Ranavalona I de Madagascar: a rainha destemida que os ingleses chamaram de “A Cruel”!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Entre as muitas distorções feitas à história do continente africano pelos colonizadores europeus, destaca-se o desrespeito para com suas figuras de liderança, especialmente as mulheres. Não raro podemos encontrar adjetivos como “assassina”, “louca”, “cruel” ou “selvagem”, entre outros, para definir líderes africanas que tiveram um papel de destaque na resistência ao avanço do imperialismo. Nesse contexto, poucas foram tão vituperadas quanto Ranavalona I de Madagastcar, a implacável soberana que rechaçou a presença de ingleses e franceses dos seus domínios e se empenhou na preservação dos costumes de seu povo. A partir de então, a história produzida nestes dois países passou a criar uma série de epítetos para classifica-la, associando-a inclusive a personalidades que ficaram conhecidas pela sua brutalidade, tais como o imperador romano Calígula. Quase 200 anos depois, ainda é possível ver muitos artigos disponíveis na internet, tanto no Brasil quanto no mundo, reforçando o uso desses estereótipos, graças ao impulso dado pela publicação de livros como “Ranavalona, the Mad Queen of Madagascar” (2005), do antropólogo inglês Keith Laidler. A história de Ranavalona, porém, é também uma trajetória de luta, não só contra o imperialismo, mas também contra as imposições de gênero.

Situada ao largo da costa de Moçambique, a Ilha de Madagascar é um dos maiores arquipélagos do mundo, compreendendo também outro conjunto de Ilhas. Atualmente uma República, no início do século XIX era um território composto por vários grupos étnicos, entre os quais se destacavam os merina, que habitavam no planalto central da Ilha, chamado de Imerina (“o país que se vê de longe). Ali se instalou uma classe de privilegiados que controlava a maior parte do local. Como o recenseamento demográfico não era uma prática comum no início século, apenas a partir de 1865 é que podemos estipular um número aproximado de 5 milhões de habitantes, dos quais 800.000 foram classificados como merina. Por outro lado, os demais grupos étnicos malgaxes falavam a mesma língua e, salvo algumas exceções, possuíam costumes e práticas religiosas parecidas. Assim, pode-se dizer que havia naquela região certa unidade cultural. Como tinham maior representatividade, os dirigentes de Imerina se instalaram em Antananarivo (atual capital) e foi a partir dessa cidade que surgiu a primeira linhagem de reis que governou a maior parte de Madagascar. Dentre eles, Adrianampoinimerina é considerado o fundador do reino, tendo consolidado seu poder com a unificação e expansão dos seus territórios.

Mapa da Ilha de Madagascar. Fonte: Enciclopédia Britânica.

Nesse contexto, pouco se sabe sobre a infância de Ranavalona. Nascida em 1788 com o nome de Ramavo, ela era membro de uma família comum de ascendência indonésia. Naquele período, Imerina era composta por três ou quatro reinos que lutavam constantemente entre si. À medida em que dava seguimento ao processo de unificação destes reinos, Adrianampoinimerina empreendeu uma verdadeira campanha para se livrar de outros líderes locais, seja pelo uso da força, ou da diplomacia. Os monarcas depostos, porém, não pararam de desafia-lo. A história conta que um complô foi arquitetado pelos rivais do rei para assassina-lo e eles só não obtiveram êxito porque o pai de Ramavo descobriu o plano e o delatou. A conspiração foi sufocada e como recompensa o soberano adotou Ramavo como sua filha, dando-lhe o nome pelo qual ficou mais conhecida, Ranavalona. Ela foi levada para a capital de Antananarivo e lá se casou com o herdeiro do trono, Radama, tornando-se a sua primeira esposa. Isso significava que qualquer filho nascido a partir daquela união teria direitos ao trono de Imerina. Enquanto isso, o reino se estendia para além dos seus limites originais, agregando com dificuldade parte dos 18 grupos étnicos de Madagascar. Quando da morte do rei, em 1810, seu reino já era um dos mais poderosos da Ilha.

Após o falecimento do pai, seu filho subiu ao trono como Radama I. Uma de suas primeiras atitudes como rei foi subjugar os rebeldes, entre eles os bezanozano de Ambotomanga. Após consolidar a sua posição, Radama demonstrou o desejo de abrir os portos para o comércio com os europeus, especialmente os ingleses, cuja indústria de tecidos estava em pleno desenvolvimento. Assim, ele entrou em contato com o governador da Ilha Maurício, Robert Townsed Farquar, em busca de acordos comerciais e diplomáticos. Farquar, por sua vez, via naquele tratado uma forma não só de os britânicos influenciarem a política de Madagascar, como também controlarem o comércio de arroz, gado e produtos manufaturados que abasteciam a Ilha Maurício. Em particular, os britânicos buscavam também o fim do tráfico de escravizados na região. Como desejava continuar expandindo seus domínios para o leste, Radama aceitou a oferta dos ingleses e concordou ainda com a presença de missionários da “London Missionary Society” em Antananarivo, que traziam consigo um modelo de educação cristã para converter seus súditos. Essas medidas, entretanto, foram muito mal vistas por alguns nobres e chefes, incluindo sua primeira esposa.

Litogravura póstuma de Ranavalona I de Madagascar, por H. Linton (c. 1875).

Com o apoio dos ingleses, Radama I expandiu sua hegemonia sobre a maior parte da Ilha e, em 1828, cerca de 2/3 dela já estavam sobre o seu controle. Mesmo não sendo o soberano de todo aquele território, ninguém tinha força suficiente para lhe disputar o título de rei de Madagascar. Porém, todas essas campanhas militares, aliadas a uma vida regada pela bebida e por diversões acabaram por comprometer gravemente sua saúde. Com apenas 36 anos de idade, em julho de 1838, Radama faleceu sem deixar um herdeiro direto. Uma vez que não tivera filhos com Ranavalona, de acordo com a ordem de sucessão, seu sobrinho, o príncipe Rakotobe, deveria ser o próximo monarca. Este, porém, sabia que sua posição jamais estaria segura enquanto a primeira esposa de seu tio organizava um grupo de partidários ao seu redor. Assim que tomou conhecimento do plano de Rakotobe para assassina-la, Ranavalona e todos os nobres que eram contrários às políticas adotadas pelo seu falecido marido arquitetaram um bem sucedido golpe de Estado para colocá-la no trono. Em agosto daquele ano, ela se declarou a legítima herdeira de Ramavo e ordenou a execução imediata de todos os seus rivais, incluindo Rakotobe e sua família, tal como era o costume de outros monarcas que a precederam no poder.

Sendo assim, a atitude de Renavalona não deve ser analisada como algo excepcional, uma vez que outros reinos da Europa possuíam uma tradição secular de aniquilamento de possíveis pretendentes ao trono. Um estudo atento para as execuções feitas nos reinados de Henrique VIII da Inglaterra ou de Carlos III e Luís XIV da França, por exemplo, podem comprovar essa afirmação. No caso da nova rainha de Madagascar, porém, há não só um viés racista pelo qual sua história costuma ser narrada, como também sexista. A própria rainha estava ciente dessa questão quando fez o discurso na sua cerimônia de coroação, ocorrida em 12 de agosto de 1829:

Nunca diga: “ela é só uma mulher fraca e ignorante, como ela pode governar tão vasto império?”. Eu governarei aqui, para a boa sorte de meu povo e para a glória do meu nome! Não adorarei deuses além daqueles dos meus ancestrais. O oceano será o limite do meu reino, e eu não cederei sequer a espessura de um fio de cabelo dele (apud LAIDLER, 2005).

O projeto de governo que Ranavalona I adotou ia contra as políticas do falecido rei, principalmente no que se referia às alianças forjadas com a Inglaterra e a França. Ela substituiu os antigos conselheiros do marido por gente que deu apoiou à sua causa desde o início e, ao seu lado, se empenhou em proteger a independência de Madagascar, bem como suas Instituições, tradições e costumes de qualquer interferência estrangeira. Isso incluía também a presença de missionários cristãos, que foram admitidos no reinado anterior para evangelizar o povo.

Retrato póstumo de Ranavalona I, pintado em 1905 por Philippe-Auguste Ramanankirahina. Apresenta a rainha de Madagascar de forma bastante europeizada.

Apesar de na cultura merina haver um forte elemento matrilinear, Ranavalona foi a primeira líder feminina a ter grande destaque, especialmente se levarmos em consideração a velocidade com que ela impôs sua autoridade aos povos em que passou a governar. Todos os tratados com a Grã-Bretanha firmados anteriormente foram desfeitos e ela também expulsou os ingleses residentes da Ilha. Aos poucos, a rainha devolvida os costumes sociais ao seu padrão tradicional e aqueles que demonstravam publicamente desaprovação eram submetidos a um teste de lealdade, que variava de acordo com o grau da “ofensa”: desde engolir pedaços de nozes envenenadas, a torturas e amputação progressiva dos membros do corpo. Tal atitude contribuiu para que a imagem de Ranavalona como ditadora e tirana fosse veiculada com a ajuda dos ingleses e dos franceses que ficaram privados do comércio com a Ilha de Madagascar. Eles diziam que a soberana caçava cristãos e pendurava suas cabeças nas pontas de estacas, para intimidar qualquer pessoa indesejável. Apenas em 1831 foi que ela admitiu um francês na sua presença, um náufrago chamado Jean Laborde, que dizem ter se tornado seu amante e suposto pai de seu filho Rakoto, futuro rei Radama II.

Com os seus conhecimentos de metalurgia, munições e engenharia (atividades essas que estavam em pleno desenvolvimento durante a Revolução Industrial), Laborde foi capaz de dirigir a construção da cidade fabril de Mantasao, próxima de Antananarivo. Ali eram fabricadas pólvora e armas para o exército de Ranavalona, assim como sabão, sedas, cerâmicas, entre outros produtos que a Ilha costumava barganhar com os ingleses. Sua obra mais bela, porém, foi a construção do palácio real de Manjakamiadana Rova, numa colina acima da capital, que infelizmente foi destruído por um incêndio no ano de 1995. Próspera e poderosa, a rainha passou a ser cada vez mais respeitada entre seus súditos, que enxergavam-na como uma representante dos deuses. É certo, porém, que nem todos compartilhavam dessa opinião. De acordo com Valter Roberto Silvério:

O reinando da rainha Ranavalona I pode ser descrito de dois modos. Para os europeus, foi o reinado do terror. Para muitos povos sujeitados, a hegemonia merina também surgiu como um regime de exploração e de tirania. Conhecemos as revoltas das populações e a repressão brutal provocadas por elas. Mas, para muitos de seus súditos, Ranavalona foi um símbolo do nacionalismo malgaxe e um bastião contra as influências estrangeiras, que ameaçavam a cultura e as tradições do país (2013, p. 255-6).

Por outro lado, apesar de resistir às tradições da cultura ocidental, a rainha se deixava influenciar pelo modo de se vestir na corte francesa, misturando a moda europeia com a da Ilha no uso aplicado de sedas e outros tecidos caros. Mas, a impossibilidade de conseguir novos acordos diplomáticos com a França e a Inglaterra culminou com o ressentimento do povo malgaxe para com os europeus. Essa situação atingiu o clímax quando uma aliança anglo-francesa dirigiu um ataque a Madagascar no ano de 1845, que terminou com a derrota vergonhosa do invasores, quatro anos depois.

Ruínas do palácio real de Manjakamiadana Rova, destruído após um incêndio em 1995.

Derrotado o inimigo, a monarca voltou seus olhos para o comércio de algodão e álcool com os Estados Unidos, contrabalançando assim a influência europeia naquela região. Para comemorar seu poder, dizem que ela ordenou uma extensiva caça aos búfalos, com a presença de quase 50.000 pessoas, incluindo nobres, comuns e escravizados. Esse grupo percorreu uma longa estrada, pavimentada às pressas enquanto a comitiva percorria seu trajeto. A febre e a fome deu cabo da vida de muitos dos construtores. Segundo o antropólogo Keith Laidler: “a estrada real estava cheia de cadáveres, a maioria dos quais nem sequer foram enterrados, mas simplesmente jogados convenientemente em alguma vala ou sob algum arbusto próximo”. Laidler, um dos construtores da imagem de Ranavalona como “rainha louca”, disse também que “no total, 10.000 homens, mulheres e crianças morreram durante as 16 semanas de ‘caça’ da rainha. Durante todo esse tempo, não há registro de um único búfalo sendo morto” (2005). Esse trecho, porém, deve ser visto com alguma desconfiança, principalmente quando consideramos as tendências racistas de Laidler, que comparou a soberana de Madagascar com o imperador romano Calígula, famoso por sua natureza extravagante e cruel.

Na história ocidental, mulheres como Joana I de Castela e Maria I de Portugal foram chamadas de loucas, numa época em que qualquer declaração nesse sentido era suficiente para afasta-las do governo e deixa-lo ao encargo de homens. Quando não eram assim classificadas, sua sexualidade se tornava então alvo de escrutínio, aliado a um discurso que considerava a mulher inapta para o exercício do poder. Ranavalona estava plenamente ciente disso, conforme podemos entender a partir das palavras proferidas por ela no discurso de sua coroação. Ela não só mostrou que era uma soberana destemida, como também garantiu a preservação dos costumes de seu povo, muito embora tivesse que fazer uso da violência para conseguir isso. À medida em que ia envelhecendo, a monarca permanecia cada vez mais firme na sua resistência aos europeus, algo que não era compartilhado por uma geração de cortesãos mais jovens, entre os quais seu filho Rakoto. Juntamente com Jean Laborde, em 1857 ele planejou um golpe para derrubar a mãe do poder. Mas, graças aos espiões da corte, a rainha descobriu toda a trama e a impediu. Ela perdoou o filho, mas condenou Laborde e seus companheiros a uma marcha forçada dentro dos campos infestados pela malária. Poucos sobreviveram, entre eles o próprio francês, que viria a se tornar conselheiro de Rakoto.

Ranavalona I em campanha militar, liderada por seu filho Rakoto. Litogravura de 1895, feita por Pierre Suau.

Com efeito, a soberana permaneceria ainda por mais quatro anos no poder. Nessa última fase de seu governo, ela aos poucos foi suspendendo os antigos entraves impostos ao comércio com a Ilha Maurício e da Reunião, assim como permitiu o retorno de alguns missionários cristãos e certos estrangeiros. A rainha faleceu enquanto dormia no seu palácio de Manjakamiadana Rova, no dia 18 de agosto de 1861. Seu filho, Rakoto, que a sucedeu como Radama II, teve um reinado curto (de 1861 a 1863), marcado pela revogação das políticas protecionistas de sua mãe, principalmente no que se referia às relações com a Grã-Bretanha e a França. Quanto a Ranavalona, ela foi sepultada num rico ataúde de prata decorado com diamantes, na cidade de Ambohimanga. Com sua força e determinação, ela criou um valioso precedente para que outras mulheres pudessem usar a coroa e governar em seu próprio nome. A história africana contada do ponto de vista dos colonizadores é marcada pelo abuso de estereótipos e interpretações racistas, que fizeram de uma mulher irreverente ser conhecida como “louca” e “cruel”, numa época em que os autores de tais epítetos cometiam verdadeiras atrocidades em outras partes do continente, motivados pela ambição imperialista disfarçada na suposta “missão civilizatória”. Sendo assim, o reinado de 33 anos de Ranavalona I pode ser considerado um marco importantíssimo na luta contra a dominação europeia e a degeneração dos costumes de sua gente.

Referências Bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric J. A era das revoluções, 1789-1848. Tradução de Maria Tereza Teixeira e Marcos Penchel. 32ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

LAIDLER, Keith. Female Caligula: Ranavalona, the Mad Queen of Madagascar. New Jersey, EUA: John Wiley & Sons, 2005.

SILVÉRIO, Valter Roberto (Org.). Historia geral da África: século XVI ao século XX. Brasília: UNESCO, 2013.

SWEETMAN, David. Women Leaders in African History. UK: Heinemann, 1984.

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