Charlotte de Gales: a princesa cuja morte alterou o curso da monarquia britânica – Parte I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

As narrativas dos contos de fadas, com seus príncipes e princesas encantadas, ensinaram a gerações de crianças que o “felizes para sempre” poderia ser alcançado depois que o casal enfrentasse com coragem todas as adversidades surgidas no decorrer da história. Os enredos, com efeito, geralmente apresentavam desenlaces mágicos para determinados problemas, tais como: reis e rainhas incapazes de conceber um herdeiro saudável; soberanas que morriam em decorrência do parto; uma princesa órfã negligenciada pelo pai e atormentada por uma madrasta invejosa. Saindo do reino da ficção, podemos encontrar facilmente situações análogas nas cortes reais da Europa durante os últimos séculos, embora sem as soluções encantadas elaboradas pelo correr da pena de Charles Perrault ou dos irmãos Grimm. Na vida real, os herdeiros da coroa passavam por diversos quadros de abuso durante a infância, a despeito da pompa e circunstância com que viviam. Quando adultos, eram usados como peças no jogo de xadrez diplomático entre as casas dinásticas do continente, contraindo casamentos arranjados. Mas, em vez de colocarem um fim nesse ciclo de abusos quando herdavam o Coroa, os novos monarcas davam continuidade a essas práticas com seus próprios filhos.

O príncipe George de Gales, futuro George IV do Reino Unido, por Thomas Lawrence (c. 1814).

Em casamentos arranjados, casos de adultério por parte dos cônjuges também eram frequentes, rendendo munição para os fofoqueiros quando eram descobertos. Muitos reis viviam abertamente na companhia de suas amantes e algumas delas galgaram posições privilegiadas na sociedade de corte. Curiosamente, no Reino Unido, George III parece ter sido um dos únicos entre seus pares no século XVIII a não trair sua esposa, a rainha Charlotte de Mecklenburg-Strelitz. A soberana deu à luz 15 crianças, das quais sobreviveram 7 meninos e 5 meninas. Educados por preceptores alemães, George queria que seus filhos se tornassem um exemplo para os súditos da Coroa. Ledo engano! Apesar de o rei e a rainha desfrutarem de uma vida doméstica tranquila, o mesmo não podia ser dito dos príncipes. Em 1772, o monarca aprovou no Parlamento o Decreto dos Casamentos Reais, pelo qual nenhum membro da prole real poderia contrair matrimônio sem o consentimento régio. Assim sendo, quando chegaram na idade adulta, os príncipes se envolveram em escândalos sexuais, que resultaram no nascimento de 56 filhos ilegítimos, mas apenas uma sucessora legítima. Uma menininha que recebeu em batismo o mesmo nome de sua avó: Charlotte, filha do príncipe de Gales.

A princesa, por sua vez, era fruto do malfadado casamento do herdeiro do trono com Carolina de Brunswick. Com cerca de 400 mil libras de dívidas, o príncipe George necessitava urgentemente do subsídio concedido pelo Parlamento, caso ele se unisse em matrimônio com uma princesa. Sem ter para onde correr, ele recebeu autorização da Coroa para desposar uma de suas primas alemãs. A escolhida foi a filha do duque de Brunswick. Casaram-se em 8 de abril de 1795, na capela real do Palácio de St. James, sem nunca terem se conhecido. A união, entretanto, foi um fiasco do início ao fim. Uma anedota palaciana afirmava que, na noite de núpcias, o príncipe se sentiu tão repugnado pela esposa que pediu um copo de conhaque para conseguir consumar o casamento. Carolina, por sua vez, confirmou mais tarde que sua relação marital com George não durou além da primeira noite. Apesar disso, a fertilidade da princesa foi confirmada nessa única tentativa. Decorridos nove meses, nasceu em 7 de janeiro de 1796 a princesa Charlotte. Pouco depois, seus pais decidiram levar existências separadas. A mãe da criança a visitava com frequência durante o verão numa mansão nas proximidades de Montagu House, onde a herdeira do trono crescia.

Na opinião dos biógrafos, o estilo de vida permissivo do príncipe de Gales deixava sua esposa repugnada. Carolina alegava que a casa dele mais parecia um bordel do que a residência do futuro soberano da Grã-Bretanha. Não obstante, George não poupava esforços para difamar a própria consorte em locais públicos, declarando que ela não era virgem quando se casaram, o que denota sua obsessão pelo comportamento sexual da princesa. O herdeiro do trono ainda foi mais longe e tentou provar no tribunal que Carolina lhe era infiel, na expectativa de conseguir um divórcio. A conclusão dos juízes e a do povo, porém, foi desfavorável ao príncipe. Conforme acrescenta Julia Baird: “os procedimentos foram tão vexatórios que a opinião pública tomou o partido de Carolina” (2018, p. 433). Uma vez nomeado regente, George tentou fazer com que o Parlamento aprovasse uma lei “para destituir Sua Majestade a rainha Carolina Amelia Elizabeth do título, prerrogativas, direitos, privilégios e isenções de rainha consorte e dissolver o casamento de Sua Majestade com a dita Carolina Amelia Elizabeth”. Dizem que o príncipe chegou mesmo a subornar testemunhas para depor contra a esposa, comprometendo seriamente a reputação da monarquia britânica.

Carolina de Brunswick, princesa de Gales, por Thomas Lawrence (1798).

De sua parte, o príncipe de Gales acusava a princesa de ser suja, ignorante e tagarela, enquanto ela rebatia as ofensas, chamando-o de promíscuo, malicioso e negligente. Movimentando-se como um pêndulo entre os pais, Charlotte conseguiu emergir dos destroços de sua família como uma mulher forte e decidida. Na infância, recebeu os rudimentos da educação nos moldes propostos pelo seu avô, George III. Em 1811, o velho rei de 73 anos foi oficialmente declarado insano e então o príncipe herdeiro assumiu as funções do pai na qualidade de regente. Na adolescência, a jovem Charlotte era criticada por seu comportamento pouco convencional para uma dama de seu status. Seu pai, até então pouco interessado na individualidade na filha, começou a prestar maior atenção na forma como ela se vestia e agia. A princesa era uma jovem intrépida e bem decidida. Cercada de poucos amigos, ela tinha poucas ilusões quanto à vida, em parte por causa da desastrosa experiência com seus progenitores. Porém, como as heroínas dos romances de Jane Austen, ela acreditava que o casamento seria a resposta para todos os seus problemas. Charlotte sabia muito bem que, como segunda na linha de sucessão ao trono, era um dos partidos mais cobiçados da Europa.

Em sua mocidade, a princesa havia se tornado o ídolo da Nação, bem como uma promessa de regeneração para a Casa Real, cujo prestígio vinha decaindo junto aos ingleses devido aos escândalos protagonizados pelos filhos do rei. Adorada por seu avô e tios, Charlotte aos poucos desabrochou em uma jovem atraente. Temendo que sua filha se desviasse do caminho previamente traçado para ela, o príncipe regente tentou arranjar um matrimônio para ela em 1813 com o príncipe Guilherme de Orange. A união entre a Inglaterra e a Holanda, cimentada pelo casamento dinástico, traria muitos benefícios para o comércio britânico. Mas Charlotte ficou horrorizada diante da escolha do noivo: “Acho-o tão feio que às vezes não consigo deixar de virar a cabeça para outro lado quando ele fala comigo. Casar-me-ia sem hesitar, para viver livre, mas não com o príncipe de Orange…”. Para as mulheres da aristocracia, o casamento representava também uma mudança de status. Livres da tutela paterna, ganhavam um pouco mais de autonomia como senhoras da casa, embora sujeitas à vontade dos maridos. No caso da princesa, na posição de futura soberana reinante, ela quem seria a chefe de sua família e não o príncipe com quem firmasse matrimônio.

Diante dos protestos da filha, o príncipe regente foi mais incisivo e Charlotte foi obrigada a se resignar. Em março de 1814, o embaixador da Holanda pediu oficialmente a mão da princesa para Guilherme. Meses depois, a noiva respondeu da forma inusitada: ela fugiu da casa paterna para casa materna! Dizem que a razão para essa atitude intempestiva teria sido provocada pelo despertar dos sentimentos de Charlotte pelo príncipe Augustus da Prússia. Gilllian Gill, porém, oferece uma explicação mais pragmática:

Muito provavelmente ela fez uma avaliação do que aquele casamento holandês representaria para si. Como princesa de Orange, ela seria obrigada a passar pelo menos metade do ano na Holanda. Enquanto ela estivesse no exterior, seu pai poderia finalmente obter o divórcio que ele desejava e então se casar com uma jovem princesa. Se um meio-irmão saudável nascesse, Charlotte não seria mais a herdeira de seu pai. Embora ela nutrisse poucos sentimentos e nenhum respeito por sua mãe, a princesa considerou isso essencial para permanecer na Inglaterra e lutar pelos seus próprios interesses e pelos da mãe (2009. p. 19).

Qualquer que tenha sido a verdadeira razão, a recusa de Charlotte em se casar com o príncipe Guilherme deixou o príncipe de Gales enfurecido. Ele então ordenou que a filha fosse mantida prisioneira no castelo de Windsor. “Deus Todo-Poderoso, dai-me paciência”, exclamou a princesa diante dessa situação, caindo prostrada. Porém, Charlotte não era o tipo de pessoa que aceitava facilmente que outros lhe tirassem o direito de escolha. Recusando o papel de joguete diplomático nas mãos de seu pai, ela desceu correndo as escadarias da Carlton House e se lançou em direção às ruas. Em seguida, tomou um tílburi em direção à casa de sua mãe, em Bayswater, onde encontrou refúgio.

A princesa Charlotte de Gales, por George Dawe (1817).

Com efeito, o que era para ser apenas mais um casamento arranjado da realeza se transformou em uma verdadeira competição de popularidade entre pai e filha. Entre um e outra, os súditos tomaram o partido da princesa. Se ela não queria se casar com o príncipe de Orange, então que fosse livre para tomar um noivo de sua escolha. O príncipe regente, temendo que essa situação desgastasse ainda mais a reputação da família real, pediu aos seus irmãos, os duques de York e Sussex, que fossem até a casa em Bayswater na companhia do duque de Brougham e do bispo de Salisbury para persuadir Charlotte a desistir de sua teimosia. Consternada, a princesa acabou cedendo à pressão dos tios e aceitou retornar para a Carlton House. De lá, foi enviada para o confinamento forçado no castelo de Windsor. Mas, por outro lado, nunca mais se ouviu falar no assunto do casamento holandês. A pergunta que agora não calava no falatório popular era: quem se casaria com a herdeira do trono britânico? O candidato ideal, porém, não tardou a aparecer. Ele era charmoso e sua linhagem de sangue, impecável. Aliado a esses atributos, aos 26 anos o jovem possuía um currículo militar invejável, tendo lutado nas recentes guerras contra Napoleão Bonaparte, vestindo o uniforme de oficial da cavalaria russa. Seu nome era Leopold de Saxe-Coburgo-Saalfeld.

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Referências Bibliográficas:

ALEXANDRE, Philippe; DE L’AULNOIT, Béatriz. Victoria: a última rainha (1819 – 1901). Tradução de Fátima Gaspar e Carlos Gaspar. 2ª ed. Lisboa, Portugal: Bertrand, 2002.

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

GILL, Gillian. We two: Victoria and Albert: rulers, partners, rivals. New York: Ballantine Books, 2009.

LONGFORD, Elizabeth. Queen Victoria: born to succed. New Yor:  Haper & Row, 1964.

MUHLSTEIN, Anka. Vitória: retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

STRACHEY, Lytton. Rainha Vitória. Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Record, 2001.

 

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