre II morreu, vítima de um atentado terrorista, quando um homem chamado Ignaty Grinevitsky jogou uma bomba aos seus pés. Mesmo com as pernas e parte do abdômen destroçados pela explosão, o soberano ainda teve algumas horas antes de morrer para se despedir de sua família e seus filhos, incluindo o czarevich, que subiu imediatamente ao trono como Alexandre III. Três anos depois, a neta da rainha, Elizabeth de Hesse e Reno, aceitou o pedido de casamento do grão-duque Sergei Alexandrovich. Mais uma vez outro membro da família real inglesa se unia aos Romanov, para desgosto da soberana. “Ella”, como Elizabeth era conhecida na família, havia sido cortejada pelo primo Guilherme, futuro imperador da Alemanha, e por Frederico II de Baden.

Retrato oficial da rainha Vitória como Imperatriz da Índia (colorização: Renato Drummond).

Com efeito, Vitória teria lamentado profundamente a recusa de sua neta por essa último pretendente, uma vez que ele lhe oferecia uma posição mais estável do que na corte russa, país com um terrível histórico de atentados contra membros da família reinante e de casamentos malfadados, a exemplo do de sua tia Julie. Apesar disso, a soberana não impediu a união e nem se colocou contra conversão de Ella à religião Ortodoxa. A partir de então, a princesa passaria a ser conhecida pelo nome de Elizabetha Feodorovna Romanov. O casamento ocorreu no Palácio de Inverno, em junho de 1884. Estava presente na cerimônia a irmã de 12 anos da noiva, a princesa Alicky de Hesse, que causara uma ótima impressão no filho do czar Alexandre III, Nicolau. Para temor de Vitória, “Ella” passaria a trabalhar com afinco no propósito de unir a irmã ao futuro imperador. A rainha, por sua vez, tinha seus próprios planos para a pequena “Sunny” (apelido pelo qual Alicky era conhecida na família). Era de sua vontade que a jovem se casasse com o primo, Albert Victor, filho mais velho do príncipe e da princesa de Gales, torando-se a próxima rainha da Inglaterra na linha de sucessão. Quando soube que “Ella” estava planejando o casamento de sua irmã com o czarevich Nicolau, Vitória ficou estarrecida. À irmã mais velha das duas, Victoria de Battenberg, a soberana dirigiu a seguinte carta:

Disse que lamentava que Alicky fosse de novo à Rússia, pois isso levava a muitas possibilidades – mas não quero dizer com respeito a Nicky, pois ele está longe, além disso a ideia não pode prosperar por causa da religião; mais ainda, sei que Minny [a imperatriz da Rússia] não deseja isso. Em resumo, isso não pode acontecer. Mas existem muitos outros grão-duques e princesas. E eu ouvi dizer que Ella está decidida a intentar e conseguir um matrimônio com outro russo e eu afirmo que isso ofenderia gravemente ao tio Bertie e à tia Alix, isso também se sucede comigo. Mas talvez isso não seja verdadeiro e se tomardes o cuidado de dizer a Ella que nenhum matrimônio para Alicky na Rússia será permitido, então terminaremos com essa história (apud KING, 1995, p. 69).

Conforme apontado anteriormente, a rainha Vitória tinha motivos de sobra para desconfiar dos Romanov e dos russos. Em primeiro lugar, o escândalo do casamento de sua tia Julie com o grão-duque Constantino, que resultou em traições e divórcio. Depois disso, as fofocas envolvendo o próprio nome da soberana com o czarevich Alexandre, futuro Alexandre II, no início de seu reinado. No rastro desses aborrecimentos, surgiram questões políticas e militares, como a Guerra da Crimeia e a Guerra Russo-Turca, acirrada pela troca de palavras ofensivas entre a rainha e Alexandre III (único czar da Rússia a não visitar a soberana do Reino Unido). Vitória também não assentiu de boa vontade ao casamento de seu filho com a grã-duquesa Maria Alexandrovna e se sentiu ultrajada quando esta quis receber um tratamento superior ao do casal de Gales na corte inglesa. O casamento da neta Elizabeth com o grão-duque Sergei foi outra fonte de consternação. Porém, a cereja desse bolo de desgostos veio com o pedido formal de casamento de Nicolau para Alicky em 1894. Desta vez, o coração teve novamente precedência sobre a razão de Estado.

A futura czarina Alexandra Feodorovna já havia rejeitado o pedido de casamento de seu primo Albert Victor, causando grande frustração em sua avó. “Receio que toda a esperança de Alicky se casar com Eddy tenha chegado ao fim”, contou a soberana para uma amiga.

Ela escreveu para lhe dizer como é triste para ela causar-lhe tristeza, mas que não pode casar-se com ele, muito porque gosta dele como primo, que ele não seria feliz com ela e que não deve pensar nela… É uma verdadeira pena para nós… mas… ela diz que, se for obrigada, se casará, mas que seria infeliz e ele também. Isso mostra grande força de caráter, como toda a família dela e todos nós desejamos. Ela recusa a maior posição que há (apud MASSIE, 2014, p. 52-3).

Quando Albert Victor morreu em 14 de janeiro de 1892, em decorrência de uma epidemia chamada na época de gripe russa, especulou-se a possibilidade de Alicky se casar com o irmão mais novo dele, George, duque de York. Assim como aconteceu com o pedido anterior, a jovem declinou da oferta. George, por sua vez, resolveu firmar compromisso com a noiva de seu finado irmão, Mary de Teck, e os dois se casaram no ano seguinte. O primeiro filho do casal, Edward, futuro Edward VIII do Reino Unido, nasceu um ano depois

A czarina Alexandra Feodorovna e o czar Nicolau II apresentam sua filha Olga, à bisavó, em 1896 (foto digitalmente colorida por Marina Amaral).

Alicky e Nicolau se uniram me matrimônio em 14 de novembro de 1894, três dias depois da morte do czar Alexandre III. Ao se converter à religião Ortodoxa, ela adotou o nome de Alexandra Feodorovna. Quando a primeira filha do casal nasceu, Olga, os jovens pais a levaram para conhecer sua bisavó na Inglaterra. Um registro fotográfico feito em Balmoral, em 1896, apresenta a criança no colo na mãe, enquanto a idosa rainha contempla sua mais nova bisneta. Nicolau II aparece ao fundo, enquanto Bertie, príncipe de Gales, está em pé à direita da imagem. Até sua morte, Vitória nunca deixou de se preocupar com a situação de sua querida “Sunny” na Rússia, um país que ela considerava “corrupto, onde não se pode confiar em ninguém”. À medida em que as notícias de que Alexandra era hostilizada dentro da própria corte chegavam aos ouvidos da rainha na Inglaterra, sua preocupação aumentava gradativamente. Infelizmente, as cartas que Vitória escreveu para a imperatriz datadas desse período foram destruídas pela própria Alexandra em 1917, pouco depois da queda da monarquia. 1896 foi ano em que a soberana viu sua neta pessoalmente pela última vez e pôde contemplar a expressão de tristeza estampada em seu rosto, que a acompanharia para sempre.

Referências Bibliográficas:

ALEXANDRE, Philippe; DE L’AULNOIT, Béatriz. Victoria: a última rainha (1819 – 1901). Tradução de Fátima Gaspar e Carlos Gaspar. 2ª ed. Lisboa, Portugal: Bertrand, 2002.

ANDERSON, Theo. Queen Victoria and the Bonapartes. London: Cassel & Company LTD, 1972.

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottmann. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

KING, Greg. La última emperatriz de Rusia: vida y época de Alejandra Feodorovna. Tradução de Aníbal Leal. Buenos Aires, Argentina: Javier Vergara Editor, 1996.

MASSIE, Robert K. Nicolau e Alexandra: o relato clássico da queda dos Romanov. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

RAPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov: a vida das filhas do último tsar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

SCARSI, Alice. Queen Victoria’s distrust for Russia over marriage, ‘deadly legacy’ and ‘terrible scandal’. 2021 – Acesso em 23 de dezembro de 2021.

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