Beleza que se põe na mesa, ou melhor, na parede: a galeria de beldades do rei Luís I da Baviera!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No início século XIX, a beleza feminina enaltecida pelos poetas do ocidente celebrava o culto às mulheres de pele clara, maçãs do rosto rosadas, lábios pequenos e dotadas de uma basta cabeleira castanha, emoldurando-lhe o rosto. Despidas das roupas sufocantes de outrora e mais politizadas, as mulheres adentraram na cena pública, participando de salões literários, debatendo questões de natureza filosófica e publicando seus pensamentos em jornais e livros. Na arte, eram retratadas sob o prisma das paixões, deixando de lado a artificialidade e a decadência, que marcaram a produção de retratos de aristocratas no antigo regime. As mulheres barrocas são assim substituídas por modelos menos sensuais, embora mais livres quanto aos hábitos e costumes. A antiga expressão austera da face deu lugar ao reino das emoções, com olhares sugestivos e lábios que dizem algo que apenas o observador atento consegue entender. O belo passa então a ser percebido como uma qualidade do objeto admirado, recorrendo-se a definições clássicas para sua expressão, tais como “unidade na variedade”, “proporção” e “harmonia”, que coexistem com os termos “gosto”, “gênio”, “imaginação” e “sentimento”. Tais são as características valorizadas nos retratos de mulheres do período.

Um dos mecenas mais importantes de seu tempo e apreciador da beleza feminina na arte, o rei Luís I da Baviera comissionou a produção de uma série de retratos, depois agrupados em uma galeria no seu palácio de verão de Nymphenburg (localizado nas proximidades de Munique), contendo os rostos de algumas das maiores beldades do período. Nascido em Estrasburgo no dia 25 de agosto de 1786, Luís era filho do então eleitor do Palatinado, Maximiliano José de Zweibrücken, com sua primeira esposa, a princesa Augusta Guilhermina de Hesse-Darmstadt. Em 1806, Maximiliano assumiu o título de rei da Baviera, tendo o filho Luís como herdeiro presuntivo. Depois de completar seus estudos, o príncipe se casou em 1810 com a jovem e atraente princesa de 24 anos, Teresa de Saxe-Hildburghausen. Em 1825, ele finalmente sucedeu ao pai no trono bávaro. O interesse de Luís I pelas artes e pelo sexo feminino resultou na formação de uma impressionante coleção de peças que remontavam à antiguidade greco-romana, assim como em reformas de prédios ao estilo neoclássico. Para coroar seus intentos, um espaço no palácio de verão foi reservado para abrigar telas pintadas pelo retratista da corte, Joseph Karl Steiler, com alguns acréscimos de Friedrich Durck.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Auguste Strobl (1827), Maximiliane Borzaga (1827), Isabella von Trauffkirchen-Engelberg (1828), Amalie von Lerchenfeld (1828) ©️ Wikimedia Commons.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Antonietta Cornelia Vetterlein (1828), Charlotte von Hagn (1828), Nanette Kaulla (1829), Anna Hillmayer (1829) ©️ Wikimedia Commons.

Galeria das Beldades

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Regina Daxenberger (1829), Jane Elizabeth Digby (1831), Marianna Marquesa Florenzi (1831), Amalie von Schintling (1831) ©️ Wikimedia Commons.

Atualmente, a coleção contempla 36 quadros (um deles desapareceu em 1936) expostos na ala sul, representando mulheres famosas, assim como beldades locais. São, contudo, retratos idealizados, pintados de acordo com as ideias românticas vigentes no período. Aqui, o real convive lado a lado com o verossímil, na concepção de uma arte que diz mais sobre a corrente ideológica da época do que sobre a veracidade. As cores foram combinadas para produzir uma ficção que representasse ao mesmo tempo leveza, graça e estilo. Conforme certa vez observou Gian Lorenzo Bernini: “o segredo nos retratos é aumentar a beleza e emprestar grandiosidade, diminuir o que é feio ou mesquinho, ou até suprimi-lo, quando é possível fazê-lo sem incorrer em servilismo” (apud BURKE, 2009, p. 36). Na opinião de Umberto Eco:

A beleza romântica herda do romance sentimental o realismo da paixão e experimenta em seu interior a relação do indivíduo com o destino que caracteriza o herói romântico. Contudo, esta herança não apaga o enraizamento original da história. Com efeito, para os românticos a história é objeto do máximo respeito, mas não de veneração: a era clássica não traz em si cânones absolutos que a modernidade deve evitar. […] Desprovido de seu componente ideal, o próprio conceito de Beleza se modifica profundamente. Em primeiro lugar, aquela relatividade da Beleza a que alguns escritores do século XVIII já haviam obtido por ser fundamentada historicamente através de instrumentos próprios à pesquisa histórica nas fontes (ECO, 2013, p. 307).

Sendo assim, a veracidade passa a ser uma das partes de um todo muito maior, que podemos chamar de Beleza Romântica. Ela é o elemento de ligação entre as diversas formas, guiadas não só pela razão, mas principalmente pelos sentimentos.  Aqui, o contraste entre coração e mente, reflexão e impulso, se alternam para definir a arte fabricada no período ao qual as telas na galeria do rei Luís I foram pintadas. Para cada mulher pela qual o monarca se interessava, ele comissionava a produção de um retrato do objeto de suas paixões.

Entre os quadros de mulheres expostas na galeria de beldades em Nymphenburg, encontramos um de Helene Sedlmayr, que o monarca conheceu por acaso quando ela foi ao palácio a convite da rainha Teresa, para fazer uma entrega de brinquedos destinados aos filhos do casal de soberanos. Luís I teria ficado tão encantado com a beleza de Helene, que a partir de então ela seria mais conhecida como “Schöne Münchenerin” (Linda Mulher de Munique). Com seus cabelos escuros divididos em duas tranças, olhos castanhos, nariz e lábios de proporções pequenas e uma pele alva, Helene acabou estabelecendo um padrão estético para outras mulheres por pelo menos uma geração. Naquele período, a concepção de Beleza também era utilizada para reproduzir as diferenças étnicas e de classe. A ideia de proporção e harmonia das formas, herdada dos gregos antigos, era utilizada para classificar tanto o sublime quanto o grotesco, dando vazão e embasamento aos preconceitos raciais então vigentes. Assim sendo, as beldades femininas expostas na galeria do rei Luís I apresentam um padrão estético pré-concebido e idealizado, que supostamente as colocava acima de mulheres das camadas populares e de outras mulheres oriundas de países com costumes e modos diferentes.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Helene Sedlmayr (1831), Irene von Pallavicini (1834), Caroline von Holnstein (1834), Jane Erskine (1837) ©️ Wikimedia Commons.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Theresa Spence (1837), Mathilde von Jordan (1837), Wilhelmine Sulzer (1838), Luise von Neubeck (retrato pintado em 1839, mas perdido desde 1936) ©️ Wikimedia Commons.

Galeria das Beldades

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Antonie Wallinger (1840), Rosalie Julie von Bonar (1840), Sophie Friederike von Bayern (1841), Katharina Botsaris (1841) ©️ Wikimedia Commons.

Com efeito, a ideia de Beleza é algo bastante mutável e subjetivo, definido pela cultura e pela história. Além do retrato de Helene, há também uma tela reproduzindo as feições da inglesa Jane Digby, considerada uma das mulheres mais bonitas de seu tempo. Com uma tez leitosa, rosto em formato de coração emoldurado por dois ramos de cachos de cabelos loiros, Jane olha para um ponto distante, com uma expressão desafiadora. Seu colo aparece desnudo através de um vestido de seda azul, que realça a cor de sua pele em evidência. Nascida em 3 de abril de 1807, era filha do almirante Sir Henry Digby, que foi amigo do monarca. Pouco depois de se conhecerem, Jane e Luís mantiveram um caso extraconjugal. Mais tarde, ela também se envolveria com o filho e herdeiro do rei, Otto da Grécia. Sua carreira amorosa se tornou extensa e alimentou a mente de muitos romancistas em busca de histórias de paixões e intrigas. Jane acabou partindo para Damasco, na Síria, onde manteve relações com um xeique que tinha metade de sua idade. Faleceu no Oriente Médio, em 11 de agosto de 1881, aos 74 anos. Sem dúvidas, ela pode ser considerada um epítome de liberdade sexual feminina, numa época em que os padrões morais buscavam confinar as mulheres no espaço doméstico nos papeis de esposa e donas de casa.

Entre outras beldades, encontra-se um retrato da marquesa florentina Marianna Florenzi, nobre com quem Luís I também manteve um romance. Marianna se destacou em vida pela tradução para o italiano de várias obras de cunho filosófico, publicadas no continente europeu. Ela também foi uma mulher bastante talentosa e inteligente. Por aproximadamente 40 anos, foi não apenas amante do rei, como também sua amiga e confidente. Atualmente, cerca de 4.500 cartas trocadas entre ambos sobrevivem em arquivos, dando assim um testemunho de sua cumplicidade. Porém, nenhum caso extraconjugal de Luís foi tão famoso quanto o que ele manteve com a irlandesa Eliza Gilbert, que entrou para a história com o nome de Lola Montez:

Com seus olhos azuis e cabelos negros, Lola, no dizer de um de seus biógrafos, era uma mulher de “olhar ardente (…) com um nariz perfeito (…) e sobrancelhas lindamente arqueadas”. “Sua beleza, de rara e voluptuosa plenitude, está acima de críticas. Mas sua dança não era a dança propriamente dita, mas um convite físico (…) ela escreve as memórias de Casanova com o corpo todo”, observaria alguém (ABBOTT, 2016, p. 131).

Nascida em 16 de fevereiro de 1821, Eliza fugiu de casa aos 17 anos com seu amante Thomas James, um tenente 13 anos mais velho, que ela logo abandonou. Em seguida, partiu para a Espanha, onde começou uma nova vida como bailarina. Ao retornar para o Reino Unido, atendia pelo nome de Maria Dolores de Porris e Montez – “mas me chamem de Lola”, como gostava de repetir. Possivelmente, ela foi a inspiração para a famosa frase: “O que Lola quer, Lola consegue”. Nesse caso, seu objetivo era fisgar um rei, o que ela conseguiu com sucesso.

Galeria das Beldades

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Caroline Lizius (1842), Elise List (1842), Marie Friederike of Prussia (1843), Friederike von Gumppenberg (1843) ©️ Wikimedia Commons.

Galeria das Beldades

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Caroline von Oettingen-Wallerstein (1843), Emily Milbanke (1844), Josepha Conti (1844), Alexandra Amalie of Bavaria (1845) ©️ Wikimedia Commons.

Galeria das Beldades

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Auguste Ferdinande von Österreich (1845), Maria Dietsch (1850), Anna von Greiner (1861), Carlotta von Breidbach-Bürresheim (c. 1863) ©️ Wikimedia Commons.

Além de sua beleza sensual, Lola era uma mulher muito inteligente, com uma personalidade bastante complexa. Ela e Luís se encontraram em 1846, quando o monarca tinha 60 anos e já reinava há 21 na Baviera. Na ocasião, ele confessou a um amigo que “eu sou como o Vesúvio, que parecia extinto, mas voltou a entrar em erupção”. Ao conhecer Lola, declarou que estava apaixonado como nunca: “Sinto uma nova vitalidade, sinto-me jovem de novo, o mundo sorri para mim”. Ele então a tomou como amante oficial, dando-lhe uma pensão anual de 10 mil florins, além de 20 mil destinados à redecoração de seu novo palacete. O caso entre os dois escandalizou a família real e os súditos, principalmente depois de Luís ter nobilitado Lola com o título de condessa Landsfeld. Em 1848, após uma série de tumultos eclodirem em Munique (parcialmente motivados pela relação do rei com uma mulher que tinha idade para ser sua neta), Luís I abdicou da coroa em favor de seu filho, Maximiliano. Em seguida, ele tentou seguir com a amante para fora do país, mas não obteve sucesso. Lola partiu para Frankfurt e depois para a Suíça, onde arrumou um novo parceiro. De lá, ela ainda viajou para a Austrália, São Francisco e por fim Nova York, onde veio a falecer em 1860.

“Uma mulher que busca independência e autoconfiança para afirmar sua individualidade e se defender, com os meios que lhe dera Deus, seu direito a uma parcela justa dos privilégios da Terra” (apud ABBOTT, 2016, p.134). Era assim que a famosa Lola Montez se definia. Em 1858, ela publicou as suas Conferências de Lola Montez, um relato reflexivo sobre sua passagem pela Europa e suas aventuras com homens famosos, como Alexandre Dumas, Franz Liszt e o próprio Luís I. Em um trecho em que reflete sobre a condição feminina na sociedade oitocentista, a autora diz:

O gênio não tem sexo (…) Grandes homens saíram-se visivelmente ilesos porque, suponho, o mundo não tinha o direito de esperar qualquer moralidade na vida de um grande homem. Mas a mulher – ah! Ela tem de ser uma santa (…) bem, assim devia ser, deixando ao homem o monopólio de todos os pecados do mundo (apud ABBOT, 2016, p. 135).

Mais do que bibelôs expostos numa parede para a apreciação dos homens, as mulheres retratadas na galeria de beldades do rei Luís I da Baviera possuem uma interessante história de sobrevivência e transgressão aos padrões morais de uma sociedade obcecada pela repressão dos sentidos. Foram personalidades inteligentes, sagazes e destemidas, que tomaram nas mãos as rédeas do próprio destino e assim marcaram toda uma época. Para desvendar o enredo que costura suas vidas, portanto, é preciso olhar para além daquela beleza idealizada, congelada pelos pinceis de algum artista.

Retrato da famosa Lola Montez, pintado em 1847 por Joseph Karl Stieler ©️ Wikimedia Commons.

Referências Bibliográficas:

ABBOTT, Elizabeth. Amantes: uma história da outra. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2016.

BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

ECO, Umbert (Org.). História da Beleza. Tradução de Eliana Aguiar. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2013.

Sites:

Schönheitengalerie (Gallery of Beauties) – Acesso em 07 de abril de 2021.

Schlossanlage Nymphenburg – Acesso em 07 de abril de 2021.

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