Das cinzas à vida: rosto de escocesa condenada por bruxaria no século XVIII é reconstruído!

No início do século XVIII, as perseguições e julgamento de mulheres acusadas de bruxaria foram se tornando cada vez mais raras na Europa continental e nas ilhas Britânicas. O ápice da chamada caça às bruxas ocorreu entre os anos de 1560 e 1660, em meio às crescentes tensões entre católicos e protestantes, que culminaram nas sangrentas guerras de religião. Em 1692, por exemplo, a cidade de Salém, localizada na baía de Massachusetts, fora palco do mais famoso inquérito de mulheres (e de poucos homens também) acusadas de pacto com o diabo e de feitiçaria. Muitas pessoas inocentes foram enforcadas, devido à má condução do processo de investigação, contribuindo assim para desacreditar esse tipo de julgamento junto às autoridades judiciais e religiosas. Não obstante, com a difusão dos ideais iluministas, passou-se a combater fortemente o misticismo e a crença no sobrenatural. Porém, entre a classe camponesa, o imaginário de bruxas, duendes, feitiços e encantamentos sobreviveu ainda por algumas décadas, conforme podemos observar no caso de Lilias Adie, de Torryburn (Fife, Escócia), que foi acusada de bruxaria em 1704, depois que ela aparentemente “confessou” suas relações com o diabo (incluindo um relacionamento sexual).

A face reconstruída de Lilias Adie, condenada por bruxaria em 1704.

O período que se estende entre os séculos XV e XVIII apresenta algumas figuras surpreendentes, quando se trata do contexto de caça às bruxas. De acordo com os dados, cerca de 40.000 a 60.000 pessoas foram julgadas e executadas como bruxas na Europa e nas colônias americanas, sendo que 10.000 a 15.000 dessas vítimas eram homens. Condenada a ser queimada viva, Lilias Adie acabou morrendo na própria prisão. A causa da morte foi dada como “desconhecida”, embora os boatos de que ela teria cometido suicídio tenham sido amplamente divulgados na época. Em 2017, pesquisadores da Universidade de Dundee reconstruíram o rosto da mulher idosa, para o programa de viagens no tempo da BBC Radio Scotland. Os pesquisadores, associados ao Centro de Anatomia e Identificação Humana da Universidade (CAHID), acreditam que a reconstrução da face de Lilias Adie seja a única evidência precisa de como uma mulher acusada de bruxaria na Escócia se pareceria. Como a maioria dos acusadas ​​eram queimadas, isso dificultou bastante as possibilidades de se recriar o rosto de alguma “bruxa”.

Segundo Jeffrey B Russel, a bruxaria nas ilhas Britânicas diferiu bastante da Europa continental, onde a Igreja Católica associava essa prática a uma forma de culto e adoração ao Diabo. Na Inglaterra e na Escócia, nos quais vigorava o protestantismo, não havia Inquisição, apenas uma fraca tradição de heresia. Para Russel, a bruxaria nesses países se aproximava mais da feitiçaria, com ênfase na suposta capacidade das feiticeiras em rogar pragas e lançar encantamentos nas pessoas. Mas, na época em que transcorreu o julgamento de Lilias Adie, “a bruxaria já estava fora de moda entre os intelectuais, era raramente levada a sério pelas autoridades governamentais e tinha começado a desvanecer-se na crença popular” (RUSSEL, 2019, p. 129). Os julgamentos de bruxas também foram terminando nas últimas décadas do século XVII, com raras exceções no primeiro quartel do século seguinte, conforme demonstra o próprio inquérito de Lilias, ocorrido na Escócia, e o de Jane Wenham na Inglaterra, em 1731. No último caso, a acusada foi absolvida.

Fotografias do crânio de Lilias Adie.

Seguindo uma prática inusitada, os habitantes da região tentaram aprisionar os restos de Adie em seu túmulo, possivelmente como uma “precaução” contra seus assombros. A curiosidade científica, nesse caso, foi mais forte, abrindo assim o caminho para que o projeto de reconstrução de sua face se tornasse possível. No século XIX, alguns antiquários decidiram desenterrar o túmulo de Lilias Adie para fins de estudos e exibição. Seu crânio foi enviado ao Museu da Universidade St Andrews, onde foi fotografado há mais de 100 anos. Seus restos mortais acabaram sendo perdidos no século XX, mas as evidências fotográficas foram recuperadas nos arquivos da Biblioteca Nacional da Escócia.

Os especialistas forenses do CAHID basearam-se nas fotografias do crânio de Lilias Adie, contrapondo-as a um crânio real, para o processo de recriação de seu rosto. Para tanto, os pesquisadores tiveram que investir quase o dobro do tempo de um processo de reconstrução facial mais comum, que leva cerca de 10 a 20 horas para desenvolver a estrutura muscular e finalmente recriar o rosto com suas características realistas. Além do processo mais meticuloso, a reconstrução também trouxe suas novidades. O Dr. Christopher Rynn, que chefiou o trabalho na escultura virtual em 3D, disse:

Quando a reconstrução atinge a camada de pele, é como conhecer alguém e eles começam a lembrá-lo de pessoas que você conhece, pois você aprimora a expressão facial e adiciona texturas fotográficas. Não havia nada na história de Lilias que me sugerisse que hoje em dia ela seria considerada outra coisa que não uma vítima de circunstâncias horríveis, então não vi razão para colocar o rosto em uma expressão desagradável ou mesquinha e ela acabou sendo bastante gentil.

A historiadora do programa Time Travels da BBC Radio Scotland, Louise Yeoman, acrescentou:

Eu acho que ela era uma pessoa muito inteligente e inventiva. O objetivo do interrogatório e suas crueldades era obter nomes. Lilias disse que não podia dar o nome de outras mulheres nas reuniões das bruxas, pois estavam mascaradas como mulheres gentis. Ela só deu nomes que já eram conhecidos e continuou apresentando boas razões para não identificar outras mulheres para esse tratamento horrendo – apesar do fato de provavelmente significar que não havia mais desânimo para ela. É triste pensar que seus vizinhos esperavam algum monstro aterrorizante quando ela era realmente uma pessoa inocente que havia sofrido terrivelmente. A única coisa monstruosa aqui é o erro da justiça.

Graças à esse procedimento, podemos agora ter uma noção melhor de como se pareciam as muitas mulheres inocentes, que foram injustamente condenadas por bruxaria ou feitiçaria. Aqui, não vemos narizes longos, chapéus pontudos e pele esverdeada e sim a face de uma senhora que, mesmo morta há 316 anos, ainda tem uma história muito interessante para contar.

Fontes:

Realm of History – Acesso em 30 de março de 2020.

RUSSELL, Jeffrey B.; ALEXANDER, Brooks. História da Bruxaria. Tradução de Álvaro Cabral e William Lagos. 2ª ed. São Paulo: Aleph, 2019.

 

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