Armand, Ernestine, Jean Amilcar e Zoe: a desconhecida história dos filhos adotivos de Maria Antonieta!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Durante os anos iniciais de seu casamento, Maria Antonieta foi responsabilizada na França e por sua família na Áustria por não conseguir gerar um herdeiro para o trono. A ausência de um príncipe real, nascido a partir da união da arquiduquesa com o delfim e depois rei Luís XVI, colocava em risco a aliança franco-austríaca. De Viena, a imperatriz Maria Teresa enviava cartas virulentas para a filha, exortando-a a dar mais atenção ao marido e menos às suas roupas e divertimentos. Na corte de Versalhes, o clima de tensão aumentava à medida em que o irmão mais jovem do soberano, o conde de Artois, se tornava pai de uma criança a cada ano. Apenas em 1778 a rainha conseguiu engravidar e em 19 de dezembro deu à luz uma menina, batizada de Maria Teresa Carlota. “Pobre menininha”, disse Maria Antonieta sobre o sexo do bebê. “Não és o que se desejava, mas não é por isso que me és menos querida. Um filho seria propriedade do Estado. Serás minha; terás o meu carinho indiviso; dividirás comigo toda a minha felicidade e aliviará os meus sofrimentos” (apud FRASER, 2009, p. 193). Para fazer companhia à bebê, a rainha tomou sob seus cuidados a filha de uma de suas damas (chamada de Ernestine) e que tinha a mesma idade da princesa. Ela foi a segunda de quatro crianças conhecidas que a soberana adotou ao longo de sua vida.

Maria Antonieta com seus filhos naturais, Maria Teresa e Luís Carlos, por François Dumont.

Um traço pouco conhecido da personalidade de Maria Antonieta é que ela adorava crianças. Tanto, que além de seus filhos com Luís XVI, ela adotou mais quatro, incluindo um menino trazido do Senegal como escravizado, que a rainha libertou e pagou por sua subsistência. Sendo a filha mais jovem da imperatriz Maria Teresa do Sacro Império, ela aproveitou ao máximo sua infância até que a política matrimonial europeia arranjou para si um lugar como esposa do futuro rei da França. Aos 14 anos, a arquiduquesa se despediu de sua família em Viena para ingressar em uma das cortes mais protocolares do continente. Seu papel principal era prover a Coroa com herdeiros saudáveis. Porém, sete anos se passariam até o nascimento da primeira filha do casal de soberanos. Entre 1778 e 1786, a rainha deu à luz duas meninas e dois meninos, embora apenas a primogênita sobrevivesse ao Terror da Revolução Francesa. Antes disso, em 1776, quando a jovem Maria vivia pressionada de todos os lados para engravidar, ela teve sua primeira experiência como mãe. Numa tarde, enquanto passeava de carruagem pelas estradas de Versalhes, um menino de aproximadamente 5 anos saiu correndo na frente dos cavalos e parou diante do veículo. O condutor, por sua vez, conseguiu interromper o trote dos animais antes que o garoto fosse atropelado.

Apesar de o menino ter saído ileso, o incidente lhe deixou muito assustado. Seu nome era François Michel Gagné, um garotinho que havia ficado órfão recentemente. A avó, que vinha correndo no encalço da criança logo que viu a cena, pediu desculpas à rainha pelo ocorrido e lhe explicou toda a história: a mãe tinha morrido, deixando quatro filhos desamparados para a velha senhora cuidar. Comovida com a narrativa, Maria Antonieta disse que se responsabilizaria pessoalmente pelo sustento da família, mas que levaria François consigo para o Palácio de Versalhes: “Vou levá-lo. Ele é meu”. Encantada pela criança loira e de olhos azuis a quem a avó chamava de Jacques, a rainha preferiu rebatizá-lo como Armand. Ignorando a advertência de que ele era “muito travesso”, a soberana cuidou pessoalmente do garoto até o nascimento da princesa Maria Teresa. Dizem que ela adorava andar de mãos dadas com o menino, ricamente vestido, pelos corredores luminosos da galeria dos espelhos e que, inclusive, dividia sua comida com ele. Quanto aos irmãos de Armand, Antonieta lhes deu uma educação acima da média. Um deles, chamado Denis, teve aulas de música e se tornou violoncelista do rei em 1787. Já as irmãs, receberam bons dotes para seus futuros casamentos.

O pequeno Armand, primeiro filho adotivo de Maria Antonieta (artista desconhecido).

Com o nascimento de Maria Teresa, Armand foi enviado para um colégio interno, onde daria prosseguimento aos seus estudos. Infelizmente, depois de crescido, ele retribuiu os esforços de sua mãe adotiva da forma mais adversa possível. Quando a Revolução estourou em 1789, o jovem, que vivia desde os cinco anos às custas do dinheiro da rainha, se juntou aos revolucionários contra a família real. Em seguida, ele ingressou no Exército Republicano, morrendo no campo de batalha em 1792. Seu irmão Denis, por outro lado, continuou recebendo subsídios enviados clandestinamente por Maria Antonieta, o que lhe permitiu embarcar numa brilhante carreira musical. A história de Armand e Denis, por sua vez, demonstra o espírito maternal da rainha numa época em que ela ainda não havia concebido uma criança. “Quando nos dareis um herdeiro para o trono?”, perguntavam maliciosamente os frequentadores do Palácio quando a viam caminhando com seu filho adotivo. A rainha sempre mantinha a compostura diante desses questionamentos, mas quando chegava na segurança de seus aposentos desatava a chorar. “Ela ficava muitíssimo comovente no infortúnio”, registrou sua camareira-mor, Madame Campan. A situação se atenuou um pouco apenas com a chegada da primeira filha.

Para fazer companhia à primogênita, que recebeu o título de Madame Royale, Maria Antonieta adotou Marie Philippine Lambriquet, uma menina com a mesma idade da princesa que pertencia a uma de suas criadas. A princípio, a garota, a quem chamava de Ernestine, passava os dias no Palácio e depois retornava para casa. Porém, depois que sua mãe faleceu em 1788, a rainha imediatamente a tomou sob sua proteção, instalando-a em aposentos adjacentes aos de Maria Teresa. Antonieta deu ordem expressa para que as duas meninas fossem tratadas da mesma forma: eram vestidas em par e tinham aulas com os mesmos tutores. Durante as refeições, os criados as serviam alternadamente, desconsiderando a precedência. Quando o Palácio de Versalhes foi invadido em 5 de outubro de 1789 e a família real se viu forçada a abandoná-lo no dia seguinte, Ernestine seguiu com Madame Royale e os demais para Paris, passando a viver com eles no Palácio das Tulherias. Dois anos depois, Maria Antonieta a enviou em segurança para a casa de seu pai biológico na vila de Versalhes, enquanto ela, seu marido e filhos planejavam fugir da capital. Capturados no vilarejo de Varennes no dia 21 de junho, a família foi escoltada de volta para as Tulherias.

Maria Antonieta e seus filhos naturais. Até então, não foi descoberto qualquer retrato dos outros filhos adotivos da rainha, além de Armand.

Assim que soube do fracasso do plano da rainha, Ernestine retornou para Paris, onde se reuniu a Maria Teresa. Ela só deixaria a irmã de criação em 1792, quando a monarquia foi derrubada na França e a família real foi feita prisioneira na Torre do Templo. Depois disso, as duas garotas nunca mais se viram. Logo após ser libertada da prisão, em 1796, a princesa procurou pelo paradeiro de Ernestine antes de deixar a França e cruzar a fronteira rumo à Áustria. Descobriu que o pai da jovem tinha sido guilhotinado durante o Terror e que ela vivia no campo com a avó. Ao retornar a Paris em 1814, já com 35 anos, a única filha sobrevivente do casal de monarcas tentou em vão reencontrar sua companheira de infância, apenas para descobrir que ela havia falecido alguns meses antes. Um desfecho quase tão triste quanto o de Ernestine foi o do pequeno Ourika. Em junho de 1787, Maria Antonieta sepultou sua filha de quase um ano, a princesa Sofia Helena Beatriz. Dois meses depois, o Chevalier de Boufflers, o excêntrico governador do Senegal, enviou para a França um garoto de 5 anos. A criança foi ofertada como um “presente” à rainha, trazendo consigo um papagaio e outros objetos de sua terra natal. Mas, em vez de tomá-lo com servo, Antonieta libertou o garotinho e o adotou. Em seu batismo cristão, ele recebeu o nome de Jean Amilcar.

Com efeito, a história dispõe de pouquíssimos registros acerca desse filho adotivo da rainha da França que veio da África como escravizado. Sabe-se que Maria Antonieta providenciou para ele uma educação adequada e uma pensão. Todavia, quando a família real foi feita prisioneira, a criança ficou em estado de quase desamparo. Mesmo com suas limitações, a soberana conseguiu com que Jean fosse alojado em Saint-Cloud sob a proteção de Quentin Bledon. Sempre que podia, Antonieta enviava para o filho uma soma anual de 400 libras. Esse subsídio foi definitivamente cortado quando a rainha foi executada, em 16 de outubro de 1793. Bledon então se dirigiu pessoalmente à Convenção Nacional, implorando para que atendessem às necessidades da criança de 11 anos que acabava de perder sua protetora. Mesmo sem obter auxílio do governo, o guardião cumpriu com sua palavra dada a Maria Antonieta e tentou cuidar do jovem. Os dois se mudaram para Paris logo em seguida, estabelecendo-se em uma casa na rue de Vaugirard. Quentin arrumou um emprego na administração de pesos e medidas do Petit-Luxembourg e assim pôde pagar pelos estudos do rapaz confiado aos seus cuidados.

A família real, por artista desconhecido (1782).

Tendo demonstrado um talento natural para a arte do desenho, Jean Amilcar foi matriculado na Escola Nacional de Liancourt em 2 de março de 1796, para aprender a profissão de pintor. Infelizmente, ele morreu algumas semanas depois, em 18 de maio, no Unity Hospice, aos 14 anos. A causa do óbito ainda é desconhecida pelos pesquisadores, assim como os detalhes de sua curta existência. Depois dele, Maria Antonieta adotou mais uma criança, enquanto vivia como prisioneira no Palácio das Tulherias em 1790. Segundo Antonia Fraser:

Esperava-se ainda de Maria Antonieta, apesar de todas as agressões feitas a ela – as pessoas lhe respingavam lama de propósito com suas carruagens quando ela saia a passear, os outros que falavam em voz alta e insultuosa a seu respeito a uma distância curta e segura –, que exercesse aquela benevolência tradicional que fazia parte dos deveres da Rainha da França. Logo houve pedidos para que financiasse as muitas mulheres pobres cheias de dívidas que tinham empenhado seus bens mais básicos. […] No início de janeiro de 1790, ela presidiu a reunião de um comitê de charité maternelle em auxílio de mães atingidas pela pobreza, em que se apresentou um relatório às cerca de quarenta mulheres presentes (FRASER, 2009, p. 339).

Ao saber que um dos valetes do rei e sua esposa haviam morrido, abandonando três filhas, a rainha imediatamente se responsabilizou pelo destino delas. As duas mais velhas foram mandadas para um convento, com todas as despesas pagas pela soberana e a mais jovem, que tinha a idade do delfim Luís Carlos, permaneceu como sua companheira. A garota de quase quatro anos se chamava Jeanne Louise Victoire, mas a família real a apelidou de Zoe.

Em vista disso, Zoe conviveu com o casal de monarcas até o ano seguinte, quando foi então mandada para o mesmo convento onde estavam suas irmãs, antes do malogrado episódio da fuga de Varennes. Ela nunca mais retornou ao convívio da família e desconhecemos o seu paradeiro após a morte dos soberanos. Desse modo, conforme observamos nesse breve texto, o instinto maternal de Maria Antonieta é um traço pouco explorado pela historiografia. Seus quatro filhos adotivos – Armand, Ernestine, Jean Amilcar e Zoe – residiram com a rainha e compartilharam os melhores momentos de sua vida, assim como seu infortúnio. Mesmo tendo sido feita prisioneira pela Convenção, a monarca continuou informada sobre o paradeiro de cada um deles e lhes mandava um auxílio financeiro sempre que possível. Para além dessas crianças, ela ainda sustentou muitas outras. Certa vez, quando fez uma visita ao hospital de órfãos na companhia do delfim Luís Carlos, em fevereiro de 1790, ela lhe mostrou um bebê que havia sido recentemente abandonado nos degraus de Saint-Germain l’Auxerrois, igreja próxima da paróquia das Tulherias. Em seguida, ela lhe deu um pequeno conselho: “Não esquece o que viste e estende um dia a tua proteção a essas crianças infelizes”.

Referências Bibliográficas:

CAMPAN, Madame. A Camareira de Maria Antonieta: Memórias. Tradução de Carlos Vieira da Silva. Lisboa: Aletheia, 2008.

CULTURE & STUFF. Marie Antoinette and her Children: The queen’s adopted family. 2010 – Acesso em 08 de maio de 2021.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta: biografia. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

LESTZ, Margo. Queen Marie Antoinette and her adopted children. 2015 – Acesso em 08 de maio de 2021.

LEVER, Evelyne. Maria Antonieta: a última rainha da França. Tradução de S. Duarte. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

TOURZEL, duquesa de. Memórias. Tradução de Carlos Vieira da Silva. – Lisboa, Portugal: Alêtheia Editores, 2014.

UNE AUTRE HISTOIRE. Jean Amilcar (1782-1796). – Acesso em 08 de maio de 2021.

WEBER, Caroline. Rainha da moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

ZWEIG, Stefan. Maria Antonieta: retrato de uma mulher comum. Tradução de Irene Aron. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

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2 comentários sobre “Armand, Ernestine, Jean Amilcar e Zoe: a desconhecida história dos filhos adotivos de Maria Antonieta!

  1. Meus parabéns pelos posts em seu blog… Excelente!… eu adoro todos, principalmente quando é sobre Maria Antonieta… Leitura deliciosa, histórica e perfeita… Muito obrigado por nos transmitir tanta cultura e conhecimento!

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