Especialistas desvendam mistério escondido na carta que Mary Stuart escreveu antes de morrer!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Na noite do dia 07 de fevereiro de 1587, Mary Stuart recebia uma visita indesejada. Recluída em seus aposentos no castelo de Fotheringay desde que foi condenada por crimes contra sua prima, a rainha Elizabeth I, ela apenas aguardava pelo dia em que sua sentença seria cumprida. Uma comitiva, capitaneada pelos Lordes Sherewsbury e Kent, foi recebida no castelo trazendo consigo a notícia da execução para a próxima manhã. Católica fervorosa, a vítima teria poucas horas para se preparar espiritualmente por meio de preces e orações e ditar suas disposições finais. No imaginário do período, esses procedimentos eram indispensáveis para que a alma pudesse entrar no paraíso sem qualquer pendência terrena. Assim, Mary dispôs de seus objetos de uso pessoal entre seus criados e pediu a eles para que não chorassem pela sua perda, pois logo ela iria “partir de um mundo de infelicidades”. Solicitando papel e tinta, a monarca modificou seu testamento e escreveu uma carta endereçada ao seu cunhado, o rei Henrique III da França, contendo seus últimos pensamentos. O documento se tornou de valor inestimável para a escrita da biografia de Mary Stuart. Porém, passados mais de 470 anos desde a morte de sua autora, aquele pedaço de papel cuidadosamente dobrado ainda contém muitas surpresas.

Versão microfilmada da última carca de Mary Stuart, onde é possível ver com nitidez o corte da fechadura em espiral que ela utilizou para selar o documento.

Para se ter uma ideia, em 2016 o texto da última carta da trágica rainha da Escócia foi utilizado em um experimento bastante inovador: ele foi convertido numa curta sequência molecular que, em tese, pode ser armazenada de maneira segura por séculos e numa forma estável. Segundo os pesquisadores, essas sequências são capazes de ser rapidamente montadas em conjunto, utilizando um método semelhante ao de uma máquina de escrever (clique aqui e saiba mais). Mas, recentemente, especialistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e do King’s College de Londres conseguiram decifrar o segredo de um sistema complexo, conhecido como fechadura em espiral, utilizado no século XVI para proteger o conteúdo de documentos importantes. Para manter o sigilo de sua carta, Mary Stuart recorreu a essa técnica bastante elaborada, que consiste na abertura de uma série de fendas entre as dobras do papel, deixando o manuscrito à prova de violação. Os pesquisadores demoraram anos até entender o procedimento que ela utilizou para lacrar a missiva, que pode ser considerado uma forma intrincada de bloqueio de letras.

Utilizando uma versão fac-símile do documento, impresso no mesmo tipo de papel utilizado no século XVI, os especialistas demonstram no vídeo abaixo a engenhosidade do sistema de fechadura em espiral:

Nesse sistema elaborado, também conhecido como letterlocking, a carta funciona como seu próprio envelope. Para abri-lo, seria necessário violar o lacre. Caso isso ocorresse, Henrique III saberia que a carta da viúva de seu finado irmão, Francisco II, teria sido interceptada e lida por terceiros. Até a invenção dos modernos envelopes, a técnica do bloqueio de letras era utilizada como uma forma segura para proteção da correspondência.

Uma reconstrução de como a última carta de Mary, rainha dos Escoceses, poderia ter sido fechada com segurança, usando o mecanismo da fechadura em espiral.

Escrita na madrugada de 8 de fevereiro de 1587, em sua última carta Mary Stuart afirmava que a causa principal de sua morte se devia ao seu catolicismo, considerado uma ameaça para a Coroa inglesa. Na qualidade de rainha católica, muitos ministros do reino a temiam como presuntiva herdeira do trono, ameaçando assim a estabilidade da religião protestante. Ela também dava detalhes de como se sentia naquele momento em que a morte se aproximava e de sua situação humilhante como rainha cativa. Além disso, Mary reclamava da suposta injustiça de seus algozes, especialmente da rainha Elizabeth, e pedia ao rei da França para que fosse gentil com os criados que serviram a ela por tantos anos:

8 de fevereiro de 1587

Para o rei mais Cristão, meu irmão e antigo aliado, Irmão Real, tendo a vontade de Deus, pelos meus pecados eu penso, me jogado para o poder da rainha minha prima [Elizabeth I], em cujas mãos eu sofri muito por quase vinte anos, finalmente fui condenada à morte por ela e seus ministros. Eu pedi pelos meus papéis, que haviam sido tirados de mim, a fim de que eu possa escrever a minha vontade, porém, tenho sido incapaz de recuperar qualquer coisa que me seja útil, ou mesmo obter permissão de sair, seja para fazer a minha vontade ou para ter meu corpo livremente transportado depois da minha morte, como eu gostaria, para o vosso reino, onde tive a honra de ser rainha, vossa irmã e velha aliada.

Hoje à noite, depois do jantar, fui informada da minha sentença: eu serei executada como uma criminosa às oito da manhã. Eu não tenho tempo para lhe contar tudo o que tem acontecido, mas se vós escutar o meu médico e meus outros infelizes servos, saberá a verdade e como, graças a Deus, desprezei a morte e como me encontro inocente de qualquer crime, mesmo se eu fosse sua súdita [de Elizabeth]. A Fé Católica e a afirmação do meu Direito Divino à coroa inglesa são as duas questões pelas quais eu fui condenada, e mesmo assim não estou autorizada a dizer que morro pela religião Católica, por causa do medo da interferência deles. A prova disso é que levaram embora o meu capelão e, apesar de ele ainda estar no edifício, não tem permissão para vir e ouvir a minha confissão e ministrar o Último Sacramento, enquanto eles têm sido bem insistentes em que eu receba o consolo e instrução do seu ministro, trazido aqui de propósito. O portador desta carta e seus companheiros, a maioria deles vossos súditos, irão lhe testemunhar minha conduta nas últimas horas. Resta-me implorar a Sua Cristianíssima Majestade, meu cunhado e velho aliado, que sempre professou seu amor por mim, que me dê agora prova de vossa bondade nesses pontos: em primeiro lugar pela caridade, que pague aos meus infelizes servos os salários que lhes são devidos – este é um fardo da minha consciência que só vós poderá aliviar: além disso, que orações sejam oferecidas a Deus por uma rainha que carregou o título de a Mais Cristã, e que morre como uma católica, despojada de todos os seus bens. Quando ao meu filho, eu recomendo-o a vós na medida em que ele merece, pois não posso responder por ele. Tomei a liberdade de vos enviar duas pedras preciosas, talismãs contra a doença, confiando que vós desfrutareis de uma boa saúde e uma vida longa e feliz. Aceite-as de vossa adorada cunhada que, na morte, vos dá testemunho de seus sentimentos. Novamente, eu recomendo-vos meus servos. Dê instruções, se isso for do vosso agrado, para a salvação da minha alma, que parte do que vós me deveis seja pago, e que pelo amor de Jesus Cristo, seja deixado àqueles que lhe contarão como morri o suficiente para realizar missas em minha memória e as costumeiras esmolas.

Quarta-feira, duas da manhã

Vossa mais amada e verdadeira irmã.

Mary R.

Após escrever essas linhas, ela dobrou o papel de folha dupla em 30 etapas, envolvendo o corte de uma fechadura geralmente feito com uma lâmina ou espada a partir da margem em branco da carta. A fechadura funcionaria como uma espécie de agulha usada para costurar a cartar depois de dobrada. Uma das autoras do estudo envolvendo esse mecanismo de proteção, Jana Dambrogio, gerente de conservação das Bibliotecas do MIT, afirmou que a fechadura em espiral é uma das poucas técnicas de bloqueio de letras com alta proteção, quando se trata de segurança. Numa época em que o papel não era industrializado e sim manufaturado, seria preciso muita habilidade para criar a fechadura, uma vez que qualquer movimento errado implicaria no recomeço do procedimento. Daniel Smith, professor sênior do King’s College de Londres e coautor da pesquisa, disse: “Achamos que a fechadura em espiral é uma das mais brilhantes, seguras e elaboradas. Se você está preocupado com alguém violando sua carta, a fechadura em espiral é uma escolha brilhante. Mas também pode comunicar o fato de que você se esforçou muito nisso. Você fez com que parecesse espetacular”.

À esquerda: reprodução de uma carta de 1570 de Catarina de Médici para Raimond de Beccarie, Monsieur de Fourquevaux, marcada com uma sobreposição visual para mostrar as manipulações do bloqueio de letras; ao centro: uma reconstrução de como seria a fechadura rompida por seu destinatário; à direita: detalhe das seções dobradas da fechadura intacta.

No estudo elaborado pelos pesquisadores, eles analisaram uma série de documentos que utilizaram o mesmo sistema de fechadura em espiral, incluindo alguns cujo lacre ainda não havia sido rompido. Tais cartas, além de servirem como veículos de comunicação, também denotam o caráter inventivo do cotidiano das pessoas no século XVI, especialmente quando se trata de questões culturais envolvendo privacidade e sigilo. Nesse sentido, o letterlocking seria o elo entre  “técnicas de segurança de comunicações físicas do mundo antigo e a criptografia digital moderna”, de acordo com o artigo publicado no Electronic British Library Journal, que divulgou os detalhes da pesquisa. “Quando entendemos coisas como cunhas, travas e dobras de uma forma mais sofisticada, podemos realmente começar a contar um tipo muito diferente de história sobre o início do período moderno”, afirma Smith.

Fonte: NPR – Acesso em 16 de dezembro de 2021

Referências Bibliográficas:

DUCHEIN, Michel. Maria Estuardo. Traducción de César Aira. Buenos Aires, Argentina: Emecé Editores, 1991.

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

FRASER, Antonia. Mary queen of Scots. New York: Delta, 2001.

HAHN, Emily. Mary queen of Scots. New York: Random House, 1953.

HENRY-BORDEAUX, Paule. Maria Estuardo. Traducción de Ramon Lamoneda Izquierdo. México, D.F.: Biografias Gandesa, 1957.

MHLSTEIN, Anka. Elizabeth I and Mary Stuart: the perils of marriage. Translated by John Brownjohn. Great Britain: Haus Publishing, 2007.

ZWEIG, Stefan. Maria Stuart. Tradução de Alice Ogando. 12ª ed. Porto, Portugal: Livraria Civilização Editora, 1969.

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