Traída, divorciada e afastada dos filhos: a desventurada vida da princesa Louise de Saxe-Gota-Altemburgo!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

O título da matéria pode sugerir para os leitores uma história mais recente, protagonizada pelo príncipe Charles e pela princesa Diana na década de 1990. Porém, a presente narrativa se passa quase 200 anos antes, envolvendo uma jovem igualmente bela e romântica, que sonhava com um final de contos de fadas. Nossa história se inicia no ano de 1817, quando o duque Ernest de Saxe-Coburgo-Saalfeld procurava uma noiva rica para aumentar as posses do seu pequeno principado. Durante as guerras napoleônicas, ele até cogitou a possibilidade de um casamento com a irmã czar, embora sem sucesso. Aos 33 anos, ele finalmente encontrou uma jovem princesa de 17, Louise, filha única do duque Augusto de Saxe-Gota-Altemburgo, cujos domínios eram pelo menos cinco vezes maiores do que os seus. A mãe de Louise, uma princesa de Mecklemburgo-Schwerin, falecera em decorrência do parto da filha. Embora seu pai tivesse contraído segundas núpcias com Coroline de Hesse-Cassel, dessa união não surgiu sucessores. Pela lei sálica, a princesa estava proibida de governar após sua morte, mas o marido dela não. Negociações para encontrar um noivo adequado para a jovem começaram assim que ela atingiu a puberdade. Quando o matrimônio fosse acordado, o marido dela também poderia usufruir das posses que haviam pertencido à sua falecida sogra.

A princesa Louise aos 13 anos, retratada por Joseph Maria Grassi.

Apesar de não ter sido consultada quando nem com quem deveria se casar, a ideia de se tornar uma esposa não desagradava a Louise, que se sentia muito sozinha vivendo na companhia do pai e da madrasta. Dizem que Caroline era uma mulher superprotetora, que impunha barreiras a quaisquer amizades que a pequena princesa pudesse ter. A única amiga com quem ela podia contar era Augusta de Studnitz, um ano mais nova. As duas passavam horas fofocando, contando piadas e discutindo sobre amores e pretendentes. Embalada pelas histórias de donzelas e cavaleiros que lia na infância, Louise viu em Ernest de Saxe-Coburgo-Saalfeld o príncipe encantado de sua própria narrativa. Embora não fosse considerada uma grande beldade, ela era uma moça sensitiva, cujos modos francos e vívidos encantavam a todos. Já o duque era alto, de porte atlético e tido como muito atraente. Através de cartas anônimas, boatos chegaram até ela dando conta do passado amoroso de Ernest, mas Louise preferiu ignorar tais rumores. No verão de 1817, eles finalmente firmaram o noivado, casando-se no dia 31 de julho. Durante os primeiros meses de vida conjugal, tudo transcorreu maravilhosamente. Atraído pela jovem esposa, o duque a cobria de presentes, redecorando os apartamentos ocupados por ela nos vários palácios e oferecendo grandiosas festas de Natal e aniversário.

Com efeito, o dinheiro do dote de Louise era mais do que suficiente para cobrir todo esse estilo de vida dispendioso. Réplicas de seus retratos foram comissionadas e distribuídas aos membros da família e penduradas nas paredes das residências do casal, como no adorável retiro de Roseneau. A jovem esposa estava em estado de graça. A princípio, chamava ao marido de anjo e senhor, dizendo que só se sentia feliz quando estava em sua companhia. Com apenas três meses de casamento, ela engravidou. Em 21 de junho de 1818, deu à luz um menino batizado de Ernest, como o pai. No ano seguinte, em 28 de agosto, nascia em Roseneau o príncipe Augusto Albert. Os dois garotos dariam continuidade à linhagem da família. Ernest, como herdeiro direto de seu pai, ficaria no futuro com os títulos e propriedades dos Coburgo. Já para Albert, um futuro diferente estava sendo traçado. Alguns meses antes do nascimento do segundo filho, a irmã do duque, Victoire de Saxe-Coburgo-Saalfeld, duquesa de Kent, deu à luz uma menina, terceira na linha de sucessão ao trono britânico: Alexandrina Vitória de Hanôver. A avó paterna das crianças, a princesa Augusta Reuss-Ebersdorf, foi a primeira a defender um casamento dinástico entre os primos. Para que isso fosse possível, o pequeno Albert necessitaria de uma educação irretocável.

Conforme a rainha Vitória contaria muitos anos depois ao tutor de seu marido, Christoph Florschütz, a duquesa Louise não escondia sua preferência pelo filho mais novo, em detrimento do mais velho. O príncipe Albert era um garoto mirrado e tímido, mas sua aparência era um deleite aos olhos da avó e das tias. De acordo com Vitória, em 1866:

Havia parcialidade no tratamento da mãe para com as crianças. Dotada com brilhantes qualidades, bonita, esperta e inteligente, possuidora de eloquência e de uma imaginação vívida, a duquesa Louise desejava as qualificações essenciais de uma mãe. Ela não fez qualquer tentativa de esconder que o príncipe Albert era o seu filho favorito. Ele era bonito e tinha uma forte semelhança com ela. Ele era de fato seu orgulho e glória (apud GILL, 2009, p. 113).

Duque Ernest de Saxe-Coburgo-Saalfeld, retratado em 1819 por George Dawe.

Assim como outras mulheres da aristocracia faziam com sua prole, a duquesa deixou seus filhos aos cuidados de babás, enquanto ela e o marido assumiam os negócios da família. Em meio a visitas da vasta parentela e das viagens entre as propriedades do casal, ela fez de tudo para acompanhar o crescimento Ernest e Albert, mesmo quando não estava em sua companhia. Em carta para sua amiga Augusta, datada de 1819, a duquesa se referia ao filho mais velho como “grande para sua idade, vivaz e inteligente. Seus grandes olhos castanhos brilham com sagacidade e vivacidade”. Mas, quando passava a descrever Albert, a mãe utilizava palavras como “extraordinariamente lindo”, com “seus grandes olhos azuis, sua doce boquinha – um nariz perfeito – covinhas em cada bochecha”.

Enquanto Ernest podia ser considerado o favorito do duque, Albert era o da duquesa. Ele era mais parecido com a família Gota do que com os Coburgo. Quando os príncipes atingiram a idade de quatro e três anos, respectivamente, seu pai contratou Christoph Florschütz como tutor para lhes ensinar os rudimentos da educação. Pouco depois, o barão de Sotckmar foi enviado para supervisionar a educação dos meninos, a pedido de seu tio, Leopold. Brilhante estrategista, o futuro rei dos Belgas, viúvo da princesa Charlotte de Gales, já planejava para seu sobrinho mais jovem uma possível união dinástica com a prima Vitória. Por volta dessa época, já não era segredo para mais ninguém que o casamento do duque Ernest com a duquesa Louise ia de mal a pior. Depois do nascimento do herdeiro e do suplente, e como a anexação do ducado de Gota ao de Coburgo parecia garantida, Ernest não viu mais necessidade de manter a personagem do marido fiel e romântico. Começou a fazer viagens sem sua esposa e a se relacionar com outras mulheres jovens e atraentes. Passava a maior parte da manhã caçando e, quando retornava para casa, trazia consigo vários amigos, muitos dos quais a duquesa Louise desaprovava, assim como os novos modos de seu cônjuge.

Não obstante, a mãe dos príncipes Ernest e Albert não teve autonomia para escolher as próprias damas de seu séquito, sentindo-se constantemente desconfortável ao lado das mulheres Coburgo. Talvez na expectativa de recuperar a atenção do marido, Louise tentou provocar-lhe ciúmes mantendo um affair com um jovem cortesão de 19 anos, chamado Alexandre de Hanstein. Em seus devaneios, ela ainda sonhava como o atraente marido dos primeiros anos de casamento, que gostava de lhe presentear com flores e coisas bonitas. Infelizmente, as táticas da duquesa não deram certo. Em 1822, o duque Augusto de Saxe-Gota-Altemburgo faleceu, deixando seus territórios para seu irmão já idoso e doente, Frederico IV, que morreria três anos depois. O fim da linhagem dos Gota significava que o ducado passava oficialmente para as mãos do duque Ernest, já que sua esposa estava proibida de herdar as terras do pai pela lei sálica. Na iminência da morte do tio, Louise ficaria sem um protetor masculino e conselheiro. Foi nessas circunstâncias que o ajudante de ordens de seu marido, um polaco de nome Maximiliano de Szymborski, apareceu diante dela com um ultimatum. Ele estivera espionando a duquesa nos últimos meses e descobriu seu flerte com Alexandre.

A duquesa Louise com seus dois filhos, Albert (esquerda) e Ernest (direita), em 1823. Pintura de Ludwig Döll.

Com efeito, Szymborski acusou Louise de adultério e a informou de que sua procedência estava manchando a reputação do duque. Sob ordens de Ernest, ele lhe disse que ela teria permissão para deixar o ducado, partindo para a propriedade de Sankt Wendel, que ela havia herdado de sua mãe. Em contrapartida, um divórcio poderia ser garantido, mas ela deveria renunciar a qualquer reivindicação ao ducado de Gota em favor do duque de Coburgo e concordar em nunca mais ver seus filhos. Sem ninguém para interceder em seu nome, Louise acabou concordando com os termos do marido. Depois de algumas negociações, ela assinou um ato de separação de corpos e se preparou para partir. Na opinião da rainha Vitória, que simpatizava bastante com a mãe de seu marido, o duque Ernest agiu de má fé ao acusar sua esposa de adultério sem provas concretas, manchando o nome dela e da família perante toda a corte. Nessas circunstâncias, uma mulher desamparada como Louise, vivendo em uma sociedade na qual predominava o poder do patriarcado, tinha pouquíssimas escolhas exceto se resignar à vontade do pai de seus filhos. Em 1824, o casal se separou definitivamente. No ano seguinte, Frederico IV morreu e Ernest tomou posse das terras do pai de Louise, tornando-se o novo duque de Saxe-Coburgo e Gota.

No início do século XIX, a mulher aristocrática era enxergada pelo discurso hegemônico como uma posse de seus cônjuges. Elas não tinham direitos legais no divórcio e, caso houvesse uma separação, a guarda dos filhos ficava garantida ao pai. Porém, em certos círculos aristocráticos, a esposa de um conde ou duque, depois de cumprida sua principal obrigação, ou seja, dar herdeiros masculinos ao marido, podia manter um amante, desde que a discrição fosse observada. O duque Ernest mantinha casos extraconjugais com várias mulheres e isso era conhecido por toda corte em Coburgo. Mas, uma vez que o caso de Louise com Alexandre foi descoberto, mesmo que no início não tenha passado de um simples flerte, foi o suficiente para que seu marido tivesse argumentos para se livrar dela. Contudo, o que o duque não contava era com a popularidade de sua esposa. Embora fosse a última descendente do ducado de Gota, em Coburgo ela era extremamente querida entre o povo. Assim que ficaram sabendo que a duquesa fora forçada ao exílio, as pessoas tomaram seu partido. Uma multidão de homens foi até o castelo de Roseneau, colocou a duquesa dentro de uma carruagem e a conduziu de volta até o castelo de Ehrenburg, como se ela fosse uma noiva acompanhada de um cortejo.

Depois disso, a turba seguiu para Katschendorf, lar da duquesa-viúva de Coburgo nos arredores da cidade, e forçou seu filho a partir com os dois netos para Ehrenburg, onde Louise os aguardava. Em seguida, o povo foi atrás de Szymborski, considerado o artífice da separação do casal, para que a justiça fosse feita. Este, por sua vez, conseguiu escapar com sua família da fúria da turba. Infelizmente, a extraordinária demonstração de amor e suporte por parte da população de Coburgo para com sua duquesa resultou em nada. Ela deixou o ducado no dia 4 de setembro de 1824. Numa última carta para sua amiga, Augusta de Studnitz, ela disse: “Deixar meus filhos foi a parte mais difícil de todas. Eles ficavam berrando e dizendo: “Mamãe está chorando porque ela tem que ir embora enquanto estamos doentes”. Pobres pequeninos, que Deus os abençoe”. Ela nunca mais teve permissão para retornar à sua terra natal, rever sua amiga Augusta, sua adorada madrasta, ou seus filhos. Duas crianças gritando por seu nome enquanto ela era forçada a partir foi a última imagem que ela guardou de Ernest e Albert na memória. Em 1826, o divórcio foi secretamente oficializado e assim Louise teve permissão para se casar novamente. Nesse mesmo ano, ela e Alexandre se uniram em matrimônio.

Retrato da duquesa Louise, mais tarde condessa de Pölzig, pintado por artista desconhecido.

Com a ajuda de um dos parentes de Louise, o duque de Saxe-Hildburghausen, Alexandre recebeu o título de conde de Pölzig e Baiersdorf. No futuro, ele se tornaria um distinto oficial do exército prussiano. Louise foi feliz no seu segundo casamento como condessa de Pölzig, encontrando nos braços do conde o respeito e a admiração que ela tanto ansiava. Infelizmente, teria pouco tempo para desfrutar desse idílio doméstico. Mesmo antes do divórcio ela já se queixava de terríveis dores estomacais e inflamação nas entranhas. Em fevereiro de 1831, aos 30 anos, Louise viajou até Paris para consultar do Dr. Antoine Dubois. Após alguns exames, o médico concluiu que ela tinha câncer do colo do útero. O estágio estava tão avançado que qualquer intervenção cirúrgica foi descartada. Os próximos cinco meses na vida da condessa foram marcados por dores terríveis. Quando suas forças não mais resistiram, ela sucumbiu aos sofrimentos. Em 30 de agosto, pouco antes de completar seu aniversário de 31 anos, Louise de Saxe-Gota-Altemburgo faleceu. Só podemos imaginar a dor que esta perda causou em seus filhos pelo próprio procedimento do príncipe Albert como pai. O trauma familiar experimentado na infância fez com que ele se tornasse o oposto do duque Ernest, sendo uma figura extremamente presente na vida de seus filhos e de sua esposa, a rainha Vitória.

Referências Bibliográficas:

ALEXANDRE, Philippe; DE L’AULNOIT, Béatriz. Victoria: a última rainha (1819 – 1901). Tradução de Fátima Gaspar e Carlos Gaspar. 2ª ed. Lisboa, Portugal: Bertrand, 2002.

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

GILL, Gillian. We two: Victoria and Albert: rulers, partners, rivals. New York: Ballantine Books, 2009.

LONGFORD, Elizabeth. Queen Victoria: born to succed. New Yor:  Haper & Row, 1964.

MUHLSTEIN, Anka. Vitória: retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

STRACHEY, Lytton. Rainha Vitória. Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Record, 2001.

Um comentário sobre “Traída, divorciada e afastada dos filhos: a desventurada vida da princesa Louise de Saxe-Gota-Altemburgo!

  1. Hoje já sabemos que o papilomavírus pode causar câncer no colo de úturo anos depois da contaminação, é provavel que o Augusto, a julgar pelo número de amantes que ele tinha, tenha passado o vírus para a duquesa Louise?

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