Sarah Forbes Bonetta: a história pouco conhecida da escravizada que se tornou afilhada da rainha Vitória!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em outubro de 2020, uma nova pintura foi adicionada à decoração do castelo de Osborne: apresenta uma mulher negra, usando trajes nupciais típicos de meados do século XIX, com uma posição e olhar austeros. Se trata de Sarah Forbes Bonetta. O retrato, feito pela artista contemporânea Hannah Uzor, é baseado em uma fotografia de Sarah, tirada em 1862, na qual ela aparece usando seu vestido de noiva. A história da retratada, porém, é a de alguém que foi arrancada de sua terra natal e dada como “presente diplomático” ao capitão inglês Frederick Forbes, em 1850. Por volta dessa época, Sarah conheceu a soberana do Reino Unido. Ela tinha apenas 7 anos e Vitória a achou “afiada e inteligente”. A partir de então, a rainha tomou a criança sob sua proteção, pagando por sua educação e demonstrando constante interesse sobre a sua vida e a de sua família. Em 1834, o Parlamento inglês aprovou o Ato de Abolição da Escravatura, pelo qual ficavam declarados livres todos os escravizados nas colônias britânicas. A história de Sarah Bonetta com a rainha Vitória começa quando o capitão da Marinha Inglesa, Frederick Forbes, chegou ao reino Daomé para forçar seu soberano a abolir o tráfico transatlântico de escravizados.

Sarah Forbes Bonetta em 1856 (à esquerda) e em 1862 (à direita). O novo retrato de Hannah Uzor é baseado na fotografia de 1862.

De acordo com os registros dos ingleses, as negociações entre o rei Gezo Daomé e o capitão Forbes não obtiveram êxito. Contudo, é bastante intrigante o fato de que o monarca, supostamente, tenha “presenteado” Forbes com uma menina como escravizada e ele a aceitado. Segundo a história que Frederick contou à rainha Vitória, Sarah (cujo nome era Bonetta) havia nascido em uma importante família iorubá, quando sua tribo foi saqueada pelos soldados de Gezo. Seus pais, infelizmente, foram mortos no conflito e a pequena ficou órfã aos 5 anos. A partir de então, ela teria sido obrigada a cumprir todas as vontades do rei de Daomé. Após recebê-la do soberano, Frederick Forbes rebatizou a menina com o nome de Sarah, tal como seu navio, e teria lhe dado seu sobrenome, Forbes. “Através de sua vida, também podemos ver uma série de coisas interessantes e bastante desagradáveis ​​em torno das atitudes coloniais em relação a ela”, disse Anna Eavis, diretora da curadoria da English Heritage, a Mark Brown do Guardian. Ao conhecer a pequena Sarah no castelo de Windsor, a rainha Vitória escreveu que ficou entristecida demais com a narrativa de sua vida e então a tomou sob seus cuidados, até o ano de 1862, quando a jovem se casou com James Davies, um rico comerciante de Serra Leoa, cujos pais haviam sido escravizados.

Bonetta e seu marido, James Davies (National Portrait Gallery).

Na opinião do historiador David Olusoga, a união entre Sarah e James foi vista no período como um “símbolo da missão civilizatória da Grã-Bretanha”. Ou seja, apagar dos indivíduos as suas raízes culturais e lhes impor um ideia de civilização predominante branca, cristã e europeia. A união foi noticiada pelos jornais do período da seguinte forma: “Este casamento de dois africanos anglicizados, ricos e bem relacionados, foi a prova dos sucessos que os filantropos e o missionário tiveram sobre os preconceitos de orgulho e sangue”. Além de arrancada de sua terra natal, posta em cativeiro, de ter seu nome alterado e levada para um país distante, Bonetta passou pelo que o jornal chama de processo de anglicização, quando os valores da cultura britânica foram incutidos na jovem africana, em vez da tradição de seu povo. Na segunda metade do século XIX, quando os britânicos usavam o slogan da “missão civilizatória” (também chamada de “o fardo do homem branco”) para invadir e conquistar a África, muitos africanos passaram por esse processo de anglicização praticamente à força. Aqueles que demonstravam resistência, por sua vez, eram tratados como inimigos de guerra e aniquilados pelo poder militar inglês.

Retrato de Sarah Forbes Bonetta, afilhada africana da rainha Vitória, feito pela artista Hannah Uzor.

Certamente, o caso de Sarah Forbes Bonetta e seu casamento foram utilizados como forma de propaganda para esse processo de neocolonização. Porém, o que chama a atenção nessa narrativa é o fato de a própria soberana ter se responsabilizado pelos cuidados de Sarah. Em reconhecimento, a jovem deu o nome de Vitória à primeira filha que ela teve com James. Assim como fizera com a mãe, a rainha também tomou a pequena Vitória como sua afilhada e pagou pela sua educação. Infelizmente, Sarah Bonetta não teve uma vida longa, falecendo de tuberculose aos 37 anos. Ela e James tiveram no total três filhos. De acordo com Anna Eavis, a finada foi um membro muito popular na sociedade de Brighton, além de ter sido uma jovem talentosa, que falava francês e inglês e possuía uma educação musical. Porém, o único registro de que dispomos do próprio punho de Bonetta é uma assinatura afixada na sua certidão de casamento. “Ela escreveu seu nome de batismo… Mas depois o prefixou com Aina”. Segundo Eavis, esse provavelmente era seu nome de nascimento. “É realmente comovente; é a única palavra que temos dela”, afirmou a curadora ao Times.

A artista Hannah Uzor com sua pintura de Sarah Forbes Bonetta.

“Há várias figuras negras do passado que desempenharam papéis significativos em alguns dos locais históricos sob nossos cuidados, mas suas histórias não são muito conhecidas”, disse Eavis em comunicado. “Começando com Sarah, nosso projeto de retratos é uma maneira de dar vida a essas histórias e compartilhá-las com nossos visitantes”. A English Heritage revelou que, a partir da primavera de 2021, outros retratos de figuras negras associadas aos seus locais, com histórias como a de Bonetta, que havia sido “previamente esquecida”, serão exibidas. A instituição de caridade disse: “A história negra faz parte da história inglesa e, embora saibamos que temos mais o que fazer, a English Heritage está comprometida em contar a história da Inglaterra por completo”. Dessa forma, os curadores esperam que o retrato de Sarah Bonetta, feito por Uzor, assim como os das próximas personalidades, ajudem a destacar indivíduos negros importantes na história do país.

Fontes:

BBC News. 2020 – Acesso em 25 de novembro de 2020.

MARS-DAVIS, Isis. The Little-Known Story of Queen Victoria’s Black Goddaughter. 2020 – Acesso em 25 de novembro de 2020.

47 comentários sobre “Sarah Forbes Bonetta: a história pouco conhecida da escravizada que se tornou afilhada da rainha Vitória!

    • Uau!!! Simplesmente incrível e inspiradora demais a história de Sarah. 👏👏👏De escravizada à fidalga, ainda que sua “evolução” tenha acontecido por intenções racistas. Ele não teve outra saída senão agarrar a oportunidade que lhe foi dada e tentar viver da melhor forma possível.

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  1. Quão bom sabermos a história e as raízes dos seres humanos …Sarah Bonetta .. inteligente , preparada , poderia até alçar novos vôos…e tão pouco ficou escrito dela …legado … parabéns pela descoberta e partilhar conosco.
    Não por se negra ,mas sabemos o quanto devemos desculpas a estas pessoas ( escravidão ninguém merece) Somos seres humanos iguais em tudo , morremos todos e não levamos nada.

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  2. Super interessante essa história. Nossa! Roubaram tudo dos negros, até a sua própria história, porque Poucas pessoas conhecem as histórias desses heróis.

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  3. mtoo bonita a história, e q bom q estão resgatando esses passados pra q mtos posam ter conhecimento desses seres humanos q praticamente td foi tirado.

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  4. Temos muito a descobrir: minha trisavó seria africana direta: bisavó conhecida preta , bisavô branco olhos azuis, tinham uma chácara e sobreviviam dela: minha avó mulata ,lia escrevia ,descutia política e futebol. e alfabetizava muito bem.Meu avô mulato autodidata: Gostaria de saber de onde veio a família da minha avó ela era uma Leidi !

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  5. Vergonha na história da humanidade:

    Além de arrancada de sua terra natal, posta em cativeiro, de ter seu nome alterado e levada para um país distante, Bonetta passou pelo que o jornal chama de processo de anglicização, quando os valores da cultura britânica foram incutidos na jovem africana, em vez da tradição de seu povo

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  6. Parabéns pela publicação! A história envolvendo negros (escravidão) pelo mundo é muito comovente, inclusive no Brasil. 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽 Quero ler mais…

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  7. Tantas são as histórias de sofrimento de nosso povo, negros, onde a cada dia, carreguemos, carregamos e certamente carregaremos, uma pesada cruz, com fortes chibatadas. A nós não nos resta outra alternativa de unirmos e lutarmos…longo caminho, mas nossos ancestrais já deram a largada…

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  8. Muito bom o texto e interessante. Indubitavelmente fica claro a inexistencia de superioridade humana por causa da cor. Todos somos iguais, brancos pretos, amarelos, etc. O que não pode é se fazer de vitima, usar a cor da pele para se vitimisar .A historia é interessante, e estranha-se porque nenhum produtor de Hollywood não tenha se interessado em lançar um filme a respeito

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  9. Urgente que escreva a verdadeira história da humanidade com relevo os feitos da história de África e a sua importância no desenvolvimento da humanidade,despido dos de preconceitos raciais e eurocentrismos.
    Portugal tem muito a dizer sobre os negros no mundo.Haja coragem historiadores portugueses,por favor reponham a verdade histórica.”QUEM FORAM OS NEGROS NA HISTÓRIA…”

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  10. Muito interessante, oportuno e exemplar resgatar a história e a memória de mulheres que ficaram esquecidas ou à margem da história de um povo.

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  11. E de suma importanc ia tomarmos conhecimento de verdadriros (as) joias preciosas de pessoas arrancadas da sua Patria e familia para briilharem em outra Patria didtante da sua atravez de Personidades de coracao de ouro cheio do amor de Deus.

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  12. É muito bom saber um pouco da história. A importância de cada um que lutou.
    E é bom ver que as pessoas consenguem ver, que nós negro fomos uma parte fundamental para o desenvolvimento de muitas nações. Infelizmente essa participação é em forma de escravidão.

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  13. Ainda considero que as nações colonialistas como Inglaterra, França,Portugal e Espanha têm que intervir nos massacres atuais que existem no Continente Africano e proporcionar melhor qualidade de vida à maioria africana.

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  14. Parabéns pela busca de pessoas que viveram a sombras para garantir a preservação de todos os povos que Deus deixou sob a terra. E assim a vida chegou até nós.

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  15. Que bela história. Uma criança tirada das suas origens pais mortos e toda sua tribo destruída. Uma menina que nasce princesa. E depois é dada como se fosse nada. Um ser humano pequeno é perdido entre a imensidão de egoísmo maldade,perversidade. Passa 500 anos de escravidão e o homem branco não pedi desculpa aos negros por tamanha crueldade.Erro que jamais será reparado. Passe anos ou séculos. E hj ainda vivemos discriminações. Triste! Que os negros que sofreram em um tronco, ou em um navio negreiro ou jogados em pleno mar nunca fique por nós esquecidos.

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  16. Convém dizer que eu não conhecia essa historia muito fundamental, para todos os povos.
    Em meio a todas dores,perseguições…Que os negros sofreram no passado historia como essa é motivo de grande alegria, para todos que amam e valorizam a vida!

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  17. É sempre importante destacar figuras de pessoas negras que, de um modo ou de outro, tornaram-se conhecidas. No entanto, muito embora a resiliência característica dos descendentes de africanos, é necessário ressaltar que ainda hoje são injustiçados por sociedades racistas.

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  18. Linda historia. Linda reportagem. Parabéns aos produtores desta reportagem. Parabéns por me emocionar com a narrativa desta historia sobre uma Mulher Negra, que apesar de tudo que passou, foi livrada
    de um destino desumano por um casal visionário, fraternal e bem humanos.

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