Catarina de Médici, rainha da França: uma vida em 10 objetos!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Catarina de Médici entrou para a história como uma mulher vil, responsável pelo assassinato de milhares de protestantes durante as guerras de religião na França e também por se livrar de inimigos através de meios sórdidos. A propaganda huguenote realizada contra a rainha italiana, aliada à literatura do século XIX, corroborou para endossar na memória nacional essa imagem nada favorável. Contudo, pesquisas recentes, baseadas em cartas e documentos relativos ao período em que a esposa de Henrique II viveu, têm contribuído para a desconstrução desse estereótipo, ao apresentar a soberana como uma mulher pragmática, que conseguiu proteger a Coroa enquanto facções rivais (os Guise e os Châtillon) assolavam o país com sua ambição pessoal. Além disso, Catarina de Médici, assim como muitos membros de sua família na Itália, foi uma importante mecenas, que contribuiu para o florescimento do espírito do renascimento artístico no país. Ela comissionou a reforma de belos palácios, como o Louvre e as Tulheiras, e contratou artistas para trazer brilho à corte dos últimos reis Valois. Nessa matéria, selecionamos 10 objetos que contam um pouco da trajetória envolvente da florentina que mudou a história da França.

1) CAIXA DE JOIAS

Catarina Maria Romola di Médici nasceu em 13 de abril de 1519, em Florença. Era filha de Lourenço II de Médici com a nobre francesa Madalena de La-Tour de Auvérnia. Tendo ficado órfã muito cedo, ela foi dada aos cuidados de parentes, durante uma fase bastante tumultuada na história italiana. Em 1529, quando as tropas do imperador Carlos V invadiram Florença, ela teve que se refugiar no convento de Santa Úrsula e por pouco não foi abatida pelos soldados. Seu tio, o papa Clemente VII, a trouxe para morar consigo em Roma no ano seguinte e então começou a procurar um casamento vantajoso para a sobrinha. Em 1533, o rei Francisco I da França propôs a união da moça com seu segundo filho, Henrique, duque de Orleans. Uma vez selado o contrato matrimonial, Catarina recebeu de presente uma belíssima caixa de joias de cristal, com entalhes trabalhados pelo mestre Vallerio Belli Vincentino. Seus 22 painéis reproduzem cenas da vida de Cristo e é feita de prata e folha de ouro. Hoje, esse objeto se encontra preservado na Galleria degli Uffizi, em Florença. A coleção de joias que a noiva trouxe consigo para a França era sem paralelo: incluíam cordões de perolas enormes, anéis, cintos de ouro incrustados com rubis, pérolas em formato de pera (que diziam ter o valor de “um reino”) e dois enormes diamantes.

2) LIVRO DE ORAS

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Uma das responsabilidades de Catarina enquanto duquesa de Orleans era gerar uma prole considerável de herdeiros para a Coroa. Era essencial que pelo menos um deles fosse um garoto, já que pelo costume francês as mulheres estavam impossibilitadas de herdar os bens paternos. Entretanto, a jovem duquesa passou por momentos muito difíceis na corte dos Valois. Era achincalhada pelos nobres por ser descendente de uma família de banqueiros, ainda por cima italianos, e também não despertou o interesse sexual do marido. Por quase 10 anos, Catarina teve que dividir as atenções de Henrique com Diana de Poitiers, sua amante. Em 1536, o filho mais velho do rei Francisco I morreu e o duque de Orleans se tornou o novo delfim da França. A situação ficou então muito complicada para Catarina, já que ela poderia ser posta de lado por uma princesa capaz de gerar os filhos que o príncipe necessitava. Mas, graças aos concelhos sexuais de Diana e a uma pequena cirurgia no delfim, a nova delfina finalmente conseguiu engravidar. Dez anos após o seu casamento, ela deu à luz um menino no dia 10 de fevereiro de 1544, que foi batizado de Francisco, em homenagem ao avô. Até 1553, Catarina deu ao marido cerca de um filho por ano e passou de esposa estéril para uma das rainhas mais prolíferas da história da Europa. Um livro de oras, que pertenceu à rainha e se encontra conservado no Museu do Louvre, possui paletas desenhadas pelo artista François Clouet, representando seu marido, filhos e sobrinhos.

3) RETRATO PINTADO POR FRANÇOIS CLOUET

Em 31 de março de 1547, falecia o rei Francisco I. A partir de então, Henrique e Catarina se tornaram os novos rei e rainha da França. Ela foi pintada em várias ocasiões pelo artista e miniaturista François Clouet, ricamente paramentada. Embora não fosse considerada uma mulher bonita, Catarina era bastante inteligente, sendo fluente em mais de um idioma, versada em literatura e na arte da conversação. Antes de morrer, seu sogro podia ser visto conversando com ela por horas, ou cavalgando ao seu lado. O embaixador veneziano, Michele Soranzo, descreveu a soberana num despacho datado de 1558 nos seguintes termos: ” a rainha Catarina tem um rosto extremamente grande, embora seu corpo seja proporcional. É muito generosa, particularmente com os italianos. É amada por todos e mais do que ninguém ama o rei, a quem acompanha sempre, superando todas as fadigas. O rei a honra e confia nela […] o fato de ela ter-lhe dado dez filhos conta muito para esse apego por ela” (apud FRIEDA, 2009, p. 161). Já o veneziano Giovanni Capello reparou que “sua boca é grande demais e seus olhos muito saltados e sem o brilho da beleza, mas é uma mulher de aspecto muito distinto, com uma figura bem moldada, uma bela pele e mãos de formato refinado” (apud FRIEDA, 2009, p. 161). Não obstante, Catarina sempre tinha um sorriso agradável para todos e palavras bem escolhidas para para cada um dos seus convidados.

4) TALISMÃ

Catarina de Médici também era uma mulher muito supersticiosa e fazia consulta com profetas e adivinhos. Carregava consigo vários talismãs, como o que podemos ver na foto acima, por acreditar que estes desviavam o mau olhado e lhe protegiam de pessoas com más intenções. Um dos videntes mais famosos consultados pela rainha foi o médico e alquimista Nostradamus, que lhe fez várias profecias, incluindo a morte de seu marido. Henrique II foi atingido no olho por uma lança enquanto duelava numa justa (seu esporte favorito) e não resistiu ao ferimento. Faleceu no dia 10 de julho de 1559. Curiosamente, conta-se que Catarina teve um sonho premonitório e então implorou em vão ao marido para que ele desistisse de competir. Quatro anos antes, Nostradamus havia publicado nas sua Centúrias um verso relacionado à morte do monarca: O jovem leão superará o velho,/ No campo de batalha em duelo singular,/ Na gaiola de ouro lhe furará os olhos:/ Duas classes uma, depois morrer, morte cruel. Henrique foi então sucedido por seu filho mais velho, Francisco, que se tornou o rei Francisco II da França. Sua esposa era Mary Stuart, rainha da Escócia.

5) O DIAMANTE BRIOLETTE DA ÍNDIA

Ao longo de seu relacionamento com Diana de Poitiers, Henrique II a cobriu com muitas joias, incluindo o belíssimo diamante cortado em forma de gota, conhecido como Briolette da Índia. Pesando cerca de 90,38 quilates, a joia estava entrou em posse da família real francesa pela primeira vez no século XII, quando foi adquirido por Eleonor de Aquitânia, então rainha consorte de Luís VII. Depois que Eleonor deixou a França para se casar com o rei Henrique II da Inglaterra, o diamante foi herdado por seu filho, Ricardo Coração de Leão, que o teria levado consigo para a Terceira Cruzada. A partir daí, o paradeiro da pedra permanece desconhecido por quase três séculos, quando ela surge novamente nas mãos de Henrique II da França. Após a morte do rei, Diana devolveu para Catarina todas as joias que seu amante lhe dera, incluindo o Briolette da Índia. Junto com o diamante, ela enviou também uma carta para a rainha-viúva, pedindo perdão por todos as ofensas que pudesse lhe ter cometido.

6) CAMA DA RAINHA NO CHÂTEAU DE CHENONCEAU 

Uma das propriedades mais cobiçadas por Catarina de Médici era o belíssimo Château de Chenonceau, que Henrique II havia dado para Diana de Poitiers. Junto com as joias, a rainha-viúva exigiu também que a antiga amante de seu marido lhe entregasse as chaves do palácio, localizada na região do rio Loire, ao sul de Chambord. Propriedade da Coroa e utilizado como residência real, Chenonceau é um lugar excepcional, não só por causa do seu design deslumbrante (abrangendo o rio Cher) como também pela riqueza de suas decorações. Ao longo de sua história, foi uma residência edificada, administrada e protegida por algumas das mulheres mais importantes da França. Conhecido também como o Château des Dames, sua aparência atual data de 1513, graças a Katherine Briçonnet. Foi sucessivamente embelezado por Diana de Poitiers e depois por Catarina de Médici. O edifício permaneceu protegido dos tumultos da Revolução Francesa por Madame Dupin e hoje é um importante ponto turístico. O visitante pode conhecer o quarto da rainha Catarina, contendo uma cama de madeira com dossel que teria sido utilizada pela própria soberana nas muitas ocasiões em que esteve no Château. 

7) BROCHE DE ESMERALDA DE 1571

Depois da morte de seu marido, Catarina de Médici adotou um luto rigoroso. Os quadros dela pintados por François Clouet a partir desse período a mostram sempre em vestes negras, coberta por um véu. Todos os belíssimos adornos que ela havia trazido consigo da Itália como presente de casamento não lhe tinham mais tanta utilidade, exceto em algumas ocasiões, quando um broche ou pingente podia ser adicionado ao veludo escuro de seu vestido (como o que podemos observar na foto acima, quando uma grande esmeralda quadrada no meio). Em 1560, seu filho mais velho, Francisco I, morreu, passando a coroa para o pequeno Charles. Catarina foi então nomeada rainha regente da França, numa época em que o país estava sendo assolado pelas guerras de religião entre católicos e huguenotes. As facções rivais, lideradas pelos Guise e os Châtillon, viam a ausência de um rei adulto como uma oportunidade para promover suas ambições pessoais. Catarina precisou então de muita determinação para proteger a Coroa, fazendo tratados com países vizinhos, como a Espanha, e adotando uma política de contemporizações, no intuito de afagar os ânimos exaltados no país. Ela acreditava que, casando sua filha mais nova, Margarida de Valois, com o rei protestante Henrique de Navarra, conseguiria por um fim nas dissensões religiosas. O resultado desse casamento foi a fatídica noite de São Bartolomeu, ocorrida em 24 de agosto de 1572, que culminou no assassinato de milhares de huguenotes por soldados da Coroa liderados pelo duque de Guise.

8) GRAMPO DE CABELO

A maioria das joias de Catarina de Médici foram distribuídas entre suas filhas, noras e sobrinhas. Ao deixar a França em 1561, Mary Stuart, por exemplo, levou consigo as belíssimas pérolas em formato de pera (que diziam ter o valor de “um reino”) que Catarina havia trazido consigo da Itália. Depois de sua execução em 1587, estas passaram para as mãos da rainha Elizabeth I da Inglaterra. Hoje em dia, é muito difícil encontrar qualquer adereço que tenha pertencido à soberana, a despeito de sua magnífica caixa de joias e do broche exposto no parágrafo anterior. Em junho de 2012, enquanto o Château de Fontainebleau passava por reformas, foi encontrado sob o chão do banheiro feminino um grampo de cabelo em ouro com a inicial da rainha. Catarina certamente o usava para fazer seus penteados ou então para prender os capelos que costumava usar como acessório aos trajes de viúva. Os arqueólogos que trabalhavam no local ficaram maravilhados com a descoberta, principalmente devido ao caráter singular de onde a peça foi encontrada.

9) TAPEÇARIA DE 1573

Catarina de Médici foi também uma amante da arte da tapeçaria e costumava encomenda-las para embelezar seus aposentos nos palácios reais; Elas geralmente retratavam cenas bíblicas ou eventos protagonizados pela família real, como a que podemos ver acima. Ela retrata a chegada dos embaixadores polacos para celebrar a eleição do filho de Catarina, Henrique III, como rei da Polônia. A rainha-viúva aparece trajada de negro no centro da tela. Em 30 de maio do mesmo de 1574, morria Carlos IX, de tuberculose, aos 24 anos de idade. Como o rei não tinha filhos legítimos, ele foi sucedido pelo irmão Henrique. Foi dito a Catarina por Nostradamus que seus três filhos mais velhos cingiriam a coroa. Agora, dois já haviam morrido e o medo de que a dinastia de Valois chegasse ao fim começou a se apoderar da rainha-mãe. Era preciso que o novo monarca gerasse um sucessor o quanto antes, pois no caso do falecimento de Henrique III e do seu irmão mais novo, o duque de Aleçon, a coroa passaria para as mãos de Henrique de Bourbon, rei de Navarra, casado com Margarida de Valois.

10) EFÍGIE TUMULAR

Antes de morrer, Catarina de Médici começou a encomendar a edificação de seu túmulo junto com o rei Henrique II da Catedral de Saint Denis. A primeira versão de sua efígie tumular deixou a rainha horrorizada. Esculpida pelo artista florentino Girolamo della Robbia, a peça é de um realismo chocante. Apresenta Catarina em versões cadavéricas, com os ossos da costela à mostra. O projeto foi abandonado em 1566, mas a efígie sobreviveu e hoje por ser contemplada no Château de Blois. No dia 5 de janeiro de 1589, a rainha já estava muito doente e mal conseguia falar. Com grande dificuldade, ela ditou um testamento na presença do filho e da rainha Luísa. Morreu naquele mesmo dia, à uma e meia da tarde, em decorrência de uma bronquite pulmonar.

Referências Bibliográficas:

FRIEDA, Leonie. Catarina de Médici: poder, estratégia, traições e conflitos – a rainha que mudou a França. Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.

GOLDSTONE, Nancy. The Rival Queens. Nova Iorque: Back Bay Books, 2015.

SOLNON, Jean-François. Catarina de Médicis (1519-1580). Tradução de Inês Castro. Lisboa: Bertrand, 2004.

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