Jinga de Angola: biografia destaca o protagonismo da rainha guerreira da África

HEYWOOD, Linda M. Jinga de Angola: a rainha guerreira da África. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Todavia, 2019.

Todos os anos, o mercado editorial é bombardeado com uma gama de biografias de reis e rainhas do passado. O interesse em torno dessas figuras cresce continuamente, alimentado por uma grande quantidade de filmes e seriados, que narram as vidas de personalidades como Mary Stuart, Isabel de Castela, Catarina II da Rússia, a rainha Vitória ou os últimos Romanov. No Brasil, esse fenômeno é acentuado pelo lançamento de livros sobre a família imperial, muitos deles contendo documentação até então inédita. Sendo assim, a biografia enquanto gênero narrativo voltou com bastante fôlego nos últimos tempos, embora não mais centrada apenas na vida do biografado e sim no contexto em que ele viveu. Por outro lado, poucos são os títulos dedicados a pessoas que tiveram destaque fora do eixo Europa-América, especificamente na África e na Ásia. Muito da história desses dois continentes foi deturpada pela visão colonialista, algo que fica evidente quando procuramos por informações acerca de suas principais figuras de liderança. Entre elas, a rainha Jinga, que governou Ndongo (um reino localizado na África Central, hoje parte de Angola), foi pintada pelos cronistas como uma mulher selvagem, incivilizada e canibal. Tal perspectiva, porém, vem sendo desconstruída graças ao trabalho de alguns historiadores, como Linda M. Heywood.

Linda M. Heywood

Autora de muitos estudos sobre a primeira colonização do Congo e Angola (1483-1850), o interesse de Linda M. Heywood pelas grandes mulheres do passado começou com a rainha Elizabeth I da Inglaterra. Ao perceber que muito já havia sido escrito sobre a última soberana da dinastia Tudor, a pesquisadora voltou seus olhos para uma personagem contemporânea de Elizabeth e que, até então, não havia sido objeto de um estudo mais detalhado. Por quase 30 anos, Linda se debruçou sobre a vida de Jinga de Angola, coletando materiais sobre sua vida em arquivos brasileiros, europeus e africanos para produzir uma biografia que pode ser considerada hoje a análise mais acurada sobre a vida da rainha africana, que conquistou seu trono por meio da guerra e da diplomacia. Paralelamente às suas pesquisas sobre Jinga, Heywood desenvolveu trabalhos interessantíssimos em coautoria com John Thornton, seu colega no departamento de estudos afro-americanos da Universidade de Boston. Entre outras obras, ela também publicou The Growth and Decline of African Agriculture in Central Angola e Unita and Ethnic Nationalism in Angola, que abordam o período da segunda colonização portuguesa em Angola. No ano de 2017, ela lançou Njinga of Angola, traduzido e publicado no Brasil em 2019 pela editora Todavia.

A edição brasileira da biografia de Jinga escrita por Heywood possui um acabamento editorial bem cuidadoso, com impressão em papel Munken cream e boa diagramação. A tradução ficou por conta de Pedro Maia Soares e inclui um posfácio assinado pelo Prof. Dr. Luiz Felipe de Alencastro, autor de vários livros sobre história do Brasil e da diáspora africana, como O Trato dos Viventes (obra que possui um tópico sobre a conversão da rainha Jinga ao catolicismo). Na capa, uma reprodução em cores da litogravura clássica da soberana, feita muitos anos depois de sua morte e que a apresenta de forma bastante europeizada, para não dizer também sexualizada, com o seio esquerdo à mostra. A imagem da capa, por sua vez, é o ponto de partida para a análise que Linda se propõe a desenvolver, buscando desconstruir uma série de estereótipos produzidos ao longo dos séculos sobre sua biografada. Até pouco tempo, a vida de Jinga era vista como uma mera curiosidade. Mas, como a própria autora ressalta na introdução, a registro histórico revela uma versão bem diferente: “foi essa mesma Jinga que conquistou o reino de Matamba e o governou em conjunto com o remanescente e poderoso reino de Ndongo por três décadas; desafiou treze governadores portugueses de Angola entre 1622 e 1663, mantendo seu reino independente diante de ataques implacáveis” (2017, p. 7).

Dividida em 7 capítulos distribuídos por 317 páginas, incluindo glossário e cronologia, a obra possui uma escrita meticulosa, que apesar de sua densidade pode ser facilmente compreendida tanto pelo público leigo, quanto pelo especializado. A autora parte da explicação sobre os motivos que a levaram a escrever uma biografia de Jinga para uma discussão mais detalhada sobre o contexto político e geográfico da época em que ela viveu. Neta de Kasenda, considerado um dos maiores líderes do reino de Ndongo, Jinga era filha natural de Mbande a Ngola, que com a morte do pai em 1592 se tornou rei. A data de nascimento da futura soberana é disputada por alguns pesquisadores, embora Heywood adote o ano de 1582 como o mais provável, baseando-se em dois manuscritos publicados poucos anos depois da morte de Jinga, em 1663. O primeiro deles é de autoria do capuchinho frei Antonio Gaeta, intitulado La Meravigliosa Conversione alla Santa Fede de Cristo della Regina Singa e del suo regno di Matamba (A Maravilhosa Conversão à Santa Fé de Cristo da Rainha Jinga e de seu Reino de Matamba). Lançado em 1668, a obra serviu de base para a escrita da primeira biografia da líder, da autoria de frei Cavazzi, com o título de Istorica descrizione de’ ter’ regini Congo, Matamba et Angola (Descrição Histórica dos três reinos de Congo, Matamba e Angola).

Litogravura póstuma de Jinga de Angola.

Com efeito, tanto Gaeta quanto Cavazzi estiveram em Matamba e Ndongo durante o governo de Ginga e são responsáveis por boa parte das informações referentes ao seu reinado, que vai de 1622 a 1663. Por outro lado, os capuchinhos ajudaram a criar o mito da soberana incivilizada, que comia carne humana e assassinava bebês. De acordo com eles, Jinga teria se convertido apenas superficialmente à fé cristã, mantendo muitos dos costumes de seu povo até o fim de seus dias. No entanto, a documentação levantada pela autora, como as cartas enviadas pela própria rainha ao Vaticano, nas quais ela assinava com o nome cristão de Dona Ana, revelam outra versão. Para Heywood, o batismo de Jinga e sua adesão ao catolicismo romano revelam não só uma mudança espiritual de sua parte, como uma estratégia diplomática tomada em prol da paz junto aos portugueses estabelecidos em Luanda e também pela unificação de seu povo através de uma única religião. Não obstante, o reconhecimento do Papa era importantíssimo para que a soberana fosse vista na Europa como membro da comunidade de reis cristãos. Assim, Jinga buscava validar sua autoridade sobre os reinos de Matamba e Ndongo, além de garantir a independência e proteção de seus súditos dos ataques perpetrados por soldados de Portugal.

Por quase 40 anos, desde que seu irmão Ngola Mbande morreu, Jinga travou uma luta ferrenha com a intendência portuguesa em Angola, que buscava colonizar suas terras e subjugar seu povo. Caçada de forma implacável por seus inimigos, a rainha demonstrou uma força de resistência enorme e por fim conseguiu deter o avanço dos colonizadores. Em Portugal, era tida como uma das maiores inimigas da Coroa. É claro que tanta desenvoltura só foi possibilitada graças a uma ótima educação e treinamento militar ímpar, recebidos durante a juventude. Jinga sabia falar o português fluentemente, assim como o dialeto de seu povo, o que lhe permitia agir como intérprete em muitas ocasiões. Rainha em seu próprio nome, ela lançava mão de joias e ornamentos para construir uma imagem de soberania que impusesse respeito. Quando em batalha, liderava suas tropas usando um arco (símbolo do poder real) e um machado de guerra, que pode ser visto nas muitas ilustrações que o frei Cavazzi fez para o seu livro. Parte desse acervo foi reproduzido na obra de Linda M. Heywood, uma vez que essas imagens são as fontes que mais se aproximam de como Jinga teria se parecido em vida. Não restou nenhum retrato contemporâneo seu e todas as representações conhecidas de sua face são póstumas, baseadas em descrições de seus correlatos.

Capa da edição brasileira de “Jinga de Angola”, de Linda M. Heywood.

Com efeito, a parte mais interessante da obra de Heywood, a meu ver, é a conclusão, em que a autora analisa a importância de Jinga na cultura africana e brasileira e suas representações atuais (tema do próximo livro da autora). Durante as lutas contra o fim do neocolonialismo na segunda metade do século XX, a soberana passou de mulher “incivilizada” para símbolo da resistência e inspiração para muitos africanos, que começaram a procurar motivação na sua trajetória de luta e vida. No Brasil, a memória de Jinga viajou junto com os escravizados trazidos do porto de Luanda e é possível encontrar referências a ela em maracatus e congadas, como também na capoeira. Recentemente, filmes, romances e até histórias em quadrinhos tem sido publicadas, no intuito de apresentar ao público a face destemida de uma rainha, cuja imponência pode ser facilmente comparada à de Elizabeth I da Inglaterra ou Catarina II da Rússia. Nesse sentido, a biografia escrita por Linda M. Heywood é um importante passo dado no intuito de destacar a história de outras soberanas africanas e de lideranças negras, que deixaram uma importante contribuição para a posteridade e continuam a fascinar milhares de pessoas ao redor do mundo.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

Um comentário sobre “Jinga de Angola: biografia destaca o protagonismo da rainha guerreira da África

  1. Excelente artigo, como sempre prezado Renato. Fico na expectativa de conhecer mais lideranças do continente africano, com certeza não faltarão reis e rainhas que comandaram seus povos naqueles tempos.

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