A rainha e seus filhos: raro retrato de Catarina de Médici e seus infantes pode ser novamente visto!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Catarina de Médici entrou para a história como uma das mulheres de pior fama que governaram no continente europeu. Ao longo dos séculos, foram atribuídos à sua figura uma série de crimes, que se encaixam no contexto das guerras de religião ocorridas na França, durante a segunda metade do século XVI. O mais famoso desses atentados teve lugar em Paris, na madrugada do dia 24 de agosto de 1572, noite de São Bartolomeu, quando milhares de huguenotes foram assassinados por soldados da Coroa. Apesar de a historiografia moderna ter descontruído muito dessas interpretações cristalizadas no imaginário coletivo, ainda persiste a lenda obscura da megera enlutada, implacável no trato com seus inimigos, bastante recorrente nas páginas de romances como A Rainha Margot, de Alexandre Dumas. Porém, uma qualidade de seu caráter, que nem mesmo os opositores de Catarina conseguiram abalar, foi seu amor pelos filhos, que ficaram órfãos de pai em 1558, com a morte do rei Henrique II. A partir de então, sua viúva vestiria o preto em sinal de luto até o fim de seus dias.

Depois de quase dois séculos, o retrato de Catarina de Médici e seus filhos foi novamente instalado na Strawberry Hill House.

Com efeito, é essa a imagem que transparece em uma tela atribuída ao ateliê do artista François Clouet, na qual a Catarina aparece acompanhada de seus quatro filhos menores: Charles IX, Henrique, Margot e François. A tela teria sido pintada em 1561, medindo 198 x 137,2 cm e apresenta a soberana e os infantes em tamanho natural. Certamente, o objetivo deste retrato dinástico seria exaltar a imagem da viúva de Henrique II como mãe da França e regente do reino durante a menoridade de seu filho. Como havia um objetivo político por trás da pintura de retratos como esse, Catarina procurava demonstrar seu poder e ascendência no reinado de Charles, estando, portanto, acima das disputas políticas entre católicos e protestantes. Seu braço esquerdo se estende sobre os ombros do pequeno soberano, enquanto sua mão direta se entrelaça à dele. Ao lado do rei menino, aparece em segundo plano a pequena princesa Margot, cujo casamento em agosto de 1572 com Henrique de Navarra culminou com a fatídica noite de São Bartolomeu. Já no canto direito da tela, podemos ver o duque de Orleans, que acabaria sucedendo ao irmão como Henrique III, em 1574.

Após a morte de Francisco II em dezembro de 1560, Catarina conseguiu com que o Parlamento e os Estados Gerais a reconhecessem como rainha regente da França até a maioridade de Charles IX, em 1564. No verso da pintura, pode-se ler a inscrição “no décimo primeiro ano”, o que indica que o rei teria 11 anos de idade quando o retrato foi finalizado. A obra possui um apelo semelhante às representações da sagrada família, com a rainha no papel de mãe da nação, personificada no quadro por seus quatro filhos. Em 1563, ela renunciou a seu papel como regente e antecipou a maioridade de Charles, que em reconhecimento a nomeou como Superintendente de Estado. Desse modo, ela continuaria a reinar de forma conjuntamente ao rei, a despeito da pouca idade deste. A rainha tentou desenvolver uma política conciliatória que restituísse a paz dentro da França e com as potências vizinhas. Para tanto, Catarina organizou casamentos vantajosos para os seus filhos: em 1570, o rei contraiu matrimônio com Elisabete da Áustria, filha do imperador Maximiliano II.

A tela, por sua vez, se trata de uma das poucas representações originais da rainha regente e de seus filhos, pintada no século XVI.

Três dos filhos de Catarina de Médici com Henrique II acabariam se tornando reis da França: Francisco II, Charles IX e Henrique III. Duas de suas filhas, Elisabete e Margot, se tornaram rainhas consortes e outra delas, Cláudia, acabou se casando com Carlos III, duque de Lorena, levando assim o sangue dos Valois para outras casas dinásticas da Europa através de seus descentes. Apesar de nem Elisabete ou Cláudia aparecerem na pintura, uma vez que já estavam casadas e viviam fora da corte quando o retrato foi finalizado, podemos vez um terceiro garoto posando ao lado direito da mãe, com um dos pés posicionados no degrau inferior do palanque. Se trata de François, duque de Alençon, que jamais chegou a se sentar no trono de São Luís, morrendo de malária aos 29 anos, em 1584. A despeito de todos os esforços de Catarina de Médici para assegurar o coroa aos seus filhos, esta acabaria passando para Henrique de Navarra em 1589, colocando assim um fim à dinastia dos Valois. Sua última descente viva foi Margot, que morreu em 1615, durante o reinado de Luís XIII de Bourbon.

No século XVIII, esta tela imponente foi adquirida pelo político britânico Horace Walpole, que a expôs na sua propriedade de Strawberry Hill House, um castelo construído em estilo gótico, localizado no lado oeste de Londres. O político era um apaixonado pela história dos Tudor, dos Médici e pela casa dos Valois, chegando inclusive a cogitar a possibilidade de escrever um livro sobre a história da famosa família de banqueiros italianos, que se tornaram senhores de Florença. Segundo os especialistas, a tela teria sido adquirida por Walpole em 1742, através de um certo “Sr. Byde Herfordshire”, pela considerável soma de £ 25 – o equivalente a 31.440 reais em câmbio atual, levando em conta que a libra esterlina valia muito mais no século XVIII do que nos dia de hoje. Segundo o Art Newspaper: “ele decorou sua mansão excêntrica com lareiras, estantes de livros, tetos entalhados góticos e outros elementos fantásticos inspirados na Idade Média e no Renascimento.” Ávido colecionador, Horace teria dedicado um cômodo inteiro de seu castelo ao armazenamento de objetos que remontavam ao período Tudor. Após sua morte, seus herdeiros leiloaram o quadro, entre outros objetos de sua coleção.

A propriedade de Strawberry Hill House, um castelo construído em estilo gótico, localizado no lado oeste de Londres.

A tela, por sua vez, se trata de uma das poucas representações originais da rainha regente e de seus filhos, pintada no século XVI. Por quase duzentos anos, o retrato dinástico permaneceu praticamente desaparecido dos olhos públicos, até que seus atuais proprietários resolveram restituí-lo ao antigo castelo, hoje transformado em museu, em troca da isenção de £ 1 milhão em impostos. Essa é uma das maneiras pelas quais muitas famílias ricas conseguem pagar parte ou a totalidade de seus impostos sobre a herança, transferindo peças de inestimável valor histórico para o domínio público. “A aquisição deste retrato único de Catarina de Médici com os seus filhos é importante não apenas pelo seu grande valor intrínseco e significado, mas também porque nos dá, na Strawberry Hill House, a possibilidade de reconstruir uma das muitas narrativas históricas que estiveram na base das estratégias de coleta de Walpole”, afirma a curadora Silvia Davoli. “Este retrato nos fala do interesse de Walpole pelo Renascimento italiano e francês, seus protagonistas e grande arte.”

Fontes:

ART News – Acesso em 13 de agosto de 2021.

Smithsonian Magazine – Acesso em 13 de agosto de 2021.

The Guardian – Acesso em 13 de agosto de 2021.

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