Elizabeth e Mary: o público e o privado na relação das rainhas mais famosas do século XVI!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Das soberanas mais famosas da história, poucas alcançaram a atenção e o prestígio de Elizabeth I e Mary Stuart. Rainha da Escócia desde o berço, Mary foi também agraciada com a coroa da França por seu casamento com o delfim e depois rei Francisco II, além de possuir uma forte pretensão ao trono da Inglaterra (direito esse que, por sua vez, acabou por lhe trazer mais dissabores que contentamento). Nascida no dia 8 de dezembro de 1542 com um valioso dote cobiçado por muitos reis, a jovem Mary passou sua infância no seio da corte mais faustosa da Europa, sendo adorada pelos poetas por sua beleza e cortejada por muitos nobres, devido à sua inteligência e sagacidade. A sorte não poderia ter sido mais gentil ao distribuir tantos dotes àquela que estava predestinada a cingir três das mais importantes coroas do continente, não fosse uma trágica combinação de infortúnios que acabou por lhe custar sua herança, três maridos, o filho e, por fim, a própria vida. A história de Mary Stuart reúne assim alguns dos elementos que tornaram sua sina irresistível para muitos romancistas, poetas, dramaturgos e diretores de cinema. Desde que o alemão Friedrich Schiller lançou em 1800 sua peça em cinco atos, “Maria Stuart”, que os séculos seguintes se viram bastante obcecados pelo drama da rainha supostamente martirizada pelo ódio de outra.

Mary Stuart, segundo esboço de François Clouet (c. 1560).

Com os anos, a ficção acabou por ganhar o poder da tradição e o mito foi transformado em memória nacional. Atualmente, filmes e séries de televisão celebram a figura de soberana, apresentando diferentes versões de sua história, adaptada ao gosto de cada púbico. Apesar de algumas variações, os enredos geralmente seguem a mesma linha: uma rainha linda e impetuosa, refinada, tentando governar sobre um terra brutal, quando uma sucessão de conspirações acabam por assassinar seu marido, fazendo-a também perder o filho e a coroa; sem amigos ou aliados, ela pede asilo justamente àquela que, acima de tudo, desejava sua ruína. Sendo assim, não é preciso ir muito longe caso procuremos por uma história que combine os três elementos abençoados por Hollywood: romance, aventura e drama. O passado nos fornece modelos interessantíssimos do que acaba de ser dito e o caso de Mary Stuart talvez seja o mais controverso deles. Sob o olhar literário, Mary aparece para nós como uma mulher dominada por suas paixões, capaz de sacrificar seu reino pelos desejos do coração, personificando assim o ideal da heroína romântica. Com sua beleza atraente, sensualidade e feminilidade, ela acabou triunfando perante a sua pretensa rival, a rainha da Inglaterra. Traições e mortes dão o toque final que compõe o drama vivenciado pela soberana da Escócia, que foi privada do seu direito de nascença e aprisionada em outro país contra a própria vontade.

Tendo sido enviada aos 7 anos para a França, Mary recebeu uma educação primorosa, sob os olhares atenciosos de seu tio, o duque de Guise, e do rei Henrique II. Infelizmente, a coroa de flores de lis não repousou muito tempo na sua cabeça. Aos 18 anos, ela era uma jovem viúva e com um reino bem menos dócil para governar. A história da inimizade entre a rainha da Escócia e a rainha da Inglaterra começa a partir daí. Num gesto de ousadia, Mary havia adicionado ao seu brasão as armas da coroa inglesa, mostrando assim para todos que ela era a legítima herdeira do trono ocupado por sua prima. A situação de Elizabeth, por sua vez, era tanto mais delicada, uma vez que o casamento de seus pais havia sido anulado em 1536 e ela perdeu o status de princesa, só sendo readmitida na linha sucessória por seu pai, o rei Henrique VIII, no Ato de Sucessão de 1543. Muitos dentro da comunidade católica da Europa viam a rainha da Inglaterra como uma bastarda sem direitos ao trono e alguns até conspiravam secretamente para passar a coroa à Mary Stuart. Com efeito, esse aspecto aparece bastante romantizado em produções contemporâneas, não apenas em romances e peças de teatro, como também em filmes e séries, tais como “Reign” (2013) e “Mary Queen of Scots” (2018).

Nesse tipo de enredo, Mary é descrita não só como mais bonita que a “rival”, como também mais prendada e, principalmente, sem qualquer mácula que manche sua linhagem de sangue real. A fraqueza da rainha escocesa, contudo, residia supostamente na sua feminilidade, enquanto Elizabeth abriu mão da sua para reinar soberana. É curioso observar que esse tipo de interpretação até hoje é recorrente em algumas biografias que procuram analisar o relacionamento das duas rainhas. Stefan Zweig, por exemplo, critica as ações políticas da rainha da Escócia sumariamente pelo fato de ela ser uma mulher vassala de suas paixões, e, portanto, inapta para o exercício do poder, ao contrário de Elizabeth, que em vida afirmava possuir o “corpo frágil de uma mulher, mas o coração e o estômago de um rei”. Muitos escritores pareceram sucumbir à beleza, impulsividade e majestade de Mary, eximindo-a de quase todos os seus erros para a colocar no pedestal de mártir, no qual ela permanece cristalizada. Assim, a rainha da Escócia surge como vítima de uma série de tramoias orquestradas por aqueles que desejavam tomar o seu poder, seja seu meio-irmão, o conde de Moray, que assumiu a regência após a abdicação forçada de Mary, ou a rainha da Inglaterra, que do país vizinho aguardava o momento certo para derrubar sua prima.

Elizabeth I da Inglaterra, por Nicholas Hilliard.

Com efeito, as diferenças entres as duas soberanas, seu caráter, porte físico, prendas e capacidades, são detalhes que certamente não escapam aos olhos da leitora e do leitor, principalmente suas experiências enquanto monarcas, ou o tipo de soberana que cada uma desejava ser. Ao longo de sua vida, Elizabeth jogou com sua condição feminina para extrair dos homens exatamente aquilo que desejava, enquanto Mary lançava as cartas que tinha ao seu alcance, embora com efeito desconcertante. Apesar de afirmar possuir as fraquezas que acreditava inerentes ao sexo feminino, Elizabeth reiterava constantemente que possuía em matéria de política a mente e a sagacidade de um homem, enquanto Mary era vista como mais emotiva e suscetível a colapsos nervosos. A despeito dessa diferença de temperamentos, as duas se igualavam no vigor de suas ambições e propósitos. Em alguns sentidos, o relacionamento entre as duas pareceu adquirir vida própria durante sua existência mútua, mantendo uma soberana presa ao imaginário da outra. A indissolubilidade desse elo de forças opostas foi forjado pelo conflito em prol da coroa da Inglaterra, da qual ambas tinham direito. A história desse relacionamento é também pontuada por viradas de sorte, tais como mistérios de assassinato, intrigas sexuais, traições e batalhas acaloradas.

Não obstante, a inclinação de Mary às suas paixões e sentimentos humanos seriam as qualidades que, ao olhar contemporâneo, deixaram-na mais próxima de nós, meros mortais, do que Elizabeth, sempre retratada com uma expressão austera, ostentando as signos de sua realeza. Derrotada após uma conspiração de lordes escoceses em decorrência do seu malfadado casamento com James Hepburn, 4º conde de Bothwell, Mary foi aprisionada no castelo de Lochleven, onde foi forçada a abdicar do trono em favor de seu filho de 1 ano, James VI da Escócia (que com a morte de Elizabeth se tornou também James I da Inglaterra). Vítima, mártir e romântica para uns; vilã, oportunista e assassina para outros. Sua figura sempre costuma ser apresentada em tons de contrataste, transformando-a numa personalidade multifacetada e, por isso, bastante fascinante. Apesar de a filha de James V ter reinado efetivamente apenas por seis anos, de 1561, quando chega da França como rainha viúva, até 1567, quando perdeu a coroa, ela foi uma séria rival para as pretensões políticas de Elizabeth I. A maioria dos autores costuma justificar o declínio de Mary Stuart na sua suposta incapacidade de saber conciliar suas funções de rainha com as de esposa. Já outros, como Stefan Zweig, defendem a hipótese de que sua educação em França não a preparou para ser uma rainha reinante, e sim uma rainha consorte.

A resposta para seu declínio, porém, é um pouco mais complexa do que a maioria desses escritores nos fazem acreditar. A Escócia do tempo de Mary Stuart era um país bastante diferente do reino vizinho. A nobreza escocesa não se submetia com facilidade às ordens da coroa, ainda mais quando esta era cingida por uma mulher. Os clãs viviam constantemente em conflito na busca pela supremacia política, vendo no monarca uma peça de xadrez que poderiam manobrar ao seu bel prazer. Não obstante, o protestantismo havia tomado conta do país apenas algumas décadas antes, tendo em John Knox o seu principal representante. Foi para esse ambiente hostil que Mary, uma jovem viúva, retornou em 1561, com o objetivo de apaziguar seu reino e manter boas relações com os outros príncipes do continente. Fosse ela tão bem assessorada por seus conselheiros como sua prima Elizabeth e muitos dos maiores dramas de sua vida talvez fossem facilmente evitados, a exemplo de suas escolhas matrimoniais e também a proximidade com seu secretário italiano David Rizzio, brutamente esfaqueado aos pés de uma Mary em estado avançado de gestação. Só mesmo um ser humano dotado de fibra e coragem poderia suportar tudo o que Mary aguentou, sem perder a força de seu caráter.

Litogravura do século XIX, imaginando como teria sido um encontro entre as duas rainhas.

Com efeito, o último grande ato de sua vida foi protagonizado no dia 8 de fevereiro de 1587, quando ela entregou seu pescoço para a lâmina do machado do carrasco, após ter sido julgada e condenada por traição contra a rainha da Inglaterra. Os últimos dias de sua vida foram passados em oração, preparando seu espírito para o momento em que ela precisaria de maior coragem. Talvez o detalhe mais dramático na história do relacionamento de Elizabeth e Mary seja o fato de que elas nunca se viram pessoalmente. Apesar de estarem tão perto uma da outra, a história não registra qualquer encontro entre elas, ficando para a ficção o encargo de imaginar como teria sido esse evento. Na ausência do contanto físico, a imagem de rivalidade crescia sobremaneira aos olhos de ambas rainhas, tornando-as objeto de desejo e frustração uma para a outra. Mas, por que se considerou necessária a morte de Mary Stuart? A resposta pode ser encontrada na atitude de outros monarcas que precederam Elizabeth no trono da Inglaterra. Cem anos antes, uma guerra civil tinha levado o país ao caos, com duas famílias rivais disputando pelo trono, os York, representados pela rosa branca, e os Lancaster, representados pela rosa vermelha. O conflito, conhecido como Guerra Das Duas Rosas, terminou em 1485 com o surgimento da dinastia Tudor.

Ou seja, enquanto vivesse, Mary Stuart seria uma eterna ameaça ao poder e estabilidade do reinado de Elizabeth. Apesar de tudo, a rainha da Inglaterra titubeou. Executar uma rainha ungida por Deus, da mesma forma como seu pai fizera à sua mãe, Ana Bolena, era passar uma mensagem perigosa para os outros: a de que o sangue dos reis era tão vermelho quanto o do mais singelo dos mortais. A execução de Mary Stuart deu a ela a oportunidade de superar sua prima em algo que ela até então não alcançara: o martírio. Ao subir os degraus do palanque erguido no castelo de Fotheringhay, ela pediu às suas damas que removessem seus trajes de viúva para revelar por baixo uma camisola escarlate – as vestes da peregrina – para mostrar que vertia seu sangue pela fé católica. A morte da rainha da Escócia teve a força de transformá-la em um ícone, eterno símbolo de retidão e coragem. É verdade que muitos ainda a vêm com cores bem negativas, mas no final ela triunfou sobre todos aqueles que conspiraram pela sua queda. Os séculos não fizeram perder o lustre de sua figura, dedicando-lhe poemas, romances, peças de teatro e até mesmo filmes. Mary Stuart partiu desde mundo para viver no reino da ficção, um lugar onde ela possui uma legião de súditos que não cansam de lhe render sincera homenagem.

Referências Bibliográficas:

DUCHEIN, Michel. Maria Estuardo. Traducción de César Aira. Buenos Aires, Argentina: Emecé Editores, 1991.

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FRASER, Antonia. Mary queen of Scots. New York: Delta, 2001.

GRISTWOOD, Sarah. Game of Queens: the women who made sixteenth-century Europe. Nova York: Basic Books, 2016.

HILTON, Lisa. Elizabeth I: uma biografia. Tradução de Paulo Geiger. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

MHLSTEIN, Anka. Elizabeth I and Mary Stuart: the perils of marriage. Translated by John Brownjohn. Great Britain: Haus Publishing, 2007.

ZWEIG, Stefan. Maria Stuart. Tradução de Alice Ogando. 12ª ed. Porto, Portugal: Livraria Civilização Editora, 1969.

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