“A pobre menina rica?” – Maria Antonieta e a Revolução Francesa

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Ao subir ao trono da França, em 1814, Luís XVIII, irmão de Luís XVI, começou a coletar memórias e depoimentos da antiga criadagem de Versalhes, sobre os principais acontecimentos da corte no período pré-revolução, especialmente daqueles que eram próximos aos soberanos. Deste período, surgem os relatos de Madame Campan, antiga dama do quarto de dormir de Maria Antonieta, e as memórias da duquesa de Tourzel, preceptora dos príncipes da França. A partir de então, começou-se a cultuar na Europa o mito da rainha mártir, injustiçada pelos revolucionários, incompreendida pelo povo e abandonada à sua própria sorte. Hoje em dia, essa imagem santificada da rainha convive lado a lado com outra, bem menos enaltecedora, de Maria Antonieta enquanto pessoa irresponsável, leviana e gastadeira; a mulher que, ao saber da fome do povo, escarneceu de sua miséria com a frase “que comam brioches”. Esse embate de posições, acredito, colabora para um grande desserviço à história de Antonieta, tornando-nos indulgentes aos seus caprichos, de um lado, e extremamente agressivos à sua postura, do outro. Mas qual dessas duas visões representaria a última rainha do absolutismo francês? É o que pretendo abordar de forma breve nesse texto.

Maria Antonieta, por Joseph Ducreux (1769)

“Entre os inúmeros traços que caracterizavam a extrema bondade de Maria Antonieta, deve destacar-se o seu respeito pela liberdade individual”, escreveu Madame Campan em suas Memórias (2008, p. 137). Segundo ela, que acompanhou a monarca durante sua estadia em Versalhes, Antonieta havia chegado à França “radiosa de frescura, surgiu mais do que bela aos olhos de todos” (2008, p. 29). Uma mulher de “extrema bondade”, “bela” e “radiosa”, é assim que a antiga dama da rainha a descreve, usando uma variedade de sinônimos para demonstrar como aquela “pobre alma inocente” foi injustiçada pelo povo. Campan dava assim início a uma espécie de culto à imagem de Maria Antonieta que até hoje não foi quebrado pela historiografia, que, em alguns casos, contribuiu ainda mais para endossar essa visão. A romantização da vida de Maria Antonieta ainda é uma fonte de lucros muito rentável para a indústria de entretenimento e para certos escritores que investem no drama da “pobre menina rica”. Mas até que ponto as atitudes de Antonieta contribuíram para o desgaste de sua imagem e do regime monárquico? Seu conhecido desprezo pelas regras do protocolo real deu margem para que inventassem toda sorte de boatos contra ela.

Com efeito, a indiferença com que a rainha recebia algumas críticas, longe de aquietar a imprensa da época, só fez render mais e mais páginas dos jornais de fofoca do Palais Royal. A própria Madame Campan, com toda a sua indulgência para com a rainha, foi forçada a admitir:

Quando Maria Antonieta era apenas a delfina da França, já então suportava com grande dificuldade as exigências da etiqueta da corte. Em parte, o abade de Vermond contribuíra para essa atitude da princesa. Logo que se tornou soberana, o abade esforçou-se abertamente para ajudar Maria Antonieta a livrar-se dos entraves cujas origens antigas a arquiduquesa ainda respeitava […] Desse modo, o senhor de Vermond mais não fazia do que acentuar o pendor da rainha para a informalidade; além disso, indicava muitas vezes a Maria Antonieta quais as cores com que poderia disfarçar perante si mesma o seu ódio pelos costumes orgulhosos, seguidos pelos descendentes de Luís XIV (CAMPAN, 2008, p. 331).

Para uma corte como a da França, extremamente hierarquizada, onde cada um tinha plena consciência do papel que deveria desempenhar, negligenciar os deveres que vinham acompanhados com uma posição privilegiada poderia ser um tiro no pé. Alguns autores, como Antonia Fraser, procuram justificar esse comportamento de Maria Antonieta como uma fuga para sua situação difícil em Versalhes: 7 anos de um casamento real sem filhos, uma mãe imperial lhe reprimindo a cada nova correspondência, a xenofobia da corte, um marido indiferente. A fuga parcial de Maria Antonieta do cerimonial de Versalhes chocou a maioria dos cortesãos.

Maria Antonieta demonstrava certo desprezo pela etiqueta da corte, como podemos observar nessa tela de Elizabeth Vigée Le Brun (1783)

Desde o princípio, a rainha demonstrou certo desinteresse pelo protocolo real, estabelecido por Luís XIV no século XVII, e que regia a vida dos governantes da França. Uma vez rainha, Luís XVI deu à esposa o estatuto de femme sole, de modo que ela poderia organizar sua casa e administrar seus rendimentos da forma como melhor lhe aprouvesse. Isso foi parte de um plano do rei e dos seus ministros para desviar a atenção de Antonieta das questões de Estado. 19 anos reinando em Versalhes passou a ela uma falsa sensação de que ela conhecia o povo da França e suas necessidades. No final, Luís se viu ao lado de uma mulher em muito despreparada para o auxiliar nos anos mais difíceis da vida de ambos. Durante os anos de 1789 e 1792, Maria Antonieta foi uma das líderes da contrarrevolução, enviando emissários secretos para negociar com as principais cortes da Europa a libertação da família real e a invasão da França por um exército de aliados que restaurassem o regime absolutista e sufocassem o movimento revolucionário. Segundo o historiador Munro Prince, é possível que Antonieta tenha tomado atitudes às costas do marido, chegando inclusive a falsificar a assinatura dele em alguns documentos, como o plein-pouvoir, enviado ao barão de Breuteuil.

Não obstante, hoje sabemos que Antonieta era culpada de pelo menos uma das acusações feitas contra ela em seu julgamento, entre os dias 14 e 15 de outubro de 1793: ela de fato passou informações sigilosas sobre o exército francês para seu irmão, o imperador. Na época, isso era de conhecimento comum, embora as provas só tenham aparecido anos depois, nos arquivos austríacos. Juridicamente, seu julgamento foi iníquo. Contudo, aquela cena tenha sido apenas uma farsa para justificar a aplicação de uma sentença de morte que já estava pré-estabelecida muito antes de os trabalhos no Tribunal Revolucionário começarem. Depois da morte de Luís XVI, em 21 de janeiro de 1793, a de sua esposa era apenas uma questão de tempo. Enquanto vivessem, os monarcas depostos seriam uma eterna fonte de preocupação para a república, não só por serem um símbolo do regime recém-derrubado, como também um foco da contrarrevolução. Nesse caso, a execução do reis seria um golpe final nas esperanças de restauração da monarquia. A morte de Maria Antonieta, particularmente, representou bem essas intenções, uma vez que ela era tida como a figura de proa de uma embarcação decadente, habitada por uma nobreza parasitária.

O vestuário extravagante de Maria Antonieta chocou as cortes da Europa e contribuiu para a sua queda.

Acredito que a maior culpa de Maria Antonieta tenha sido a negligência com a qual ela tratou algumas de suas obrigações de rainha consorte, o que prejudicou a imagem dela e de Luís XVI. Ambos herdaram em 1774 um Estado bastante enfraquecido pela política militar dos reinados predecessores, de modo que muito pouco podia ser feito para remediar a situação. Aliado a esse fator, péssimas colheitas, um inverno rigoroso, a participação da França na guerra de independência dos Estados Unidos, contribuíram para afundar um barco que já estava naufragando. Nesse contexto, a margem de ação política da rainha era bastante limitada, uma vez que não cabia a ela se intrometer em assuntos do governo. Só a partir de 1789 é que podemos detectar alguma influência dela nas decisões do marido. Antes disso, Antonieta vivia imersa em seu mundinho particular do Petit Trianon (Madame Campan diz que ela chegava a passar cerca de um mês inteiro lá), cercada de uma pequena corte de bajuladores, deixando parcialmente de lado suas funções. Essa atitude colaborou para um descrédito da rainha junto à população, que viu na soberana “austríaca” um bode expiatório perfeito para as misérias do país, tal como ocorrera com Catarina de Médici, 200 anos antes.

Certa vez a condessa de Boigne escreveu que: “ser a mulher mais à la mode de todas parecia [a Maria Antonieta] a coisa mais desejável que se poderia imaginar. Essa fraqueza, indigna de uma grande soberana, foi a única causa de todos os defeitos exagerados que o povo tão cruelmente lhe atribuiu”. O modo de vida extravagante de Antonieta, na década de 1770, corrompeu sua imagem de tal forma que, anos depois, ela não conseguiria reparar. O escândalo do caso do colar de diamantes prejudicou bastante sua reputação, pois combinava com a imagem de rainha gastadeira que ela, de certa forma, ajudou a construir e cristalizar no imaginário do povo, assim como a frase do brioche, que ela certamente não disse. Optando por se vestir com peças de roupa incomuns para uma rainha da França, ela logo foi associada às famosas amantes reais, como madame de Pompadour e Madame Du Barry. Não demorou muito para que os franceses começassem a fazer um joguete com seu principal apelido: l’Autrichienne (a austríaca), que também podia ser interpretado como l’Autre Chienne (a outra cadela). A indiferença com a qual era tratava a maioria dessas acusações, a quebra do protocolo real, o desprezo pela antiga nobreza e o repúdio pelas regras de etiqueta tiveram sérias consequências e contribuíram em muito para o vitupério de sua imagem e desgaste de um regime já condenado à iminente queda.

A execução de: Maria Antonieta ( autor desconhecido, século XIX).

Maria Antonieta ainda hoje sofre com o poder dessa propaganda negativa. A misoginia com a qual ela é tratada por muitos a torna, portanto, alguém supostamente digna de defesa. Por outro lado, não se pode fechar os olhos para as suas falhas. Ela foi, em muitos sentidos, um produto da corte, que tanto a ergueu ao posto de musa, quanto a derrubou de seu pedestal no momento mais oportuno. Maria Antonieta pode ter sido vítima de uma grande injustiça, mas não conheceu a fome, não viu seus filhos chorarem por não ter o que comer. Mesmo presa da Torre do Templo e na Conciergerie, recebia uma atenção diferenciada de outras mulheres; nasceu no berço mais dourado da Europa, tinha um vestido para cada dia do ano. Não se viu obrigada a se prostituir para colocar alimento dentro de casa. É certo que sofreu as dores do martírio, mas essas supostas injustiças feriram mais a sua dignidade de soberana. Se é para lamentar pelo destino da rainha da França, que se lamente também pelo de outras mulheres que sofreram castigos piores que o dela: Olympe de Gouges, Charlotte de Corday, Manon Roland, princesa de Lamballe, Madame du Barry, a mulher do peixeiro, a costureira, a doceira, as prostitutas, todas aquelas cujas vidas foram ceifadas pela Revolução.

Nesse sentido, estou mais inclinado a pensar como o Victor Hugo: “Eu lamento por Maria Antonieta, arquiduquesa e rainha, mas lamento também por aquela pobre mulher huguenote que, em 1685, no reinado de Luís, o Grande, caro senhor, enquanto amamentava seu filhinho, foi atada a um poste, nua até a cintura, e a criança foi mantida à distância; o seio se enchia de leite e o coração de angústia; o pequeno, esfomeado e pálido, vendo aquele seio, agonizava e gritava, e o algoz dizia à mulher, mãe e ama de leite: “Abjure!”, oferecendo-lhe como escolha a morte do filho ou a morte de sua consciência […] Vamos chorar por todos os inocentes, por todos os mártires, por todas as crianças, por quem está nas baixas camadas assim como nas altas? […] Eu chorarei com o senhor pelos filhos dos reis, contanto que o senhor chore comigo pelos filhos do povo!”.

Bibliografia:

CAMPAN, Madame. A Camareira de Maria Antonieta: Memórias. Tradução de Carlos Vieira da Silva. Lisboa: Aletheia, 2008.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2009.

PRICE, Munro. A queda da monarquia francesa. Rio de Janeiro: Record, 2007.

TOURZEL, Duquesa de. Memórias. Tradução de Carlos Vieira da Silva. Lisboa: Aletheia, 2014.

WEBER, Caroline. Rainha da moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. – Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

Anúncios

2 comentários sobre ““A pobre menina rica?” – Maria Antonieta e a Revolução Francesa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s