“Charles disse que não amava Diana”: o casamento de contos de fadas que se transformou em pesadelo!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Os tabloides do mundo inteiro anunciaram no dia 10 de novembro de 2020 uma suposta revelação do príncipe Charles, de que ele teria assumido para a sua noiva, lady Diana Spencer, que não a amava na véspera do casamento. Conforme os anos foram passando, aquele que foi chamado de “o casamento do século” se transformou em um grande pesadelo para a família real inglesa, assim como uma desilusão para as pessoas ao redor do mundo. Parte disso já havia sido revelado pelo próprio Charles em 1993, em uma biografia escrita pelo jornalista Jonathan Dimbleby, na qual o herdeiro do trono britânico afirma que teria sido forçado pelo seu pai a tomar a filha do 8° conde Spencer como esposa. Na época, Diana tinha apenas 19 anos e ele 32. A diferença de idades, estilos de vida, gostos e preferências foi um fator importante para que o casal não construísse uma sólida união. Especialmente se levarmos em consideração os casos extraconjugais do príncipe, que foram mantidos mesmo com a alteração de seu estado civil.

Tradicionalmente, os casamentos na família real jamais foram motivados por reciprocidade de afeto. Esqueçam aquelas histórias de que a rainha Vitória se casou apaixonada pelo príncipe Albert, uma vez que, semanas antes do pedido ser feito por ela, a monarca tentou fazer o possível para atrasar a viagem do futuro consorte à Inglaterra. Ou o caso de Eduardo, príncipe de Gales, que desposou a bela Alexandra da Dinamarca e se divertia na companhia de atrizes e outras mulheres casadas com membros da aristocracia. Alexandra levou uma existência infeliz e foi forçada a aceitar a presença da principal amante de seu marido, Alice Keppel, durante o funeral do rei. Mas estamos falando aqui da década de 1980 e não do século XIX. O que antes era aceito como um privilégio masculino foi desafiado por movimentos encabeçados por mulheres, que lutaram pela sua emancipação; por maior participação no mercado de trabalho, salários iguais e o direito de votar e ser votada. Em 1979, por exemplo, Margaret Thatcher se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeiro-Ministro da Inglaterra e o divórcio passou a fazer parte da cultura britânica.

Foto de noivado de Diana e Charles, em 1981.

Assim sendo, a mulher aristocrática do século XIX não encontra correspondente nas mulheres da segunda metade do século XX. Mais independentes, elas enfrentam os problemas conjugais em vez de reprimirem suas frustrações de forma calada. Um bom exemplo disso é a mãe de Diana, Frances, que se divorciou do pai de seus filho sob alegações de maus tratos e foi viver com o homem de sua escolha. Por outro lado, na monarquia britânica um conjunto de tradições misóginas eram mantidas à força do anacronismo, para sufocar as princesas no seu papel de seres obedientes e passivos. A princesa Margaret quebrou esse padrão em 1978 quando se separou do conde de Snowdon, no que foi chamado de o primeiro divórcio real desde Henrique VIII e Ana de Cleves, em 1540. Nessa mesma época, havia uma grande pressão por parte da instituição em arrumar uma noiva adequada para o príncipe Charles. Um moça que fosse jovem, com um passado sem máculas, aristocrática e obediente. O herdeiro do trono era visto constantemente na companha de várias moças de famílias tradicionais, mas a escolha recaiu sobre Lady Diana Spencer, a filha de 19 anos do conde Spencer.

Membro de uma casa aristocrática que era pelo menos 250 anos mais antiga na Inglaterra do que os Hanôver (ramo do qual deriva a atual casa de Windsor), Diana Frances Spencer frequentava eventos ao lado de outros nobres e visitava a família real no palácio rural de Sandrimghan, durante as festividades de Ana Novo. Portanto, ela não era um rosto estranho para os Windsor. Sua irmã mais velha, Sarah, havia namorado Charles anteriormente, assim como outras damas da aristocracia, a exemplo de Lady Elizabeth Campbell, filha do sexo conde de Cawdor, ou Lady Jane, filha do duque de Wellington. Mas uma coisa é conviver com a realeza, outra é estar ciente de todos os seus rígidos protocolos, da atuação junto ao público e da fachada de mistério que é indispensável para manter a curiosidade do púbico pela instituição. Um exemplo do despreparo de Diana pode ser obtido na primeira aparição pública do casal, quando ela escolheu um vestido de tafetá preto e seu noivo a repreendeu pelo uso da cor. “Só usamos preto no luto”, disse Charles, enquanto Diana respondeu: “Eu ainda não faço parte da sua família”.

Foto de Diana de Charles, tirada na sacada do palácio de Buckingham, no dia do seu casamento.

Na véspera do casamento, Diana teve um ataque de bulimia, conforme contou ao seu biógrafo em 1991, Andrew Morton. Entre outras coisas, ela disse que tentou se suicidar 5 vezes, que não se achava boa o suficiente para a família real e que preferia se ferir para não machucar aqueles a quem amava. Diante de tais afirmações, só podemos imaginar quantas mulheres ao redor do mundo, passando por problemas semelhantes, não se sentiram reconhecidas com os depoimentos da princesa sobre depressão pós-parto e sobre não se sentir segura consigo mesma. Quem imaginaria que a linda e rica Diana, princesa de Gales, sofria da mesma forma que as mulheres das classes mais baixas? Quando ela falou dos seus problemas pela primeira vez, acabou se transformando em uma porta-voz para milhares. Porém, o tratamento que ela recebeu em seguida por expor os bastidores da monarquia foi ainda mais duro: separação, troca de farpas, assédio da imprensa, um divórcio milionário e por fim uma morte trágica no túnel das almas, em Paris, no madrugada de 31 de agosto de 1997.

Olhando nesses termos, é claro que podemos chamar Diana de vítima. Porém, a história dela não é apenas sobre isso. É a de uma mulher que começou flanando como plástico ao vento, fazendo tudo o que era esperado de si, até que tomou nas mãos as rédeas do próprio destino e se tornou autora de sua história. Ela também usou a imprensa ao seu favor para se definir como uma marca global. Faz parte de homens de masculinidade frágil como a de Charles se sentirem intimidados por mulheres cujo brilho tem o poder de ofusca-los. Enquanto o príncipe de Gales chamava atenção por seu envolvimento em causas sociais no Oriente Médio, Diana provocava verdadeiras tsunamis, abraçando campanhas emergenciais, como o tratamento da Aids, o cuidado com as crianças especiais e o caso das minas terrestres em Angola. Seu rosto esteve associado a alguns dos maiores flagelos da humanidade no final do século XX e que ainda precisam de atenção. Seu exemplo chamou os olhos do mundo para algo que estava embaixo dos nossos olhos, mas que preferíamos não enxergar.

No início dos anos 1990, o casal usou a imprensa para se agredir mutuamente. Diana falava da indiferença do marido e Charles dizia que fora forçado a se casar com ela.

No dia 10 de novembro de 2020, a antiga astróloga da princesa de Gales, Penny Thorton, revelou: “Uma das coisas mais chocantes que Diana me contou foi que, na noite da véspera do casamento, Charles disse que não a amava”. É preciso levar essa afirmação com alguma cautela. Em seu depoimento para Andrew Morton, a princesa mencionou sobre uma foto de Camilla Parker que caiu da agenda de Charles quando ele e a esposa checavam seus compromisso; das abotoadoras com dois “Cs” de ouro entrelaçados que ele usou a bordo do britannia; e da pulseira com as iniciais de Camilla que ele dera de presente à amiga. Todavia, ela nunca mencionou algo como uma declaração dessas, feita na véspera do casamento, o que coloca a afirmação de Thorton em dúvida. O que sabemos é que Charles lhe enviou um anel com um selo e as plumas do príncipe de Gales, acompanhado de uma mensagem: “Estou muito orgulhoso e, quando você atravessar a nave da igreja amanhã, estarei lá no altar à sua espera. Olhe todos nos olhos e acabe com eles”.

Com efeito, o que Diana talvez não entendesse é que a vida de Charles era comandada antes de tudo pelo dever, enquanto que ela desejava algo perfeitamente natural para qualquer ser humano: amar e ser amada em troca. Por outro lado, há que se considerar o respeito que o príncipe de Gales mantém pela memória de sua finada esposa. Em uma ocasião, quando ele foi visto juntando folhas caídas nos jardins de Highgrove, estava usando um suéter que ela havia lhe dado de presente: “Diana o comprou pra mim. Ela tinha muito bom gosto para esse tipo de coisas”. Já durante um evento para crianças no palácio de St. James, o príncipe afirmou que “[Diana] disse que devemos nos agachar até a altura delas e falar com elas”. Afirmações sobre o casamento real feitas pelo próprio Charles, ou por Diana no início dos anos 1990, sempre devem ser lidas de acordo com o contexto do período. A mídia vivia fazendo especulações sobre a relação do casal, publicando trocas de farpas entre um e outro. Seria conveniente demais que, 23 anos após a morte da princesa, sua antiga astróloga lançasse mais lenha nessa fogueira justamente na véspera da estreia da série de sucesso da Netflix sobre a vida da família real.

No dia 10 de novembro, a antiga astróloga da princesa de Gales, Penny Thorton, revelou: “Uma das coisas mais chocantes que Diana me contou foi que, na noite da véspera do casamento, Charles disse que não a amava”.

Ao aceitar o pedido do príncipe de Gales para ser sua esposa, Diana talvez não fizesse ideia do grande jogo sexual no qual estava se envolvendo. As mesmas tradições que a selecionaram como consorte ideal para o herdeiro do trono excluíram Camilla, por quem Charles nutria grande afeto e estima desde o início da década de 1970 e com quem manteve relações sexuais antes de um matrimônio. O caso ente os dois floresceu com o passar dos anos e se esperava que a jovem princesa de Gales abaixasse a cabeça e aceitasse tudo, assim como fizeram as outras princesas de Gales antes dela. Afinal, casamentos por conveniência acontecem até hoje no seio das grandes instituições. Contudo, às vezes nos esquecemos da garota de 19 anos, cheia de expectativas românticas, que se casou um príncipe achando que fosse o herói das histórias encantadas que ela lia tão desesperadamente na adolescência. Quando Diana despertou de seu torpor, percebeu que o sangue de Charles era tão vermelho quanto o de qualquer outro homem.

Referências Bibliográficas:

BROWN, Tina. Diana: crônicas íntimas. Tradução de Iva Sofia Gonçalves e Maria Inês Duque Estrada. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

DIMBLEBY, Jonathan. O príncipe de Gales. Tradução de Vera Dias de Andrade Renoldi. São Paulo: Editora Best Seller, 1994.

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista de uma monarca em pleno século 21. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MEYER-STABLEY, Bertrand. Isabel II: a família real no palácio de Buckingham. Tradução de Pedro Bernardo e Ruy Oliveira. Lisboa, Portugal: Edições 70, 2002.

MORTON, Andrew: Diana – sua verdadeira história em suas próprias palavras. Tradução de A. B. Pinheiros de Lemos e Lourdes Sette. 2ª ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.

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