A sinhazinha emancipada do século XIX: Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930)

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

“Como acreditar que a natureza houvesse traçado as linhas tão puras e límpidas daquele perfil para quebrar-lhe a harmonia com o riso de uma pungente ironia?”. Seus olhos eram “grandes e rasgados, Deus não os aveludara com a mais inefável ternura, se os destinasse para vibrar chispas de escárnio”. Assim o romancista José de Alencar descreveu Aurélia Camargo, protagonista do romance Senhora (1875). A obra, bastante conhecida pelo público brasileiro, apresenta o drama de uma nova rica que entra no mercado matrimonial para contratar casamento com o homem que a desprezara quando era moça pobre. Desencantada com a sociedade que tanto a bajulava por causa da sua herança, Aurélia não cansava de ironizar a moral corrente na época e os costumes de uma elite que procurava imitar os europeus: “para que a perfeição estatutária do talhe de sílfide, se em vez de arfar ao suave influxo do amor, ele devia ser agitado pelos assomos do desprezo?”, escreveu o romancista. Há quem diga que o drama vivido por Aurélia Camargo e Fernando Seixas em Senhora só foi possível por se tratar de uma obra de ficção. Na vida real, porém, uma situação parecida ocorreu entre Joaquim Nabuco, o famoso abolicionista e antagonista de José de Alencar, e uma bela e jovem herdeira da região do Vale do Paraíba, Eufrásia Teixeira Leite.

Eufrásia Teixeira Leite, aos 37 anos. Óleo de Lawlis Duray, 1887, França – Museu Casa da Hera.

Eufrásia Teixeira Leite, aos 37 anos. Óleo de Lawlis Duray, 1887, França – Museu Casa da Hera.

Eufrásia viveu de forma extraordinária para os padrões de seu tempo, tomando nas mãos as rédeas de seu próprio destino. Nascida em Vassouras no ano de 1850, era a filha mais nova de Joaquim José Teixeira Leite (1812-1872), que fez fortuna em cima de juros de empréstimos a fazendeiros, como também pelo transporte e exportação de grãos. A região do Vale do Paraíba fluminense era uma das maiores produtoras de café da época, agregando a nata dos cafeicultores do Brasil imperial. A família de Eufrásia era uma das mais ricas de Vassouras, proprietária de uma empresa exportadora de café no Rio de Janeiro, conhecida como “Teixeira Leite e Sobrinhos”. Porém, em vez de investir seus recursos em fazendas e escravos, como fizeram seus avós, tios e primos, o pai de Eufrásia decidiu tomar outro rumo nos negócios. Quase um capitalista do mundo agrário oitocentista, ele possuía uma espécie de banco, chamado “Casa de Descontos”, onde emprestava dinheiro a juros. Seguindo a tradição colonial ainda vigente entre as elites do Brasil, Joaquim Teixeira Leite se casou no seio da própria aristocracia, com Ana Esméria (1827-1871), filha de um dos maiores cafeicultores da região, Laureano Corrêa e Castro, Barão de Campo Belo (1790-1861), proprietário de uma das fazendas mais bonitas de Vassouras, a Fazenda do Secretário.

A família vivia numa residência coberta de hera, batizada em função desse detalhe. A propriedade original possuía cerca de 240 mil m², plantados com muitas árvores frutíferas, palmeiras, caramanchões e bambus. Quando criança, Eufrásia e sua irmã cinco anos mais velha, Francisca Bernardina, tiveram uma educação convencional e dentro dos padrões esperados para uma garota e futura senhora da elite: aprendeu boas maneiras, a tocar piano e a falar francês numa escola para moças da francesa Madame Grivet. “É certo que Eufrásia conviveu desde a infância com a cultura, pois além da rica biblioteca que havia em sua casa, frequentou vários salões da cidade nos anos dourados do café na região”, dizem suas biógrafas Miridan Falci e Hildete Pereira (2012, p. 47). Pessoa ilustrada, conforme demonstra seu título de bacharel, Joaquim José Teixeira Leite, contrariando o hábito da época, possivelmente ensinou a suas filhas a matemática financeira, conhecimento esse que se mostraria essencial nos anos vindouros delas. Em 1871, Ana Esméria, mãe de Francisca e Eufrásia, morreu. Um ano depois, foi a vez de Joaquim, deixando duas filhas sozinhas e herdeiras de uma fortuna que faria a personagem Fernando Seixas ficar mais que tentado.

Para duas moças ricas e solteiras, era esperado que se casassem, passando a administração de seus bens para os respectivos maridos. Fugindo à pressão dos parentes para que contraíssem matrimônio com primos e mantivessem sua riqueza dentro da família, Eufrásia e Francisca resolveram deixar o Brasil. Em agosto de 1873, elas subiram a bordo do navio Chimborazo e partiram para Paris. Como sua herança era majoritariamente formada de títulos, ações e créditos, não havia então grandes propriedades para serem administradas por terceiros, além da Casa da Hera. Quando a economia do café sofreu um forte declínio no Vale do Paraíba, na década de 1880, Eufrásia e sua irmã foram muito pouco prejudicadas. “A fortuna deixada pelo pai equivalia a 5% do valor arrecadado pelo governo brasileiro com o imposto de exportação no ano de 1872 (QUEIROZ, 2013, p. 38). Graças aos conhecimentos passados por seu pai, elas conseguiram fazer seu dinheiro render: “a guinada para o mundo financeiro iniciada por Joaquim e continuada por Eufrásia, revela a permanência de sua riqueza, enquanto os barões empobreciam com a degradação do solo fluminense”, explica Eneida Queiroz (2013, p. 38). Naquele mês de agosto de 1873, porém, outro ilustre personagem também embarcava no Chimborazo, Joaquim Nabuco.

Joaquim Nabuco

Joaquim Nabuco

Possivelmente, foi enquanto faziam a travessia do Atlântico que Eufrásia e Nabuco tomaram uma importante decisão. Ao desembarcarem, estavam noivos. Sem pai vivo ou tutor que negociasse por ela, Eufrásia ofereceu sua própria mão em casamento, para desgosto da família, uma vez que Joaquim era filho do senador Nabuco de Araújo, membro do Partido Liberal, enquanto os parentes da moça eram adeptos do Partido Conservador. Não obstante, Joaquim era um notório abolicionista e os primos de Eufrásia eram dependentes do escravismo. O fator econômico também pesou desfavoravelmente, uma vez que as irmãs Teixeira Leite eram muito mais ricas que o jovem. Francisca Bernardina suspeitava que Nabuco estaria na verdade a procura de um bom dote e um noiva com importantes conexões, para alavancar sua carreira, a exemplo da personagem Fernando em Senhora. A pressão em cima dos noivos era muito grande. Ao longo de 14 anos, aquele noivado foi desfeito e reatado várias vezes. Diz-se que o primeiro rompimento se deu por conta de um mexerico de que Joaquim Nabuco teria se engraçado com outra mulher, enciumando Eufrásia. Pouco tempo depois, em Veneza, eles reassumiram o compromisso, embora aquela união estivesse fadada ao fracasso, não por causa das famílias envolvidas, e sim pelas posições assumidas pelos noivos.

Joaquim Nabuco queria voltar para o Brasil, enquanto Eufrásia estava decidia a permanecer na Europa. Entre os anos de 1885 e 1886, quando ele tentou eleger-se deputado, ela voltou ao país para prestar apoio à campanha dele, que atacava o “escravismo fluminense”. Os Teixeira Leite acharam isso um disparate, uma vez que “o dote de Eufrásia, dinheiro conseguido em muitas décadas de uso e defesa da escravidão, seria usado para financiar a campanha abolicionista de Nabuco” (QUEIROZ, 2013, p. 39). A riqueza da noiva logo se transformou em outro empecilho. Tomando uma atitude semelhante à da personagem Aurélia, Eufrásia teria oferecido dinheiro a Nabuco para saldar suas dívidas. “Uma mulher que se recusava a casar, mas oferecia dinheiro ao amante era muita humilhação para o orgulho masculino” (QUEIROZ, 2013, p. 39). Ultrajado pela oferta, Nabuco finalmente tomou a decisão de romper de vez com o noivado. Segundo Miridan Falci e Hildete Pereira

Nabuco não se prestou ao papel que a namorada cogitou lhe dar, à maneira, não de Capitu, mas de Aurélia. Em meio às adversidades da campanha abolicionista, que estraçalharam seus nervos e bolsos, Nabuco ouviu da boca de Eufrásia sair a voz da Senhora, que quis petrificar o noivo. Em seu orgulho de aristocrata, como de aspirante a patriarca, Nabuco abandonou a tábua da salvação do coração e do bolso. Na vida vivida, não colou a máxima do “amor acima de tudo”, típica da vida sonhada. Ao contrário de Fernando Seixas, o personagem de José de Alencar, Nabuco não se ajustou à superioridade econômica da noiva. Dinheiro e política atravessaram o romance, que nunca achou seu desfecho folhetinesco, o casamento (FALCI; MELO, 2012, p. 17).

Biblioteca da Casa da Hera

Biblioteca da Casa da Hera

Diferentemente do que aconteceu com Aurélia e Fernando na ficção, o caso vivido por Eufrásia e Nabuco nos serve para exemplificar o tipo de crítica feita por José de Alencar no romance Senhora: o dinheiro como corruptor da felicidade conjugal. Quando Francisca Teixeira Leite morreu sem filhos, em 1899, Eufrásia tomou posse de todos os bens da irmã. Após o rompimento com Joaquim, ela decidiu não contratar novo casamento e administrar suas posses sozinha. “O usufruto da riqueza garantiu-lhe a emancipação econômica e social e, sobretudo, a fuga do destino feminino” (FALCI; MELO, 2012, p. 19). As trajetórias de Aurélia e Eufrásia demonstram como a riqueza poderia alterar o tratamento que a sociedade concedia a algumas mulheres:

Emancipada porque mulher livre, operadora da sociabilidade aristocrática e da máquina capitalista, mas sinhazinha, porque presa pelas raízes ao mundo social original do qual nunca pode se libertar”. Por outro lado, “não foi tradicional ao ponto de delegar a gestão a um marido, mas tampouco foi moderna o bastante para criar empresa impessoal, de modo próprio, transmissível – antes centralizou o controle de milhões e milhões, que aplicava pessoalmente (FALCI; MELO, 2012, p. 13).

O noivado acabou oficialmente em 1887. Dois anos depois, aos 38 anos, Nabuco se casou com Evelina Torres Soares Ribeiro. Ele se tornaria um dos maiores nomes da luta abolicionista no Brasil e figura importante na política nacional. Ela, uma das maiores empreendedoras nas sociedades parisiense e carioca.

No Brasil, Eufrásia Teixeira Leite “investiu em setores de ponta do desenvolvimento econômico da época, como as estradas de ferro; exploração de jazidas de ouro, diamantes, carvão, ferro e petróleo; manufaturas agroindustriais; portos, energia elétrica, transportes urbanos”, além de possuir ações de bancos e títulos na dívida pública de cidades e estados (QUEIROZ, 2013, p. 39). Até a morte de Nabuco, em 1910, ele e Eufrásia ainda manteriam um bom relacionamento de amizade. O conforto e a riqueza marcaram os últimos anos de sua vida, no palacete de cinco andares na Rua Bassano, em Paris. Era conhecida pelos vizinhos como “a dama dos diamantes negros”. Dois anos antes de falecer, em 1928, Eufrásia retornou ao Brasil, residindo entre a Casa da Hera e a chácara do Dr. Calvet, adquirida por ela em 1924. Ao morrer, em 1930, deixou todos os seus bens para os pobres e associações de caridade em Vassouras. Esse dinheiro foi utilizado para criação de hospitais, escolas e outras instituições. Um busto seu aparece na entrada do Hospital Eufrásia Teixeira Leite, batizado em homenagem à sinhazinha emancipada que legou seu imenso patrimônio para a cidade em que nasceu. Abaixo do busto, os seguintes dizeres: “Grande benemérita da Santa Casa de Misericórdia de Vassouras, a eterna gratidão do povo de Vassouras”.

Busto de Eufrásia Teixeira Leite, nos jardins do hospital que leva o seu nome.

Busto de Eufrásia Teixeira Leite, nos jardins do hospital que leva o seu nome.

Referências Biliográficas:

FALCI, Miridran Britto; MELO, Hildete Pereira de. A sinhazinha emancipada: a paixão e os negócios na vida de uma ousada mulher no século XIX: Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930) – Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2012.

QUEIROZ, Eneida. Senhora do seu destino. – Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, p. 36-39, fevereiro de 2013.

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7 comentários sobre “A sinhazinha emancipada do século XIX: Eufrásia Teixeira Leite (1850-1930)

  1. Gostei. Geralmente quando escrevem sobre Eufrasinha se limitam a uma coleção de lendas. Não é o seu caso. Seu trabalho foi bem pesquisado e documentado.
    Acho que já lhe disse em outro lugar que Eufrásia era prima de meu avô materno e é personagem do meu romance histórico Barões e Escravos do Café – a vida privada no vale do Paraíba.

    Curtido por 2 pessoas

    • Muito obrigado, Sonia. Escrevo sobre Eufrásia na minha dissertação de mestrado sobre memória e construção dos lugares sociais em “Senhora”, de José de Alencar. Sou apaixonado pela história dela e acredito que tenha sido uma possível inspiração para a criação da personagem Aurélia Camargo.

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