Uma mulher condenada: a farsa no julgamento de Ana Bolena, a primeira rainha inglesa decapitada!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

No dia 15 de maio de 1536, no domingo, um evento muito incomum se passava nas dependências da Torre de Londres. Ana Bolena, uma rainha ungida e esposa do monarca reinante, era levada a julgamento público por acusações de traição, adultério e incesto com o próprio irmão. Apenas alguns dias antes, quatro homens haviam sido condenados por manter relações carnais com a esposa do rei e conspirado para a morte dele. O processo, por sua vez, se insere no contexto de reforma religiosa iniciada por Henrique VIII para confiscar os bens da Igreja Católica em Inglaterra e tomar os poderes secular e temporal para si. Ao fazê-lo, Henrique se tornou o primeiro monarca absolutista da Europa. Sua vontade era a lei e aqueles que se opunham a ela, como o filósofo e humanista Thomas More, eram condenados à morte. Agora, o soberano estava a um passo de se livrar da mulher por quem havia dispensado uma primeira esposa, Catarina de Aragão, na esperança de que ela fosse capaz de gerar um herdeiro masculino para a Coroa. Tendo falhado nessa tarefa, era imprescindível para o rei anular mais aquele casamento. Quanto a Ana Bolena, não sendo filha de reis ou tia de um imperador, seu destino estava praticamente selado: a espada do carrasco.

Retrato de Ana Bolena de como ela provavelmente se parecia no tempo de sua queda (final do séc. XVI, por artista desconhecido).

Três dias antes do julgamento da rainha e de seu irmão, George, visconde de Rochford, os quatro homens acusados de manter intercurso com Ana foram arrastados para o inquérito. William Brereton, Henry Norris, Sir Francis Weston, membros da casa do rei e Mark Smeaton, tocador de alaúde da rainha, ouviram separadamente as acusações pelas quais estavam sendo julgados. Os membros do júri, por sua vez, eram quase todos hostis à causa da soberana, tais como Sir William FitzWilliam, que havia sido o instrumento escolhido para obter confissões de Smeaton e Norris, e Edward Willoughby, capataz do júri que devia dinheiro a Brereton, cuja morte o livraria daquele débito. Outros eram Sir Giles Alington, genro de Sir Thomas More e nada simpático à causa de Ana, por considera-la responsável pela morte do autor de Utopia, e William Askew, apoiador da causa da princesa Maria. Anthony Hungerford, primo de Jane Seymour e Robert Dormer, que tinha sido contrário ao rompimento com a Igreja de Roma, eram outros do membros seletamente escolhidos para condenar aqueles quatro réus a uma morte horrível. Os prisioneiros foram levados da Torre de Londres até Westminster Hall, onde teria lugar o julgamento. Acusação: “que eles violaram e tiveram conhecimento carnal com a rainha, cada um em ocasiões separadas” (WEIR, 2010, p. 208).

Com efeito, essa foi a primeira vez que as acusações levantadas contra eles tinham sido colocadas em público. A pior delas, talvez, era a de que teriam conspirado com Ana Bolena para causar a morte do rei, o que por si só se configurava em crime de alta traição. Os acusados não tiveram o benefício de um advogado, recurso esse proibido em julgamentos daquele tipo e nem mesmo o de convocar suas próprias testemunhas. Afinal, poucos se arriscariam contra a vontade do rei para defender aqueles homens. Quando os termos foram lidos, apenas Mark Smeaton confessou que “ele teve conhecimento carnal com a rainha três vezes” e que colocava seu destino na misericórdia do rei, embora insistisse que não era culpado de conspirar pela morte do soberano. Já os outros prisioneiros, negaram todas aquelas acusações e se declararam inocentes. No caso de Brereton, o embaixador imperial Eustace Chapuys disse que ele era “condenado sob presunção e circunstâncias, não por prova ou confissão válida, e sem testemunhas” (WEIR, 2010, p. 206). Quanto a Norris, ele protestou que “quando sua própria confissão fora colocada diante de si, fora ludibriado” pelas trapaças de FitzWilliam. Apesar de se defenderem com firmeza, todos os quatro foram condenados “de usar fornicação com a rainha Ana e também de conspirar a morte do rei” (WEIR, 2010, p. 208).

Para crimes de alta traição cometidos por pessoas não-nobres, a condenação era a mais terrível possível: eram enforcados até quase morrer, depois eviscerados, castrados e, por último, esquartejados. Os machados das sentinelas, que estavam virados em sentido contrário quando eles entraram em Westminster Hall, de repetente apontaram suas lâminas para eles, sinalizando que daquele recinto saiam quatro homens condenados à morte. Enquanto isso, a rainha Ana Bolena estava impaciente na sua cela na Torre de Londres, a mesma em que ela permaneceu por ocasião de sua coroação. Desde o dia 2 de maio que ela tinha sido levada para lá, sem saber direito pelo que estava sendo presa. Após ter dado à luz a uma menina em 1533 e abortado dois fetos do sexo masculino, ficou claro para Henrique VIII de que aquela mulher não era capaz de gerar o sucessor que ele tanto desejava para a Coroa. Era preciso então se livrar desta segunda rainha, da mesma forma como ele fez com a primeira. Com Catarina de Aragão, que se negou veementemente a reconhecer a invalidade de seu casamento, o rei travou uma disputa exaustiva que durou até a morte dela por causas naturais, em janeiro de 1536. Tudo o que monarca não queria agora era outra esposa lhe causando tormentos, enquanto planejava tomar uma terceira.

Henrique VIII (quadro de Hans Holbein).

Temendo que uma guerra civil voltasse a perturbar o país pela ausência de um herdeiro varão, o rei chegou à conclusão de que precisava tirar Ana Bolena do caminho o quanto antes. Seu secretário, Thomas Cromwell, assediou todos os membros da casa da rainha num severo interrogatório, recheado de ameaças, para levantar provas contra ela. Uma das primeiras acusadoras foi Lady Worcester, nobre que havia sido admoestada pelo irmão, Sir Anthony Browne, por tomar um amante no início de 1536. Quando confrontada com essa acusação, Lady Worcester disse que sua conduta não era pior do que a da própria rainha. Outra de suas damas, Lady Rochford, esposa de George Bolena, disse que havia testemunhado um procedimento incomum entre irmão e irmã e que eles constantemente zombavam das roupas do rei, sugerido também que o monarca era impotente. Mais um depoimento surgiu de uma fala de Lady Wingfield, falecida em 1534, mas que teria aparentemente reprovado o relaxamento da moralidade da rainha em seu leito de morte. Convenientemente, esta última acusação foi levantada quando o secretário do rei pretendia mover um processo contra a esposa do rei. Uma vez presa na Torre, todas as palavras ditas por Ana Bolena deveriam ser anotadas e copiadas para que pudessem ser utilizadas no seu julgamento.

De acordo com as informações levantadas por Cronwell, Ana Bolena teria cometido adultério com seu irmão e mais quatro homens em várias ocasiões. Primeiramente com Henry Norris, em Westminster no dia 6 e 12 de outubro de 1533 e novamente no palácio de Greenwich, em novembro, com William Brereton. Nos meses de maio e junho de 1534 ela ofendeu o rei com Francis Weston no palácio de Whitehall e Greenwich, onde também teve intercurso com Mark Smeaton. Em novembro e dezembro de 1535, ela teria se entregado ao próprio irmão em Whitehall e Eltham, respetivamente. Segundo Eric Ives (2010, p. 344) uma investigação cuidadosa comprova que pelo menos 3/4 dessas acusações poderiam ser refutadas. A documentação comprova que em doze casos Ana Bolena estava em lugares diferentes e na companhia de outras pessoas. Por exemplo, em outubro de 1533 a rainha estava se recuperando do parto da princesa Elizabeth, assistida por uma grande quantidade de damas e sem a presença de cortesãos. Solicitar os serviços de Smeaton em 13 e 19 de maio de 1535 no palácio de Greenwich também parece bastante improvável, uma vez que nessa ocasião a rainha se encontrava em Richmond. Apenas para três das acusações ela não tinha um álibi: a de Greenwich, em novembro de 1533, e nas comemorações do natal de 1535-6.

Com efeito, Henrique parece que não ponderou sobre a validade daquelas afirmações, convencido como estava de que tinha sido induzido àquele casamento por meio de sortilégios e que Ana Bolena tinha um plano secreto para envenena-lo, bem como a princesa Maria e Henry Fitzroy, seu filho bastardo. O monarca deu então autorização para que as prisões necessárias fossem feitas e para que o julgamento da rainha procedesse. A última vez em que se viram foi num torneio de justa para celebrar o 1 de maio. A partir de então, Ana Bolena estava com os dias contados, uma vez que os julgamentos criminais ocorridos no período Tudor eram organizados mais com o propósito de assegurar a condenação do que a absolvição. Os homens acusados de manter intercurso carnal com a rainha foram ouvidos primeiro, para que suas respostas pudessem oferecer mais evidências no processo contra a soberana, que teve lugar na Torre de Londres no dia 15. Ana também era acusada de dar presentes aos seus amantes em Westminster no dia 27 de novembro de 1535, quando ela na verdade estava em Windsor, e outra vez em Eltham no dia 31 de dezembro. Não obstante, a rainha tinha o costume de distribuir lembranças para todos os membros de sua casa e criados, especialmente durante o natal e no ano novo. A gentileza foi usada aqui como sinal de favorecimento e má conduta.

Manter relações carnais com uma soberana consorte era um crime cometido não só ao corpo do rei, como também manchava a linhagem real. Numa época em que nem se cogitava a existência do DNA, recaia sobre a mulher, mais do que ao homem, a punição pelo adultério. Em toda a sua vida como rainha, Ana Bolena repreendia suas damas de companhia por comportamentos que ela considerava levianos e mantinha nos seus aposentos a Bíblia de Tyndale aberta para que elas pudessem ler e se inspirar nas sagradas escrituras. Nenhuma prova ou depoimento sobre o relaxamento de sua conduta moral apareceu até aquele ano de 1536, quando ela foi levada a julgamento. Na opinião da biógrafa Antonia Fraser:

O julgamento da rainha Ana foi uma operação cínica, com a finalidade de ter apenas um resultado: sua morte. Essa morte era necessária para que o rei pudesse fazer um terceiro casamento, tão impoluto quanto a reputação de sua nova namorada. Quanto a isso, o julgamento da rainha foi completamente diferente da provação sofrida pela rainha Catarina em 1529: naquela época, pelo menos, em Blackfriars, houvera um autêntico espírito de inquérito – ou, de qualquer modo, uma certa confusão autêntica – sobre a validade de seu casamento com o rei Henrique. Mas ninguém tinha qualquer dúvida, seja durante o julgamento dos supostos amantes de Ana Bolena, seja durante o próprio julgamento dela, de que se esperava chegar a um veredito de culpada e de que ele seria dado (FRASER, 2010, p. 326).

Thomas Cromwell, (por Hans Holbein).

Como era comum em muitas cortes da Europa, é possível que Ana Bolena tivesse desempenhado com alguns desses cortesãos acusados, incluindo com o próprio rei, um jogo de amor cortês, baseado nas demonstrações de afeto por parte de um cavaleiro a uma dama. A rainha se divertia com os versos românticos que lhe eram dirigidos, mas quando percebia que seus admiradores iam longe demais, os reprendia sem dó. Como fez em certa ocasião com Mark Smeaton, pela presunção de dizer que estava apaixonado por ela, ao que Ana respondeu com veemência, fazendo alusão ao baixo nascimento do tocador de alaúde. Quanto a Sir Francis Weston, a soberana ralhou com ele por flertar com sua prima Medge Shelton, que estava noiva de Sir Henry Norris. Com ousadia, Weston se desculpou, dizendo que ia à câmara da rainha para ver nenhuma outra pessoa a não ser ela mesma. Ultrajada, Ana Bolena o proibiu de ir adiante nesse tipo de galanteio. Já no caso de Norris, a soberana estava impaciente com a demora dele em desposar Madge e teria lhe dirigido as seguintes palavras imprudentes: “você lucraria com a morte de uma pessoa, pois se algo de mau acontecesse ao rei, você procuraria me conquistar” (FRASER, 2010, p. 333). Diálogo esse que poderia ter sido feito numa situação bastante despreocupada, mas que foi descontextualizado para embasar a argumentação de que a rainha e Norris estavam conspirando para causar a morte de Henrique VIII.

No domingo, dia 15, Ana Bolena se dirigiu ao Grande Salão da Torre de Londres. Cerca de duas mil pessoas estavam ali presentes para testemunhar o julgamento de uma rainha ungida por Deus. Entre os pares que conduziriam o inquérito estavam o duque de Norfolk, tio de Ana, que presidia o processo como meirinho-mor. Havia também o sogro de George Bolena, lorde Morley, e Henry Percy, conde de Northumberland, antigo pretendente de Ana. O pai da soberana, Thomas Bolena, conde de Wiltshire, foi poupado da tarefa de ter que condenar a sua própria filha. Segundo o arauto Charles Wriothesley, a rainha deu “respostas sensatas e discretas aos seus acusadores”, exonerando-se de todas as acusações que eram levantadas contra ela. Apenas Mark Smeaton, na esperança de conseguir um perdão real, havia confessado manter relações sexuais com sua senhora. Todos os demais negaram até o final. Mas o veredito contra a ré já estava previamente acordado entre seus algozes. Uma vez que os outros homens tinham sido condenados à morte, dificilmente haveria escapatória para Ana. É de se pensar: teria ela arriscado sua posição, arduamente conquistada, mantendo intercurso sexual com membros da câmara do rei? Apesar disso, a sentença foi proferida. Um a um, os pares disserem “culpada, culpada, culpada”. A rainha seria queimada ou decapitada, de acordo com a vontade de Henrique VIII.

Em seguida, foi a vez de George Bolena ser levado à corte. As provas de que ele teria cometido incesto com a irmã eram quase patéticas. Confrontado com a afirmação de Lady Rochford, ele disse aos juízes: “com base no depoimento de apenas uma mulher, os senhores estão dispostos a acreditar que cometi esse grande pecado” (FRASER, 2010, p. 336). Muitos apostadores disputavam se George sairia vivo ou não. Mas a finalidade das acusações contra ele era denegrir a imagem de sua irmã ao ponto em que sua suposta natureza malévola se tornasse um artigo de fé. Quando apresentaram ao réu as palavras que Ana Bolena teria dito à cunhada, de que “o rei era incapaz de copular com sua mulher e não tinha nem habilidade, nem virilidade” (FRASER, 2010, p. 336), George leu o texto em voz alta para todo o tribunal, expondo assim a imagem do monarca ao ridículo. A sentença, pronunciada por Norfolk, foi a mesma da rainha. Depois disso, ambos os condenados admitiram que mereciam ser punidos, procedimento esse que estava de acordo com os protocolos do tribunal, caso algum dos dois procurasse um pedido de perdão ou mesmo para evitar o confisco de seus bens. Dois dias depois, os cinco homens acusados de traição e adultério com a rainha foram executados em Tower Hill.

Ana Bolena na barca atravessando os portões da Torre, por Millar Watt.

Quanto a Ana Bolena, sua execução estava marcada para o dia 18 de maio, mas esta precisou ser adiada em um dia, devido ao atraso do espadachim vindo diretamente de Calais com o propósito de decepar sua cabeça. Porém, não seria como rainha que Ana entregaria seu pescoço à lâmina afiada da espada. O arcebispo Cranmer, o mesmo que havia anulado o primeiro matrimônio de Henrique VIII e validara o segundo, preparou mais um divórcio para o soberano.  Assim, ele estaria livre para se casar com Jane Seymour. Essa farsa jurídica, por si só, anulava grande parte das acusações feitas contra a rainha. Afinal, se ela e Henrique nunca foram casados, como Ana poderia ter cometido adultério com outra pessoa? A justificativa foi que Henrique mantivera relações carnais com Maria Bolena antes de conhece-la e, de acordo com os termos do Levítico, não podia contrair nupciais com a irmã de sua amante.  O decreto de nulidade foi datado no dia 17 de maio e assinado em 10 de junho, quando o corpo de Ana Bolena jazia numa tumba incógnita na capela de St. Peter Ad Vincula. Cranmer, que ouviu a última confissão da vítima, disse que “jamais tive melhor opinião sobre uma mulher do que a que tenho sobre ela, o que me faz pensar que ela não deve ser culpada” (FRASER, 2010, p. 340). Nas palavras do arcebispo, Ana deixava sua coroa terrena para se tornar uma “rainha no céu”.

Referências Bibliográficas:

FRASER, Antonia. As seis mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento e Silva. 2ª ed. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2010.

IVES, Eric W. The life and death of Anne Boleyn: ‘the most happy’. – United Kingdom: Blackwell Publishing, 2010.

NORTON, Elizabeth. The Anne Boleyn Papers. UK: Amberley, 2013.

WEIR, Alison. The lady in the tower: the fall of Anne Boleyn. – New York: Ballantine Books, 2010.

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