Aclamada pelos brasileiros: 30 anos da visita da princesa Diana e do príncipe Charles ao Brasil!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No dia 22 de abril de 1991, o Brasil recebia pela segunda vez a visita do príncipe Charles, mais de dez anos após sua primeira estada no país, em 1978. A chegada do herdeiro da coroa britânica estava intimamente relacionada aos preparativos para a Eco-92, que aconteceria no ano seguinte. Conhecido por ser um iminente ambientalista, Charles tinha um profundo interesse pela conservação da floresta amazônica, ciente da importância que esse bioma representa não apenas para o povo brasileiro como também para o mundo. Naquela época, a floresta era alvo de constantes incêndios, desmatamento e desapropriação de reservas indígenas. Exatos 30 anos depois da visita do príncipe de Gales, observamos como esses problemas ainda estão longe de serem solucionados. O desembarque do primogênito da rainha Elizabeth II ocorreu em Brasília, às 23h00. Ao lado dele, estava a princesa Diana, que colocava os pés pela primeira vez em solo nacional. Essa foi a única ocasião em que a saudosa Lady Di esteve no país, deixando atrás de si uma memória bastante rica de sua simpatia e trabalho pelas causas sociais. O casal esteve conosco por cinco dias, percorrendo cidades como o Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Aracruz, Belém e Carajás.

A visita do príncipe e da princesa de Gales foi massivamente acompanhada pela mídia da época. Numa época em que a internet era de difícil acesso para a grande maioria da população, jornais e revistas eram os melhores veículos de informação. Periódicos como O Globo, O País e Manchete dedicaram vários números relatando as etapas da viagem de Charles e Diana. Na viagem da Inglaterra ao Brasil, a princesa aproveitou as horas de voo para estudar um pouco sobre a cultura e os costumes locais, além de repassar os detalhes da sua agenda de compromissos, que divergia em alguns trechos da de seu marido. Os dois foram recebidos na base aérea de Brasília pelo embaixador britânico Michael Newington e pelo chanceler Francisco Rezek. Em seguida, partiram em um Rolls-Royce Silver Spirit II até o Naoum Plaza Hotel, onde passaram a noite. Segundo a folha de 22 de abril de 1991 de O País, o príncipe Charles tinha também plena consciência “da importância do aspecto comercial da viagem e auxiliares citam os aviões [Britsh Aerospace 146] como um exemplo de negócio que pode ser fechado”. Na manhã seguinte, Suas Altezas foram recebidas pelo presidente Fernando Collor de Mello e pela primeira-dama, Dona Rosane Collor.

Desembarque do príncipe Charles e da princesa Diana em Brasília, às 23h00 do dia 22 de abril de 1991.

O príncipe e a princesa visitam a Jazida de Carajás, no sudeste do Pará.

Diana passeando com as crianças do Centro Educacional de Carajás.

Diana e Charles plantaram uma muda de Castanha-do-Pará no parque Zoobotânico de Carajás. 30 anos depois, a árvore deu seus primeiros frutos.

Recepção dada ao príncipe e à princesa no Palácio do Itamaraty, pela presidente Fernando Collor e pela primeira-dama, Dona Rosane, na noite do dia 23.

Contrariando o costume da pontualidade inglesa, Charles se atrasou quinze minutos para seu encontro com Collor. Primeiramente, ele visitou uma exposição da artista botânica inglesa, Marhareth Mee, que dedicou suas obras a várias espécies da flora brasileira. Na conversa entre o príncipe e o presidente, a pauta principal foi o meio ambiente e um seminário que Charles planejava oferecer sobre o assunto a bordo do Brittania, durante a última etapa da viagem. Na ocasião, o príncipe ressaltou que seu interesse não se resumia apenas à ecologia, mas também na cooperação tecnológica e em novas alternativas de desenvolvimento sustentável. Enquanto isso, a princesa Diana era recepcionada por Dona Rosane Collor na sede da Legião Brasileira de Assistência (LBA). Acompanhavam-na a viscondessa Camden e a embaixatriz da Inglaterra, Nina Newington. Durante o caminho até a sede, a comitiva da princesa passou por um grupo de funcionários públicos que fazia manifestação contra a políticas econômicas do governo, bradando palavras de ordem como: “Aqui não é Inglaterra, falta pão e falta terra”. Em um gesto truculento, o Batalhão de Choque da Polícia Militar foi chamado para dispersar os manifestantes com seus escudos, cacetetes e cães. Arrancaram-lhes as faixas de protesto e os mandaram embora antes que Diana deixasse o prédio da instituição.

A princesa chegou pontualmente às 9h30 e foi apresentada por Rosane aos projetos sociais da LBA, como o programa “Minha Gente”. A primeira-dama chegou a arriscar um diálogo em inglês com sua convidada, mas não conseguiu se fazer compreendida, necessitando da ajuda de um intérprete. Diana ficou encantada com a jovialidade de Rosane, que, por sua vez, recordou-lhe que as duas estiveram juntas pela primeira vez na entronização do imperador do Japão, Akihito, no final de 1990. Após esse encontro, a princesa se juntou ao marido para uma rápida visita ao Projeto Carajás, no sudeste do Pará. Os dois chegaram ao local por volta das 13h00 e então se dirigiram à jazida, de propriedade da Companhia Vale do Rio Doce, onde a imprensa já os aguardava. Não obstante, esse foi um dos momentos mais fotógrafos da visita real. Embora Charles oferecesse seus melhores ângulos para as lentes dos fotógrafos, as imagens mostram Diana ligeiramente cansada e aborrecida pela presença de tantas câmeras. Já naquela época, os rumores de que o casal mantinha sua união apenas aos olhos do público pareciam se confirmar. Nenhuma palavra entre os dois foi trocada diante da imprensa, exceto um breve cochicho feito pela princesa ao marido, para que este encerrasse a sessão de fotos.

Com efeito, na visita ao Centro Educacional de Carajás, Diana se mostrou mais descontraída quando cercada pelas crianças locais. Os alunos e alunas haviam sido orientados a não falar muito alto ou arrastar as cadeiras diante da princesa. Porém, o entusiasmo dos pequenos aliado à meiguice de Diana, que já foi auxiliar de creche na Inglaterra, rompeu qualquer barreira de protocolo. As filmagens e fotos feitas na ocasião apresentam-na sempre sorridente, andando pelo pátio da escola de mãos dadas com os alunos. Ela conversou um pouco com as crianças da turma de inglês e assistiu à peça “A Bela e o Príncipe”. Em matéria publicada no dia 24 de abril no jornal O Globo, lia-se:

Também foi possível perceber uma certa disputa do casal para ver quem faz mais sucesso. Mas, enquanto o futuro rei da Grã-Bretanha se empenha para ser o centro das atenções, a princesa Diana não faz qualquer esforço. Ela, no entanto, é a preferida da imprensa britânica que está cobrindo a visita. A maioria dos jornalistas ingleses escolheu ficar no Rio com Diana a acompanhar o príncipe Charles em sua programada visita na quinta-feira a Aracruz Celulose, no Espírito Santo (MOTA, 1991, p. 3).

Complementando a opinião de O Globo, a edição 2.039 de Manchete, publicada em 11 de maio de 1991, afirmava que “Diana foi sempre o principal alvo dos flashes. Por onde andou, encantou sua plateia”. Embora a programação em Carajás tenha curta, o casal teve tempo para plantar uma muda de Castanha-do-Pará no Parque Zoobotânico. Tanto Charles quanto Diana jogaram uma pá de terra e fixaram uma placa comemorativa, com os seguintes dizeres: “Árvore plantada por Suas Altezas Reais, o Príncipe Charles e a Princesa Diana, por ocasião de sua visita ao Parque Zoobotânico de Carajás, em 23 de abril de 1991”. 30 anos depois, a castanheira deu seus primeiros frutos, causando bastante comoção entre os funcionários do parque. Ao deixarem Carajás, o casal retornou para Brasília, onde o presidente Fernando Collor e a primeira-dama, Dona Rosane, os aguardavam para uma recepção no Palácio do Itamaraty.

Diana e Charles foram recebidos em São Paulo pelo governador Luiz Antônio Fleury Filho e pela primeira-dama, Ika Fleury, no Palácio dos Bandeirantes, em 24 de abril.

A princesa Diana visita a escola britânica St. Paul, no bairro de Pinheiros.

Diana segura uma criança da Ala infantil da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem).

Diana abraçando um bebê soropositivo em São Paulo, Brasil.

“Diana iria inaugurar uma casa para crianças com HIV. Carismática, linda, simples. Adorável mesmo. Não nos foi permitido fotografar. Eu era assistente social lá. Momento inesquecível, de uma princesa inesquecível” – Maria Lúcia Azevedo Silveira

Para a ocasião, a princesa Diana ofereceu aos 350 convidados presentes no evento um vislumbre de sua realeza. Vestindo um modelo de um ombro só, desenhado por Catherine Walker, cintilava na fronte da princesa a belíssima Cambridge Lover’s Knot Tiara, da rainha Mary de Teck. Foi a única vez em que Diana usou a icônica joia em terras brasileiras. Na manhã do dia seguinte, o casal partiu para uma rápida visita a São Paulo. Ali, sua agenda seguiu compromissos diferentes. O príncipe Charles se dirigiu ao Fórum dos Empresários sobre o Meio Ambiente e Comunidade, onde fez um discurso defendendo um modelo sustentável de desenvolvimento e apelou para os efeitos danosos da “mesma tecnologia que nos traz qualidade de vida”, mas que “tem um sinistro potencial de tornar irreversível a destruição da capacidade das futuras gerações satisfazerem suas necessidades”. Enquanto isso, Diana visitou a escola britânica de St. Paul, no bairro de Pinheiros, então uma das mais caras da capital. A notícia de sua chegada causou um verdadeiro frenesi entre os estudantes. Aqueles que tiveram a oportunidade de trocar um aperto de mãos com a princesa retornaram para a classe dizendo que jamais lavariam essa parte do corpo novamente.

Do lado de fora da escola, uma multidão aglomerada aguardava para ter um pequeno vislumbre da futura rainha. Muito simpática, ela apertava as mãos das crianças e pessoas que eram mantidas apartadas da comitiva real por meio de uma corda. A princesa também viu seu retrato emoldurado suspenso pelos braços do povo. À tarde, ela foi a uma unidade da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem). Maria Lúcia Azevedo Silveira, que trabalhava na instituição durante esse período, relembra desse momento: “Diana iria inaugurar uma casa para crianças com HIV. Carismática, linda, simples. Adorável mesmo. Não nos foi permitido fotografar. Eu era assistente social lá. Momento inesquecível, de uma princesa inesquecível”. A princesa percorreu o prédio, que abrigava cerca de 366 crianças carentes e, num gesto inesperado e comovente, ela segurou em seus braços uma criança soropositiva. A fotografia mostra Diana sorrindo para a bebê, que lhe devolve o gesto de alegria e brinca com seu colar. Esse talvez seja o registro mais bonito por ocasião de sua passagem pelo país. Ao final de sua visita, ela se sentou no refeitório com os pequenos, que lanchavam bolo de chocolate com limonada. “Eu gostaria de levá-los todos comigo”, disse ela emocionada.

Charles e Diana partiram de São Paulo no final da tarde em um jato BAE-146, pilotado pelo próprio príncipe. Eles desembarcaram no Rio de Janeiro às 17h22 do dia 24, sendo recebidos pelo governador Leonel Brizola. Aqui, novamente, a distância entre o casal foi notada pela mídia. Na edição de 25 de abril de 1991 de O País, lia-se: “os príncipes ficaram distantes um do outro e sequer se despediram quando Charles seguiu para a sede do Conselho Britânico, na Urca. A Princesa, por sua vez, seguiu direto para o Copacabana Palace, onde o casal ficará hospedado até amanhã”. Cerca de 200 pessoas aguardavam o herdeiro do trono britânico na frente do Conselho. Na ocasião, Charles conheceu a professora da UFRJ, Marta de Sena. Interessado na literatura brasileira do século XIX, ele lhe perguntou qual fora o escritor mais importante dessa época. Sena respondeu que, para ela, era Machado de Assis. Curioso sobre a produção literária do autor, o príncipe pediu a indicação de uma obra. A professora então recomendou a leitura de Dom Casmurro. Uma multidão não menos imponente aguardava Diana na entrada do Hotel. Assim que desceu do Rolls-Royce, ela acenou para todos e seguiu até seus aposentos, para descansar um pouco antes das recepções reservadas para aquela noite.

Diana e Charles, acompanhados do governador do Rio, Leonel Brizola e da primeira-dama, Neuza Brizola, assistem a um desfile de carnaval da sacada do Paço da Cidade.

A princesa Diana cumprimenta um paciente portador de Aids na enfermaria do Hospital Clementino Fraga Filho.

A princesa visitou a Fundação Beneficente São Martinho e recebeu um berimbau entregue pelo menino Elias do Nascimento, amigo do governador Leonel Brizola.

Na tarde do dia 25, a princesa Diana foi até o Corcovado pelo caminho usual, para conhecer a estátua do Cristo Redentor.

A princesa subiu os 216 degraus da escadaria até o topo do Monumento.

“Valeu a pena ter vindo aqui”, disse a princesa sobre sua visita ao Cristo.

Da sacada do Palácio da Cidade, o casal assistiu a um desfile de 17 escolas de samba, incluindo a Beija-Flor, cuja passista, Pinah, havia dançado com o príncipe em 1978. Dessa vez, ela não pôde comparecer na recepção, pois se encontrava grávida. Na ocasião, também estava presente o príncipe Dom João de Orleans e Bragança, descendente da Casa Imperial Brasileira. Em matéria publicada na edição 2.039 de Manchete, lia-se:

Além dos príncipes, e do descendente da Casa Imperial Brasileira, Dom João de Orleans e Bragança, os únicos nobres presentes foram Andréa Caetano, 19 anos e Reynaldo Bola de Carvalho, 32 anos, respectivamente rainha do carnaval e rei Momo. Eles abriram a exibição compacta de 17 escoas de samba com 300 integrantes. Da sacada do palácio, ladeada pelo Governador Leonel Brizola e senhora e o Prefeito Marcelo Alencar e senhora, a princesa [Diana] acompanhou com as mãos, discretamente, o ritmo das baterias. O príncipe, mais discretamente ainda, acompanhou com olhares cumpridos as evoluções das sambistas da Beija-Flor, em sumários biquinis (1991, p. 10).

Entretanto, não foram apenas os jornais locais que fizeram a cobertura da viagem real pelo Brasil. Tabloides sensacionalistas britânicos espalharam algumas mentiras, que foram desmascaradas por O País. A imprensa inglesa comunicou que Charles e Diana haviam sido proibidos de andar livremente por causa da violência nas ruas das capitais, ressaltando que era a primeira vez que isso acontecia em uma visita real ao exterior. O The Sun noticiou aos seus leitores: “Pesarosamente, parece ser perigoso demais para eles chegarem perto do povo. Existem alguns brasileiros muito pobres e perturbados”. A xenofobia e o elitismo também estavam presentes nas páginas do jornal Today: “O perigo que eles enfrentam é tão grande que as autoridades não podem garantir a segurança”, uma vez que “a violência nas ruas faz parte do cotidiano dos brasileiros e muitos carregam revólveres e facas como precaução”. O periódico chegou ao extremo, afirmando que o Brasil era um país de “crimes camuflados” e que a polícia havia descoberto um complô de traficantes cariocas, cinco anos antes, para sequestrar a princesa Anne quando esteve no Rio de Janeiro. Afirmações preconceituosas que podem ser facilmente desmentidas pelas fotos e relatos da viagem do casal de Gales.

“Agora que vi a princesa, acredito em contos de fadas”, disse uma mulher que estava na porta do Copacabana Palace quando viu Diana entrar. À noite do dia 24, o embaixador inglês, Michael Newington ofereceu um coquetel no Hotel em homenagem a Suas Altezas, incluindo políticos e personalidades da sociedade carioca, com o cardeal Dom Eugenio Sales. Mais de 400 pessoas se acotovelavam do lado de fora para ter um vislumbre do casal, quando deixaram o local por volta das 20h30 rumo à residência da Cônsul Geral da Inglaterra no Rio de Janeiro, Mary Keller. No dia seguinte, a princesa seguiu com sua programação pessoal, enquanto Charles foi ao Espírito Santo. Dando continuidade ao seu trabalho social, Diana visitou a enfermaria para pacientes de Aids no Hospital Clementino Fraga Filho, na Ilha do Fundão. Alguns estudantes da UFRJ fizeram protestos nessa ocasião, denunciando que apenas as alas que seriam frequentadas pela futura rainha foram reformadas e que o hospital passava por sérios problemas de infraestrutura. Diana, por sua vez, deixou de lado todo o protocolo e, assim como fizera em São Paulo, cumprimentou cada paciente nos leitos da enfermaria.

Um deles, chamado Ivan de Carvalho Netto, disse à revista Manchete: “Ela é uma pessoa de grande importância para o mundo e, no momento em que volta sua atenção para os sofredores da aids, ela estimula a continuação das pesquisas para a cura da doença”. Ivan completava sua opinião afirmando que ela “talvez nada possa fazer de concreto por nós, mas só o seu interesse desperta a consciência dos homens para o problema”. Ainda no Rio, Diana visitou as crianças da Associação Beneficente São Martinho, onde assistiu a uma apresentação de capoeira e recebeu vários pressentes, como uma muda de pau-brasil, uma caixa de biscoitos feitos pelas crianças da fundação e um berimbau entregue pelo menino Elias do Nascimento, amigo do governador Leonel Brizola. Um dos pontos mais altos desse dia, porém, foi sua visita ao Corcovado. Ela tomou o trajeto usual até o Cristo Redentor, seguindo de trem até a base da escadaria que dá acesso ao monumento, reconhecido 16 anos mais tarde como uma das sete maravilhas do mundo moderno. Com sua excelente forma física, Diana subiu todos os 216 degraus, parando vez ou outra para descansar, até chegar ao topo. Ali, ela posou para várias fotos e admirou a paisagem vista de cima. “Valeu a pena ter vindo aqui”, disse para seus acompanhantes, perguntando em seguida sobre os pontos turísticos do Rio.

A princesa Diana foi flagrada por paparazzi nadando na piscina do Copacabana Palace, às 7h30 da manhã do dia 26.

As matérias apresentavam chamadas sugestivas como “Mistério no Hotel sobre hábitos Reais” ou “Na piscina do Copa, uma nadadora de sangue azul”.

No dia 26, Diana conheceu as cataratas de Foz do Iguaçu.

Em sua última noite na “cidade maravilhosa”, Diana assistiu a um espetáculo da companhia de dança Grupo Corpo, no Teatro Municipal.

A princesa deixou o Brasil no sábado, dia 27 de abril. Foi sua primeira e única passagem pelo país.

Apesar da proteção policial, algumas pessoas conseguiram se aproximar da princesa e conversar com ela. A professora Solange Melldalane, por exemplo, aguardava Diana no Cristo pelo menos cinco horas antes de sua chegada. Levantando o exemplar de uma revista inglesa de 1981 contendo fotos do casamento real, ela chamou a atenção da esposa do príncipe Charles que, de bom grado, autografou a capa da revista e recebeu de Solange uma miniatura do monumento em pedra-sabão. Não faltaram também os paparazzi de plantão para capturar imagens da princesa de Gales e depois revendê-las para periódicos locais. Fotos de Diana nadando às 7h30 da manhã do dia 26 na piscina do Copacabana Palace e ajeitando o elástico de seu maiô roxo acabaram parando nas páginas de Manchete, e nas matutinas de O Globo, apesar do rígido protocolo que limitava a aproximação de jornalistas. Na ausência de uma entrevista, os jornais deram sua própria interpretação para o comportamento do casal, assumindo a distância entre o príncipe e a princesa como um indicativo do esfriamento de sua relação. Funcionários do Hotel também passaram informações sobre os dois dias de Diana no Rio, sobre quais pratos ela comeu e quanto custava a diária dos aposentos que ocupava: Cr$ 336.000,00 (aproximadamente R$ 7.170,00 em câmbio atual).

As matérias apresentavam chamadas sugestivas como “Mistério no Hotel sobre hábitos Reais” ou “Na piscina do Copa, uma nadadora de sangue azul”. As fotos de Diana nadando de maiô foram tiradas por Chico Calmon. Num dado momento, ela parece notar que estava sendo fotografada e olha meio assustada para a câmera. Os textos que acompanhavam as fotos eram bastante fúteis. Na Matutina de 27 de abril de 1991, por exemplo, lia-se que “Diana limitou-se a comer frutas tropicais nos dois cafés-da-manhã que tomou no hotel. Fatias de manga, mamão e abacaxi foram servidas em bandejas de prata pelos garçons do hotel na antessala da suíte presidencial 602”. Enquanto esteve no Rio, Charles teria se recusado a ingerir comida brasileira, trazendo sua própria refeição da Inglaterra em marmitas. Estas eram servidas por garçons ingleses que o acompanharam na sua viagem. Os textos procuravam contrastar a postura vitoriana do príncipe de Gales com os hábitos mais calorosos da princesa Diana, que por onde passava cumprimentava as pessoas com um aperto de mão. Em seu último dia no Rio, 26 de abril, ela tomou um avião para conhecer as cataratas de Foz do Iguaçu, que para ela foi um dos momentos mais inesquecíveis de sua passagem pelo país.

Em sua última noite na “cidade maravilhosa”, Diana assistiu a um espetáculo da companhia de dança Grupo Corpo, no Teatro Municipal. Apesar da forte chuva, muitas pessoas se encontravam na entrada do teatro para ver a princesa de Gales chegar. Dizem que durante a apresentação, um curto-circuito na mesa de som provocou uma queda de energia, que durou alguns minutos. Muitos espectadores não tiveram paciência para esperar até que o problema fosse resolvido e então partiram. Diana, por outro lado, permaneceu aguardando em seu assento para poder assistir à continuação da performance. Na manhã seguinte, havia uma aglomeração na frente do Copacabana Palace para se despedir da princesa. Antes de entrar no seu Rolls-Royce, que a levaria até a Base Aérea do Galeão, ela aceitou flores de um menino. Do Rio, ela partiu a bordo de um BAE-146 até Belém, onde seu marido já se encontrava presente para o seminário sobre Ecologia e Desenvolvimento, chamado de a “Primeira Cúpula da Terra”. O evento, por sua vez, foi muito criticado pela ausência de representantes da Amazônia e por ocorrer no Britannia, o iate de luxo da família real. Diana e Charles embarcaram no jato de volta para a Inglaterra na tarde de sábado, dia 27. A princesa partiu deixando atrás de sim um testemunho vivo de sua simpatia a ativismo em prol das causas sociais.

Capas das edições 2.308 e 2.039 de maio de 1991 da revista “Manchete”, documentando a visita real.

Primeiras página da matéria de “Manchete”, edição de 4 de maio de 1991.

Primeiras página da matéria de “Manchete”, edição de 11 de maio de 1991.

Referências Bibliográficas:

BERMAN, Débora; ACCIOLI, Cláudio. Charles e Diana: o casal real descobre o Brasil. Manchete, v. 40, n. 2.038, p. 6-13, 4 de maio de 1991.

BERMAN, Débora; et al. Charles e Diana: o casal real conquista o Brasil. Manchete, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2.039, p. 4-15, 11 de maio de 1991.

BROWN, Tina. Diana: crônicas íntimas. Tradução de Iva Sofia Gonçalves e Maria Inês Duque Estrada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

FILHO, William Heleal. A visita de cinco dias do príncipe Charles e da princesa Diana ao Brasil, há 30 anos. O Globo, 2021 – Acesso em 17 de junho de 2021.

KELLEY, Kitty. Os Windsor: radiografia da família real britânica. Tradução de Lina Marques et. al. Sintra, Portugal: Editorial Inquérito, 1997.

MORTON, Andrew: Diana – sua verdadeira história em suas próprias palavras. Tradução de A. B. Pinheiros de Lemos e Lourdes Sette. 2ª ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

PRINCESA DIANA NO BRASIL; VEJA FOTOS INÉDITAS. Estadão, 2021 – Acesso em 17 de junho de 2021.

Acervos consultados:

Jornal O Globo, edições de 22 a 28 de abril de 1991.

Jornal O Pais. edições de 22 a 28 de abril de 1991.

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