“As Lobas” – As mulheres que moldaram a Inglaterra Moderna!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

“She Wolf” (Loba). A expressão foi utilizada no teatro inglês para classificar rainhas de origem francesa que se envolveram em um mundo dominado por nobres e reis: o da política. Ao longo das gerações, a memória coletiva cristalizou o imaginário de mulheres liderando exércitos e conselhos de ministros como algo não natural. Para que essa ideia pudesse parecer mais aceitável nos anais da História, suas figuras foram masculinizadas e destituídas de qualquer traço de feminilidade que pudesse denotar fraqueza. Do contrário, eram retratadas como abominações, cujas más intenções supostamente contribuíram para deflagrar guerra civil. Contudo, pesquisas recentes na área dos estudos de gênero e sexualidade contribuíram para desconstruir tal interpretação, apresentando personalidades como Matilda da Inglaterra, Eleanor de Aquitânia, Isabella da França ou Maria I da Inglaterra como construtoras do caminho que possibilitou a ascensão de outras rainhas à política britânica. Pejorativamente chamadas de “female kings” – ou reis-fêmeas, termo equivalente a rainha reinante – essas soberanas passaram por difíceis provações até estabelecer um modelo de governo no qual o feminino não era visto como franqueza, e sim como parte de sua forma de conduzir os negócios públicos.

Ilustração póstuma de Matilda da Inglaterra, extraída do livro “History of England”, por St. Albans monks (século XV).

Helen Castor, autora do livro “She Wolves” e do documentário de mesmo nome, aponta a imperatriz Matilda, filha do rei Henrique I, como a primeira “loba” da Inglaterra. O conceito popularizado por Shakespeare foi utilizado pela escritora para classificar princesas que não se limitaram ao papel social esperado de uma consorte da realeza. Nascida em fevereiro de 1102, ainda jovem Matilda foi enviada para a Germânia, onde se casou com o Sacro Imperador Henrique V. Na condição de imperatriz consorte, ela havia alcançado o posto mais alto na hierarquia nobiliárquica para uma representante do seu sexo. Apesar de ter atuado como regente na Itália durante a ausência de seu marido, que estava na Germânia tentando sufocar rebeliões contra sua autoridade, seu reinado foi breve. Com a morte do imperador em 1125, uma crise de sucessão fez com que seu pior inimigo, Lotário II, herdasse a Coroa Imperial. Como Matilda e Henrique não chegaram a ter filhos, restava à imperatriz duas escolhas: permanecer na Germânia ou retornar para a Inglaterra. Porém, a morte de seu irmão mais novo, Guilherme Adelino, em um naufrágio, mudou toda a situação. Convocada pelo pai a viajar para a Normandia (na época, uma possessão inglesa da França), Matilda, então com 23 anos, deveria se casar com Godofredo de Anjou e assim firmar uma nova aliança dinástica.

A despeito da diferença de mais de 10 anos de idade, já que Godofredo tinha apenas 12 anos, e de uma certa antipatia existente entre ambos, o casamento foi consumado e dele nasceu o futuro rei Henrique II da Inglaterra e Godofredo, conde de Nates. Matilda foi então declarada legítima herdeira do trono inglês, apesar as objeções manifestadas pelos nobres, que não queriam uma mulher governando como uma “female king”. Quatro anos após ano morte de Henrique I, Matilda e Godofredo invadiram a Inglaterra em 1139 para tomar a coroa das mãos de seu primo, Estevão de Blois, que havia usurpado o trono com o apoio da Igreja Católica. Embora as forças de Matilda tenham conseguido capturar Estevão, ela encontrou forte resistência por parte da população de Londres, intolerante com a ideia de uma mulher governar como se fosse um rei. Em vez disso, ela deveria ser reconhecida apenas como “Senhora dos Ingleses”. Forçada a recuar pelos insurgentes, ela abandou a Inglaterra e retornou para a Normandia em 1148. Um acordo com o rei Estevão garantiu a sucessão para o herdeiro de Matilda, que em 1154 ascendeu ao trono como Henrique II.

Litogravura colorida de Eleanor de Aquitânia, por Mary Howitt.

Embora privada do seu direito de nascença, Matilda continuou exercendo grande influência no governo de seu filho, mesmo quando ele estava casado com a poderosa Eleanor de Aquitânia[1]. Duquesa em seu próprio nome desde os 14 anos e dona de uma vasta herança, Eleanor era o partido mais cobiçado da Europa. Em 1136, ela se casou com o rei Luís VII da França, com quem teve duas filhas. Durante seus anos como rainha da França, ela chegou a participar da Segunda Cruzada rumo à Palestina, liderando os exércitos de Aquitânia e Poitou contra os islamitas. Mas, como ela e seu marido eram primos em 4° grau (um nível de consanguinidade que não era aceito pelas leis da Igreja), Eleanor solicitou do papa Eugênio III a anulação de seu casamento. Consequentemente, suas filhas com Luís VII foram consideradas ilegítimas e em 1152 ela se casou com Henrique II da Inglaterra. Dois anos depois, ela e seu marido eram solenemente coroados na abadia de Westminster. Dessa união, nasceram oito filhos, incluindo os reis Ricardo I (mais conhecido como Ricardo, Coração de Leão) e João I (também chamado de João, Sem Terra). Contudo, em decorrência das infidelidades de Henrique, ele e sua esposa se afastaram em 1171 e a rainha apoiou a campanha de Ricardo contra o próprio pai.

Encarcerada por ordens do próprio marido, Eleanor aguardou na França por 17 anos até que Ricardo fosse coroado rei da Inglaterra. Na qualidade de rainha-mãe, ela foi regente do reino enquanto seu filho liderava a Terceira Cruzada e teve participação ativa na negociação do resgate do soberano, quando ele foi feito prisioneiro na Áustria. Nas palavras de sua biógrafa, Marion Meade:

Eleanor de Aquitânia, rainha da França e, mais tarde, da Inglaterra, apesar de viver num tempo em que as mulheres, como indivíduos, tinham poucos direitos significativos, foi a figura política determinante do século XII. Aos quinze anos ela herdou um quarto da França atual, mas como as mulheres eram consideradas incapazes de governar, sua terra, assim como sua pessoa, foram delegadas à custódia de homens. A partir desse momento sua vida tornou-se uma luta pela independência e pelo poder político que as circunstâncias lhe haviam negado, embora poucos dentre seus contemporâneos fossem capazes de perceber essa luta (1991, p. 9).

Com a ascensão de João I ao trono após a morte de Ricardo, em 1199, Eleanor continuou a exercer forte influência no novo reinado, a despeito da inaptidão de seu filho mais jovem para governar. Por sua trajetória, ela pode ser considerada uma das personalidades mais relevantes da Baixa Idade Média. Faleceu em 1 abril de 1204 aos 82 anos, na abadia de Abadia de Fontevraud, local conde seu corpo jaz até hoje em um magnífico túmulo. Demoraria quase 100 anos para que outra “loba” pisassem em solo inglês, na figura de Isabella da França.

Litogravura colorida de Isabella da França, por Mary Howitt.

Pejorativamente conhecida como “A loba da França”, Isabella era filha do rei Felipe IV (alcunhado de Felipe, O Belo). Nascida em 1295, ela foi enviada aos 12 anos à Inglaterra para se casar com o rei Edward II. Naquela época, o reino era marcado por intensa instabilidade política, desencadeada pelas revoltas encabeçadas pela facção dos barões, descontentes com o governo central. Grande parte dos protestos eram motivados pelos favores concedidos ao protegido do rei, Piers Gaveston. Histórias de que o monarca e o seu favorito mantinham uma relação que ia além da simplesmente amizade sobreviveram ao tempo e até hoje alguns historiadores debatem acerca da possibilidade de Edward II ser um sodomita. Sua jovem esposa, a princípio, não deu ouvidos a esses rumores e manteve uma união estável com o marido. De seu casamento, nasceram quatro filhos, incluindo o rei Edward III. Mas, com a morte de Piers nas mãos dos barões insurgentes, o monarca decidiu se vigar dos assassinos ao lado de um novo favorito, Hugh Despenser, “O Jovem”. A empreitada resultou em uma guerra civil que abalou profundamente o reino e o casamento real. Por volta de 1325, o rei e a rainha passaram a levar vidas separadas. Isabella passou então para o lado dos inimigos do monarca.

Conspirando para destronar o próprio marido, a rainha achou um aliado na figura de Roger Mortimer, seu possível amante. Em 1326, depois de viajar para a França em uma missão diplomática, Isabella retornou com um exército de mercenários na suas costas para tomar a Coroa. Com as tropas reais subjugadas, a rainha depôs o marido e assumiu o governo da Inglaterra na qualidade de regente, durante a menoridade de seu filho. Rumores dão conta de que Isabella, com o apoio de seu amante, teria ordenado o assassinado de Edward II (dizem que o rei foi morto no castelo de Berkley, após a introdução de um ferro em brasa no seu ânus, pelas acusações de sodomia que pairavam contra o soberano). Em seu governo como regente, Isabella procurou resolver as tensões existentes entre a Inglaterra e a Escócia. Mas suas medidas, aliadas ao seu modo de vida dispendioso, colaborou para que a administração da soberana começasse a desmoronar. Em 1330, aos 18 anos, seu filho assumiu o trono como Edward III. Mortimer acabou sendo julgado e executado por alta traição, enquanto a rainha-mãe foi enviada para uma série de castelos, onde viveria afastada da corte. Ao final de sua vida, ela tomou o hábito de freira e dedicou seus últimos anos à religião, até morrer em 22 de agosto de 1358 no castelo de Hertford, aos 63 anos.

Retrato póstumo de Margarida de Anjou, por artista desconhecido (Queen’s College).

Com efeito, podemos dizer que as sementes para a Guerra dos Cem Anos (conflito travado entre a Inglaterra e a França durante os anos de 1337 a 1453) foram plantadas ainda durante a regência da rainha Isabella. Quando seu pai, o rei Felipe IV, morreu, ele foi sucedido em ordem sucessiva por seus três filhos, Luís X, Felipe V e Carlos IV. Após este último morrer em 1328 sem herdeiros diretos, uma crise dinástica surgiu no reino francês. Como Isabella não podia reivindicar o trono devido a lei Sálica, que proibia mulheres de herdarem a coroa francesa, então seu filho Edward III usou os direitos da mãe para disputar o trono de seu avô. Essa atitude deu início a uma série de conflitos bélicos que se estenderiam por mais de um século, terminando em 1453 com a vitória dos franceses sobre os ingleses. Em seguida, a Inglaterra ingressou em uma fase turbulenta de guerra civil, conhecida como “Guerra das Duas Rosas”. Liderada por duas famílias rivais, os Lancaster (representados pela rosa vermelha) e os York (representados pela rosa branca), as disputas duraram até o ano de 1485, quando o rei Henrique VII de Lancaster derrotou o rei Ricardo III e se casou com a princesa Isabel de York. A partir dessa união, surgiu uma nova dinastia de reis, batizada de Tudor.

Entretanto, uma personalidade teve papel importantíssimo na Guerra das Duas Rosas foi a rainha Margarida de Anjou (outra “loba” da França). Nascida em 23 de março de 1430, Margarida foi rainha da Inglaterra e esposa do rei Henrique VI. Teve um papel de destaque na guerra civil, sendo uma das líderes da facção dos Lancaster. Seu marido, o rei, era considerado um homem fraco e, alguns dizem, impotente, o que levou muitos a questionarem a legitimidade do filho do casal, Eduardo de Westminster. Vencedora de algumas batalhas, Margarida não demonstrou misericórdia ao ordenar a decapitação dos líderes da facção rival: Ricardo, duque de York, e o conde de Salisbury. Todavia, seu reinado durou pouco, pois logo em seguida o filho de Ricardo assumiu a liderança do partido da rosa branca e após algumas batalhas tomou o trono como Edward IV. Após a derrota, a rainha Margarida e seu filho Eduardo de Westminster conseguiram refúgio na corte de Luís XI da França. No entanto, suas maquinações para recuperar o trono inglês não terminaram por aí. Em 1470, ela e seus aliados obtiveram nova vitória sobre as forças do soberano para em seguida serem mais uma vez derrotados. A rainha foi então encarcerada na Torre de Londres por ordens de Edward IV e destituída de todos os seus poderes régios. Devolvida para a França, ela faleceu no dia 25 de agosto de 1482, em Anjou.

Maria I Tudor, rainha da Inglaterra e da Espanha, por Antônio Mouro (1554).

Com a ascensão da dinastia Tudor, o trono inglês ainda não estava totalmente seguro. Nobres com sangue York continuaram conspirado para tomar o poder, enquanto o sucessor de Henrique VII, seu filho Henrique VIII, não produzia um herdeiro masculino para a Coroa. Após uma série de abortos, em 1516 a rainha Catarina de Aragão deu à luz a princesa Maria, muito embora o monarca desejasse ardentemente um filho varão. Desesperado para anular seu primeiro casamento, Henrique rompeu com o papado e fundou a Igreja Anglicana, na qual ele era o chefe supremo. Assim, ele pode se casar novamente, dessa vez com Ana Bolena, que também foi mãe de outra garota, a princesa Elizabeth. A despeito da desastrosa carreira marital de Henrique VIII, que culminou com o divórcio de duas de suas seis esposas e a execução de outras duas, foram Maria e Elizabeth as grandes herdeiras de seu pai. O caminho pavimento por Matilda, Eleanor de Aquitânia, Isabella de França e Margarida de Anjou possibilitou que essas duas princesas assumissem sucessivamente o trono na qualidade de rainhas reinantes e governassem durante um momento em que a política era considerada um privilégio masculino e as mulheres eram relegadas aos papeis de reprodutoras e donas do lar.

Após a morte do rei Edward VI, único filho homem de Henrique VIII com sua terceira esposa, Jane Seymour, os lordes protestantes liderados por John Dudley, duque de Northumberland, temiam que Maria revertesse o processo de reforma religiosa iniciada por seu pai e devolvesse o país ao catolicismo. Portanto, coroaram Lady Jane Grey, sua prima. No entanto, Maria brigou por seu direito de nascença e destronou seus rivais, enviando-os para a Torre de Londres, de onde foram executados por Alta Traição. Embora alguns historiadores especulem se Jane Grey (a rainha dos nove dias, como ficou conhecida) mereça ou não o título de primeira “female king” da Inglaterra, o fato é que Maria tinha sua reivindicação garantida pelo ato de sucessão de 1543 e contava com o apoio de grande parte da população e de outros reinos da Europa. Finalmente, uma mulher governava em seu próprio nome! Uma das primeiras atitudes da nova soberana foi validar o casamento de seus pais, para que não sobrasse qualquer mancha de ilegitimidade sobre seu direito e então reuniu um sábio conselho de ministros para reformar o sistema administrativo. Infelizmente, o curto reinado de Maria coincidiu com a introdução da Santa Inquisição na Inglaterra, que levou à morte quase 300 dos seus súditos.

Retrato de Elizabeth I, atribuído a Nicholas Hilliard.

A propaganda protestante e a misoginia criaram para a soberana a alcunha de “Maria, a Sanguinária”, nome pelo qual até hoje ela é mais conhecida. Ao morrer com 42 anos em 1558, o trono passou para sua meio-irmã, Elizabeth, que governaria pelos próximos 45 anos. Dando continuidade ao processo de reforma administrativa iniciada por Maria, Elizabeth I preferiu adotar uma postura mais moderada no que dizia respeito às questões religiosas. Em seu reinado, as bases da religião protestante foram melhor definidas e a rainha distribuiu monopólios comerciais aos nobres para assim garantir o apoio de seu estamento ao governo. Usando a literatura, a arte e moda, Elizabeth construiu para si uma imagem de soberania que corporificasse a ideia de uma Inglaterra gloriosa, desenvolvida sob os auspícios da soberana. A propaganda elisabetana foi tão eficaz nesse sentido, que até hoje alguns se referem a esse período como Idade de Ouro e a Elizabeth como a Rainha Virgem, casada unicamente com seu reino. Através dela e de suas antecessoras, a Europa teria um importante exemplo de que o sexo biológico não era impedimento para que uma mulher governasse na plenitude de seus saberes e poderes.

Nota:

[1] Matilda faleceu em 10 de setembro de 1167, aos 65 anos.

Referências Bibliográficas:

CASTOR, Helen. She-Wolves: The Women Who Ruled England Before Elizabeth. New York: Harper Perennial, 2012.

FRASER, Antonia. The Warrior Queens: Boadicea’s Chariot. UK: Arrow, 1999.

GRISTWOOD, Sarah. Game of Queens: the women who made sixteenth-century Europe. Nova York: Basic Books, 2016.

LOADES, David.  As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV-XVII). Tradução de Paulo Mendes. Portugal: Caleidoscópio, 2010.

MEADE, Marion. Eleonor de Aquitânia: uma biografia. Tradução de Claudia Sant’anna Martins. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.

Um comentário sobre ““As Lobas” – As mulheres que moldaram a Inglaterra Moderna!

  1. lnformações!…;falar da Inglaterra,ainda que trabalhoso e crítico,é muito bom;História muito densa.Um Excelente Trabalho.Agradeço,muitíssimo!..
    .

    E

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