Novo retrato, concerto musical e exposição: o “renascimento” de Dona Leopoldina na cultura brasileira

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Mais um retrato identificado, uma nova exposição, concerto musical, novela e mais livros a caminho. Sim, Dona Leopoldina de Habsburgo-Lorena, esposa de D. Pedro I, parece novamente estar ganhando a atenção dos espaços culturais do país. A causa disso se deve ao aniversário de 200 anos do acordo nupcial entre a jovem arquiduquesa austríaca e o herdeiro do trono português. Essa união, porém, representava mais do que as cores da bandeira nacional nos induzem a acreditar: verde dos Bragança e amarelo dos Habsburgo. Com a vinda de Dona Leopoldina, as portas do Brasil estavam finalmente abertas para vários cientistas, paisagistas e artistas, que vieram para cá com a missão de produzir uma vasta quantidade de material sobre um país que até então permanecia quase desconhecido para a Europa. Entre nomes como Debret, Taunay, Spix e Martius, Thomas Ender, entre outros, aparece a figura praticamente obscura da princesa real, que saiu de Viena com um destino que nem mesmo ela poderia imaginar: ajudar a fundar uma nação independente.

O recente interesse na pessoa da imperatriz, crescente desde que o conteúdo inédito de suas cartas foi publicado em 2006 pela editora Estação Liberdade, tem contribuído significativamente para o “renascimento” de Dona Leopoldina nos espaços culturais do Brasil. Ela, que já foi homenageada com a criação de uma Escola de Samba, Ferrovia, Cidades e Escolas, agora recebe mais uma exposição, organizada pelo Museu de Arte do Rio (MAR), que reúne cerca de 350 peças ligadas à soberana, “entre obras de arte, iconografia, documentos, vestuário e mobiliário, além de itens de botânica, zoologia e mineralogia”. Intitulada “Leopoldina: princesa da independência, das artes e da ciências”, com curadoria de Luis Carlos Antonelli, Paulo Herkenhoff e Solange Godoy, e curadoria adjunta por Pieter Tjabbes, a mostra apresenta ao público a vida da monarca, desde sua chegada ao Brasil, destacando sua participação na política, maternidade, até a morte prematura, em 1826, ao 29 anos. A abertura se deu no dia de hoje, às 11 horas, com uma apresentação de música de Rosana Lanzelotte e Anton Carballo. Para maiores informações, acesse o site do MAR, clicando aqui!

Imperatriz Leopoldina, por Walmor Corrêa (2016). A tela faz parte da exposição "Leopoldina: princesa da independência, das artes e das ciências", organizada pleo MAR.

Imperatriz Leopoldina, por Walmor Corrêa (2016). A tela faz parte da exposição “Leopoldina: princesa da independência, das artes e das ciências”, organizada pleo MAR.

Além da exposição, há também um concerto de música, organizado pela pesquisadora e cravista Rosana Lanzelotte, com participação da atriz Carol Castro, intitulado “Cartas Leopoldinas”, espetáculo do Circuito Musica Brasilis. O concerto marca o aniversário dos 200 anos do noivado de Pedro e Leopoldina. Segundo Rosana: “O noivado deles foi sacramentado em 1816, mesmo ano da chegada da Missão Francesa ao Brasil. Os dois acontecimentos, parte de uma estratégia para inserir o país no “mundo civilizado”, foram emblemáticos para nossa história cultural. A Leopoldina, que tocava piano, trouxe seu rico acervo de partituras, hoje sob guarda da Biblioteca Nacional”. Na apresentação, Lanzelotte toca pianoforte, acompanhada por seu sobrinho Alberto no violoncelo e Ricardo Kanji na flauta, enquanto Carol Castro, que interpreta Leopoldina, lê as cartas que a soberana enviava ao seu marido. “Uma de suas maiores queixas dela era de que as mulheres não podiam ir ao teatro no Rio, que eram apenas liberadas para frequentar a igreja. Ela era uma mulher preparada e culta, que estudava música e mineralogia, por exemplo. É possível que sua curiosidade e seu conhecimento tenham inspirado Dom Pedro a compor mais. Queremos destacar essa faceta dela no espetáculo”, ressalta Rosana.

A cravista e pesquisadora musical Rosana Lanzelotte e a atriz Carol Castro, com o figurino o espetáculo “Cartas Leopoldinas”.

A cravista e pesquisadora musical Rosana Lanzelotte e a atriz Carol Castro, com o figurino o espetáculo “Cartas Leopoldinas”.

Contudo, um dos detalhes mais interessantes sobre Leopoldina foi revelado recentemente pela equipe da mostra comemorativa dos 200 anos da chegada da  Missão Artística Francesa ao Brasil, organizada pela Pinakotheke Cultural do Rio de Janeiro: consiste na exposição de um possível retrato da imperatriz, pintado por um dos membros da missão artística, Nicolas-Antoine Taunay, que esteve no país de 1816 a 1821 e foi um grande paisagista. O retrato apresenta a modelo vestida como uma ninfa, tendo a natureza ao fundo. A tela, porém, destoa de outros retratos conhecidos de Leopoldina e a apresenta como uma mulher jovem e bonita, bem diferente de algumas produções, que endossam a imagem da princesa gorda e desajeitada, eternamente triste pelo marido infiel. Considerando o fato de que a maioria dos retratos conhecidos da imperatriz são póstumos e foram pintados com base na tela de Jean Françoise Badoureau, então talvez a obra de Taunay seja um dos poucos retratos contemporâneos de Leopoldina. A modelo apresenta muitas das características da imperatriz, ressaltas também em outros quadros, como o queixo com a covinha e o lábio inferior saliente, traços genéticos dos Habsburgo, além dos grandes olhos azuis e do rosto cheinho. A referida obra, que até então fazia parte de uma coleção particular, estará em exposição a partir do mês de setembro.

Possível retrato de Dona Leopoldina, pintado por Nicolas-Antoine Taunay.

Possível retrato de Dona Leopoldina, pintado por Nicolas-Antoine Taunay.

Em 2017, completam-se 200 anos desde que Dona Leopoldina chegou ao Brasil. Muitos outros eventos e publicações deverão ser esperados até lá. O pesquisador em história do primeiro reinando, Paulo Rezzutti, autor dos livros “Titília e o Demonão” (2011), “Domitila” (2013) e D. Pedro I: a história não contada” (2015), por exemplo, está preparando uma nova biografia sobre a esposa do primeiro imperador do Brasil. A Rede Globo também divulgou uma nota de que ela será personagem da novela “Novo Mundo”, de Vinícius Coimbra. Todavia, considerando o histórico de representações estereotipadas das produções da Globo, vide “O Quinto dos Infernos”, a perspectiva de vermos uma Leopoldina contraditória atípica é grande. Esperemos que o autor da novela construa a personagem de forma a respeitar a mulher culta e inteligente que foi, em vez da imagem da gordinha traída e princesa triste que livros como “1822”, do jornalista Laurentino Gomes, insistem em passar. Maria Leopoldina de Habsburgo-Lorena foi uma das personagens mais importantes do Brasil. Os brasileiros merecem conhecê-la como a pessoa que foi, não a que certas produções querem nos fazer acreditar.

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