Suiko-Tenno: a história da princesa que se tornou a primeira imperatriz reinante do Japão!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A cultura oriental, para muitos de nós, constitui-se em objeto de intenso fascínio. Mas, por outro lado, sua predominância ainda é enxergada sob os matizes do exótico e do diferente. Nas escolas, o estudo das civilizações orientais é, na maioria dos casos, tratado como mera curiosidade, carência essa que também se observa no ensino superior, onde as disciplinas sobre esse assunto geralmente compõem a grade das matérias optativas. Parece que países como China e Japão só ganham interesse público a partir da segundo metade do século XIX, com a expansão do imperialismo na Ásia, bem como durante a Segunda Guerra Mundial. Contudo, a maioria das pessoas ignora ou desconhece seu impacto nas sociedades ocidentais, ou mesmo em países da América do Sul, como no caso do Brasil (para além da música, dos animes e da tecnologia). Se olharmos para a história japonesa, por exemplo, encontraremos personagens tão interessantes quanto os de outros continentes. É o caso de Suiko-Tenno, a 33ª monarca do Japão, que governou por um período de 35 anos (de 592 a 628 da era comum) e que incentivou o florescimento do budismo e da cultura chinesa nos seus domínios. Ela é recordada como a primeira princesa na história de seu país a ocupar tal posição, numa época em que outras mulheres não tinham tanto destaque na política.

Nascida no ano de 554 da era comum, em Yamato, Suiko inicialmente se chamava princesa Nukatabe. Era filha do imperador Kimmei (29° monarca reinante da história japonesa), com Kitashi-hime, filha do ministro Soga no Iname. Depois dela, o imperador teria muitos outros filhos, incluindo Yomei e Sushun, que acabariam sucedendo ao pai no trono imperial. Em 571, Kimmei faleceu, provocando assim uma crise dinástica que levou à ascensão de seu filho mais velho, Bidatsu. Este, por sua vez, se casou no ano seguinte com a sua meio-irmã, Nukatabe, transformando-a na sua segunda esposa. A partir de então, a princesa de 18 anos seria conhecida pelo nome de Suiko. Com o falecimento da primeira consorte do monarca, a imperatriz Hirohime, a jovem foi elevada ao posto de soberana, recebendo o título de Okisaki (que significa esposa principal). O reinado de Bidatsu durou até o ano de 585, quando ele morreu. Apesar do imperador possuir 2 filhos e 3 filhas com Suiko, o trono imperial foi reclamado por um de seus meio-irmãos, Yomei, após uma disputa que quase custou a vida da imperatriz. Ela havia sido salva por pouco de um ataque ao mausoléu do marido, por um certo MIWA no Sakau, que infelizmente pereceu no conflito contra as forças do príncipe.

Ilustração póstuma da Imperatriz Suiko, feita em 1726.

O reinado do imperador Yomei, porém, não teve vida longa. Dois anos depois, em 587, ele faleceu, provocando mais uma crise dinástica marcada por disputas fratricidas, que culminaram com a vitória de outro dos filhos do finado imperador Kimmei, Sushun. Para governar, o novo monarca contava com o apoio do clã Soga, bem como sua meio-irmã, Suiko. Mas os conflitos desencadeados pelos outros descendentes de Kimmei não pararam por aí. Outro clã, os Monohobe, queriam a coroação do príncipe Anahobe. Não obstante, nem todos os partidários de Sushun o apoiavam completamente. Um deles, o Soga no Umako, tio de Suiko, passou a acumular muito poder e riquezas na corte, causando assim a desconfiança do imperador, que passou a enxerga-lo como um traidor. Temendo a retaliação da Coroa, Umako, então considerado um grande oficial, assassinou Sushun no ano de 592. Antes que mais algum dos muitos descendentes de Kimmei começassem a brigar novamente pelo trono, o Soga decidiu fazer de sua sobrinha a nova soberana reinante. Assim começava o reinado de Suiko-Tenno (alcunha apenas permitida ao imperador do Japão).

No ano seguinte à ascensão de Suiko, seu sobrinho, Shotoku, filho do falecido imperador Yomei, foi nomeado co-regente do império, assim como Soga no Umako havia recebido a posição de ministro. Embora esses dois personagens sejam considerados os verdadeiros governantes do Japão durante o reinado de Suiko, sua entronização é considerada um feito inédito na história daquele país. Para muitos historiadores, ela foi a verdadeira fundadora da dinastia Asuka, De seu Palácio Imperial de Owarida, ela governava um vasto território e tomava suas próprias decisões, independentemente da vontade de Shotoku e Umako. Quando seu tio, por exemplo, quis ser nomeado governante de um território conhecido como Kazukari no Agata, sua terra natal, em 624, a imperatriz recusou ao pedido, indicando claramente a medida de seu poder e influência. Dizem que ela teria respondido ao ministro que “mesmo que você seja meu tio, se eu doar uma terra pública para uma pessoa particular, a futura geração me chamará de mulher tola e, por outro lado, criticará você por ser desonesto”. Com talento e sensatez, Suiko moderava as ambições de Shotoku e Umako, para não ofender as outras famílias poderosas da corte (conhecidas como Gozoku).

Ilustração contemporânea da Imperatriz Suiko, feita em 593 da era comum.

Sob o reinando conjunto de Suiko e Shotoku, muitas medidas importantes foram efetivadas. Entre elas, o estreitamento das relações com o tribunal Sui da China e a consequente introdução do budismo como religião oficial Japão, através do emissão do Edital dos Três Tesouros Florescentes, em 594. Entre outras ações, podemos destacar também a adoção do sistema Cap e Rank Rank de Doze Níveis e a elaboração de um código de etiqueta para a corte. A medida mais importante, porém, veio no ano de 604, com a criação de uma Constituição para o império. O código de leis e deveres estabelecia um sistema de prestação de contas, que deveria ser emitida regularmente pelo governo; obediência às ordens do imperador; tratamento igualitário em julgamentos para todos os casos de infração às normas, a despeito da posição social do réu. Além disso, os oficiais do Palácio não deveriam ser gulosos nem ambiciosos e a raiva tinha que ser evitada a qualquer custo; os três pilares do budismo foram prescritos como como verdades morais básicas do Estado e os políticos não deveriam possuir interesses particulares, apenas públicos.

Com a criação da Constituição, Suiko e Shotoku conseguiram assim unificar o Japão, evitando mais disputas entre os clãs ou famílias rivais por um longo período. A autoridade do imperador passou a ser vista como “derivada do céu” e não da vontade dos homens, conforme podemos observar também em outras sociedades ocidentais até a Idade Moderna. Entre outros quesitos, o território previsto pela Constituição deveria ser considerado como uma “terra budista”, onde “o governante fomentava o bem-estar de seus súditos, material e espiritualmente” falando. Era também uma região na qual todos deveriam subordinar “seus interesses privados e lealdades locais ao bem de um Estado unificado”. Não obstante, o código de leis declarava o seguinte:

A harmonia deve ser valorizada e a prevenção da oposição arbitrária deve ser respeitada. Todos os homens são influenciados por sentimentos de classe e poucos são inteligentes. Por isso, há quem desobedeça a seus senhores e pais, ou que mantenha rixas com as aldeias vizinhas. Mas quando os que estão acima são harmoniosos e os que estão abaixo são amigáveis e há concordância na discussão dos negócios, visões corretas das coisas ganham aceitação espontaneamente.

Muito embora alguns autores argumentem que a criação da Constituição deva ser vista mais como uma obra de Shotoku, ela expõe também algumas das ideias que já eram defendidas por Suiko desde o início do seu reinado, como a introdução do budismo. O que nos leva a supor que o texto seja na verdade uma produção tanto do co-regente, quanto da imperatriz. Durante o seu governo, a cultura budista floresceu, com a edificação de vários templos, como o Horyuji (considerado o edifício de madeira mais antigo do mundo), bem como a construção de gigantescas estátuas de cobre, representando Buda. Suiko também ofereceu patrocínio a muitos estudiosos e monges budistas e coreanos, familiarizados com a tradição chinesa, desenvolvendo assim uma espécie de cultura internacional unificada, chamada de Asuka, que misturava elementos do costume japonês com o de outros países do Oriente.

Memória funerário construído em honra da imperatriz Suiko!

Todavia, no período em que Suiko reinou, a sucessão do trono era estabelecida pela vontade dos poderosos clãs e não tanto pelo desejo do monarca. De outro modo, ela dificilmente teria se tornado uma imperatriz em seu próprio nome. Antes de morrer, a soberana havia deixado apenas indicações vagas sobre quem deveria sucede-la. Dois nomes teriam sido apontados: o primeiro deles foi o do príncipe Tamura, que era neto do finado imperador Bidatsu e que contava com o apoio da maioria dos Soga, incluindo Emishi, um dos membros mais poderosos desse clã na década de 620; o outro era o do príncipe Yamashiro, neto de Shotoku, que tinha o suporte de outra parte dos membros da família real. Nesse cenário de disputas, o Japão foi palco de mais um conflito fratricida, que resultou na morte de Yamashiro e na nomeação de Tamura como herdeiro. Após a morte da imperatriz Suiko aos 75 anos, em 15 de abril de 628, o príncipe ascendeu ao trono com o nome de Jomei. Com o fim do reinado da primeira soberana reinante do Japão, a união que ela havia sonhado com a China e a Coreia se desfez, mas seu nome permaneceria para sempre ligado a uma era de grandes avanços na arte, na educação, na religião e na cultura.

Referências:

HENSHAL, Kenneth. História do Japão. Almedina, Portugal: Edições 70, 2008.

LEWIS, Jone Johnson. Empress Suiko of Japan: The first reigning Empress of Japan in recorded history. 2019. – Acesso em 11 de julho de 2020.

VANDERKOOL, Gwen. Women who ruled: Empress Suiko. – Acesso em 11 de julho de 2020.

VÁRIOS AUTORES. Empress Suiko. – Acesso em 11 de julho de 2020.

VÁRIOS AUTORES. Empress Suiko. – Acesso em 11 de julho de 2020.

WALKER, Brett L. História concisa do Japão. Tradução de Daniel Moreira Miranda. São Paulo: Edipro Editora, 2017.

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