Medicina, Magia e Música: tipos de doença, misticismo e práticas curativas na Inglaterra Tudor – Parte I

Por: Hunter S. Jones

Quando pensamos na Inglaterra Tudor, várias imagens passam através de nossas mentes, Reis, muitas rainhas, cortesãos galhardos, espiões e intrigas cruéis entram na mistura. Então adicione uma pitada de moda renascentista e de turbulência religiosa e o resultado vai ser uma mistura inebriante, ou muitas vezes de cair a cabeça, de brutalidade e inspiração, tudo ao mesmo tempo. A Inglaterra Tudor foi o trampolim para o império a a semente para o mundo moderno.

Nós olhamos para a selvageria e para a obstinada busca pelo trono com o rei “tiro no escuro” Henrique VII. Seu filho sobrevivente, Henrique VIII, mudou para sempre a face da Europa ao fundar a Igreja da Inglaterra. Sua filha, Elizabeth, outro “tiro no escuro”, estabeleceu o padrão para o mundo de hoje através da indústria, exploração e educação.

Acreditava-se que personalidade era afetada pelos humores, que influenciavam especificamente cada parte do corpo.

Acreditava-se que personalidade era afetada pelos humores, que influenciavam especificamente cada parte do corpo.

As artes médicas eram bastante diferentes na era Tudor, do que são hoje. Devido às práticas religiosas da época, era algo inédito dissecar um corpo humano após a morte. Por causa dessa tradição, havia pouco conhecimento de como o corpo humano funcionava em tudo. Os médicos Tudor pensavam que o corpo era feito de quatro fluídos ou “humores”. Os humores seriam o sangue, catarro, cólera (bile amarela), e melancolia (bile negra). Numa pessoa saudável da era Tudor, todos os quatro humores deveriam estar balanceados. No entanto, se um deles estava em desequilíbrio, a doença se manifestava.

A personalidade era afetada pelos humores. Pessoas com muito sangue eram sanguíneas, ou ardente e esperançosa (o que equivale atualmente na América  a ter “sangue quente”). Aqueles com demasiado catarro eram considerados aborrecidos ou apáticos. Colérico, um resultado para aqueles que sofriam por ter muita biles amarela, sendo rabugentas e mal humorada. Melancólicos eram aqueles que estavam deprimidos e infelizes. Eles sofriam por possuir excesso de bile negra. Deveria haver um equilíbrio de humores: quente/frio, seco/úmido, porque um excesso ou déficit dos humores poderia causar uma doença. Lavagem com laxantes, vomitórios, e outras prescrições eram remédios comuns. Os médicos aconselhavam dietas, se necessário, desde que o alimento fosse considerado medicinal e preparado adequadamente.

Sangue era o humor da primavera, da paixão, do ar e da infância.

Bile amarela pertencia ao verão, à raiva, ao fogo e à juventude.

A bile negra estava ligada a uma personalidade fraca, ao outono, à terra e à vida adulta.

O catarro era associado ao inverno, à melancolia, à água e à velhice.

Os humores tinham várias características que se tornaram úteis para explicar muitos dos aspectos da vida diária. O pensamento dos humores estava ligado à astrologia, à fisionomia e até mesmo à música.

Para curar o excesso ou déficit de humores, os Tudor eram hábeis numa variedade de artes. Geralmente, as pessoas eram sangradas em cada solstício e equinócio, afim de mantê-las em alinhamento com os elementos (terra, ar, fogo e água) e as mudanças sazonais. Os médicos Tudor também pensavam nas doenças infecciosas, como a peste ou a “doença do suor”, causados por vapores venenosos presentes no ar, que era absorvidos pela pele. Um desequilíbrio dos humores deveriam ser tratados pelo ajuste na dieta do paciente – tomando medicamentos que purgassem o corpo dos humores vis. Estes são apenas alguns exemplos das crenças que os médicos Tudor possuíam com respeito à cura.

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Para curar o excesso ou déficit de humores, os Tudor eram hábeis numa variedade de artes.

A tradição mística e medieval na crença inglesa e galesa, especialmente a feminina, é bem conhecida através da literatura. Pensem nos contos de Avalon e na importância  das mulheres nessas histórias. Ela continua durante toda a Idade Média e o Renascimento inglês, inaugurado pela Dinastia Tudor. Havia um fino véu entre mágica e medicina durante o reinando dos monarcas Tudor. O que entendemos como mágica poderia parecer perfeitamente lógico e até mesmo científico para a época. Magia muitas vezes continha ideias que eram aceitas e praticadas em todos os níveis da sociedade. Cavaleiros usavam bálsamos, chamados “armas de unguentos”, para protegê-los e até mesmo cura-los, caso fossem aplicados antes da batalha. Assim como hoje, a crença na cura muitas vezes ajudava o paciente na recuperação. Eles chamavam isso de magia ou medicina; agora chamamos de ciência.

Do mesmo modo, a astrologia não era uma forma de entretenimento. Era uma teoria médica altamente respeitada e ensinada nas universidades. Poderia ser vista no movimentos das marés, os períodos de acasalamento animal, e o crescimento das plantas semeadas sob certos ciclos planetários. Nos tempos Tudor, astrologia era tida como uma ciência. Foi considerada a ciência mais exata, uma vez que revelava os planetas enquanto eles circulavam a Terra. Durante a era Tudor, acreditava-se que o Sol, a Lua e os planetas circundavam a Terra. Consistente com essa crença, considerava-se que o rei era o centro do seu universo. Quando Henrique VIII estava doente, seus médicos o tratavam com ervas; ele mesmo mantinha um armário de boticário nos seus aposentos. Cartas de astrologia, ou mapas estrelares, como eram então conhecidos, deveriam ser usados para decifrar o melhor tratamento médico para a perna do rei ou suas várias outras doenças. A mesma prática era utilizada com qualquer paciente que podia pagar.

Quando um paciente visitava um físico, começava-se por pedir a data de nascimento da pessoa. A partir daí, era lançado um horóscopo por meio de um mapa estrelar. Em seguida, um prenúncio seria feito para o momento exato em que a doença começou, de modo que o físico poderia fazer o horóscopo da enfermidade e compara-lo ao do paciente. Na prescrição de medicamentos, o curandeiro perguntava quais partes do corpo foram afetadas, porque cada área estava sob a influência de diferentes planetas. O paciente seria tratado de acordo ao planeta que governava o medicamento mais adequado para a doença. Além da medicina Tudor, a astrologia tinha uma posição importante na vida do período. Os físicos acreditavam que diferentes signos do zodíaco governavam cada parte do corpo. Segundo Dr. Elizabeth T. Hurren:

Físicos eram treinados em todos os refinamentos intelectuais. Eles estudavam astronomia, astrologia, geometria, matemática, música e filosofia. Eles forneciam uma abordagem holística, tratando as necessidades mentais, morais e físicas do paciente. Eles acreditavam que a raiz da causa de uma doença ou cancro estaria na mente, nos órgãos ou no espírito humano. Destino, fortuna e boa vontade poderiam curar quando um físico (médico) falhasse. Os Tudor acreditavam firmemente num plano divino em face da providência. Que a vida foi “dada por Deus” e que também poderia ser “tomada por Deus”. Desde o nascimento, o saber astrológico de Henrique foi minunciosamente examinado. Nascido sob o signo de câncer (28 de junho de 1491), ele foi regido pelos ciclos aquosos e maternos da lua (Hurren, n.d.).

Ervas eram a cura mais conhecida para qualquer doença física e têm sido usadas como remédios desde os tempos antigos. Aqueles que cultivavam plantas para a medicina deveriam plantar sementes na lua nova e colher na lua cheia, para obter grandes benefícios a partir delas. Isso era parte da educação de qualquer médico. As jovens Tudor aprendiam a misturar poções, ou “simples”, como eram chamadas. Essas mulheres tinham grande experiência nas propriedades curativas de diferentes ervas. Como era regra geral, as mulheres sábias eram ensinadas nas tradições passadas de suas mães e avós. Ervas e o cando de cura das mulheres sábias eram a rota médica mais rentável para a maiorias das famílias Tudor. Uma cura Tudor para dor de cabeça consistia em beber uma poção de lavanda, sálvia, rosas e arruda. Outra cura era pressionar uma corda de forca na cabeça. Os médicos daquela época, como os de hoje, eram considerados os estudiosos mais eruditos. ainda que as famílias de classe média não pudessem se dar a esse luxo, daí a necessidade das mulheres sábias na comunidade.

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Ervas eram a cura mais conhecida para qualquer doença física e têm sido usadas como remédios desde os tempos antigos.

Para curar uma dor de dente, uma mulher sábia deveria escrever “Jesus Cristo, por amor e misericórdia, tira essa dor de dente” três vezes antes de dizer as palavras em voz alta e, em seguida, queimar o papel. Outra cura para febre consistia no curandeiro escrever as palavras “Arataly, Rataly, Ataly, Taly, aly, Ly”, e enrolar o papel no braço do paciente por nove dias. A cada dia, o paciente deveria rezar três Pai Nossos para São Pedro e São Paulo. Ao final do nono dia, o papel poderia ser removido e queimado (Thomas, 1991).

Equilibrar a melancolia era outra questão importante na era Tudor. Pensava-se que a música era a melhor maneira de manter os humores em estado harmonioso. Três rainhas durante o período Tudor tinham um grande amor pela música. Isso levou à queda de duas dessas soberanas, e possivelmente permitiu que a terceira mantivesse seu status e cabeça no lugar, literal e figurativamente. Ana Bolena é a primeira rainha notável a usar a música, embora com efeitos não muito positivos.

Leia a segunda parte, clicando aqui!

Artigo do site History Net, traduzido e revisado por Renato Drummond Tapioca Neto

Bibliografia:

Buchanan, George. Rerum Scoticarum Historia. Edinburgh, 1582.

Calendar of State Papers, Scotland: Volume 1, 1547-63, editor Joseph Bain. Originally published by Her Majesty’s Stationery Office, London, 1898.

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Fraser, Antonia. Mary, Queen of Scots. London: Weidenfeld & Nicolson, 1969.

Hawkins, Sir John. A General History of the Science and Practice of Music, Volume 2. J. Alfred Novello, 1853.

Hurren, Dr Elizabeth T. King Henry VIII’s Medical World, Senior Lecturer History of Medicine at Oxford Brookes University.

Ives, Eric. The Life and Death of Anne Boleyn. Blackwell Press, 2005.

Oxford University, Bodleian Library and Radcliffe Camera. http://www.bodleian.ox.ac.uk/bodley Special thanks to this site for allowing glimpses into the astrological charts compiled by the Elizabethan astrologers/physicians, John Dee and Simon Forman.

Page, Christopher. The Guitar in Tudor England: A Social and Musical History. Cambridge University Press, 2015.

Starkey, David. Elizabeth: The Struggle for the Throne. Harper Perennial, 2007.

Sting. Songs from the Labyrinth. Great Performances. February 26, 2007, PBS.

Thomas, Keith. Religion and the Decline of Magic: Studies in Popular Beliefs in Sixteenth and Seventeenth-Century England. Penguin Books, 1991.

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