Jinga de Angola: a história da rainha guerreira que lutou contra a colonização – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Antes mesmo da morte de seu irmão, Ngola Mbande, na primavera de 1624, Jinga já tinha dado sinais de que pretendia assumir a liderança do reino de Ndongo e devolvê-lo à sua antiga glória. Tanto seu avó quanto seu pai haviam governado um vasto território que se estendia pelo norte do atual país de Angola e, dentro do possível, mantiveram relações diplomáticas com os portugueses vizinhos. Parte de sua riqueza provinha dos tributos pagos pelos chefes subordinados, e a outra parte do resultado do trabalho de servos e escravizados que cultivavam as terras do estado. Desde a infância, Jinga tinha sido notada pelo seu pai, Mbande a Ngola, por suas habilidades intelectuais e físicas e era tratada com deferência. Como sua mãe provinha de uma linhagem real ambundo, cuja cultura era matrilinear, podia-se dizer que ela era então duplamente afortunada, já que também era filha de um soberano. Até chegar à idade adulta, Jinga aprendeu com seriedade e entusiasmo os meandros da política, a arte da diplomacia, mas, principalmente, a como lutar e a se defender. Sabia usar com maestria o machado de guerra, símbolo do poder real do povo de Ndongo, e foi meticulosa na observação das leis, ritos e costumes de seu povo. O conjunto dessas características faziam dela uma perfeita indicação para o posto de soberana.

A rainha Jinga e seu séquito. Ilustração do manuscrito de Cavazzi.

Não obstante, Jinga desfrutou de liberdades e privilégios equivalentes aos de seus irmãos: além de manter numeroso séquito de atendentes e escravizadas, ela também teve um considerável número de consortes masculinos (concubinos) e de amantes. Até a sua ascensão, ela já era considerada uma líder na resistência contra os portugueses, participando de várias batalhas, o que lhe permitiu aprimorar suas habilidades militares. Enquanto isso, seu irmão recebia insultos do governador Correia de Sousa, que queria obriga-lo a se converter. Quando soube disso, Jinga disse a Ngola Mbande que, caso fosse ela o rei, lidaria com aquelas injúrias de outra forma. Se ele não conseguia agir como um soberano, que se retirasse então para uma pequena fazenda, disse ela ao irmão. Quando retornou de Luanda após a sua missão diplomática com o governador, Jinga já era em essência a líder política de Ndongo. Para confirmar sua posição como monarca após a morte do Ngola, ela reuniu seus partidários, que estavam refugiados nas ilhas Kindonga, no rio Kwanza, para a costumeira eleição. Ali, Jinga tomou posse de todos os objetos e símbolos ritualísticos que estavam associados à realeza de Ndongo, um ato que por si só já validava seu poder. Uma vez eleita, procurou consolidar o seu status eliminando todos aqueles que fossem contrários à sua ascensão.

Com efeito, o próximo passo no plano de Jinga consistia em retomar a capital de Ndongo, Kabasa, e assim reafirmar sua autoridade sobre as outras partes do reino que os portugueses tinham tomado. Nesse período, ela enviou frequentes cartas ao governador Fernão de Sousa, procurando resolver esse impasse. No ano de 1624, a administração portuguesa em Luanda sofria ameaça de várias partes: alguns sobas rejeitaram seus votos de vassalagem e os holandeses começaram a beirar as fortificações e as intendências, a princípio fazendo amizade com o rei do Congo. Muitos escravizados fugiram e buscaram a proteção de Jinga. Em setembro do ano seguinte, o governador escreveu:

Estando nessa concórdia com Donna Anna começarão a fogir escravos nossos para ella, e continuando em os persuadir que fossem livres e em os recolher, e emparar se começou a sentir a deles com grandes queixas por toda a conquista por serem muitos e todos de guerra com que ella se melhora, e este Reyno se enfraquece porque se não pode fazem sem gente preta que faz a sombra dos arcabuzes (apud FONSECA, 2012, p. 126).

Essa fuga de escravizados para junto de Jinga, cujo nome cristão era Dona Anna de Sousa, preocupava bastante ao governador, porque a maioria deles eram kimbares, ou seja, escravizados forros que eram entregues pelos sobas aos portugueses para que lhe servissem como soldados. Sua fuga para as fileiras de Jinga significava o fortalecimento do exército da rainha, ao mesmo tempo em que a perda do contingente militar português e o seu consequente enfraquecimento.

Talvez por acreditar que a maioria daquelas pessoas tivesse sido escravizada de forma ilegal, Jinga negou a Fernão de Sousa que estivesse protegendo qualquer cativo fugitivo. Os kimbares, em gesto de gratidão, contribuíram de forma significativa para a sobrevivência física e política da rainha, permanecendo leais a ela por quase toda a vida. “Dona Anna se resolveo em não entregar escravos, e posto que toda a conquista se queixa de sua fogida por respeito da perda, porque são todos de guerra e não heide dar pólos recuperar sem expressa ordem de V.M,” (apud FONSECA, 2012, p. 128), escreveu o governador ao rei de Portugal e Espanha, Felipe III. Jinga teria, inclusive, negociado com Fernão a troca dos cativos por padres da Companhia de Jesus, mas as tratativas não foram adiante. Com o grosso dos kimbares se agrupando ao redor da rainha, o poder das antigas linhagens foi se enfraquecendo e novos valores começaram a surgir entre as elites reconfiguradas. Nas palavras de Marina Bracks Fonseca: “Nzinga Mbandi começou a aparecer como uma alternativa à escravidão, uma esperança de liberdade para aquele povo que era visto pelos portugueses ou como mercadoria ou como soldados para a escravização de outros semelhantes” (2012, p. 129). A situação em Ndongo começou a ficar cada vez mais crítica, com a interrupção das feiras e do comércio.

A rainha Jinga em seu trono. Ilustração do manuscrito de Cavazzi.

Com efeito, Fernão de Sousa não ousava enfrentar Jinga sem a expressa autorização do rei. Para minar a autoridade dela e dividir o seu povo, ele concebeu um plano para instaurar no poder Are a Kiluanje, descendente de uma importante linhagem de Ndongo. Os sobas subordinados se reuniriam em assembleia para escolhe-lo como novo soberano, em detrimento de Jinga. Em seguida, ele ameaçou guerra contra todos os kimbares fugitivos e outros chefes que haviam passado para o lado da rainha. Enquanto tentava, por meio da diplomacia, impedir a posse de Kiluanje, Jinga fortificava a ilha de Kindonga e intensificava a propaganda antilusitana. No início de 1626, a guerra começou. A soberana primeiro o atacou Are a Kiluanje quando ele saia da fortaleza de Ambaca. Alguns portugueses foram feitos prisioneiros e outros mortos, o que deu motivo ao governador para que desse prosseguimento a uma verdadeira perseguição à rainha. Várias batalhas se seguiram em virtude dessa disputa, o que acabou transformando a causa de Jinga em um símbolo da resistência contra os portugueses, cuja fama ultrapassou as fronteiras de Ndongo. Quando as tropas lusas finalmente conseguiram invadir a ilha de Kindonga, degolando e aprisionando muitas pessoas, não conseguiram encontrar a sua líder, o que acabou rendendo a ela o epíteto póstumo de “a incapturável”.

Destarte, Jinga havia conseguido enganar os seus inimigos e fugir para a província de Ango. A fome e uma epidemia de varíola matou muitas pessoas naquele período, incluindo Are a Kiluanje. Enquanto isso, a rainha procurava se unir aos Jagas-Mbangala (guerreiros mercenários), para fortalecer sua unidade militar. Conforme ressalta Fonseca:

Nzinga Mbandi jamais aceitou perder o trono de Ndongo e buscou se fortalecer militarmente para combater os portugueses e garantir, pelas armas, seus direitos e a soberania de seu povo. Para fazer frente ao poder lusitano, Nzinga mobilizou muitos sobas nas adjacências do rio Kwanza, alguns sobas Ndembos e os “belicosos” sobas da Quissama. Cadornega diz que Nzinga liderou a formação de uma grande “confederação”, cujo principal objetivo era eliminar a presença lusitana em Angola (2012, p. 137-8).

Um dos jagas a quem Jinga se associou foi Caza, com quem supostamente se casou para conseguir o apoio dos homens comandados por ele. Sabe-se, por exemplo, que ela mesmo liderou um ou mais bandos de guerreiros jagas na luta contra os portugueses. Essa aliança foi de suma importância para a reivindicação da rainha e lhe garantiu vantagens estratégicas. Pouco tempo depois, ela conseguiu retomar as ilhas Kindonga, fazendo dali o seu refúgio favorito nos momentos de guerra. Na outra mão, ela tentava resolver o conflito diplomaticamente, indicando ao governador que estava até mesmo disposta a se tornar vassala do rei de Portugal e Espanha.

Cortejo fúnebre da rainha Jinga. Baseado na ilustração de frei Cavazzi.

Nas próximas duas décadas, não houve um ano sequer em que Jinga não liderasse um ataque contra os portugueses e seus aliados africanos. Quando os holandeses conquistaram e governaram parte de Angola em 1641, a rainha usou de suas formidáveis habilidades diplomáticas para conseguir uma aliança contra os inimigos da Coroa, que naquele ano já havia recuperado sua autonomia da Espanha, sob o cetro do rei D. João IV de Bragança. Esse sistema de alianças com os holandeses durou até o ano de 1648 e contou com a participação do reino do Congo e de vários outros Estados nominalmente independentes. De sua parte, Jinga reforçou a união entre os diferentes povos que estavam sobre sua autoridade através da adoção de rituais imbangalas combinados com as tradições ambundas, criando assim uma nova forma de culto e de ritos religiosos. Na opinião de Linda M. Heywood, “Essas ações ousadas distinguiram Jinga de tal modo que ela se tornou uma lenda tanto entre os africanos como entre europeus, não só depois de sua morte, mas também em vida” (2019, p. 120). Quando os holandeses abandonaram a aliança, a rainha se viu obrigada a reformular seus planos de ataque e a repensar seus objetivos, entre os quais a libertação de sua irmã, que vinha sendo mantida prisioneira pelos portugueses.

Com efeito, as guerras de conquista de Jinga haviam lhe trazido grandes territórios, entre eles o reino de Matamba e a área entre este e o reino de Ndongo. Entre os anos de 1648 e 1656, os portugueses reataram relações diplomáticas com a soberana, buscando regulamentar o tráfico de escravizados para o Brasil. Na outra mão, Jinga começou a manter contato com os capuchinhos, que foram os principais autores das fontes que serviram de base para a presente narrativa. Ao se reaproximar da fé católica, a rainha buscava o reconhecimento do Vaticano ao seu direito como monarca. Parte desse plano requeria a substituição dos rituais religiosos imbangalas pelos cristãos. De acordo com Luiz Felipe de Alencastro:

Batizada pelos jesuítas em 1621 com o nome de Ana de Sousa, Jinga entregara-se de novo ao gentilismo, fazendo de Matamba um reino de luxúria e de perversidades. Tal era a visão que dela tinham os missionários, colonos e viajantes europeus. “Estais em condição muito pior que as feras”, lançava frei Gaeta a Jinga, “rebelde a Deus e tirana dos homens.” Inspirado nos comentários de frei Leguzzano sobre a obra de Cavazzi, John Thornton, num ensaio esclarecedor, traça a implacável trajetória política de Jinga. Esbulhada dos seus direitos ao trono de [N]Dongo, Jinga adere num primeiro momento à comunidade dos jagas e funda o reino de Matamba. Em seguida, na chefia da sociedade guerreira até então comandada por homens, Jinga vai assumir completamente as funções masculinas, criando um harém de rapazes “transformados em mulheres até em seu vestir […] como se eles fossem fêmeas e ela varão”, conta Cadornega. Seguindo os ritos iniciatórios e os costumes jagas, Jinga praticava a antropofagia e o infanticídio (2000, p. 278-9).

Tal era a visão da maioria dos europeus sobre a rainha de Ndongo e Matamba: uma mulher degenerada, incivilizada e antropófaga. Essa imagem estereotipada foi repercutida pelos dois capuchinhos que estiveram na corte de Jinga durante os últimos anos de seu reinado e que produziram compêndios que até hoje servem de fonte para biógrafos e pesquisadores. O primeiro deles é de autoria de frei Antonio Gaeta, intitulado “La Meravigliosa Conversione alla Santa Fede de Cristo della Regina Singa e del suo regno di Matamba” (A Maravilhosa Conversão à Santa Fé de Cristo da Rainha Jinga e de seu Reino de Matamba). Lançado em 1668, a obra serviu de base para a escrita da primeira biografia da líder, da autoria de frei Cavazzi, com o título de “Istorica descrizione de’ ter’ regini Congo, Matamba et Angola” (Descrição Histórica dos três reinos de Congo, Matamba e Angola).

Todavia, Linda M. Heywood (2009) refuta as alegações de que Jinga participasse do ritual de antropofagia, apesar de ser uma prática ancestral imbangala. Não existe fontes contemporâneas de que ela tivesse participação nesse costume, embora respeitasse a tradição dos jagas. Mas, no final da década de 1640 ela se convenceu de que converter seu povo em uma única fé, a cristã, seria a melhor forma para recuperar a irmã do cativeiro, manter relações amistosas com os portugueses estabelecidos em Luanda e receber do Papa o reconhecimento de seu direito como rainha. Ela, inclusive, chegou a enviar algumas cartas ao Vaticano, nas quais assinava com o nome cristão de Dona Ana de Sousa, reconhecendo-se como uma humilde serva de Deus e pedindo aconselhamento espiritual. Nas palavras de Heywood: “o sucesso de Jinga em fundir diplomacia militar, religiosa e política numa estratégia efetiva de governo impressionou de tal modo, tanto seus detratores como seus admiradores, que nos últimos cinco anos de sua vida ambos os grupos já a elogiavam” (2019, p. 164). Após alcançar a paz com os portugueses, a rainha se dedicou a uma jornada espiritual e política quase sem precedentes. A partir de 1656, ela edificou Igrejas, ordenou a conversão de seus súditos e preparou a passagem do poder para a sua irmã que, uma vez livre, atendia pelo nome cristão de Bárbara.

Monumento dedicado à rainha Jinga em Luanda (Angola).

Embora muitos não concordassem com a política religiosa levada à cabo pela soberana, sua reputação fez dela uma figura política de importância na África Central. Quando faleceu, em 1663, aos 81 anos, todos os ritos funerários cristãos foram observados e seu corpo foi sepultado ao lado da Igreja de Santa Ana, que ela mesma mandou construir. Com o passar dos séculos, a imagem de Jinga como uma mulher selvagem ganhou força a partir dos escritos dos capuchinhos que viveram com ela em Ndongo. Alguns até colocaram em dúvida a natureza de sua adoção ao catolicismo. Mas, apesar do vitupério feito pelos autores europeus à sua figura, a memória da luta e da resistência sobreviveu entre os escravizados que foram trazidos da África para o Brasil, a América Central e os Estados Unidos. É possível encontrar referências à Jinga nas tradições de maracatus, congadas e na capoeira, onde ela é recordada como “a incapturável”, a rainha que conseguiu deter colonização durante os 40 anos de seu governo. Na segunda metade do século XX, ela se tornou um símbolo anti-imperialista. É quando a imagem de uma Jinga heroica ressurge das tradições orais com força suficiente para servir de inspiração na luta pela independência de Angola. Hoje, ela é considerada um símbolo enraizado na memória nacional, conforme podemos ler nos versos de Georgina Herrera: “Oh! Dona Ana avó/ de ira e de bondade. Tantos/ anos de batalha contra o inimigo/ fazem de você uma mulher inimitável/ É lindo fechar meus olhos, olhar/ para você ao longo dos séculos/ e circunstâncias, falar/ com o seu povo”.

LEIA A PRIMEIRA PARTE CLICANDO AQUI!

Referências Bibliográficas:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Jinga, um destino. In: HEYWOOD, Linda M. Jinga de Angola: a rainha guerreira da África. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Todavia, 2019.

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

FONSECA, Marina Bracks. Nzinga Mbandi e as guerras de resistência em Angola: século XVII. 2012. 177 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

HEYWOOD, Linda M. Jinga de Angola: a rainha guerreira da África. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Todavia, 2019.

SILVÉRIO, Valter Roberto (Org.). Historia geral da África: século XVI ao século XX. Brasília: UNESCO, 2013.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s