O vestido branco da rainha: o impacto do casamento de Vitória no restante do mundo!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A união do príncipe William com Kate Middleton, ocorrida 29 de abril de 2011, foi chamada pela impressa de “O Casamento do Século”. Milhares de pessoas, de várias partes do mundo, assistiram a procissão que partiu em cortejo rumo à abadia de Westminster, local de realização da cerimônia, gerando assim grandes lucros para a receita da Inglaterra. Outro evento importante para a família real britânica foi o casamento do príncipe Harry com a atriz Meghan Markle, que aconteceu em 19 de maio 2018 e que até hoje rende anúncios em vários tabloides, devido à recende despedida do casal de suas obrigações para com a realeza. Cerimoniais como casamentos, jubileus, inaugurações de monumentos, funerais e demais eventos que envolvam aparições de membros da família real são de suma importância para a manutenção da monarquia na comunidade de nações britânicas. Fãs de todo o mundo ligam o rádio, a televisão ou a internet para acompanhar e comentar cada aspecto nos seus mínimos detalhes. Essas tradições, por sua vez, remontam a séculos e acabaram influenciando a forma como as pessoas passaram a celebrar seus próprios eventos, sejam eles núpcias, batizados ou enterros.

Foto oficial do casamento do príncipe Harry com Meghan Markle, ocorrido em 19 de maio de 2018.

Apesar de nem todas as mulheres disporem de uma carruagem para lhes deixar na porta da Igreja no dia de seu casamento, um acessório que a maioria delas não dispensa é o vestido de noiva branco, tradição essa que ganhou popularidade com outro casamento real, embora realizado há 180 anos: o da rainha Vitória com o príncipe Albert. Ocorrida em 10 de fevereiro de 1840, a cerimônia do casamento da rainha da Inglaterra, então com 20 anos, foi amplamente divulgada por todos os jornais da época, nos aspectos mais minuciosos, como as crinolinas do casamento, seus chinelos de manchas, seu broche de safira, sua carruagem dourada e seu bolo de trezentos quilos. Conforme ressalta a biógrafa Julia Baird:

O casamento entre Vitória e Albert é um dos maiores romances da história moderna. Foi genuíno, devotado e fecundo. Juntos, foram os arautos de uma era em que a monarquia passou do poder direto para a influência indireta, de fruto da aristocracia para símbolo da classe média. Eles restauraram e elevaram a estatura da monarquia, preservando-a das revoluções que derrubaram as famílias reais e aristocráticas na Europa nos mesmos anos que Vitória e Albert eram amplamente festejados na Grã-Bretanha (2018, p. 156).

Uma vez que a tecnologia do período não dispunha de meios para registrar as núpcias da soberana através de imagens reais, exceto pelas fotos que o casal fez catorze anos depois do evento, ilustrações foram produzidas a bico de pena, além de quadros alegóricos, retratando o momento em que os noivos tomavam seus votos. Contudo, o que mais chamou a atenção das pessoas foi o vestido branco da rainha.

Casamento da rainha Vitória com o príncipe Albert, ocorrido em 10 de fevereiro de 1840. Tela de George Hayter.

Tradicionalmente, o branco era uma cor associada ao luto. Na França, por exemplo, tínhamos a Reine Blanche, nome que era dado à rainha viúva, devido à cor de seu véu, conforme podemos observar nos vários retratos de Mary Stuart, baseados num rascunho do artista François Clouet, retratando-a como viúva após a morte de seu primeiro marido, o rei Francisco II. O mais usual, nesse caso, era que as noivas utilizassem vestidos de tecidos mais coloridos, como o azul, o dourado, ou o púrpura, no caso da realeza. Já as mulheres das classes baixas, preferiam a seda preta. Vestidos esses que, diga-se de passagem, eram reaproveitados. Porém, a rainha Vitória quis fazer diferente no seu próprio casamento. Apesar de algumas mulheres, como foi o caso da própria Mary Stuart e da imperatriz Amélia de Leuchtenberg, terem usado o branco em suas núpcias, ele só se tornaria popular a partir de 1840, quando Vitória apareceu na nave da abadia de Westminster usando um padrão de rendas decorado com flores de laranjeira. Diz-se que depois de pronto, o desenho do vestido foi destruído, para que pudesse ser copiado por ninguém.

O vestido branco da rainha Vitória.

Às 8h45 da manhã de 10 de fevereiro de 1840 ela começou a ser preparada por suas damas. O vestido de cetim branco, com folhos de renda e uma cauda de seis metros com orla enfeitada com flores de laranjeira foi cuidadosamente abotoado no seu corpo; nas orelhas, brincos de diamante turco, um colar no pescoço e no peito um broche de safira que ganhara do príncipe Albert. A rainha ficou com os pés estendidos para que as fitas de seda dos seus delicados sapatos de cetim branco fossem amarradas nos seus tornozelos; na cabeça, uma grinalda simples de murta e flores de laranjeira. A roupa da noiva tinha sido escolhida com o maior cuidado: o tecido vinha do centro histórico da indústria de seda de Londres, nos Spitalfields. Cerca de 200 rendeiros de Devon trabalharam na roupa por meses; as luvas de pelica também foram feitas na capital. A rainha ainda encomendara um enorme rolo de renda de Honiton, feita à mão, o que contribuiu para reativar o setor que até então estava em declínio na Inglaterra.

Fotografias de Vitória e Albert usando seus trajes de noivo, feitas catorze anos depois da cerimônia de casamento.

Os detalhes do casamento de Vitória e Albert foram tão difundidos pelos quatro cantos do mundo, por meio de propagandas e campanhas publicitárias, que o branco acabou virando tendência no vestido das noivas, para representar sua virtude e pureza, muito embora Vitória o tivesse escolhido para destacar a delicadeza do rendado de seu vestido. Ainda de acordo com Julia Baird:

A rainha pedira que, afora as damas de honra, ninguém mais usasse branco na cerimônia. Alguns interpretaram erroneamente a escolha da cor, como sinal de pureza virginal – como disse mais tarde Agnes [Strickland] numa efusão sentimental, ela escolhera se vestir “não como rainha em trajes deslumbrantes, mas de branco imaculado, como uma virgem pura, para ao encontro do noivo. Vitória escolhera usar branco basicamente porque era a cor ideal para ressaltar a delicadeza do rendado – na época, não era uma cor convencional para as noivas. Antes de se dominarem as técnicas de alvejamento, o branco era uma cor rara e cara, mais símbolo de riqueza do que de pureza. Vitória não era a primeira a usá-lo, mas seu exemplo deu popularidade à cor. Tecelões rendeiros de toda a Inglaterra ficaram entusiasmados com o súbito aumento na procura de seus trabalhos (BAIRD, 2018, p. 150).

As classes mais ricas buscaram se inspirar no casamento real para planejar suas próprias núpcias, solidificando assim um modelo, que ditava desde a roupa dos noivos, até o estilo dos convites formais, a entrada processional, as flores e música. Assim, empresas especializadas da área foram surgindo, para alimentar essa nova tendência, vendendo acessórios de decoração. Como as mulheres da classe média tentavam criar uma impressão de posição social incorporando o estilo de vida das classe rica, então o vestido branco acabou ganhando a adesão até mesmo dos extratos mais baixos da sociedade, que viam nesse tipo de cerimônia uma oportunidade única de viver um momento de conto de fadas. Tradição essa que se mantem ativa até os dias de hoje.

Referências:

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

MUHLSTEIN, Anka. Vitória: retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SHEARMAN, Deirdre. Rainha Vitória. Tradução de Achille Picchi. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

SITWELL, Edith. Vitória, rainha da Inglaterra. Tradução de Solena Benevides Viana e Jaime de Barros. Rio de Janeiro: José Olympio, 1946.

STRACHEY, Lytton. Rainha Vitória. Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Record, 2001.

WRIGHT, Catherine. The Impact that Queen Victoria’s Royal Wedding Had on the World. Acesso em 23 de março de 2019.

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