25.000 dias como rainha: Elizabeth II e o mais longo reinado da história britânica em fotos!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Neste sábado, dia 18 de julho, o Palácio de Buckingham informou aos membros da Comunidade de Nações que a rainha Elizabeth II havia acabado de completar 25.000 dias como soberana do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. Um feito histórico, se considerarmos que poucas monarquias sobrevivem nos dias de hoje, quando a ideia republicana e democrática ganha um número cada vez maior de adeptos em todas as partes do mundo. Elizabeth, por outro lado, continua sendo amplamente reconhecida, tanto pela longevidade, quanto pela seriedade com que assume suas funções simbólicas no establishment. Seu reinado, que em 2020 completou 68 anos, coincidiu com alguns dos momentos mais importantes da segunda metade do século XX e das primeiras décadas do século XXI. A rainha testemunhou o início e o fim da Guerra Fria, a formação de blocos econômicos, se encontrou com diversos líderes mundiais e viajou praticamente para todos os lugares do globo, representando o Reino Unido na política internacional. Apesar dos seus 94 anos, ela ainda continua ativa e sem dar qualquer sinal de que pretende abdicar da Coroa em favor do príncipe de Gales, como muitos tabloides gostam de sugerir toda vez que seu governo acumula mais um algarismo.

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A rainha no dia de sua coroação, em 2 de junho de 1953.

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Estima-se que 27 milhões de pessoas tenham assistido à cerimônia pela televisão.

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A rainha, o príncipe Charles e a princesa Anne, com o Primeiro Ministro Winston Churchill, em 1954.

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A rainha e o príncipe Philip em visita à embaixada portuguesa em Londres, no ano de 1955.

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A princesa Margareth e a rainha com uma filmadora, em 1957.

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A rainha tendo uma conversa com Jayne Mansfield, em 1958.

Por outro lado, a figura de Elizabeth II também gera controvérsia em muitos meios de comunicação e fóruns de debate. Diversos comentadores e internautas consideram o regime político que ela representa como algo ultrapassado e especulam se, após a sua morte, a monarquia britânica não perdure por muito mais tempo. Todavia, o fato de ela ter completado 25.000 dias no trono pode também ser tomado como um exemplo de sua determinação em permanecer no cargo que ocupa desde 1952, quando tinha 25 anos. A rainha gera milhões em renda para o Estado, principalmente com o turismo aos palácios reais e outros castelos que pertencem à Coroa, como a Torre de Londres, cujas histórias alimentam até hoje a imaginação de muitos romancistas e diretores de cinema. A produção de filmes como “A Rainha” (2006), “O Discurso do Rei” (2011) ou a série da Netflix, “The Crown” (que acaba de ser renovada para a sua sexta temporada), demonstram o grande interesse popular sobre a vida da família real, algo que igualmente se verifica por ocasião dos casamentos dos príncipes, funerais e comemorações de jubileus, que são transmitidos para os quatro cantos do mundo, gerando lucro para muitas empresas de televisão. Só em 2011, estima-se que 2,5 bilhões de pessoas tenham assistido ao casamento de William e Kate.

Se pararmos para pensar, esses números apontam para a popularidade que a rainha Elizabeth possui até mesmo sobre pessoas que nem súditos dela são. Seu rostinho redondo e enrugado, coroado por uma cabeleira de fios brancos, suspenso sobre um pescoço encurvado pela idade, é facilmente reconhecido em qualquer lugar, servindo inclusive de fonte para a criação de diversos memes na rede (alguns muito desrespeitosos, diga-se de passagem), que ressaltam a longevidade da monarca. Gostem dela ou não, a rainha é um símbolo de autoridade que conduz os servidores do Estado e as leis. Conforme esclarece seu biógrafo, Andrew Marr:

Ela tem grande autoridade e nenhum poder. Ela é um paradoxo bem vestido e pontual. Ela é a imperadora que não impera sobre seus súditos, mas que os serve. O significado secular da monarquia foi invertido […]. A monarquia constitucional moderna não significa sujeição, a mão forte controlando uma nação em desordem. Em vez disso, oferece uma visão de liberdade. A Coroa não é o governo. Há um espaço pequeno e essencial entre ela e a autoridade dos ministros no dia a dia. Seria indelicado dizer que aqueles que governam são os ocupantes ilegais do Estado – já que os governos vêm de parlamentos que são eleitos e, em última análise, são os bastiões da liberdade. No entanto, governos são hóspedes do Estado. São bem-vindos por um tempo, mas não têm direitos adquiridos (MARR, 2012, p. 26-7).

De fato, Elizabeth não governa, assim como não governavam seu pai e avô. Parte do seu sucesso, acredito, consiste na continuidade das políticas de neutralidade iniciadas por George V e George VI, embora adaptadas à velocidade dos tempos em que vivemos hoje. Para sobreviver, a rainha e o sistema precisaram se modernizar. Coisas que antes eram impensadas para os membros da família real foram revistas (como casamentos com pessoas divorciadas), cerimônias públicas passaram a ser transmitidas em cadeia internacional e o apoio da rainha a causas sociais passou a ser uma bandeira constantemente levantada pela monarquia britânica. Em tempos de crises políticas e econômicas que abalaram o mundo, tais atitudes contribuíram para a permanência de Elizabeth II no poder.

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A rainha e o chefe Oba Adeniji-Adila II, cuja família governou Lagos por cerca de 260 anos.

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A família real em 1959, em um dia de feriado na Escócia.

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Aqui com o bebê príncipe Andrew.

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A rainha e o príncipe se encontram com o presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, e a primeira-dama, Jackie, em 1961.

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Elizabeth II entrega o troféu da Copa Mundial a Bobby Moore, em 1966.

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A rainha se encontra com Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin, em 1969.

Entretanto, não é como se Elizabeth não tivesse enfrentado problemas para manter seu reinando estável. No início do século XIX, os monarcas britânicos expressavam publicamente seu partidarismo e apoio, ou antagonismo, às políticas dos Premiês. Escândalos de ordem privada também contribuíram para minar a credibilidade do sistema. Foi só com a ascensão da rainha Vitória ao trono, em 1837, e principalmente após o seu casamento com o príncipe Albert, três anos depois, que grande parte desses problemas foram resolvidos. A monarquia britânica passou da influência direta para a indireta e a família real começou a ser vista mais como uma instituição, um modelo de retidão que deveria inspirar os ingleses. É certo que nem sempre isso funcionou. Afinal, foram as rivalidades existentes entre os próprios netos da rainha Vitória que ascenderam as chamas de um dos maiores conflitos bélicos da história, a Primeira Guerra (1914-1918), superada em termos de desastre apenas pela Segunda (1939-1945). Durante esse período, muitos reinos caíram na Europa, como o império russo, o alemão, o austríaco, o reino da Espanha, da Grécia, entre outros. Para sobreviver, a monarquia britânica precisou se reinventar. A Casa Real adotou o nome de Windsor, para realçar seu patriotismo, e incentivou o casamento dos príncipes com ingleses de nascimento, para misturar seu sangue ao dos súditos.

Em 1936, uma nova crise perturbou a estabilidade do regime: a abdicação do rei Eduardo VIII, que se casou com a socialite americana Wallis Simpson, uma mulher divorciada. Assim, a linhagem do rei George VI passou a ocupar o ramo principal de herdeiros do trono. Conhecido também como o rei gago, George e sua esposa, Elizabeth Bowes-Lyon, tentaram abafar o escândalo protagonizado por Eduardo ao enfatizar a união de sua família, composta pelas pequenas princesas Elizabeth e Margareth. Há uma certa aura burguesa nas suas fotos tiradas em grupo, com as garotas usando vestidos simples de linho e o rei aparentemente confortável nos seus ternos de tweed. Com a eclosão da Segunda Guerra, a família precisou se separar por um tempo, uma vez que o palácio de Buckingham havia sido bombardeado por forças alemãs. Por motivos de segurança, as princesas foram mantidas em Windsor, enquanto seus pais permaneciam constantemente na companhia dos ministros, tentando diminuir as tensões e o medo instaurado entre a população. Perto do final do conflito, a princesa Elizabeth chegou a se alistar como voluntária mecânica, aprendendo assim a consertar motores de veículos. Seu casamento com o príncipe Philip, em 1947, foi visto pela imprensa como um lenitivo para os dissabores vividos pelo povo durante a Guerra.

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A rainha com o ex-presidente Richard Nixon e a primeira-dama, Pat, em 1970.

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Em 1972, a rainha conversa com crianças da Malásia, durante a turnê real.

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A rainha e a estrela Barbra Streisand, em 1975.

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1977 marcou o Jubileu de Prata do reinado de Elizabeth II. Aqui, ela desfila diante da multidão entusiasmada.

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Em 1980, Elizabeth visitou o Vaticano pela primeira vez e se encontrou com o Papa João Paulo II.

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Em 1981, no balcão do palácio de Buckingham,  no dia do casamento de Diana e Charles.

Após a morte abrupta de seu pai, aos 57 anos, em 6 de fevereiro de 1952, Elizabeth se tornou rainha com a idade de 25. Uma nova era elisabetana começava em meio às tensões provocadas pela Guerra Fria. Buscando sempre um ponto de neutralidade política recomendado por seu pai, a monarca conferenciou com chefes de diversos países, de acordo com os interesses do governo. Em 1968, durante o período da ditadura militar, ela veio ao Brasil como parte de um programa de viagens pela América Latina e visitou alguns estados, como a Bahia, São Paulo e o Rio de Janeiro. Após dez anos, seu parente, lorde Mountbatten, foi assassinado pelo IRA (um grupo paramilitar integralista irlandês), em decorrência dos graves desentendimentos entre o Reino Unido da Grã-Bretanha e a República da Irlanda. Depois de muitas décadas, em maio de 2011, estava lá Elizabeth em pessoa, fazendo um discurso para os irlandeses:

É uma realidade triste e lamentável que, ao longo de nossa história, nossas ilhas tenham passado por mais do que seu quinhão de sofrimento, turbulência e perda. Esses eventos tocaram a muitos de nós pessoalmente… A todos aqueles que sofreram as consequências de um passado adverso, eu estendo meus sentimentos e meu profundo pesar (apud MARR, 2012, p. 18).

Foi uma visita que demorou para ser organizada, mas a rainha não desistiu dela um momento sequer. A vasta maioria do povo da República da Irlanda acolheu com simpatia a vinda da soberana, cujos antepassados reinaram sobre aquelas terras tantos anos antes. De sua parte, ela considerou aquele encontro como uma página virada nos desentendimentos entre os dois governos, ou, nas palavras da própria monarca: “o encerramento de um ciclo”. Apenas ela, na qualidade de chefe de Estado, poderia ter feito essa visita de reconciliação pública, que foi tão comentada pelos jornalistas na época. O mesmo se aplica aos encontros da rainha com outros líderes mundiais. Nessas reuniões, o papel da monarquia é o de receber bem os seus hóspedes, para em seguida encaminha-los aos assuntos políticos, agendados com os ministros.

Entretanto, outras crises de ordem privada, como os divórcios de seus filhos (a princesa Anne com Mark Philips em 1992, e o príncipe Andrew com Sarah Ferguson quatro anos depois), abalaram sistematicamente o modelo de monarquia familiar que ela vinha tentando manter. Em 1992, considerado pelos biógrafos como seu annus horribilis, o castelo de Windsor pegou fogo exatamente no dia do aniversário de casamento da rainha com o príncipe Philip, em 20 de novembro. Naquela época, porém, um escândalo de proporções tão grandiosas quanto o incêndio do castelo tinha palco na mídia. De todos os problemas pessoais enfrentados por Elizabeth, nenhum foi mais calamitoso do que o divórcio do príncipe Charles com a princesa Diana, marcado por trocas de farpas entre os dois e pela exposição da vida privada do casal em jornais e revistas. Quando Diana faleceu em um trágico acidente em Paris, em 1997, o reinando de Elizabeth II atravessou sua fase de maior instabilidade, com um entre cada quatro ingleses desejando uma mudança de regime. A opinião popular acusou a monarca de indiferença e até hoje há quem insista nas teorias de que Elizabeth teria algum envolvimento na morte da mãe de seus netos.

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Em 1983, a rainha Elizabeth se encontra com Madre Teresa de Calcutá.

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Em 1992, Elizabeth conversa com bombeiros que atenderam ao incêndio no castelo de Windsor.

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Em 1997, a rainha caminha pelas flores e homenagens deixadas nos portões do palácio de Buckingham pela população em memória da princesa Diana, morta em um trágico acidente em Paris no dia 31 de agosto daquele ano.

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O funeral da rainha-mãe, Elizabeth Bowes-Lyon, em 2002. Pouco depois, faleceu a princesa Margareth. A rainha completou 50 anos no trono nesse mesmo ano.

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Foto oficial do casamento de William e Kate, em 2011.

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Em 2016, ao lado de Anna Wintour, editora chefe da Vogue Americana, na Fashion Week de Londres.

Com efeito, a rainha agora pode navegar por águas mais calmas. Famosa no mundo todo, ela é considerada um elemento inerente da nacionalidade britânica. Os escândalos que antes fragilizaram o sistema, hoje já não possuem tanto impacto sobre a sua imagem. Grande parte disso se deve à popularidade de seus netos e netas.  Na sexta-feira, dia 17 de julho de 2020, por exemplo, a princesa Beatrice de York se casou numa cerimônia íntima com Edoardo Mozzi (um dia antes de sua avó completar 25.000 dias no trono) e toda a impressa divulgou com entusiasmo a foto dos noivos ao lado da rainha e do príncipe consorte (Beatrice se casou usando um vestido de sua avó da década de 1960). Especulações acerca da durabilidade da monarquia continuam sendo feitas, muito embora Elizabeth não tenha dado quaisquer sinais de que pretende abrir mão da Coroa. Vivendo isolada com o marido, com quem já está casada há quase 73 anos, desde o início da pandemia de COVID-19, qualquer foto sua divulgada pelo Palácio de Buckingham gera euforia nos meios de comunicação. Elizabeth II pode não ser uma atriz como Helen Mirren, Claire Foy ou Olivia Colman, mulheres que foram premiadas por interpretarem o papel da rainha da Inglaterra em filmes e séries. Mas, sejamos honestos: grande parte da popularidade do regime político que ela representa deve em muito à sua atuação como soberana.

Referências Bibliográficas:

MARR, Andrew. A real Elizabeth: uma visão inteligente e intimista do papel de uma monarca em pleno século XXI. Tradução de Elisa Duarte Teixeira. São Paulo: Editora Europa, 2012.

MILLINGTON, Alison; FRIEL, Mikhaila. One iconic picture from each year of Queen Elizabeth’s record 68-year reign. 2020. – Acesso em 20 de julho de 2020.

TAPIOCA Neto, Renato Drummond. Da rainha Vitória a Meghan Markle: a tradição de casamentos na família real britânica!. 2020 – Acesso em 20 de julho de 2020.

_. Fotos e detalhes do casamento da princesa Beatrice de York, neta da rainha Elizabeth II, são divulgados!. 2020 – Acesso em 20 de julho de 2020.

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